quarta-feira, março 29, 2006

KATRAPONGA

"Joana, um regresso é sempre certo para quem tem esse amor todo guardado... "

É incrível como há pessoas com o dom da palavra! Na sua verdadeira acepção. Qualquer coisa que digam/escrevam, por mais singela que seja/pareça, transborda de uma ternura, uma partilha, uma empatia, um humanismo... que encurta distâncias, nos estende a mão e enche logo o coração do ânimo de que precisavamos. Obrigada por teres feito do longe perto.
Só mesmo tu!!!

Dança da Solidão (Paulinho da Viola)


Solidão é lava que cobre tudo

Amargura em minha boca

Sorri seus dentes de chumbo

Solidão, palavra cavada no coração

Resignado e mudo no compasso da desilusão


Desilusão, desilusão,

Danço eu, dança voce na dança da solidão (bis)


Camélia ficou viúva

Joana se apaixonou

Maria tentou a morte por causa de seu amor

Meu pai sempre me dizia :

Meu filho tome cuidado,

Quando eu penso no futuro não esqueço meu passado


Desilusão, desilusão,

Danço eu, dança voce na dança da solidão (bis)


Quando chega a madrugada,

Meu pensamento vagueia

Corro os dedos na viola

Contemplando a lua cheia

Apesar de tudo existe uma fonte de água pura

Quem beber daquela água não terá mais amargura


Desilusão, desilusão,

Danço eu, dança voce na dança da solidão (bis)

A imagem da polémica... uma imagem necessariamente parada (...) mas de costas(?!) Bravo!!! ... numa imagem lateralizada, observa-se claramente a bola no ar - porque o Baía a atirou para cima -, e a cara do Ricardo não na mesma altura que a bola mas... a um metro dela!!!! Temos infelizmente os media na proporção do país pequeno que somos. Ou não será assim???

Ass: portista DANADA e triste, PROFUNDAMENTE TRISTE, e ENVERGONHADA. Só vi hoje, aqui em Houston não tenho acesso muito facilitado ao "Portugal Real". Para o bem e para o mal.

O prometido é devido!

Acabei de apanhar a molha da minha vida, conscientemente, voluntariamente, ... e ADOREI!!!

terça-feira, março 28, 2006

"No teu poema...

Photo: Future_Elizabethtown

Existe tudo o mais que ainda me escapa
E um verso em branco à espera do futuro."

segunda-feira, março 27, 2006

27 de Março - Dia Mundial do Teatro

Ir aos Pirinéus tem sempre muitas vantagens. Cinquenta minutos depois...Voltei. E trouxe comigo o enleio, o enlevo, o encanto, a magia... que é e tem o TEATRO.


"O ator é o instrumento e o criador ao mesmo tempo. Você não se vê em terceira dimensão. Um pintor sabe quando uma pincelada deve ser apagada, refeita; o músico ouve o que faz. Mas o ator vai em si mesmo armando uma escultura, por dentro, com as condições humanas. Eu digo que a profissão do ator é a da constante humilhação e da constante exaltação. Isso não é fácil. Ziembinski já dizia que o inimigo do bom é o ótimo. Fazer diariamente cansa mas também você se vicia com sua adrenalina. Se você não tem isso, não está no perigo do abismo, não está vivendo. Então é muito confusa a cabeça de um ator. "

Fernanda Montenegro


Monólogo Feminino de “A Gaivota” de Anton Tchekhov

Nina:
Tu me disseste que beijarias o chão em que eu piso, quando deverias é me matar.(olha para o chão) Eu estou tão cansada!.... Como seria bom descansar...Sim, descansar ! (erguendo os olhos) Sou uma gaivota...Não! Não, eu sou uma atriz .Sim. (ouve risos de Arkádina e Trigorin na sala ao lado) Trigorin também está aqui... (volta-se para Trepliov) Pois é...Ele não acreditava no teatro, divertia-se com os meus sonhos e isso foi, gradativamente, tirando a minha crença e a minha coragem...Depois, vieram as angústias do amor, o ciúmes, as aflições pelo bebê...Com o tempo, tornei-me pouco generosa, fraca e representava sem convicção. Não sabia o que fazer em cena com as mãos, nem conseguia dominar a minha voz. Tu não vais entender o que é isso, mas é horrível ter-se a consciência de que se está atuando muito mal...Eu sou uma gaivota! Não...não! Sei que ainda lembras o dia em que mataste aquela gaivota. É ... isso pode ser tema para um pequeno conto...Mas não era disso que eu...(passa a mão pelo rosto) De que eu estava falando? Ah, sim! Falava do teatro. Acredita, Trepliov, agora sou uma outra pessoa. Sou uma atriz de verdade agora e trabalho com gosto e paixão. No palco, uma doce energia se apodera de mim e faz eu me sentir bela. (sorri) Desde que cheguei aqui, passo o tempo caminhando, pensando , pensando muito, e sinto dia a dia um ânimo crescente que me domina ...Cada vez mais eu compreendo que, em nosso trabalho, seja atuando no palco ou escrevendo uma peça, a glória ou a realização dos sonhos não mais importam. O importante é, sim, saber sofrer, carregando uma cruz e ainda assim ter-se fé. Confio nisso, Trepliov, e já não sinto mais tanta dor. Meditando sobre a minha profissão, aprendi a não temer a vida.

Vou ali e já venho...é um instantinho!

“Adeus Houston. Fui para os Pirinéus.”

sábado, março 25, 2006

A minha tia

A minha tia tem sessenta e seis anos, uma vida religiosa cheia de experiências várias, trabalho árduo e profunda dedicação ao bem.
A minha tia sempre foi líder: inteligente, segura, frontal, determinada, influente, dura, astuciosa, adaptável, controladora, clarividente, moderna, imprevisível, audaz.
A minha tia ganhou com isso muitas inimizades. Por todos os sítios onde passou. Mesmo no seio da congregação. Mesmo entre irmãs em religião. Infelizmente.
A minha tia tem uma doença muito grave. Esquece-se. De tudo. Para ela é sempre Agora. E no Agora que é sempre nunca há nada. Só há o Vácuo. O Vazio. E o desejo constante de saber, de estar a par.
Lembra-se perfeitamente da sua infância, mas esquece-se daquilo que lhe acabo de contar. Recorda com exactidão o meu percurso académico, mas não sabe onde deixou as chaves. Falo-lhe da minha estadia nos EUA. Pela enésima vez. E pergunta-me com a mesma frescura da primeira: “Está bem querida, mas e a investigação como vai?”
A minha tia tem Alzheimer.
A minha tia está a morrer cada momento que passa. A uma rapidez verdadeiramente assustadora. E a cada momento que passa parte de nós morre com ela.
A minha tia está a morrer a cada momento que passa e a instituição à qual dedicou toda a vida prefere encerrar-se num autismo muito conveniente e fechar os olhos a todo este processo. Ignoram-na. Olham em frente. Acobardam-se. Olham para o lado. Fogem-lhe. Voltam-lhe as costas. Apagam da consciência o facto (a realidade) de ela estar doente e, sob a justificação de um “cansaço” – maleita comum e frequente nos dias que correm –, olvidam o direito que qualquer ser humano doente tem a uma consulta médica da especialidade, a uma assistência profissional adequada, a exames, a uma segunda, terceira, quarta opinião. E, passando o esférico à família, transformam esse direito num dever familiar, negligentemente – reputam elas –, incumprido.
Quando foi precisamente a família que, apesar de só ter um contacto próximo, verdadeiramente familiar, com ela quinze dias por ano, detectou a etiologia e a levou ao médico. Já muito tarde. Infelizmente. Quando foi a família que teve de as alertar explicita e duramente para a impossibilidade de ela continuar a trabalhar.
Negligenciaram-na. Se calhar, desde sempre. E negligenciam-na ainda. Agora. Ostracizam-na. Votam-na ao esquecimento. Como se já não fosse o esquecimento o limbo em que ela se encontra perdida, encerrada para sempre, manietada ao limite.
E esquecem-se – mas não como ela –, esquecem-se propositadamente, por opção e conveniência, de que o património, que ostentam cá e estabeleceram facilmente noutros continentes, muito suor e lágrimas tem da minha tia. Esquecem-se da oposição férrea do meu avô e das lágrimas da minha avó quando ela partiu para o convento, há cinquenta anos atrás. Esquecem-se das verdadeiras revoluções operadas em todas as casas que ela dirigiu: das consecutivas melhorias infraestruturais, humanas e até emocionais que ela implementou e soube manter; das incríveis subidas percentuais do número de internas que passou a apostar na formação e até no ensino superior; da restituição do bom nome da instituição (e até da ordem) que ela promoveu. Esquecem-se de que só a vemos quinze dias por ano, por alturas das Festas – mas nunca no Natal, porque “O Natal tem que ser passado com a Comunidade.” Esquecem-se, não sabem, ou não querem saber, de que quando ela chega, a 27 de Dezembro todos os anos, o verdadeiro Natal começa. A alegria, a festa, a emoção… os melhores presentes também. É verdade. Esquecem-se de que é a nossa única tia do lado da mãe e sempre tivemos e temos todos uma verdadeira adoração por ela. Esquecem-se de que sabemos de tudo, mas principalmente de duas coisas: 1) a adoração é mútua e 2) somos os sobrinhos favoritos. (Ela também é a tia favorita!...)
E eu tenho uma gavetinha especial na cómoda dos favoritos. Sei. Todos me lembram das noites em que, ainda bebé, dormi com ela para dar descanso aos meus pais. Elas também sabem, mas esquecem. Todos me lembram da choradeira provocada pela minha constatação da sua ausência da cama quando, de madrugada, se levantava para as orações matinais e me deixava a “dormir”. Elas também sabem, ouviram, mas esquecem. Todos me lembram dos passeios com os avós e a tia pelos jardins do colégio. Há fotos. Elas sabem, tiraram, viram, mas esquecem. E mais recentemente… quantas épocas de exames passei com ela! E, de duas em duas horas, lá vinha ver como eu estava e dar-me leite quente e chocolates. “Para teres energia para continuar…” E à noite ligava o aquecimento logo que sabia que me preparava para dormir. “Para dormires bem… quentinha…” E quando falava com as pessoas sobre mim, ou me apresentava a essas mesmas pessoas, os seus olhos brilhavam, crescia toda e transcendia-se numa estima e num orgulho, verdadeiramente maternais, sem limites.
Conhece-me desde sempre. Conhece-me desde sempre e recuso pensar ou conceber sequer que haverá fatalmente um dia em que isso vai deixar de acontecer…
Somos muito parecidas. Somos iguais. Na intransigência, na teimosia, na força, na determinação, no controlo, na ambição, na prepotência, na coragem, no estoicismo, na abnegação, no sacrifício, na entrega… Na primogenia, na protecção familiar… Iguais.
Elas sabem tudo. Sempre souberam. Sempre, porque desde o início, há cinquenta anos atrás, entraram e se tornaram parte do nosso universo familiar. Por ela. Através dela. Com ela. Elas esquecem-se agora. Preferem assim. Um dia ela vai esquecer. Tudo. Mas eu não. Eu não.

O COMPLEXO DE DAVID E GOLIAS


Conhecemos todos pessoas grandes e pessoas pequenas. Cruzam-se connosco todos os dias. De forma memorável. Sempre. Para o bem e para o mal.
Podia brincar com as assimetrias que presidem à colocação dos adjectivos e discorrer acerca do abismo ontológico que separa uma “pessoa grande” de uma “grande pessoa” (ou, da mesma forma, uma “pessoa pequena” de uma “pequena pessoa”). Podia, mas não vou. Porque há na simplicidade destas denominações mais correntes, e porventura prosaicas, a beleza que eu procuro e que é muito mais elucidativa do que qualquer jogo de palavras que eu possa fazer.


As pessoas pequenas acham-se grandes pessoas.
As pessoas grandes não acham nada. Limitam-se a ser. Em consciência. E deixam para os outros as opiniões.
As pessoas pequenas têm muitíssima auto-estima – constantemente insuflada por um mentor –, uma corte de bajuladores e um séquito.
As pessoas grandes têm auto-estima bastante e uma meia-dúzia de amigos. Verdadeiros. É muito? É pouco? Não sabem, não é importante.
As pessoas pequenas bradam aos céus feitos e façanhas. E recolhem louvores e fama e reconhecimento. Às mãos cheias.
As pessoas grandes nunca bradam, nunca gritam, nunca apregoam venturas… Mas ajoelham-se, olham por breves momentos os céus e choram sobre o relvado. (Pergunto-me como é possível não ver o mundo tudo o que elas são… o que eu vejo…)
As pessoas pequenas, porque têm um ego do tamanho do universo, olham com desdém para o vulgo que as endeusou e pôs num pedestal. E, paradoxalmente, continuam a receber encómios, apoio e felicitações.
As pessoas grandes dedicam parte do seu tempo, energia, recursos e trabalho aos outros. E, recebem efectivamente algum agradecimento e umas quantas manifestações de gratidão. Reconhecimento? Escasso. Apercebem-se das evidências, mas sorriem. E, sorrindo, vergam-se ante a soberana voz do povo, o mundo, a humanidade… e prosseguem no seu caminho com o seu trabalho. Como se nada fosse.
As pessoas pequenas passam os dias presas à insegurança e à incerteza e por isso remoem no seu íntimo, cheio de nada, as estratégias para atingir as pessoas grandes e derrotá-las todos os dias um bocadinho mais e sempre assim até ao definitivamente.
As pessoas grandes são livres, seguras e têm esperança. No futuro. No mérito. No trabalho. E até nos outros!
As pessoas pequenas morrem de medo das pessoas grandes e disfarçam esse pavor com a lembrança constante do gigantismo goliesco que granjearam do vulgo e com brados de vitória, incentivo grupal, plenos de uma confiança bacoca que só convence mesmo o séquito. E o vulgo. Cegos. Desconfio que nem a elas próprias ilude.
As pessoas grandes falam pouco. Porque os actos, o trabalho, o desempenho in loco demonstram mais do que quaisquer palavras. São a melhor resposta.
As pessoas pequenas não dão. Nunca dão. Nada. Mas exigem, de braço estendido e mão autoritária, receber, a toda a hora. Tudo. E são bem-sucedidas nessa exigência infantil e egoísta. Pela perseverança, pelo cansaço que a insistência provoca, e até pela perene bonomia das pessoas grandes.
As pessoas grandes só dão. Isso é-lhes tão natural quanto respirar. Nunca recebem, não é isso que as move também. A dádiva é gratuita, generosa. Daí, a mão em concha, a mão que contém para dar … para o outro… a mão voltada para fora… para o outro… a mão que dá … a mão que só dá…
As pessoas pequenas têm uma linguagem corporal significativa: Corpo hirto, tenso, paralisado, numa tentativa (frustrada e profundamente frustrante – parece-me –) de decalcar a força que extravasa das pessoas grandes, e motivada grandemente pelo desejo de competir com elas até nesse inatismo.
As pessoas grandes, TODAS as pessoas grandes, me lembram as crianças. Na candura que sempre as envolve, na descontracção do corpo, na inocência dos gestos, na pureza da alegria... Na rapidez com que apagam da memória rumores, traições, ofensas, difamações. Na facilidade, com certeza aparente, com que põem o profissionalismo à frente das emoções. Na extraordinária capacidade de se humilharem ao máximo e darem elas próprias… a mão, a bola... No olhar franco, frontal, desarmante. No sorriso.
As pessoas pequenas não sorriem. Nunca. Acham que isso é sinal de fraqueza. Porque as pessoas grandes são constantes no sorrir. Elas já viram. As pessoas pequenas não sorriem e então fecham o rosto, a alma, o íntimo. Vedam ao outro essa descoberta. Adoptam o semblante fechado como armadura e carapaça e refugiam-se por detrás dele. Sempre. Sempre? Na hora da verdade. Nos momentos em que têm de inevitavelmente encarar as pessoas grandes. Encarar, literalmente, não as encaram. Não conseguem: não têm cara para isso!
Afinal, momentos há em que as pessoas pequenas têm a perfeita noção e a consciência da sua pequenez. Porque, diante a grandeza, quase reflexivamente, cerram os dentes, fecham o rosto e fixam o chão… encaracolam-se na sua insignificância.

* Para duas pessoas grandes cujas lições de vida me esforço por reter sempre: o B. e a minha mãe.

Se eu beber dessa luz...

sexta-feira, março 24, 2006

ALIENUS, -A, -UM (ADJ.) – ESTRANGEIRO, ESTRANHO, DIFERENTE

Um dia destes tive a oportunidade de contactar via net com uma pessoa que conhecia de vista e admirava bastante. O tempo ia passando, íamos falando e eu até gostava do rapazito. Achava-lhe graça. Era de uma loucura encantadora. Ou seja, fazia on a regular basis (e faz ainda com certeza!...) tudo aquilo que eu às vezes penso que gostava de ter feito quando tinha a idade dele… Não faço ideia do que lhe possa ter passado pela cabeça, que expectativas, que esperanças alimentou ao longo desse tempo em torno dos meus/seus sentimentos e/ou da minha pessoa/personalidade… O que é facto é que de um momento para o outro forçou, literalmente, uma saída do meu/nosso mundo; o que se repete quase diariamente. Assim. Secamente. Sem explicação. (Caso não saibas, podes simplesmente bloquear – conheces o ícone? – o meu contacto do teu Messenger. No heart feelings. Amigos (?) como dantes.) É que o dito inicialmente se mantinha busy, idle ou away, depois, mais subtil – ou talvez não –, optou por outra estratégia: manter-se online até eu entrar, ou seja, sair logo que eu que acabo de me registar e entrar online. E eu a perceber a astúcia. Toda. Por incrível que pareça, desde o primeiro momento. Desde que ele se manteve indisponível aquela primeira vez. Sim, porque aparentemente não devo ter outros amigos (…adicionados no Messenger? em geral?...) que não sejam o próprio. Ou melhor, tenho apenas uma – a que temos em comum. Se estivermos ambas online, o senhor Q. não sai. Se eu estiver com os outros vinte, o sapientíssimo Q., por não saber da existência deles, julga-me sozinha e desejosa de lhe saltar em cima. E então, antes que o canibalismo tenha lugar, retira-se. Bravo!
(Sentem o fel? Bem vos disse que sou possessiva. Ainda preciso de mais uns tempos para recuperar da perda deste “my precious” e reencontrar o equilíbrio.)
O pior é que tenho a perfeita consciência de que o perdi (mais um…!) e sei precisamente porque é que a cisão se deu. E, apesar de não compreender bem, não o posso criticar. Muito… Do alto da experiência dos seus vinte e um anos não lhe parece normal que eu não saia à noite. Ou melhor, que eu não goste de sair à noite.
Tens razão, Q. Sou estranha. Não sou normal. A norma é de facto a frequência “obrigatória” desses espaços, com tudo o que isso acarreta. Do ponto de vista da socialização até. Eu entendo. Quando se anda na Universidade, é norma. Eu entendo. Quando se tem vinte e um anos, é norma. Eu entendo. Quando o gozar o agora é tudo o que interessa, é norma. Eu entendo. Quando se é tuno, é (pode ser?) norma. Eu entendo.
Mas, tenta entender também. Não saio à noite. Não gosto.
Vou ao teatro, ao cinema, às Tunas, aos concertos, ao futebol… de noite. Mas não saio à noite. Não gosto. Ou seja, não frequento discotecas. Não gosto. Não frequento bares, pubs e afins. Não gosto. E não deixo de ter amigos por isso, salvo a devida excepção.
Sou pouco convencional, admito. Não gosto de muitas coisas… Não gosto de sentir medo (degradante! – o que vale é que é temporário: só sentimos medo do que não conhecemos), não gosto de pessoas ocas, fúteis e mesquinhas; não gosto de perfumes fortes, de tabaco, de álcool, de bebidas gasificadas, do cheiro a éter nos hospitais, de sítios sem janelas, de dias cinzentos, de répteis, de pré-conceitos, pré-juizos; não gosto de mel de abelhas, não gosto de pessoas que chegam sistematicamente atrasadas aos compromissos; e detesto o dia das petas! Mas gosto de outras tantas. Gosto de sentir o Sol de Inverno a bater-me na cara, pão acabado de fazer com manteiga de alho e salsa, chá quente, fumegante; vestidos, do cheiro a roupa lavada, água fresca, passeios à beira-mar ao fim da tarde, do cheiro a fruta e flores nos mercados, toalhas acabadas de passar a ferro, festas e bolos de aniversário, de ver a chuva a fustigar os vidros das janelas; gosto que a minha mãe me massaje e aqueça os pés; gosto de passar tempo com os meus amigos: almoços, jantares, passeios, tardes inteiras à conversa no café, na esplanada, no bar da Faculdade, na minha casa…onde for; gosto de quando o meu pai me olha desconfiado; gosto de ver e ouvir palavras sentidas, ditas olhos nos olhos; gosto do tempo das vindimas, de lírios, de bolas de sabão, balões de pastilha elástica, pêssegos, orquídeas, girassóis, tudo o que tenha massa-folhada, algodão-doce, aeroportos; gosto de olhares (malandros, tímidos, cúmplices), de piqueniques, de trovoadas e de tempestades; e adoro sorrisos!
No fim-de-semana passado instalei-me a mim, ao meu saco-cama e aos edredões na varanda. Estava um céu estrelado tão bonito que não ia conseguir adormecer se me tivesse privado de um espectáculo de tamanha beleza.
Hoje às 7.20 da manhã, tinha acabado de chegar ao Departamento, estavam 5º Celsius no exterior. Dirigi-me à cozinha, fiz chá, desci as escadas, fui à máquina que está bem no fim do corredor, comprei um Snickers – “king size” e corri alegremente lá para fora. Sentei-me sob a copa de uma árvore. A do costume. E deliciei-me com o meu chá e o meu chocolate. O meu pedacinho de céu esta manhã.
Da próxima vez que chover torrencialmente, cá é muito frequente – quase todas as semanas –, hei-de ir para a varanda apanhar a molha da minha vida. E sabes porquê?
Porque não sou normal.

Da arte de coleccionar...

Sou muito possessiva. E materialista também.
Adoro fazer colecções. Quase tanto como detesto acumular lixo. A diferença entre uma e outra tendência é o tempo que se investe na recolha, a paciência da triagem ou a capacidade de selecção criteriosa (quase inata e espontânea para alguns) que preside à primeira por oposição ao desleixo ou ao desinteresse que promove a segunda.
Tenho três colecções de que me orgulho muitíssimo. São as mais extensas. Duas delas são prosaicas, mas dedico-lhes muito tempo, algum dinheiro e uma devoção por vezes desproporcionada. Uma, é a minha colecção de camafeus – tenho vários: em anéis, brincos, colares (faltam-me pulseiras!…); em ouro, em, prata, em porcelana, em vidro, em plástico… A outra é a minha colecção de joaninhas (não do insecto, obviamente, mas de todo e qualquer objecto que as contenha: pintadas, bordadas, impressas, esculpidas, coladas… em relevo, em fundo…há de tudo! – falta-me o Swatch das joaninhas!...).
Podia também falar dos meus livros e dos meus cds, mas – não sei porquê – não os vejo como colecções. Ou melhor, até sei. Pela mesma razão que não se colecciona pão ou água. Não se pode. São alimento. Do corpo. Da alma. Tão urgentes e necessários como o ar que respiramos. Não-acessórios, definitivamente não-coleccionáveis!
A minha terceira colecção é tudo menos prosaica. É a mais importante, a mais querida e a mais valiosa; paradoxalmente, pela razão pura e simples de não ter preço. Sempre mexeu muito comigo, mas nunca com as minhas economias. O que até é bom. Possibilita o meu desenvolvimento como pessoa. Promove a interacção com outras pessoas. Tem-me feito crescer bastante e descobrir imensa coisa acerca dos outros e, principalmente, acerca de mim própria. Só me apercebi da necessidade absoluta de a constituir, com mais empenho e seriedade, há alguns anos, andava eu no segundo ou no terceiro ano da Faculdade. Longe da ilha, dos pais, das manas, do mano, do melhor amigo... Tardiamente? Não me parece. O Homem é um ser a fazer-se, constantemente, no tempo e no espaço, ad aeternum. Estamos sempre a tempo. Estou eu também. Sempre a tempo. Nunca se tinha proporcionado antes. Nunca tinha sentido necessidade. Nunca investi muito nisso também. A minha terceira colecção – que na realidade é sempre a primeira – é a minha colecção de amigos.
Não tenho muitos, tenho bons. Tenho precisamente os que preciso. Neste momento. Penso eu. É claro que penso sempre isto e o número – graças a Deus – vai aumentando e, de cada um, quando se proporciona, penso com a mesma – e sempre renovada – empatia, tímida, sincera e agradecida – “… pois, ainda bem que te tenho como amigo, só mesmo tu para te lembrares disto agora, que seria de mim sem ti…” Pelo que há sempre espaço para mais um, dois, três, seis, dez, cinquenta, cem, mil, … No espaço de uma mão fechada que é o do coração cabe tudo aquilo que nós lá quisermos guardar. Ás mãos cheias.
Ainda não percebi se os escolho ou se são eles que me escolhem a mim. É possível que sejam eles, porque eu, nisto de colecções, além de primeiramente muito selectiva, levo depois muito tempo a analisar e consequentemente a decidir-me. Demoro muito tempo a dar-me. Totalmente. O que tem impacientado muita gente ao longo dos anos. Já perdi muitos potenciais amigos por essa razão. Muitos mesmo. Porque é que hoje em dia toda a gente quer tudo para ontem? Não se trata de interpretar dados estatísticos, não é, nem poderia ser, uma análise científica, objectiva, taxonómica. Estamos a falar de pessoas! É uma análise de coração. Efectiva-se na entrega, na confiança e na partilha. De momentos, de sonhos, de confidências. É espontânea. Instantânea. Por vezes, com alguma sorte, simultânea. Já aconteceu. Culmina com risos, ou caretas, ou palhaçadas… depende. Cumplicidades. E isso, claro, leva tempo. Às vezes, muito tempo.
Sou possessiva. Sou. Infelizmente. Muito. Gostava de não o ser, mas só as vezes em que digo “o meu…”, “a minha…”… Detestável. E como a boca fala do que transborda do coração… É meu aquilo de que gosto. E isto é tão intrínseco que chega a ser assustador!
Às vezes caio no ridículo. Como no intervalo daquela reunião de avaliação em que se falava sobre determinada aluna e eu, chocadíssima, muito espontaneamente, “a minha S., não é possível!” Saiu-me. Risota geral. Ou então quando, no fim de um jogo de futebol, comentava com alguém que “… certamente a história do jogo teria sido diferente se o meu X. fosse titular…” Meu?! Saiu-me novamente.
Pessoas não são objectos materiais adquiríveis. Não as temos. Nunca as teremos. Não são nossas. Nunca o serão. Mas temos momentos. Sempre teremos momentos e por isso a necessidade de se passar tempo, útil, com as pessoas que amamos. Por isso é que a Paciência, a Determinação, a Dedicação e a Estima delegam no Tempo a função de fazer vir ao mundo a Amizade. Por isso é que se torna necessário cultivá-la, dedicar-lhe atenção, tempo, alimento e rodeá-la dos cuidados necessários à sua manutenção e desenvolvimento, como se de uma planta se tratasse …bonsai… Por isso, perder um amigo é enterrar momentos, não os passados – esses ficam connosco –, mas aqueles que haveriam de vir; é ver definhar a planta e sentir essa lenta agonia por dentro.

quarta-feira, março 22, 2006

MY SPRING BREAK: PHOTO ECHOES...











Aqui fica o registo fotográfico muito resumido das minhas "férias de Primavera". Os EUA, ou melhor o TEXAS, no seu melhor: deserto, montanhas, missões espanholas e até um bocadinho de México... Na primeira foto, da esquerda para a direita: MOI (Portugal), KEELA (U.K.) e VICCA (Hungria).

terça-feira, março 21, 2006

Para ler neste Dia Mundial da Poesia...

Realidade
Em ti o meu olhar fez-se alvorada
E a minha voz fez-se gorjeio de ninho...
E a minha rubra boca apaixonada
Tece a frescura pálida do linho...

Embriagou-me o teu beijo como um vinho
Fulvo de Espanha, em taça cinzelada...
E a minha cabeleira desatada
Pôs a teus pés a sombra dum caminho...

Minhas pálpebras são cor de verbena,
Eu tenho os olhos garços, sou morena,
E para te encontrar foi que eu nasci...

Tens sido vida fora o meu desejo
E agora, que te falo, que te vejo.
Não sei se te encontrei... se te perdi...

FLORBELA ESPANCA
Sessenta Sonetos de Amor

A Primeira Palavra
Acompanhando a recente curvatura da terra
o primeiro olhar descreveu a sua órbita
sobre as oliveiras. Só mais tarde
a pomba roubaria o ramo
e iria de árvore em árvore propagar a primavera
foi então que os olhos se cruzaram
e estava dita a primeira palavra
à superfície do tempo

RUY BELO
Todos os Poemas

Busca
Durante anos os procurei,
um amor, um lugar,
um sonho de casas eternas,
um cais de outrora quando se acendiam as
lâmpadas,
durante anos te procurei,
caminhante das estrelas solitárias, das
estrelas sem nome,
brilhando sobre as ilhas, sabe-se lá onde,
em que oceanos que levaste contigo,
no grande eclipse desta vida

JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA
Biografia

Meio-dia
Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN
Mar Poesia

Do clima e amor breve
Sobre a cabeça o vento já dispersa
pólen semente não aloira a testa
a cada ciclo outro bronze se inventa
nunca maio a colheita recompensa
investe sobre a lua o novo signo
estrela cadente é a força do trigo
em maio já o cabelo despenteia
o vento sobre a relva semeado
improviso possível membro atento
ao solo tenro ao verde à humidade

TERESA BALTÉ
Poesia Quase Toda

Karingana ua Karingna
Este jeito
de contar as nossas coisas
à maneira simples das profecias
- Karingana ua Karingana
é que faz o poeta sentir-se gente.

E nem
de outra forma se inventa
o que é prioridade dos poetas
nem em plena vida se transforma
a visão do que parece impossível
em sonho do que vai ser
- Karingana

JOSÉ CRAVEIRINHA
Obra I

segunda-feira, março 20, 2006

Um dia ...

Para L.

Um dia, daqui a uns cinquenta anos, talvez, terei seis netos: três rapazes e três raparigas.

Acompanhados dos pais, eles passarão comigo os Verões, crescendo em Amor, Estatura e Graça. Perdidos por entre silvados e vinhedos, misturar-se-ão com o azul-verde do rio e com o cheiro doce a uvas e mosto. Todos os fins de tarde procederemos ao mesmo ritual: sentar-nos-emos todos sob o alpendre a ver o pôr-do-sol enquanto vamos beberricando um refrescante chá gelado. Depois, pedir-me-ão que lhes continue a contar a história das noites anteriores. A mesma história a cada Verão.

A minha história.

Um dia, daqui a cinquenta anos, talvez, vou contar-lhes de como estar contigo me dava a sensação única e absolutamente indescritível de chegar a casa. De como tudo era surpreendentemente simples e fazia sentido. Sempre. Vou falar-lhes da tua autenticidade, segurança, alegria, jovialidade, extrema bondade, nobreza de carácter, grandeza de espírito e da enorme, incomensurável, afeição por mim.

Nesse dia vou explicar-lhes que o Amor tem muitas formas e que, possivelmente, de todas, a Amizade é a mais sublime.

Quando me perguntarem por que razão não podemos escolher aqueles que amamos ou por que motivo é tão difícil (ou raro) gostarmos de quem gosta realmente de nós, dir-lhes-ei apenas:

- “Porque é humano, o Amor.”

Quando me perguntarem o porquê de invariavelmente, mais cedo ou mais tarde, magoarmos aqueles que mais nos amam, dir-lhes-ei somente:

- “Porque é humano, o Amor.”

Quando me perguntarem porque teimamos sempre em voltar as costas à felicidade autêntica, óbvia, clara, todos os dias revelada em tantos actos e até pequenos pormenores, dir-lhes-ei:

- “Porque é humano, o Amor.”

Humano: fraco, incoerente, louco, ambicioso, irracional, impetuoso, doentio, imperfeito, humano.

Um dia, daqui a cinquenta anos, talvez, vou explicar aos meus netos – que até poderão ser nossos, não sei …!) que o NÃO que ouviste na segunda sexta-feira daquele Março distante, quase perdido na bruma do tempo, foi – pela sinceridade, pela confiança e pela amizade – um NÃO de Amor.

... La FLOR de mi secreto ...

domingo, março 19, 2006

Uma questão de robustez - A par e passo ...

É quarta-feira. Em dois locais distantes da cidade, em dois blocos simétricos de apartamentos que cresceram apressadamente numa ânsia de agarrar os recém-formados, entraram ao mesmo tempo em casa dois indivíduos. Um veio da Repartição de Finanças, aturou todo o dia os ingénuos, os pretensamente ingénuos, os chicos-espertos, os parolos e os sabidos. Pegou no saco desportivo e saiu para o Ginásio onde a luta contra os aparelhos lhe há-de aliviar o stresse. Depois, após o jantar, tem ainda a opção de dar uma escapada ao café, ao Bar ou adormecer com o jornal desportivo nas mãos, cansado de «zapar» por todos esses inúmeros canais. Mas dentro de sua casa trabalho não entra, ali é o seu refúgio.

No outro apartamento, rodeado de hipermercados, e próximo das enervantes vias e rodovias, à mesma hora, entra outro indivíduo. Este é professor. Verga-se-lhe a coluna ao peso da pasta. Os vizinhos hão-de julgá-lo vendedor de qualquer coisa.

Sentou-se um pouco para recuperar o fôlego, desejou comer alguma coisa. E procurou nas gavetas do frigorífico. E lá apareceu o trivial.

Depois, quando o corpo já pedia repouso, lembrou-se!

- Tenho de fazer um teste.

Foi até ao computador, mas a vontade em premir a tecla era pouca, mínima. Mas tem de ser! E lá começou a alinhar umas ideias. E mais um item aqui, outro acolá e o teste foi ganhando forma. Mas já passaram duas horas, duas horas do seu direito ao descanso! - Agora já posso relaxar. Haverá futebol? - Enquanto procurava o comando deu com os olhos na sua coçada pasta e ocorreu-lhe que tinha lá uns trabalhos dos alunos para ver.

- Podia deixar isto para depois… – cogitou. Mas não resistiu em pegar de novo na pasta e tomar em mãos os trabalhos e dar-lhe uma olhadela. Decidiu-se e começou uma leitura mais crítica e avaliadora. Acabou mesmo por começar a correcção.

A noite foi-se tornando opaca e dura, só de fora se ouvia um ou outro carro que rasgava o silêncio.

Por fim, o peso das pálpebras era insuportável e arrastou-se para a cama.

Mas antes que o sono o dominasse, ainda lhe assaltaram a mente as peripécias do dia. As queixas dos colegas professores da turma. O encontro com o encarregado de educação, que não compreende que o filho está a crescer e que precisa de outro tipo de apoio. O problema daquele aluno que nunca traz material e que ultimamente parece que não se anda a alimentar. E aquela maldita acta que nunca mais fica pronta, porque nem tem tempo para ver o seu secretário.
E, por fim adormece, é meia-noite.

O dia, passou-o de bloco em bloco, de aula em aula, gastou-o na escola. Mas o trabalho ali ficou pela metade. Por isso não compreende por que teve de trazer a escola para casa, agora que fica mais tempo na escola.

Um dia destes o professor vai fazer um novo cálculo do seu horário de trabalho e vai descobrir que já não serão as trinta e cinco horas, mas as famosas cinquenta de que falou o nosso Presidente.

Mas uma coisa é certa, terá de haver um aperto nos atestados de robustez física e psicológica na admissão de docentes, porque poucos hão-de aguentar a tal carga e durante tanto tempo.

Manuel Sousa

In "Preto no Branco", Jornal da E. Sec. P. Lanhoso (o meu berço profissional!)

Lone tree at sunset...

sábado, março 18, 2006

AMERICA'S BEST OF (Latest joke!)

It is the policy of the Houston Livestock Show and Rodeo™ to provide Show fans with a family-friendly environment. In reference to the use of an inappropriate word during the Maroon5 performance on Thursday, March 9, 2006, the band issued the following letter of apology:

"To all who attended our show at the Houston Rodeo,

If I offended anybody with my choice of language or any of my actions that night, I sincerely apologize. It was not my intention. We were overjoyed to be back in Houston and particularly at The Rodeo. This was our second year in a row doing it and it is some of the biggest and most generous crowds we have ever played in front of. Maroon5 has been a band for over 10 years now and we have become known for our ability to connect with our audiences on a personal level. The last thing we ever want to do is to offend anybody.

We hope you enjoy this season at the rodeo and hope to see you again soon.

Love,

Adam Levine"


Dura actividade a dos artistas nesta santa terrinha... "SHIT" ou "FUCK" familiy-unfriendly(?), uma palavrinha apenas, nem me recordo qual das duas... e num contexto nada ofensivo: toda a gente se riu porque o placard, com dois minutos de atraso, reproduzia efectivamente, palavra a palavra, tudo o que o Adam Levine dizia... Censura??? Acho que esta gente precisa de um 25 de Abril... (Ok, Portugal tambem precisa...) Enfim, America's latest YELLOW joke for me.

Conselho de um velho apaixonado

Quando encontrar alguém e esse alguém fizer seu coração parar de funcionar por alguns segundos, preste atenção: pode ser a pessoa mais importante da sua vida.

Se os olhares se cruzarem e, neste momento, houver o mesmo brilho intenso entre eles, fique alerta: pode ser a pessoa que você está esperando desde o dia em que nasceu.

Se o toque dos lábios for intenso, se o beijo for apaixonante, e os olhos se encherem d'água neste momento, perceba: existe algo mágico entre vocês.

Se o primeiro e o último pensamento do seu dia for essa pessoa, se a vontade de ficar juntos chegar a apertar o coração, agradeça: Algo do céu te mandou um presente divino : O AMOR.

Se um dia tiverem que pedir perdão um ao outro por algum motivo e, em troca, receber um abraço, um sorriso, um afago nos cabelos e os gestos valerem mais que mil palavras, entregue-se: vocês foram feitos um para o outro.

Se por algum motivo você estiver triste, se a vida te deu uma rasteira e a outra pessoa sofrer o seu sofrimento, chorar as suas lágrimas e enxugá-las com ternura, que coisa maravilhosa: você poderá contar com ela em qualquer momento de sua vida.

Se você conseguir, em pensamento, sentir o cheiro da pessoa como se ela estivesse ali do seu lado...

Se você achar a pessoa maravilhosamente linda, mesmo ela estando de pijamas velhos, chinelos de dedo e cabelos emaranhados...

Se você não consegue trabalhar direito o dia todo, ansioso pelo encontro que está marcado para a noite...

Se você não consegue imaginar, de maneira nenhuma, um futuro sem essa pessoa ao seu lado...
Se você tiver a certeza que vai ver a outra envelhecendo e, mesmo assim, tiver a convicção que vai continuar sendo louco por ela...

Se você preferir fechar os olhos, antes de ver a outra partindo: é o amor que chegou na sua vida.
Muitas pessoas apaixonam-se muitas vezes na vida, mas poucas amam ou encontram um amor verdadeiro.

Às vezes encontram e, por não prestarem atenção a esses sinais, deixam esse amor passar, sem deixá-lo acontecer verdadeiramente. É o livre-arbítrio. Por isso, preste atenção nos sinais...

Carlos Drummond de Andrade

sábado, março 11, 2006

America's best of III (YUMMIES)




Ryan Gosling "The Notebook", Eric Szmanda "CSI Vegas", Enrique Murciano "Without a Trace"

MAXIME GNOTO DEO

Tinha nove anos, lembro-me bem. Estava no dentista, naquela que não sendo a minha primeira ida, foi com certeza das primeiras.
A secretária, polivalente assistente também, era jovem, bem-disposta (sempre), calma (sempre) e um doce comigo. Sempre. Calculo que fosse uma criança encantadora também. Nunca mexia em nada. Nunca saía do lugar. Não falava muito. Observava tudo com interesse. Desinteressava-me quando não havia mais nada de novo para observar. Ainda hoje sou assim.
A secretária emprestava-me os seus livros de BD que depois da consulta eram invariavelmente meus. Não que eu alguma vez os tivesse pedido, ela assim o queria, suponho. Desde as tropelias do Pateta à ternura do Mickey e da Minnie, desde os mergulhos do Tio Patinhas naquele invejável cofre-forte às aventuras do Pato Donald com os sobrinhos, passando pelos brasileirissímos Mónica e Cascão…tudo havia já sido posto sob o microscópio através dos meus olhos inquisidores.
Mas, porque o paciente anterior demorava a sair (era pelos vistos um caso complicado), os livros de BD tinham já perdido o interesse – já estavam todos lidos – e a secretária que não vinha dar-me outro!... O tempo a passar…mui-to len-ta-men-te e eu sem fazer nada. Já conhecia as paredes, os quadros, as flores e as borboletas de cor. Fechava os olhos e conseguia ver com perfeição todos aqueles objectos perfeitamente dispostos no espaço da sala de espera. Depois tentava destruir aquela organização do espaço, imaginava outra disposição e outra e outra… mas as músicas do momento que as colunas transmitiam desconcentravam-me… e as tiradas do Cascão eram mais giras do que o meu exercício interior iconoclasta.
Enfim, lá dei uma hipótese às revistas para adultos que estavam em cima da mesinha. Imprensa cor-de-rosa típica: trivialidades, personalidades, efemérides, novidades – tudo coisas muito distantes do meu mundo de criança de nove anos e que, portanto, não me entusiasmaram muito. Mas o homem (ou a mulher) nunca mais saía e aquilo era tudo o que eu tinha de desconhecido para me ocupar. Como sou muito visual (sempre fui) comecei a apreciar as pessoas que faziam notícia. Roupas, penteados, expressões… e tentava imaginá-las com outras roupas e penteados, as roupas e penteados que eu criaria para elas. Seriam as suas expressões as mesmas?
Fiz isto com umas três revistas, estava achar graça à nova forma de entretenimento, muito mais até que aos livros de BD. Mas lá para o fim da quarta revista a imaginação entrou em greve. Deixou de funcionar. Não, eu não estava cansada. Estava apaixonada. Pela primeira vez. E tanto e tão intensamente quanto uma criança de nove anos pode estar por um atleta de vinte, cujo casamento a revista acabava de divulgar.
Não me recordo da consulta que certamente se seguiu a esse momento iluminador. Lembro-me sim que os livros de BD me foram oferecidos, como sempre, no fim da mesma. Mas eu já não queria saber deles. Queria a revista. Aquela revista. Ou pelo menos a fotografia. Uma fotografia pequenina que pouco mais deixava ver que dois jovens divertidos à saída da igreja, com a alegria que a felicidade costuma dar ao coração estampadíssima nos rostos, toldados ante tanto arroz que lhes caía em cima.
Não sei como, consegui levar a fotografia para casa. A essa juntaram-se muitas outras, centenas, pelos anos fora. Da adolescência até ao início da idade adulta. Variadíssimas revistas foram-se acumulando. Na secretária, debaixo da cama, dentro do armário. Da mesma forma, juvenil e espontânea, foram-se sucedendo as mais diversas e sentidas manifestações, de apoio – sempre incondicional –, de apreço – sempre eterno –, de apreensão – sempre natural – diante de algo menos bom… e aconteceu tantas vezes! Lágrimas quando deixou a terra-mãe. Tristeza. Lágrimas quando regressou. Alegria. Coração apertado quando falei com ele pela primeira vez. Inocência. Coração apertado quando o encontrei segunda vez. Reincidência. E assim sempre até ao dia em que me apercebi de que a chama daquela devoção, religiosamente mantida ao longo de uma boa dezena de anos, se havia extinguido. Foi de mansinho, sem mágoa e sem mancha, com toda a candura e beleza que os impossíveis encerram. Na paz.
Profunda alegria e orgulho neste momento em que o recordo. Que todas as crianças de nove anos tenham a sorte de ter um ídolo como o meu. Exemplar. Como os ídolos devem ser. Humano. Todavia, e simultaneamente, – com todos os “recomeçares” que isso acarreta. Humano, como todos devemos ousar ser.

America's best of II (FRIDAY NIGHT MUSIC ON RICE CAMPUS)




"Sunday Morning" - Maroon 5, "I'm a believer" - Smash Mouth, "American Idiot" - Green Day

sexta-feira, março 10, 2006

M5RH

Esta podia ser a fórmula da felicidade: M5RH.
Simples: Maroon 5 no Rodeo Houston; ou mais precisamente no Astrodome Reliant Stadium por ocasião da vinda (anual, tradicional, esperada, desejada e ambicionada por todo e qualquer texano que se preze – nativo ou por adopção –) do Rodeo a Houston.
Ainda estou com gripe. Obviamente. Cinco dias desde o aparecimento dos primeiros (e alarmantes!) sintomas, não sei quantos serão já de incubação… mas de uma coisa tenho a certeza: outros cinco virão e eu ainda estarei neste estado. Lastimável... No mínimo. Bem, agora já tenho a tosse (e o respectivo muco nasal) que o meu mal-estar inicial (devidamente acompanhado pela inseparável falta de ar nocturna) indicava. Ontem isto não era tão evidente mas como quase não conseguia parar de chorar (não de emoção ante a visão do Adam Levine… não, era mesmo o meu canal lacrimal, desesperado, ante a constatação da inundação da sua casa a deitar continuamente baldes de água porta fora, para a rua, feito bom português…).
Considero absolutamente pertinente o postulado, defendido por muitos especialistas, de que quando nos sentimos em baixo, as nossas defesas solidarizam-se connosco e baixam também. Sempre que apanho uma desilusão, daquelas impactantes, que viram o meu mundo (certezas, seguranças, convicções, princípios e valores) completamente do avesso, fico doente. Normalmente constipação ou resfriado. Desta vez, (e como aqui já começou a Primavera) acho que os vários tipos de pólenes, a mudança para um gabinete – onde o ar condicionado é permanente – e até a dieta que eu estava finalmente a seguir escrupulosamente… congeminaram todos e juntaram-se à constatação de uma triste realidade (AS MÁS PESSOAS EXISTEM. SÃO REAIS. E NÃO MUDAM DE UM MOMENTO PARA O OUTRO.) para o aplauso do espectáculo que não deve ser ver trabalhar os meus anticorpos. Vê-los em acção, a tentarem a todo o custo debelar o vírus, numa luta profundamente desigual (sinto-o!)… enfim, aqui o hospedeiro é que não achou graça nenhuma à conspiração. Porque não consigo trabalhar (não tenho concentração suficiente para ler a pilha de artigos que se amontoou na minha mesa, não tenho a argúcia do costume para construir a argumentação para o que tenho de escrever…), porque nas aulas passo o tempo todo a assoar-me e a tossir (mais alto do que fala o professor… depois ninguém percebe nada e Babel renasce!…), porque se fico em casa, deprimo por não consigo sequer ver televisão sem estar o tempo todo com os olhos a transbordar de água e a tossir, porque não consigo dormir com falta de ar, porque… Por todas as razões.
Então, da mesma forma que fiz aquele primeiro esforço, verdadeiramente hercúleo, para procurar o kit da medicação, todos os dias faço outros do género que aprendi há uns anitos, aquando do meu primeiro embate com a malvadez humana. E levanto-me de manhã, sorrio e cumprimento os meus sempre leais companheiros de paragem, apanho o autocarro e venho para o Departamento como se nada fosse; e falo com as pessoas no campus, nas aulas e no departamento como se nada fosse; e converso com os meus mais recentes amigos como se nada fosse; e faço, na medida do possível, a minha rotina diária. Como se nada fosse. Mas a minha voz rouca é como o algodão: não engana. E todos me elogiam a voz sexy. E o meu coração está apertado, tem um laço ao pescoço, como os vitelos ontem. E alguns notam o nó na garganta. A desilusão.
Todavia, lá diz o ditado, “Tristezas não pagam dívidas.” e não dão saúde a ninguém, acrescento eu. E então face o convite (totalmente inesperado e talvez por isso mesmo adorável) para ir ao Rodeo, não houve gripe poderosa o suficiente para me vergar (se fosse Domingo passado a história seria outra). Aceitei. Faltei a uma conferência (por respeito ao orador obviamente, não decidisse a minha tosse fazer das suas) e lá fui eu, com mais três coreanos, ver a Expo-Far-West cá do sítio. Cavalos, cabras, vacas, vitelos, lamas, porcos, pintos, cowboys e cowgirls. Lembrei-me do meu pai e da sua paixão por westerns. Ele haveria de ter gostado de tudo aquilo. Até eu que não gosto de muita coisa, gostei. Gostei muito. De tudo. Da exposição mais ou menos caótica, mais ou menos didáctica, dos animais e dos adereços (jóias, cintos, chapéus, botas, esporas, selas); da simpatia dos criadores e até dos competidores (até da exacerbação do patriotismo na oração inicial, no hino e na bandeira que uma magnífica e bem conhecida stunt impunhava nas mais variadas acrobacias enquanto montava!); da alegria e adrenalina constantes nos carrosséis por onde passamos (da inveja que sentimos das criancinhas que puderam andar de pónei!); da incomensurável paciência de todos os que nos requisitavam para os mais variados jogos (com a aliciante do peluche gigantesco no fim como prémio); da comida-rápida mais ou menos típica, e até do público anónimo que nos deu as boas vindas com direito a tratamento VIP, fosse a tirar-nos fotografias, fosse a me indicar o trajecto a fazer até encontrar a secção do meu lugar no estádio (há coisas que nunca mudam e a leitura de mapas continua a ser incompatível com os meu quadros cognitivos). Se calhar, tudo isto tem um significado redobrado por ser a nossa primeira vez nestas andanças vaqueiras. Se calhar também a simpatia se deveu a esse facto também (até porque isso nos foi perguntado inicialmente). Mas soube bem. Especialmente porque – já aprendi – o contacto com a natureza dá saúde, enrijece o carácter e enobrece. Por outro lado, nestes últimos tempos já me tinha esquecido de que as pessoas simpáticas também existem. São reais. E fazem das coisas complicadas coisas simples. E ajudam com agrado, sem segundas intenções. Têm gosto em ajudar. E são alegres.
O meu objectivo com esta saída era mesmo o de desanuviar: sair do gabinete, do departamento, da melancolia e da tristeza e esquecer a gripe. O meu objectivo mais do que o Rodeo era o espectáculo dos Maroon 5. Pelas razões que enunciei. E não, não gosto de Maroon 5, não gosto da música, não gosto do grupo e muito menos do vocalista. Mas, convenhamos, um concerto pop-rock num recinto amplo é precisamente o ideal para quem pretende dar uns berros a ver se vomita cá para fora uns quantos sapos (forçosamente engolidos desde Novembro), se esvazia a melancolia e se extravasa a tristeza. Se a catarse acontecer, a alegria acorda e pinta o céu com o azul e o rosa do costume e tudo volta ao normal. A gripe sente-se só e, desamparada, parte ressentida com a careta que lhe fizer. Tudo volta ao normal. Comigo é assim.
Efectivamente, a música é a panaceia para aqueles dias em que chove por dentro. Em que chovo por dentro. Em que choro por dentro. Também. Sempre foi assim. Por isso é que nas minhas viagens, quando o meu pai e a minha irmã preparam o kit dos medicamentos, eu preparo um kit diferente, onde consta, invariavelmente, uma dúzia de cds; outros podem juntar-se-lhes mas aqueles são sagrados. Porque se estiver triste e os ouvir, fico novamente bem. Por isso é que gosto tanto de música. Por isso também é que não gosto de Maroon 5.
Em boa verdade, porque sou uma pessoa muito visual, certas imagens influenciam a minha opinião estética. O que é muito mau. Primeiro porque as mais das vezes as imagens são mais poderosas que o som e as palavras (e se for numa língua estrangeira, então…) e assim sendo a fruição da junção som-palavra não é total, se for sequer possível. Trata-se então de uma espécie de preconceito que se gera no meu íntimo. O preconceito pela imagem. Ou através da imagem, ou adveniente da imagem. O aparecimento dos Maroon 5 coincidiu com a aquisição da TV Cabo pelos meus pais. Era Verão. Estávamos os quatro na Madeira. Em casa. Três raparigas e um rapaz. Conclusão primeira: MTV o dia todo. Todos os dias. Conclusão segunda: Boom Maroon 5 = Maroon 5 na MTV a toda a hora. A canção entrava facilmente no ouvido. (Nem que fosse pelo jeitinho que dava a MTV, com a repetição!) Mas o vídeo… Não tenho nada contra o vídeo mas considero que ofusca a canção de tão intenso. E isso voltaria a acontecer com o segundo single. To make a long story short: Não gostei dos vídeos dos dois primeiros singles dos Maroon 5 e ao tentar dissociar-me deles quando ouvi as músicas, foi quase automático: irritou-me profundamente a voz, fininha e nasalada, do vocalista. A partir daí desisti. “Maroon 5, não obrigada!” Depois, não sei se por causa de um filme ou algo do género, cheguei um dia a casa, toda entusiasmada com uma música (que me lembrava a América dos anos 50), a qual tinha ouvido casualmente numa loja, e pelo título fui investigá-la na net. Qual não foi o meu espanto: “She´s all I see.” Maroon 5. Ainda franzi o sobrolho descrente. Bem, o que vale é que já tenho aprendido umas coisas e muito lutei até conseguir obter um preconceito à minha medida. Explico: o preconceito em mim é sempre temporário – só se instala pela incerteza, quando a certeza de algo maior sobrevém, ele reduz-se à sua óbvia insignificância e desaparece. E depois da música, a imagem. O vídeo. Sublime. Só quem conhece bem orientais… Então, reformulando: gosto de uma música dos Maroon 5. Sei que devia ter-lhes dado o benefício da dúvida e ter investigado as outras. Tão à mão de semear. Ali. Na net. Tão perto. Mas não sei se foi o tempo que falhou ou a inércia, que o preconceito também contém, que foi exímia. Nunca mais lhes liguei. Nunca mais ouvi falar deles. Embora do vocalista, uma ou duas vezes, terei lido qualquer coisa quando, à espera na caixa do supermercado, folheava uma revista. Saídas nocturnas. Amigos. Copos. Namoradas. O costume. Nada de substancial.
Mas nada acontece realmente por acaso. Acredito piamente. Eu estava mal, queria desanuviar e então quis o acaso que eu pagasse para ver, entre outras coisas, Maroon 5! Não ia, naturalmente, com muitas expectativas. “Só gosto de uma música.” Mas conhecia (ao contrário de alguns dos meus acompanhantes) o grupo e as letras das músicas de que não gosto. Já faz três! É claro que não as pude cantar. Nem gritar. Nem sequer para dar o almejado grito do Ipiranga. Ontem, ao fim da tarde, nem voz tinha. Piorei. Possivelmente do sol que apanhei toda a tarde no recinto. E do ar condicionado no interior do estádio. Passei o concerto todo a chorar (mas de um olho só!). Toda a gente acha que foi da emoção (e não se cansam as meninas de elogiar o meu bom gosto: “Adam Levine is really handsome. Don’t be ashamed!”) e não há maneira de os convencer que a emoção tem um nome: gripe. Já desisti. Enfim… O meu olho esquerdo é muito emotivo.
Mas têm alguma razão, o Sr. Adam Levine não é muito telegénico. Apesar de não fazer o meu estilo, tenho de admitir que é de facto mais interessante ao vivo. E desconfio até que seja por isso que tantas meninas, de todas as idades, arriscam nestas ocasiões uns quantos pólipos nas cordas vocais. E teve aulas de canto. De certeza. (Confere. Já o confirmei.) Isto porque embora incorrigivelmente nasalada, a voz fininha consegue agora uns agudos muito bons. Mesmo. Além do que o dito toca guitarra espantosamente bem. Mais do que muito seguro. Muito natural. Como se lhe viesse do fundo da alma. Visceral. Delicioso. Gostei. Surpreendeu-me. Muito, para ser franca. E gostei de músicas, mais rockeiras, que não conhecia, nas quais o vocalista evidencia a já referida destreza instrumental. (Devo salientar também o teclista, que me impressionou também. Mas não tendo sido a surpresa tão intensa, dispensa portanto os meus comentários.) Gostei. Fez-me esquecer do resto: do desconforto que a comida rápida provocou no meu estômago, do olho incontinente, da tosse, da angústia, do ar condicionado e das dores de cabeça. Objectivo atingido. Gostei de observar o espectáculo no palco e fora dele, nas bancadas. Gostei da dedicatória, ao público feminino, da música mais badalada quando o rosto, contrito, e os olhos espelhavam uma amargura profunda, marcante, recente ou passada. Gostei da tentativa, do esforço por disfarçar o desânimo evidente e sorrir. Gostei do “Stay in School.” alegre e despretensioso, tanto quanto gostei da resposta, pronta, quase automática, que saltou de trás de mim: “Yes sir!” Surpresa novamente. Um baque por dentro. Gostei.
No fim, um turbilhão de sentimentos fustigava-me a alma. Missão cumprida. Euforia. Fascínio. Choque. Enlevo. Surpresa. Calma. Alegria. Ternura. Admiração. Mas… Passou tão depressa. Foi tudo tão rápido. À velocidade do sonho. De um sonho bom.
Ontem foi o dia da redenção. Surpreendi-me e Maravilhei-me. Musicalmente. Voltei a surpreender-me e não mais deixei de me maravilhar. Humanamente. Gostei.
Ontem M5RH foi a fórmula da felicidade! A felicidade é uma coisa simples.

quinta-feira, março 09, 2006

America's best of I (WRITERS)




Jonathan Safran Foer; Henry Thoreau, Walt Whitman. Três homens, três gerações, três génios.

segunda-feira, março 06, 2006

A FEBRE DE DOMINGO À NOITE

Tenho uma gripe. De certeza.
Ontem acordei com uma forte vontade de vomitar, não conseguia estar em pé, doía-me o corpo todo (mas especialmente os olhos – como sempre quando estou a chocar uma gripe, mas não das aves porque sou vegetariana!), tinha os olhos vidrados e febre. Muita febre. Passei o dia ora a suar em bica, ora a tremer de frio. Quando suava, afastava os lençóis, quando tremia puxava-os para cima. Uma autêntica odisseia. E ainda queria ver os Óscares ao jantar. Inocente criança!
Detesto estar doente. Quando fico doente tenho que ir ao médico e como enquanto vivia com os meus pais isso só foi necessário uma vez (em dezassete anos de existência, é obra!), já que a gravidade dessa situação ia para além dos conhecimentos e autoridade profissional do meu pai; desde então sempre que tenho de ir ao médico é um drama. É como se caminhasse ao longo do corredor da morte. O meu coração bate muito acelerado, não consigo parar de suar das mãos. Esqueço-me de contar detalhada e organizadamente como tudo começou, os sintomas, a medicação a que sou alérgica…enfim, sai tudo muito atabalhoadamente, às vezes quase aos soluços. O que vale é que levo sempre comigo a mana, que, de tão bem me conhecer e escrever tanta história clínica, sempre compõe as minhas tentativas vãs de comunicação num quadro clínico verosímil, compreensível e decente.
Tenho pavor a estados febris. É que associo a febre à morte. Os meus amigos acham que sou hipocondríaca. O meu pai já não liga. A minha irmã ri-se.
Mas o paralelo é pertinente. Já explico.
Caracterização sumária da minha pessoa acometida por um estado febril: estado dominante – fraqueza, uma fraqueza subjugadora que me verga além do humanamente imaginável – não consigo levantar-me da cama; se o faço tudo gira à minha volta antes de ficar turvo e depois branco, muito branco, tão branco que cega; estados concomitantes – sede, tenho muita sede e a garganta muito seca (conclusão: bebo litros e litros de água – sim, sei que faz bem, mas não como nada porque não consigo, porque já não há no meu estômago espaço para o que quer que seja); frio, muito frio e arrepios, como se a toda a hora houvesse uma corrente de ar – e é inacreditável porque quando estou com frio a minha cara está a ferver e vermelhíssima e então agasalho-me; calor, muito calor, suor a escorrer em bica, cara branca, amarela e verde de pálida, segundo ou terceiro pijama do dia ensopado junto ao corpo e isto poucos minutos após ter estado a tremer e ter decidido agasalhar-me.
Por isso, não percebo as reacções das pessoas quando digo. “Estou a sentir-me mal, acho que vou morrer.” (Admito que digo o mesmo quando apanho um resfriado e até quando como aquilo que sei que me faz mal. Mas aí é apenas o mimo a falar por mim. Nunca tenho febre nessas situações. Ontem tinha.)
Não percebo como a morte possa ser diferente da ausência de vitalidade que acabei de descrever. Pior não é certamente. Não pode ser.
Então ontem porque queria ver os Óscares, o que por força das circunstâncias se estava a tornar quase impossível (afasta lençol, puxa lençol, vira para um lado, vira para o outro, sua um pijama, muda para outro, puxa lençol, afasta lençol) e, sobretudo, impelida pelo pavor de uma primeira incursão pelo corporativista sistema de saúde americano, tentei esquecer a debilidade e procurei o Kit de Primeiros Socorros que o meu pai e a minha irmã atafulharam de medicamentos no final deste Verão antes de eu vir para cá. Benditos sejam os químicos. (Sou vegetariana e muito a favor de tudo quanto seja natural: chá de limão com mel, sopa quente, citrinos em abundância... mas esta era uma daquelas, fortes, e portanto para situações extremas… medidas extremas!)
Bendito seja o primeiro farmacologista (farmacólogo???) à face da Terra. Devia ser canonizado. A sério.
Benditos sejam os médicos. Continuem a fazer o trabalho deles, a milhas da minha pessoa (de preferência).
Bendito seja o meu pai. E a mana. Claro.
Ainda não é desta que vou explorar por dentro o Centro Médico de Houston.
Vi os Óscares retalhadamente entre mudas de pijamas e substituições de garrafas de água, pelo que nem vou comentar.
“My Oscar goes to Mitridates, the first pharmacologist”.

domingo, março 05, 2006

FOTO: SÍNTESE


Gosto muito desta fotografia.

Admirável. Cativante. Inefável. Única.

Deus em todo o seu Esplendor, que é basicamente e acima de tudo Amor, perpassa aqui. Nesta precisa imagem.

Na luz. Na sombra. Na quietude. No perfil. No silêncio. Na escuta. Na dádiva. Na confiança. Na entrega. No despojamento. Na paz …

Em todas as cores e tons que vão do negro ao dourado, do dourado ao rosa, do rosa ao azul…negro. Na noite que finda. Na aurora que desponta. Na beleza simples, frugal mas imponente, da Natureza. No recolhimento comprometido, sincero, tranquilo, natural. Na serenidade que dele transborda. Na distância que vai do perto ao longe. No encanto que torna o longe perto. Sensível. Meu.

Em tudo o mais que sinto mas que as palavras não conseguem expressar e em tudo aquilo que me escapa naturalmente… Na absoluta inefabilidade que preside a este estado de graça.

Há muito que perdi a conta das vezes em que a procuro e demoro-me a olhá-la.
“Adeus Houston. Fui para os Pirinéus.”

De cada vez, Deus, através desta fotografia – da Natureza presente nela e da Humanidade em mim, e ao redor de mim –, me estende a mão e num abraço centrípeto me acolhe no calor do Seu regaço. Conforta-me. Dá-me serenidade. Através d’Ele. Por Ele. Com Ele. E torna-Se próximo. E aproxima-me. D’Ele. De mim própria. Do outro. De tudo. Porque tudo é e conduz a Ele.

E por isso corro, corro para dentro desta fotografia com a mesma loucura aflita com que corro para os braços da minha mãe. E chego a casa, sinto o calor, o aconchego e a paz do seu colo. Sinto o Amor. Esqueço o mundo. Ficou tudo do outro lado. Lá fora. No aqui que é agora sou só eu e Deus-mãe. Não há tempo, não há espaço. Sou só eu e Deus-mãe. Não há princípio nem fim. Só eu e Deus-mãe. Eu e Deus-mãe. Eu Deus Mãe.

*Fotografia gentilmente cedida por Rui Pedro Veiga.

Fotografias...

Gosto de fotografias.

Gosto muito, muito, muito.

Não pelo deambular pela memória que se impõe ante a recordação dos momentos, felizes ou infelizes, que a máquina instantaneamente captou, e nem sequer pela atemporalidade que subjaz ao registo – o que, de certa maneira nos eleva a um patamar para-real em que parece que a eternidade está ali, à mão de semear… (eterna juventude, ingenuidade, beleza, loucura…) – mas pura e simplesmente pela admirável capacidade que as fotografias têm de suscitar em nós, ou pelo menos em mim, um turbilhão de sensações que me fustigam, beliscam o espírito e consequentemente revigoram-me. Lavam-me a alma e vestem-na de ânimo, esperança e sonho. Sempre!
A meu ver é como se, através de uma bela fotografia, fosse dada à Humanidade a possibilidade inexorável de tocar o infinito, com o mesmo sentimento, doce e cândido, de ousadia tímida com que o Homem toca o dedo de Deus no fresco magistral do tecto da Capela Sistina que Miguel Ângelo magnificamente concebeu.

sábado, março 04, 2006

HOME – WHERE WARMTH OF HEART IS.

São três da tarde e neste preciso momento estou sentada na relva, sob a copa de uma árvore cujo nome desconheço, a meio do campus. É o último dia de um Janeiro absolutamente primaveril (à semelhança do que foi Novembro e Dezembro) e o primeiro de Verão em Houston este ano. Isto para espanto de todos aqueles (quase todos) que só aguardavam para daqui a um ou dois meses a chegada deste calor. Há uma brisa suave que me refresca a cara e os braços enquanto escrevo.
Adoro dias de Sol. E de brisa. Luz.
Ao longo do campus vários alunos, sozinhos ou em pequenos grupos, estão espalhados também a aproveitar o muito calor e a apanhar Sol. Como eu.
Não que o Inverno tenha sido rigoroso. Em boa verdade aqui não há Inverno. Até é costume dizer-se que as quatro estações não existem no Texas onde o Verão se estende por todo o ano. A fazer-se uma, a divisão mais adequada seria portanto uma escalar/gradual em termos do calor que se faz sentir todo o ano. Algo do género: Algum Calor (Out, Nov, Dez), Calor (Jan, Fev, Mar), Muito Calor (Abr, Maio, Jun), Calor Insuportável (Jul, Ago, Set). Ainda assim, este ano já tivemos alguns dias com temperaturas negativas (apesar dos trinta graus do fim-de-semana correspondente ao Natal!), sendo que as previsões meteorológicas indicam mesmo que até Março/Abril é bem possível a ocorrência, ocasional mas algo acentuada, de mais alguns destes gélidos, e totalmente inhabituais, dias de Inverno europeu. Por isso é que esta chegada repentina do calor estival é tão importante, tão digna de fruição.
O meu gabinete emprestado é fantástico: claro, funcional, cómodo, sossegado…mas não tem uma única janela! Nem podia. Ocupa a área central do Departamento. O meu gabinete emprestado é fantástico: tem aquecimento central (útil e utilizado apenas dez dias por ano) e ar condicionado (útil e utilizado apenas noventa dias por ano, quando o calor é insuportável) O meu gabinete emprestado é fantástico: tem quatro pessoas lá dentro a trabalhar cada uma em média onze horas, inteirinhas, por dia e níveis baixíssimos de calor humano. (!???!)
Como recém-chegada envido todos os esforços possíveis e imaginários para manter o (pouco) calor humano existente e tento, as mais das vezes em vão, descortinar uma maneira de o conservar. Por isso, fechei a porta de mansinho, quase carinhosamente, não fosse a térmica relíquia escorrer por alguma frincha.
Ainda bem que vim. Delicio-me com este pequeno grande prazer que é estar agora, aqui, a apanhar sol.
Sorvo estes últimos instantes dourados.
Estou nostálgica. Não me apetece trabalhar. Quero apenas sentir o sol e a brisa a baterem-me na cara e nos braços à vez. Quero apenas o calor. Quero a luz desta tarde. Quero a Foz e os meus amigos. Praia. Matosinhos. Gelados. Areia nos livros, nos pés, nos cabelos. Azul. Aqui. Neste preciso momento. Sob esta árvore.

sexta-feira, março 03, 2006

Primavera

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço -
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave -
qualquercoisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é
o sol, o fruto,a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,
que te procuram.

Herberto Helder, Tríptico, A Colher na Boca.