quarta-feira, abril 30, 2008

Ai, os amigos, os amigos...!


Os amigos sabem de coisas que nós nem desconfiamos. Ou desconfiam de coisas que nós nem sabemos (bem).
Os amigos, do tanto que são e sentem, têm curiosidade: perguntam, fazem aquelas perguntas, difíceis, a que não queremos, conseguimos responder. Mas sabem sempre tudo. Souberam desde sempre.
Os amigos não insistem, não forçam. Encontram dentro todas as respostas a todas as perguntas.
Os amigos planearam-nos as bodas. As que nós planeámos. Se calhar, precisamente na mesma altura, como o mesmo ardor, o mesmo carinho e a mesma poesia, de sapatos vermelhos ao longo do arco-íris, com que as planeámos.
Os amigos também ficam estupefactos. É absurda, crua e deixa-nos a todos descalços, ou pior, sem chão nem céu, a verdade, a realidade, por vezes...
Os amigos têm sabedoria e soluções e conselhos e muita pena em que não tenha sido. Quase a mesma pena que nós. Quase a mesma, quase...
Os amigos entendem quando lhes fugimos, ao dobrar a esquina da última resposta. Os amigos entendem. Os amigos entendem.

segunda-feira, abril 28, 2008

No say!...




You Are Cookie Monster



Misunderstood as a primal monster, you're a true hedonist with a huge sweet tooth.



You are usually feeling: Hungry. Cookies are preferred, but you'll eat anything if cookies aren't around.



You are famous for: Your slightly crazy eyes and usual way of speaking



How you life your life: In the moment. "Me want COOKIE!"

quinta-feira, abril 24, 2008

Aniversário.


Nunca percebi bem a etimologia da palavra 'aniversário', do Latim ANNIVERSARIUM, no sentido lit. 'regresso ao ano'. Porque o concebo como o prosseguir de um caminho (necessariamente) para a frente, sempre me aborreceram as explicações palavrosas e à boca cheia - de bolo - que tornavam claro, tão somente para os explicadores, que o tal regresso era ao ano primeiro e era aquilo, estava ali, lá bem no meio da festa, que todo o tipo de celebração é um regresso a algo importante, primordial.
Mas cerca de dois anos depois de ter ido para os EUA, ou seja hoje, e ser "naturalmente" bombardeada com o spam mais spam e desprezível do universo, aquele só os Astrology.Com e Birthday_Alarms.Com dos US of A sabem mandar directamente para a minha caixa de correio da Universidade, é que percebi. Tudo.

Dear Joana,

Happy Birthday! Did you know that on your birthday the Sun returns to the exact position in the sky as it was the day you were born? This is called a Solar Return. Investigating the position of the planets during your Solar Return can give you a great deal of insight on the upcoming year. In celebration of your birthday, we've wrapped a special free sample Solar Return Birthday Reading just for you. Click on the... blah, blah, blah...

Isto sim faz sentido. Há spams que vêm por bem. O spam é amigo...

terça-feira, abril 22, 2008

...


Às vezes tenho saudades dos EUA. Terrível, este tão português sentir falta sempre do que se não tem. Lá tinha audades daqui, aqui tenho saudades de lá... Como se o facto de não se pertencer a sítio nenhum inflacionasse a importância dos momentos que foram, são, serão (para sempre), nossos na intensidade e na verdade com que os vivemos outrora, agora.

Este fim de semana tive saudades dos EUA. Muitas. Mais do que seria saudável, mais do que seria de esperar. A Associação de Antigos Alunos da minha Faculdade reuniu-se e eu estive lá. Mas antes disso, houve a divulgação. Entupiram-me a caixa de correio com ela e pediram-me que divulgasse junto dos meus colegas e alunos. Divulguei. Fiz tudo certo, atempadamente, concisa mensagem pessoal, clara e precisa, com informação detalhada e convite anexo... resultado: ninguém apareceu. E esse meu esforço de reunião, no seguimento do da Faculdade, e outras coisas que aconteceram nesse dia, puseram-me a pensar no tipo de pessoas que somos hoje aqui neste velho continente.

Nos EUA reunião de antigos alunos é uma realidade de há séculos instituída. Leva-se o conjuge, fala-se dos filhos, da casa nova, do jardim que finalmente se conseguiu, do cão que não se dava com gato, mas que agora são os melhores amigos, elogiam-se roupas, cabelos e as formas que se adquiriu ou perdeu, conforme... sabe-se como vai a vida de todos e de cada um. É um serão de conversa entre amigos. Um serão que tem lugar no pavilhão da Universidade, mas que seria possível, exactamente da mesma maneira, à lareira, na casa de alguém.

Ora aqui não. Aqui as poucas pessoas que vão, da minha faixa etária, apenas cinco, e todas de anos de curso diferentes, essas pessoas, levam-se a si próprias, ao seu ego e ao voyeurismo que as levava a farejarem as minhas pautas na Faculdade. Aqui o dia passa-se em interrogatório permanente, na contabilização do que se já se fez e do que se pode ainda fazer para progredir na carreira, no estabelecimento de novos conhecimentos, na bajulação, na maledicência, nas piadas sem piada, nas mensagens subreptícias, na sobranceria, na inveja mal disfarçada. E isso, mais que tudo, cansa-me. Porque não é do meu feitio. Porque costumo sorrir às pessoas com quem falo e dizer a verdade sem meias-palavras, ambiguidades ou mentiras. Devia estar exausta quando, a pretexto de “um beijinho a esta menina linda”, o António furou a multidão de abutres à minha volta e me resgatou do planeta onde me mantinham há tempo demasiado para quem quer que seja, e pretenda continuar, mentalmente são. O António tem dois metros e cem quilos, é a boa disposição em pessoa, esteve no meu curso um ano apenas, quando era jesuíta. Entretanto, apaixonou-se, mudou de curso, casou, teve filhos e desapareceu do meu mundo. Reencontrei-o há tempos, e por acaso, no hi5 e é por aí que vou acompanhando o percurso dele.

Aposto que se esta reunion fosse nos EUA os Antónios e os abraços seriam às centenas e não haveria maneira de eu contornar a questão dos reflexos que ficaram demasiado vermelhos para meu gosto no cabelo...

segunda-feira, abril 21, 2008

quinta-feira, abril 17, 2008

Os meus poetas - 3

Encantar-te-ás com os poetas até conheceres um.
Com calças de poeta, camisa de poeta e casaco
de poeta, os poetas dirigem-se ao supermercado.

As pessoas que estão sozinhas telefonam muitas vezes,
por isso, os poetas telefonam muitas vezes. Querem
falar de artigos de jornal, de fotografias ou de postais.

Nunca dês demasiado a um poeta, arrepender-te-ás.
São sempre os últimos a encontrar estacionamento
para o carro, mas quando chove não se molham,

passam entre as gotas de chuva. Não por serem
mágicos, ou serem magros, mas por serem parvos.
A falta de sentido prático dos poetas não tem graça.

José Luís Peixoto, Gaveta de Papéis*

* Prémio Daniel Faria 2008. Hoje no Teatro do Campo Alegre. Para a semana já disponível nas livrarias.

terça-feira, abril 15, 2008

Do respeito


Às duas da tarde muda o turno na Biblioteca. A pessoa que está responsável pela sala na parte da manhã termina o seu dia de trabalho e outra começa. Suponho que isto acontecei em todas as salas. Acontece, sei.
Uns mais que conhecedores que outros, uns mais rápidos que outros, uns mais interessantes que outros, uns mais simpáticos que outros, na generalidade os funcionários da Biblioteca são bons. Muito bons até. Por isso gosto de vir trabalhar para cá. Tenho o silêncio de que preciso para trabalhar num ambiente que me agrada porque me descontrai e estimula ao mesmo tempo. Mas, preciso de silêncio para trabalhar. Porque só com silêncio me consigo concentrar e só trabalho bem quando me concentro a 200%, o que só se torna possível, naturalmente, com silêncio. Não precisa de ser um silêncio sepulcral, o espaço é público - tenho bem noção disso - pessoas pedem livros, chegam e partem, mais ocasionalmente do que constantemente. Isso é próprio, faz parte da dinâmica do espaço. De manhã, porém, a afluência de público é menor. De manhã, também, é quando trabalho melhor, tudo flui... À tarde, o movimento é maior, mas nada que me impeça de desenvolver as actividades e tarefas que estipulei para o dia. E são muitas, especialmente agora que tenho uma apresentação aí à porta...
Com o barulho dos adolescentes posso eu bem, com as conversas cochichadas das meninas de enfermagem também, até com os atletas ao telemóvel cá dentro eu consigo trabalhar, agora com um funcionário que o tempo que não está ao telefone a matar saudades dos sobrinhos, é passado ao mesmo telefone a tratar do irs enquanto não chega ninguém à procura de um livro, que quando chega esse alguém ouve e é chamado a participar numa longa dissertação acerca do que quer que seja; da chuva ou do calor que não faz, da visita do PR à Madeira, de outra visita de alguém a um sítio qualquer , do jogo de não sei quem ontem, ou da visita guiada que ele pode fazer-lhe à Biblioteca, acompanhada de esclarecimento informático sobre como usar o catálogo. Tudo isto nos decibéis de uma conversa amena entre amigos... NÃO POSSO. Não consigo tolerar. E não consigo tolerar porque não sei o que fazer, como lidar com isto. Normalmente são dois funcionários à tarde e isso, percebo agora, é que o leva a moderar-se. Apanhando-se sozinho à secretária, com a tarde toda pela frente é blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, blá, até mais não. O senhor tem idade para ser meu pai, deve ter anos e anos de serviço e uma vida que bem pode explicar a verborreia. Se assim for, e parece-me que é, ele pode nem ter noção de que a conversa constante incomoda. E por isso, e por tudo o que certamente me escapa, não concebo ir ali à frente pedir-lhe que... deixe de ser quem é(?). Mas o pior é que isso, seja da pressão destas últimas semanas, seja do trabalho, destes e dos dias que se aproximam, está a deixar-me verdadeiramente em pânico. Desde as duas que o trabalho não rende. E não me posso dar a esse luxo. Já fui à casa de banho lavar a cara. Já li o JL desta quinzena. Já fui dar uma volta.Já fui até à sala de de baixo, averiguar se há mesas disponíveis. Não há, claro!
E agora estou a fazer um esforço enorme para não chorar. O mais certo é, daqui a vinte minutos, quando for lá fora comer a maçã do costume, engoli-la com as lágrimas que estou a reprimir neste momento.
O respeito é uma coisa estranha: não sei se a falta de respeito maior é a dele por mim ou a minha. Por mim.

segunda-feira, abril 14, 2008

Lá fora os dias eram de Verão, férias, Agosto em pleno, roupas de cores garridas, gelados e gargalhadas fáceis. Lá dentro não. O ar condicionado forçava o uso de casaco e kispos, que ninguém suporta dezasseis graus de vestidinho, as pessoas muito concentradas nos livros, o silêncio sepulcral, a persistência constante, a determinação inabalável, a entrega, sobre-humana, total. Em nenhum lugar do mundo se estuda tão bem como na Biblioteca de uma (qualquer, suponho) Faculdade de Medicina. A minha irmã estudava para uma melhoria e partilhava a sua enorme secretária comigo. Ao contrário dela, eu estudo non-stop, especialmente de manhã, não necessitando de qualquer tipo de pausa, impressionantemente... nem para respirar desabafa com toda a gente, a minha irmã. Foi numa das pausas dela que aconteceu. Eu estava a milhas embrenhada nos labirínticos diagramas que a gramática cognitiva utiliza para descrever a causalidade, quando sobressaltam duas mãos muito frescas que me tapam os olhos com extremo cuidado e que vêm acompanhadas de um "Há quanto tempo!" muito afável.
Tinha um problema. Mais ou menos sério, dependendo do meu interlocutor, mas ainda assim um problema. Não era a minha primeira vez por ali, no entanto, conhecia apenas duas ou três pessoas, os colegas e amigos da minha irmã que calhou encontrarmos nos corredores das vezes, poucas, que lá tinha ido, aquela voz (e aquelas mãos) definitivamente não conhecia. Os dois segundos ou três que isto durou passaram, naturalmente, e eu não sei que cara fiz quando ele retirou as mãos, mas ele diz, ainda agora, que passou a maior vergonha da vida dele. Ficou tão constrangido, sem tecto, sem palavras, sem chão, e eu ri-me - percebi logo o que tinha acontecido – e, por isso, tratei de lhe dizer o mais imediatamente que me foi possível que a Teresa estaria de volta daí a nada. Atrapalhou-se nas desculpas, que somos iguais, mas não, nem por isso, que o cabelo é igual - não é, mas está bem, “a cor, a cor pode bem ser igual, a genética deve explicar isso, não?” E pronto, acalmou, sorriu, desculpou-se pela enésima vez, despediu-se e voltou ao estudo. Logo, logo a Teresa regressou dos confins do corredor e da pausa, esta, para mim, muito maior que todas as outras, logo, logo também ele veio, “porque tinha que explicar, se não, a tua irmã fica a pensar que aqui na Faculdade somos todos tarados, e ainda pede uma providência cautelar que impeça de me aproximar num perímetro de 150 metros, como nos EUA, ou tu, Teresa, nunca mais a trazes cá...” E rimo-nos e fomos todos almoçar.
Continuei a ir para lá nos dias seguintes, ele não. Depois, meses depois, exames e melhorias feitos, encontrei-o novamente e apesar de o “Olá!” dele ter sido nitidamente forçado, a conversa que se seguiu foi afável. Como é que eu posso explicar que apesar de muito tímido, de ter uma série de problemas pessoais, familiares e académicos verdadeiramente incompreensíveis, e das circunstâncias em que nos conhecemos não terem sido propriamente propícias a uma convivência descomplexada, ele seja muito naturalmente afável? Possivelmente por isso me convidou para o seu aniversário, mais de meio ano depois, e eu não quis ir, porque não éramos propriamente amigos e porque onde se juntam dois ou mais médicos (ou alunos de Medicina, a diferença, no caso, é muito pouca!) só se fala de Medicina, e os porques não me valeram de nada porque a minha irmã tinha outro compromisso mas uma prenda para ele que era imperioso que alguém, eu, lhe desse, que ela ia lá ter no fim, se lhe fosse possível, quase de certeza que não era, que isto, que aquilo... Fui. E, coisa rara, atrasei-me, e ao chegar tapei-lhe os olhos e ele obviamente soube que era eu, não pelo gesto, mas porque já lá estava toda a gente, excepção feita à minha pessoa. Foi a minha vez de passar pelo constrangimento. “Ficamos quites, então!” Ficámos. E amigos também. (Desde então sem constrangimentos.) Ele, nem sei bem como, leva-me aos locais mais espantosos: aos restaurantes mais simpáticos, às mais deliciosas pastelarias, aos sítios mais bonitos que, só graças a ele, conheço. Tem o dom de pôr em tudo o que diz e faz o mesmo cuidado com que me tapou os olhos daquela primeira vez. O Filipe faz anos hoje. Vinte e sete.

sexta-feira, abril 11, 2008

A Carta da Corcunda para o Serralheiro

O Turismo Infinito está em reposição no Teatro Nacional São João, estes são os últimos dias: os bilhetes esgotam rápido. No entanto, para os audazes com meia dose de paciência há sempre um bilhete de última hora - que o bom português reserva bilhete, mas não aparece - vale a pena. Pessoa vale sempre a pena. Fui ver ontem, não me arrependi. Transcrevo em seguida um dos poucos monólogos femininos do espectáculo. Delicioso.

(...)
"Ainda me lembro daquele dia que o senhor passou aqui ao Domingo com o fato azul claro. Não era azul claro, mas era uma sarja muito clara para o azul escuro que costuma ser. O senhor ia que parecia o próprio dia que estava lindo e eu nunca tive tanta inveja de toda a gente como nesse dia. Mas não tive inveja da sua amiga, a não ser que o senhor não fosse ter com ela mas com outra qualquer, porque eu não pensei senão em si, e foi por isso que invejei toda a gente, o que não percebo mas o certo é que é verdade.
Não é por ser corcunda que estou aqui sempre à janela, mas é que ainda por cima tenho uma espécie de reumatismo nas pernas e não me posso mexer, e assim estou como se fosse paralítica, o que é uma maçada para todos cá em casa e eu sinto ter que ser toda a gente a aturar-me e a ter que me aceitar que o senhor não imagina. Eu às vezes dá-me um desespero como se me pudesse atirar da janela abaixo, mas eu que figura teria a cair da janela? Até quem me visse cair ria e a janela é tão baixa que eu nem morreria, mas era ainda mais maçada para os outros, e estou a ver-me na rua como uma macaca, com as pernas à vela e a corcunda a sair pela blusa e toda a gente a querer ter pena mas a ter nojo ao mesmo tempo ou a rir se calhasse, porque a gente é como é não como tinha vontade de ser.
(...)
- e enfim porque lhe estou eu a escrever se lhe não vou mandar esta carta? O senhor que anda de um lado para o outro não sabe qual é o peso de a gente não ser ninguém. Eu estou à janela todo o dia e vejo toda a gente passar de um lado para o outro e ter um modo de vida e gozar e falar a esta e àquela, e parece que sou um vaso com uma planta murcha que ficou aqui à janela por tirar de lá.
O senhor não pode imaginar, porque é bonito e tem saúde o que é a gente ter nascido e não ser gente, e ver nos jornais o que as pessoas fazem, e uns são ministros e andam de um lado para o outro a visitar todas as terras, e outros estão na vida da sociedade e casam e têm baptizados e estão doentes e fazem-lhe operações os mesmos médicos, e outros partem para as suas casas aqui e ali, e outros roubam e outros queixam-se, e uns fazem grandes crimes e há artigos assinados por outros e retratos e anúncios com os nomes dos homens que vão comprar as modas ao estrangeiro, e tudo isto o senhor não imagina o que é para quem é um trapo como eu que ficou no parapeito da janela de limpar o sinal redondo dos vasos quando a pintura é fresca por causa da água.
Se o senhor soubesse isto tudo era capaz de de vez em quando me dizer adeus na rua, e eu gostava de se lhe poder pedir isso, porque o senhor não imagina, eu talvez não vivesse mais, que pouco é o que tenho de viver, mas eu ia mais feliz lá para onde se vai se soubesse que o senhor me dava os bons dias por acaso.
A Margarida costureira diz que lhe falou uma vez, que lhe falou torto porque o senhor se meteu com ela na rua aqui ao lado, e essa vez é que eu senti inveja a valer, eu confesso porque não lhe quero mentir, senti inveja porque meter-se alguém connosco é a gente ser mulher, e eu não sou mulher nem homem, porque ninguém acha que eu sou nada a não ser uma espécie de gente que está para aqui a encher o vão da janela e a aborrecer tudo que me vê, valha-me Deus.
O António (é o mesmo nome que o seu, mas que diferença!) o António da oficina de automóveis disse uma vez a meu pai que toda a gente deve produzir qualquer coisa, que sem isso não há direito a viver, que quem não trabalha não come e não há direito a haver quem não trabalhe. E eu pensei que faço eu no mundo, que não faço nada senão estar à janela com toda a gente a mexer-se de um lado para o outro, sem ser paralítica, e tendo maneira de encontrar as pessoas de quem gosta, e depois poderia produzir à vontade o que fosse preciso porque tinha gosto para isso.
Adeus senhor António, eu não tenho senão dias de vida e escrevo esta carta só para a guardar no peito como se fosse uma carta que o senhor me escrevesse em vez de eu a escrever a si. Eu desejo que o senhor tenha todas as felicidades que possa desejar e que nunca saiba de mim para não rir porque eu sei que não posso esperar mais.
Eu amo o senhor com toda a minha alma e toda a minha vida.
Aí tem e estou a chorar."

Maria José

quarta-feira, abril 09, 2008

Os meus poetas - 2

Estava no terceiro ano da Faculdade quando assisti pela primeira vez a um encontro de alunos e Professores da Faculdade que a organização pretendia "Tertúlia Literária". Passámos horas e horas debruçados sobre o que se segue. Hoje ao encontrá-lo, igual, mas tão diferente, num sítio de eleição destes lados blogosféricos, penso no que teria acontecido se eu tivesse sabido dizer nessa altura o que sei hoje...

Não sei como dizer-te que a minha voz te procura

Não sei como dizer-te que a minha voz te
a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e casta.
Não sei o que quer dizer, quando longamente teus pulsos se
enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
- eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas de melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu ascético escuro e em turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a minha cara ardesse pousada na noite.
- E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
- não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me falta
um girassol, uma pedra, uma ave qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.

Herberto Hélder

terça-feira, abril 08, 2008

D(es)(a) culpa


Desde sábado que temos por cá um temporal. Já nesse dia sublinhei a desmesura da chuva, mas ninguém me deu razão. Tanto o meu pai como a minha mãe disseram logo que na Madeira chove assim, embora mais de Janeiro a Março, que a chuva de Abril é daquela assim mais pequenina, mas que faz falta de vez em quando... - o meu pai. Mas também com o que se tem feito ao ambiente em todo o lado, por cá também, que o tempo ande ele próprio desorientado, não é de admirar... - a minha mãe. E eu calei a estranheza e fui ver um filme no computador que dias de chuva dão-me muito para isso.

Agora, ainda há pouco, éramos notícia em todos os canais de televisão porque a tromba de água desta manhã foi monumental e parou o trânsito, todo, rodoviário, marítimo e aéreo, e o vento levou árvores e vedações para longe e as pessoas, nem sei como foram as pessoas trabalhar, a minha mãe, especialmente, pelas razões óbvias... E a culpa é de quem? - estava a pensar, deve haver alguma depressão ou frente fria ou quente (a Geografia sempre foi, infelizmente, o meu calcanhar de Aquiles) ao largo dos Açores - também lá a chuva aflige - que se dirigiu recentemente para cá (e para o Norte de África, Marrocos está como nós, vi esta manhã na CNN).Ok, a culpa é da depressão ou de uma das frentes. E isso satisfaz-me. Culpa equivalendo portanto a responsabilidade por alguma coisa no sentido causativo. Muito bem.

Uma aluna e uma professora envolvem-se num episódio deplorável para as duas e decadente para todos por causa de um telemóvel. E a culpa é de quem? Segundo os media e a intelligentzia portuguesa não da aluna, não do sistema de ensino, não da política, (para alguns pais, é da professora (!?)), embora a opinião generalizada é a de que o melhor será repartir os estragos por todos e (consequentemente) por ninguém, sendo este um episódio isolado até, um acto sem culpa atribuível, logo, para mim - absurdamente, sem causa, porque, apregoa a mesma intelligentzia, todo o mundo moderno, i.e. a Alemanha, a França, os E.U.A., se debate com o mesmo problema. E isto, pior do que não me satisfazer, não me convence. Hoje em dia, a culpa já não morre solteira: o mundo moderno abortou-a no período regularmentar.

Há dias na Alemanha um tribunal concedeu a um pai a anulação do dever de pensão de alimentos ao filho, porque no parecer do referido tribunal o direito de o homem não pagar seria o equivalente ao direito de a mulher não ter o filho (ou seja, fazer o que quiser com o seu corpo). E portanto, uma vez mais, no mundo moderno: a aniquilação da responsabilidade, da culpa, que o vocábulo é mesmo este e é errónea a interpretação mais ou menos judiciosa (judicial?) do termo - culpa como castigo, não o é, pode ser a ele conducente mas também pode o não ser.

Percebo muito pouco de Direito, mas são demasiados os episódios a que assisti recentemente que patenteiam uma constante e progressiva desculpabilização, evidente em demasiados sectores da vida social. Se calhar a culpa é de estar na Madeira e o temporal ser pior de dia para dia e eu sair pouco e os meus pais terem tv cabo, se calhar a culpa é de eu estar a trabalhar menos e a ver mais tv, vai-se a ver a culpa é minha - sempre me disseram que tenho uma tendência para o exagero. (Quase aposto que ao retirar-se o conceito de culpa do divórcio, porque as pessoas não sabem o que é a culpa, e poucos parecem querer explicar e debater antes de retirar, abrir-se-á o caminho a aberrações como esta alemã. Exagero?) Ou se calhar não, se calhar a culpa não é minha, é nossa, e assim de ninguém, o que faz pendant com o relativismo absoluto em que assentam as pseudo-pedagogias do mundo moderno em que "as desculpas não se pedem: evitam-se".

As desculpas não se inventam, nem se evitam - é impossível, todos os dias erramos, várias vezes vemos o resultado, nem sempre muito agradável, disso, pelo que o aceitarmos isso e galvanizarmo-nos para o consequente pedido de desculpas devia ser um reflexo, natural, sincero e imediato -; a(s) culpa(s) conhecem-se e reconhecem-se e as desculpas pedem-se e dão-se num mundo realmente moderno.

segunda-feira, abril 07, 2008

sexta-feira, abril 04, 2008

Desafios

A Cientista é minha homónima e lançou-me um duplo desafio.

O primeiro (DESAFIO) nomear seis factos "ridículos" (trd. livre) sobre a minha pessoa. Dei o meu melhor, mais ridículo é difícil... O desafio foi escrito em Inglês. Primeiro, porque assim o fez a Joana no seu blog, muito embora ela esteja no Reino Unido e talvez seja essa a razão da anglofonia; depois, porque se tivesse escrito isto em Português seria muito mais assertivo. E eu não quero ser assertiva em relação ao absurdo, muito menos na minha língua. Faz-me lembrar um episódio que se passou comigo em que um meu interlocutor, português, me dizia "Tenho um bulletproof heart. Nunca me apaixono." Há coisas que custam dizer na nossa língua, porque só ela nos deixa completamente a descoberto.
Six useless facts about myself:

1) I love rotines. They give a sense of security I appreciate very much. I have turned my rotines into a daily ritual. (I always sit at the same place, every day, in the subway, train. Since College I always have breakfast in the same coffee shop in Braga and ask for the same breakfast... Actually I no longer ask, it is always there steaming hot and all set for me!) I always sit at the same desk in the library, ask the same guy for the books I need and go pick them up everyday at the same time in the morning or in the afternoon. Now that I think about it, this is probably why the guy at the desk is always so kind to me... ).
2) I love the sun light. I always work facing the street through the window. And I always pause when a sun ray demands my gazing outside. Windows make you work harder!

3) From time to time I spend one day of the weekend, either Saturday or Sunday, in my sofa in pj's. These are the days I devote my personal splurging and pampering... I read, I write, I cook, I eat (more than I should and often the wrong but yummiest stuff) and I think... too much about nothing (special) most of the time...!
4) I usually go to sleep at 10.30 pm. If I don't, at around 11.30 pm my good humor is all gone and I can no longer keep my eyes open. This is because I am used to getting up very early in the morning, I have a very long working day, which is not very convenient whenever I go out with friends, although most of them are by now aware of this and don't mind my leaving at around midnight. Most of my friends say it's children's sleeping hour, but I don't care. I get up every morning at 5.30 am.

4) I am completely obssessed with cameos (So far, I have got more than 50, in plastic, in silver, in gold, in crystal, from Italy, from Paris, from all over...) I got the first one from my grandma, the second my mum bought, and from then on almost everybody in the family has contributed to my collection.

5) I dream one day I will be able to write school books. All of them, the ones of Língua Portuguesa of course, but all of them, from elementary to high school. (By then, portuguese children in elementary schools should have theatre and writing courses as they have music and sports (P.E.). This is something I have cherished for a while now, since my training year at Esc. Sec. Pov. Lanhoso.

6) I think I could live on cheese , any kind, and green olives my whole life!

I now need to challenge 6 other people to share 6 meaningless things about them on their blogs. The first 6 people to comment on this post are automatically challenged. (This meaning that the rules above are a pro-forma).
The rules are:

1. Place a link to the person who challenged you.
2. Place the rules in your blog.
3. Share 6 meaningless/insignificant/useless facts about yourself.
4. Challenge 6 other people.
5. Let them know you’ve challenged by placing a comment on their blogs.

O segundo (DESAFIO) incide sobre uma questão com que me debato muitas vezes. O Porquê do Blog. Deste blog.
Este blog começou nos E.U.A. No primeiro semestre que passei na Rice em Houston. Criei-o por uma razão muito simples: para não me esquecer.
Para não me esquecer de casa, da minha mãe, dos cheiros, das flores, das uvas, do meu avô, das minhas tranças e do chapéu, dos joelhos esfolados, das minhas irmãs e do meu irmão, do Baía, da minha tia, da canja do fim do ano. Para não me esquecer. Os textos dessa altura mostram bem.
Secundariamente, este blog foi um dos elos de ligação com os meus irmãos e com os meus pais que queriam saber como eu estava e o que fazia, coisas tantas e tão variadas que não podia descrever como gostaria por telefone ou no Messenger. E daí, novamente, para não me esquecer.
Nunca teve este blog por objectivo a construção de uma comunidade de leitores, muito menos de amigos. (Nunca escrevi um comentário esperando outro, de volta, por cá. Sempre comentei apenas e tão só o que me apeteceu, quando me apeteceu, ainda hoje o faço, só assim.) Os leitores e os amigos acabaram por acontecer. E ainda bem. Guardo do meu lado esquerdo como a poucos destes lados a minha querida Maria de Lourdes, o Rui e a Orquídea. Conheço-as, já partilhámos refeições e sorrisos, e mesmo nunca me tendo encontrado com ele, gosto de sentir que o conheço.
É por eles, de algum tempo a esta parte quase exclusivamente por eles, e por mais uma meia dúzia que não nomeio, que este blog continua. Não tanto para que me leiam os posts, mas o coração, e assim nos continuarmos a dar e a conhecer.