sábado, janeiro 31, 2009

Hoje - mais logo - eu - ...


Braga sou eu de manhã, quando chego estremunhado, coloco o guarda-chuva no bengaleiro e me sento ao computador, maldisposto. Braga sou eu de manhã, quando, por ti, ajeito o cabelo no reflexo de uma montra. Braga és tu quando desces as escadas e és toda luz no vestido azul. Braga és tu quando me dás os “bons dias” com sono a pender de cada palavra. Braga é gente que entra e sai de autocarros antigos com o raiar do dia na voz. Braga é gente que fala alto, ri muito e dá a mão fácil, como se desde sempre houvesse uma só família. Braga é um galo que nunca vi, ou dois, três (?), na fachada de uma igreja sozinha. Braga é uma igreja que dá lugar a outra, que dá lugar a outra, que dá lugar a outra..., um rosário de igrejas da cor do tempo que os meus olhos exploram com o fervor dos dedos. Braga é o trabalho de cada dia que junto às preocupações de sempre e meto na mala de véspera. Braga é o trabalho de cada dia que teço e só interrompo quando te sinto na luz da janela. Braga é um domingo velho como a Sé, onde passo uma hora, longa, ao som de um órgão que quer chegar ao céu. Braga é um domingo em que o Sameiro dá à alma dos olhos a dimensão da cidade, por um canudo. Braga é gente que se acotovela, molhada, em manhãs de sábados que correm apertados, entre sacos de compras e miúdos que metem o dedo no nariz. Braga é um sorriso de cinco anos que tento roubar antes que a vergonha o enfie no bolso maior da bata listrada de azul e vermelho. Braga é um xaile negro que me abafa com uma ladainha surda. Braga é uma velhinha que pede esmola debaixo de um arco, ao fim da tarde. Braga é o jeito da tua mão, e aquela ruga na testa, quando escreves. Braga é a tua barba de dois dias à segunda-feira de manhã. Braga é um rio sangrado até ao tutano do nome, um lastro de morte sob o cheiro a barroco e a cera. Braga é caldo verde, bacalhau, cabrito, sarrabulhos e pão de ló. Braga é lá para cima, acima da cidade, muito acima da paisagem, Braga é a província. Braga é uma cartada gasta de paus e copas numa mão grossa de fazenda. Braga é o pregão de um sonho no autocarro: uma volta ao mundo aos oitenta e dois anos via euromilhões. Braga é o teu olhar em mim quando me deito e vou contando o bater dos sinos até o reencontrar, de manhã. Braga é saber-te inteiro no meu olhar, quando ponho os óculos de sol para sair, de manhã. Braga é o beijo que o pai dá à filha para amainar a birra por um doce. Braga sou eu quando tenho medo e me torno areia por entre o que dizes. (...)


Bárbara Sebastião

Obrigados a Entrar em Braga Algo Desconfiados

AA.VV. Fundação Bracara Augusta, Dez. 2008

sexta-feira, janeiro 30, 2009

Amanhã


Diz que sim.
Diz que é amanhã. Diz que pensam que é livro. Não é. (É uma espécie de conto.) Diz que pensam que é o primeiro. Não é. (É uma espécie de primeiro. O primeiro deste lado. Deste lado esquerdo do Atlântico pessoal.) Diz que vai lá estar muita gente. Não vai. Até aposto que. Só quem importa. Só quem é importante. Até porque chove. Diz que chove e que vai chover, amanhã, muito, e que eu vou de vestido. Ou de saia. É sempre assim quando chove. Sou sempre assim quando chove. Ou o contrário: quando chove sou sempre assim, ou assim sou.eu a modos que sempre. Diz que é sempre assim.
Diz que. É amanhã. Sim.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Para os ouvidos, mas de deixar qualquer um... nu!

1- És homem ou mulher?

Strange Fruit - Billie Holiday


2 - Descreve-te.
How am I to know - Billie Holiday

3 - O que as pessoas acham de ti?

I don't know what it is - Rufus Wainright


4- Como descreves o teu último relacionamento?
This boy (também aqui) - Rufus Wainright, Sean Lennon, Robert Schwartzman

5 - Descreve o estado actual da tua relação.
I get along without you very well - Chet Baker
(aqui pela Billie Holiday e aqui pela Nina Simone)

6- Onde querias estar agora?

Over the rainbow - Israel Kamakawiwo Ole
(aqui pelo Rufus Wainright, olhos rasos de.)

7 - O que pensas a respeito do Amor?
I'll be seeing you - Billie Holiday

8- Como é a tua vida?
Across the Universe (também aqui) - Rufus Wainright

9- O que pedirias se tivesses um só desejo?
Cigarettes and Chocolate Milk - Rufus Wainright

Naaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!!!!!

Someone to watch over me - Martha Wainright

10- Escreve uma frase sábia.
I'm going to lock my heart and throw away the key - Billie Holiday
(aqui pela Carmen McRae)
(Tal como na subida para os Clérigos, lembra-se, menina Ana?)

I want a little sugar in my bowl - Nina Simone
(porque ainda ontem à noite a ouvi para adormecer e agora estremeci porque a acabam de mencionar e eu!)

Quem quiser fazer o mesmo no seu cantinho, sinta-se intimado.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Hoje a Teté faz anos!!!


Da esquerda para a direita: Eu e a Teté

Vinte e seis. (Começa precisamente hoje, como sempre todos os anos, a minha contagem decrescente dos dias que faltam para os meus mais dois.)

Este ano começou diferente. Sobrou-nos o espaço no quarto, faltaram os risos e as histórias e as piadas ao jantar, esvaziou-se um lugar à mesa. Aumentou o silêncio – ecoa, sabes?, quando rodo a chave ao fim do dia, todos os dias. Também passou a reinar um certo vazio nas tardes de domingo, as mesmas em que se me multiplicam as tarefas.

Hoje a Teté faz anos. Longe. Numa ilha que nem sequer é a nossa, com muita gente, mas sem nós. Sem nós a jantarmos todos, sem nós a cantarmos os Parabéns, sem nós a soprarmos as velas de um mega-bolo de chocolate, sem nós a sairmos depois.

Crescemos, todos, e connosco a distância – ou o contrário, é mais isso. Isso e os telefonemas diários. Têm que se continuar a quase só falar em Inglês – já andamos nisto há vinte e dois anos... –, tem que se continuar a discutir e a problematizar em Inglês e, muito importante, tem que se assegurar a perpetuação das private, a nossa tradição de private jokes em Inglês, of course. Nem que seja por meio de um fio.

Hoje a Teté faz anos. Longe. Mas bem. Na sua casa, com uma série de amigos e colegas, irmãos emprestados, um serão que promete e... dois, não é?, dois mega-bolos de chocolate.

Há coisas que nunca mudam. Quando os nossos avós celebraram as Bodas de Ouro houve grande festa lá em casa, e a Teté, que não teria mais de quatro anos, foi a estrela da festa. Para a posteridade, a fotografia da Teté vestida ainda de festa – para os menos entendidos: lambuzadíssima de chocolate –, dedo na boca, a dormir o sono dos gulosos por cima da colcha da cama.

A História também reza de um desaparecimento súbito, para debaixo da mesa da cozinha, por motivos mais ou menos idênticos, de índole gastronómica, pelo menos. Tal como está nos cânones o dia em que os peixes da nossa lagoa – eu pedia tanto “um peixe na mão” a toda a gente lá de casa e ninguém nunca!... – me vieram ter às mãos (literal e finalmente!) via vassourada ágil e determinada da Teté.

Acho que é isto mais ou menos que está neste sorriso e no olhar que quem não a conhece pode adivinhar. Pro-activa, confiante, polivalente, extremamente inteligente, por baixo do estetoscópio fuschia um coração de manteiga (de cacau!), um dos melhores seres humanos que conheço, a minha mana Teté. Parabéns!!!

terça-feira, janeiro 27, 2009

A amada do Poeta

Disseram-me assim: É aquela.

É aquela. Baixinho, cotovelo no cotovelo, olhando de lado, disseram-me assim. E eu olhei. Aquela. Aquela era linda: pele clara, cabelos claros, olhos claros - imagino que a Beatriz do Dante fosse mais ou menos aquela. Era linda. Emanava a fragilidade e a doçura e o encanto e... e... e... que as meninas bonitas têm sempre, têm naturalmente, têm. Era linda. Frágil, misteriosa, grácil - tempos houve em que a isso se chamava o doce gesto. Lin-da. Linda, mesmo. E antes da universal mesquinhez feminina se me pôr à frente e grunhir o pois claro, só podia, esperado e pequeno, quase natural, vi aquela sorrir.

E então disse: É muito bonita.

O que até podia ser uma outra maneira de grunhir, mais cobarde, para dentro, sozinha. Mas não era, não foi. Havia simpatia naquele muito. Muita simpatia minha naquele muito.

Porque olhei no momento exacto em que sorria espontaneamente, dei com o sorriso a desenhar-lhe uma série de rugas na pálpebra esquerda. Quatro. Quatro rugas a subir do fim do olho pálpebra acima. Quatro rugas marcadíssimas, ali, exactamente no mesmo sítio, mas mais marcadas, muito mais marcadas que as minhas, muito mais marcadas que todas as outras suas, também. Quatro, ali. Quatro, como eu. Quatro. Foi quando disse: É muito bonita. E pontuei a avaliação com um sorriso final. (Um daqueles que uso para fugir a dizer o que penso.)

Sorri. Não disse o que pensei. Porque o que pensei foi: Ora ali está alguém que já adormeceu muitas noites a chorar. E isso é coisa que não se diz assim.

sábado, janeiro 24, 2009

Fui vigiar um exame a uma pessoa com a tua cara

Fui vigiar um exame a uma pessoa com a tua cara. Ontem. Fui vigiar um exame ao primeiro ano de uma cadeira do meu Orientador. Ontem. Ontem, quando a minha manhã começou seis horas depois do habitual de todas as manhãs. Ontem, quando eu tinha o tarde a que me deitei estampado no fundo dos olhos. Ontem. Ontem, fui vigiar um exame a quarenta e uma pessoas: quarenta e uma caras; dois bonés que permaneceram na cabeça as duas horas e meia; uns boxers do Nemo a saltar de uma cintura desaparecida, um par de phones que não queria sair dos ouvidos respectivos; oitenta e dois olhos a quererem ser mais para a esquerda e para a direita, para trás e para a frente, antes de eu distribuir os enunciados e a ditadura joanina - com um sorriso; uma cara, a tua, ontem.

Fui vigiar um exame a uma pessoa com a tua cara. Ontem. Nunca teria reparado na tua cara ali, se quem a tem não me tivesse agradecido o enunciado. Ou a ditadura com sorriso. Quarenta e uma pessoas, dois bonés, uns boxers do Nemo, um par de phones, um obrigado. Um obrigado com a tua cara.

Fui vigiar um exame a uma pessoa com a tua cara. Ontem. O outro colega vigilante sempre no estrado. Fui para onde gosto de os olhar: o fundo da sala. Já tive aulas naquela sala. Já dei aulas naquela sala. De todas as salas, qualquer sala, o fundo para os olhar. Muito quieta, toda olhos, fiquei à espera. No fundo da sala. Toda olhos à espera. Da altura dos suspiros, da hora daquele soprar para o lado que faz esvoaçar as franjas, do trocar de pernas indeciso, do remexerem-se nas cadeiras, de..., nada. Nada. Nada. Nada. Das duas uma: ou tenho muito jeito para as ditaduras, agora têm medo de respirar, ou esta gente não é feita da mesma massa que - pensei, enquanto deambulava por entre Puccas e a tua cara. A tua cara. Em partes: não os olhos, não a boca, não de todo o nariz, as sobracelhas talvez, as sobrancelhas, não, mas a tua cara, a tua cara numa outra cara. Baixa as duas horas e meia, obscurecida de luz pelo nervoso miudinho todo o tempo, a tua cara ali numa outra, aquele rosto anguloso, clássico, a tua cara, que não se deixou repousar no meu olhar senão no obrigado e no adeus. A tua cara, ali.

Fui vigiar um exame a uma pessoa com a tua cara. Ontem. E pus-me a pensar no tempo. No deles, no nosso, no meu. Alguma vez, outrora, agora. Pus-me a pensar no tempo. Em como cria espaços, quanta Pucca, meu Deus!, falhas, dois bonés, uns boxers, um par de phones, em como gera o vazio. Em como enfraquece o entendimento. Mea culpa. Em como o sentimos passar: rápido, se estamos velhos; devagar, se, aqueles quarenta e um, novos. Fui vigiar um exame a uma pessoa com a tua cara. Ontem. E não consigo deixar de pensar por que me apareceste ali, ao fim de tanto tempo, Luís.

quarta-feira, janeiro 21, 2009

Sem palavras

Houve um tempo em que ele vinha.

Nesse tempo, remexia as estantes, os livros, os livros das estantes; nas estantes compunha, descompunha, repunha. Muito, sempre. Sempre até se cansar, ou até achar que bastava. Sempre até achar, querer olhar, janela fora. Postava-se à minha frente para olhar a rua da minha janela. Muito direito, esticadinho, ver-ti-cal, tirava-me a luz do dia, dava-me outra, para olhar janela fora. Olhava muito, sempre. Sempre até se cansar, ou achar que bastava, e pôr, compor, descompor, repor os livros da exposição. Não dizia palavra, dizia tanto, não dizia palavra, nunca. Olhava. Só.

Nos dias em que calhava não estar por perto, e eram muitos às vezes, por dá cá aquele livro, por... quê?, na-da, por nada, vinha cá acima olhar sala fora, olhar: -me, a sala, os livros, as estantes, a janela, a exposição... Olhar só. Do cimo das escadas, olhava como se deve olhar sempre. Só. Sem mais. Vinha cá acima para olhar sem mais. Dali, dele, nunca, nenhuma palavra. Todo olhar.

As palavras estragam os laços. As palavras estragam os laços que começam nos olhos. As palavras ditas desfazem os laços. Desfazem. Descobrem. Destroem. Desatam. Os laços.

Devíamos ser mudos. E surdos. Todos, à nascença. Devíamos ser olhos e mãos. Só. Devíamos dar palavras de comer aos peixes. Todas as palavras. Sempre. Até não haver o que dizer. Até não haver mais o que dizer. Até só restarem palavras de mãos e palavras de olhar. Olhar, sobretudo. Olhar. Só.

Agora, neste tempo que não há, mas é, é ela que vem. Agora é o tempo em que ela vem. Remexe as estantes, os livros, os livros das estantes; nas estantes põe, compõe, descompõe, repõe. Cirandea muito, sempre. Exactamente como ele. Todos os lugares, cada paragem. Toda olhar. Mas não como ele. Olhar só. Como ele, nunca. Até vem à minha janela, até ajeita a exposição. Até se posta à minha frente, cega para a rua: posta-se à minha frente para me olhar. Até me sorri. Para me olhar por fora. Até é o sol que não faz, a chuva e o frio lá fora, a janela que eu posso abrir, se quiser – está tão abafado, não acha? Para me olhar de viés. Até é a última requisição – não é para si, não? ... como se chama?. Para me olhar por dentro. Até. Neste tempo que não há, mas é, ela é um chorrilho de palavras rasgadas de um sorriso em forma de olhar que não o é, um olhar terrível, de... selva.

A vida leva-nos por caminhos estranhos. A minha, por agora, para longe deste tempo. Sem palavras.

terça-feira, janeiro 20, 2009

As pessoas dos blogs




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Dizem-me que quando eu normalizar, é esta a palavra: normalizar, deixarei de ter um blog. Este blog. Dizem que deixará de fazer sentido. Dizem que deixarei este espaço, a blogosfera, tudo. Que os mundos paralelos dos blogs fazem mal. Que os blogs fazem mal. Que as pessoas dos blogs, os que escrevem, leem, comentam os blogs, fazem mal.
Concordo com tudo, já vivi muita coisa, já vi de tudo. Faz o maior sentido, todo o sentido. Mesmo. Mas ainda assim, por teimosia, por despeito, por ingenuidade, por amizade, por que sim e porque não?, por todos os pores e porques, cá vou estando, mais ou menos substante.
Para a posteridade, por cá, em jeito de vénia, uma fatia pequenina das melhores pessoas dos blogs que conheço, por todas as razões mas muito especialmente porque me chegaram ao mail com estas palavrinhas: as fotografias tiradas na nossa mítica saída ao Porto ainda no ano passado, em Dezembro. E eu gosto de coisas míticas.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

De ter promessas felizes à espera

Tenho andado a pensar muito em regressos. No regresso. De hoje. De sempre. Não durmo. Não ando a dormir muito. Acordo todos os dias às três da manhã, três e vinte, três e quarenta, três e dez. Acordo comigo aflita, a falar, a falar, a falar a falar. Não ando a dormir bem.

Acordo comigo a dizer Foi o tempo que perdeste com tua rosa que a fez tão importante. Repito muito isto, é a repetição que me acorda. Penso numa data de coisas, com sentido mas sem importância, e quando dou por mim: regressos. Outra vez.

Acordo comigo a dizer Era melhor teres vindo à mesma hora. Por exemplo, se vieres às quatro horas, às três, já eu começo a estar feliz... fico a conhecer o preço da felicidade! Isto não repito. Isto chega para ficar acordada a pensar. E não é na crise. Preços. O preço. As melhores coisas da vida não têm preço: regressos. Outra e outra vez.

Só conhecemos o que cativamos. Repito muito isto também. Conhecer é um problema, com o conhecimento vem a responsabilidade, com a responsabilidade a ética, com a ética a incompreensão, com a incompreensão: regressos. Vezes sem conta.

Li O Principezinho pela primeira vez aos onze anos, era preciso, para Português, reli-o dez anos depois em Paris, porque sempre que saía das aulas aquela capa colocava-se à frente de todos os lápis e afias e borrachas do principezinho, à frente de todas as malas e mochilas e troleys do principezinho, à frente de todos os posters, postais e molduras do principezinho, todos os fins de tarde aquela capa entrava-me a doer pelos olhos dentro desde aquela montra enorme em frente ao Institut d’Études Ibériques, por detrás do Panteão. (E eu precisava muito de colo.)

De tanto pensar: chegamos a todos os lugares, mas regressamos aos lugares que são nossos. Não aos que nos deram, não aos que fizemos nossos, não aos que, achamos, nos pertencem, não: regressamos aos que são. Nossos e pessoas. Os lugares são pessoas. As pessoas fazem os lugares e os regressos estão sempre guardados, e certos, muito certos, aos lugares que são, sabemos, nossos, muito nossos, desde o início, desde antes, muito, muito antes, de lá termos chegado. Não vale a pena querer. Querer mesmo, querer muito, muito, muito, muito, muito, não, não vale. O importante é crer. Crer só.

Regressei hoje.

De manhã, deram-me uma joaninha e colo, muito colo, um colo bom, aquele colo que se dá a quem tem vinte e sete anos e, mal de profissão, pensa, problematiza, questiona, hipotetiza, demasiado.

Ao almoço, nem de propósito, abanaram-me da maneira mais doce possível, perdi o apetite, mas ganhei-me, e tão completamente quanto se pode, pela amizade, pela esperança, pela verdade. Ganhei-me. E roubei daqui este título.

A esperança. Há um autocarro cujo número não recordo mas que me levou muitas vezes da Foz à Ribeira num Verão antigo ao fim da tarde. Nesse Verão, como em todos, o fim da tarde da Foz à Ribeira era rosa, um rosa-rosa, o rosa mais suave, mais doce e mais bonito que o azul do mar onde ele toca e acaba pode espelhar. Nesses fins de tarde era o rosa da esperança.

Regressei hoje. E agora, promessa feliz à espera, tenho de ir.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

Aiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

........................................................................................................................................................................................................... eu guardo um bocadinho de neve para ti no bolso.

segunda-feira, janeiro 05, 2009

Pessoas que nos ficam no coração

12º ano 1997/1998 - o meu.

Pe. Mário Casagrande
(25/07/1930 -04/01/2009)

Ele era diferente.

Não sei se alguma vez o teremos entendido na perfeição. Não sei se alguma vez medimos o alcance das suas palavras, o peso das atitudes, o humor, a inteligência, a bonomia, o valor daquele homem tão bom, tão diferente, tão normal, tão anónimo.

Ele era diferente.

Estava tão dentro do nosso mundo, que parecia estar fora do mundo. Não sei explicar de outra forma.

Ele era diferente.

Achava que a Escola não precisava de contínuos, auxiliares, empregados. Havia um só. O mudo. O mudo que lavava os quadros negros e os chãos das salas de aula e os corredores. Ao toque, o delegado de turma deveria dirigir-se ao armário dos livros de ponto e levar o da sua turma. Cada delegado o mesmo.

Ele era diferente.

Achava que os portões da Escola deveriam estar sempre abertos. A todos. Não havia controlo de cartão de estudante à porta. Não havia funcionários à porta. Não havia funcionários, como disse.

Ele era diferente.

Passava pelos casais de namorados, nas esquinas e recantos da Escola, e dizia "Larga o osso!..." E ria-se. Gabava-se de dizer que seguia a invectiva de um "... que eu também sou cão!" que nunca lhe ouvi. E ria-se.

Ele era diferente.

Nas aulas insistia que a competição é um fenónemo absolutamente positivo. Só a competição permite o avanço, o progresso, nunca se esqueçam. Talvez por isso atribuísse no final de cada ano lectivo medalhas de bronze, prata e ouro aos três melhores alunos de cada uma das turmas de cada uma das áreas. Talvez por isso a APEL fosse sempre a Escola Secundária com as melhores médias da Região. Talvez por isso.

Ele era diferente.

Nas aulas insistia que o nome próprio é, de todas as palavras, aquela que qualquer ser humano gosta mais de ouvir. De todas as palavras, a palavra mais bela. Talvez por isso enchia os corredores com as fotografias dos finalistas de casa ano. 12º ano 1997/1998 - sou eu.

Ele era diferente.

Numa altura em que os nossos pais temiam perder-nos ele achava o Amor uma coisa absolutamente maravilhosa, possivelmente a melhor coisa, antes ou depois da competição, já não sei. Ele contava a história do rapazinho que era um desastre em tudo, até se apaixonar e descobrir nos olhos da namorada o ânimo para cada obstáculo. A cada pergunta do teste olhava para ela, suspirava, e respondia o melhor que podia.

Ele era diferente.

De t-shirt, calças de sarja e sapatos pretos, número 50 pelo menos, feitos por encomenda em Câmara de Lobos, Casagrande ou Patagrande?, aquele italiano de meia idade, quase dois metros e cabelo alvo de neve que, no intervalo das aulas, ou nas horas de Direcção de Turma, se ninguém aparecesse, cavava os jardins que houvesse para arranjar, era o mesmo Mário Casagrande que dirigia a Escola, para confusão de muitos pais que esperavam um Senhor Padre Mário, paramentado comme il faut, de sotaina pelo menos - vá, à porta da APEL para os receber.

Ele era diferente.

De 95 a 98, quando andei na APEL, tive a sorte de ter EMRC e Relações Públicas com ele. Recusava-se a avaliar EMRC. Nem sequer qualitativamente. Em Relações Públicas deu-me 20 valores por uma razão muito simples: tinha tirado 19,8 no teste. Não havia dúvidas, nem desculpas, ou avaliações contínuas, ou participações orais nas aulas, ou, ou, ou a atrapalhar a nota.

Ele era diferente.

Dava aulas extracurriculares de Italiano via Laura Pausini, Zucchero, Eros Ramazzotti, Andrea Bocelli e outros, aqueles mais antigos... Saltava da música para o vocabulário do dia-dia e para a gramática de forma magistral.

Ele era diferente.

Quando deixou as aulas na APEL, quando a minha irmã tinha Italiano com ele mas no Conservatório, ia, iamos, à Missa do Colégio para o ouvir trazer Deus para meio das cozinhas, das livros e dos testes, dos gabinetes. Tinha esta magia de tornar natural, e humano, o mais possivel humano, a religião, a relação de Deus com cada um.

Ele era diferente.

Nunca nos fez saltar para cima de uma mesa por ele, porque fez mais, muito mais que isso.

Hoje, se olho para alguém nos olhos quando falo - sempre que falo -, hoje, se gosto tanto de nomes, é por ele. Nunca tinha pensado muito nisso, mas é por ele.

Ele era diferente.

O Senhor Padre Mário Casagrande, dehoniano, antigo Director da Escola da APEL, vai a enterrar amanhã depois do almoço no Cemitério do Monte.

Eu vou lá estar, espero que muitos outros antigos alunos também.

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Recomeça, se puderes



E os passos que deres,


Dá-os em liberdade.


De nenhum fruto queiras só metade.


És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças...




'Sísifo', Miguel Torga