sexta-feira, julho 31, 2009

Love in a box

Dei comigo ontem à noite, à hora que devia ser como sempre de preparação do jantar, àquela hora que tem trinta e poucos minutos e que antecede a noite propriamente dita, todas as noites…; dei comigo então, depois de um telefonema em forma de coincidência, a cirandear pelos corredores da minha casa, remexendo armários, desfazendo gavetas, explodindo brincos, braceletes, écharpes e outras peças de roupa leve, para compor um pequeno milagre a enviar à minha irmã Teresa nos Açores.

A minha irmã Teresa está a trabalhar nos Açores há cerca de meio ano e é lá muito feliz – toda borboletas e bonequinhos no estetoscópio pequenino, cada dia a medir, pesar e ouvir corações ainda mais pequeninos.

Curiosamente, foi a minha irmã Teresa, juntamente com o meu irmão Nuno, quem começou lá em casa, esta coisa da composição de pequenos milagres a enviar. Quando fui para os EUA, eles foram livros e cds, eles foram chás e chocolates, eles foram queijo da serra, eles, cuidado e carinho, eles, uma multiplicidade de pequenos milagres, de tão longe tão perto, o Amor, numa caixa.

Agora que penso nisso, a minha mãe também é assim. Volta e meia, lembra-se, e, porque sim, manda-nos um milagre pequenino. Somos o que fazemos. Somos aonde conseguimos chegar. Somos quem tocamos. Somos o que fazemos – inequivocamente. E, querendo, querendo muito, é possível desdobrar os cantos à distância, apagar-lhe as margens do tempo, e encontrarmo-nos, dentro de uma caixa, à esquina dos nossos percursos cruzados, num interstício misterioso.

Pensava nisto precisamente há pouco, quando regressava do almoço e me encaminhava para o fim da fila mais curta na caixa do supermercado onde fui comprar a garrafa de água para a tarde. Devia estar a sorrir. Sorrio sempre quando penso nestas coisas. (Planava sobre imagens da minha irmã Teresa e a imagem da minha mãe dentro da minha cabeça e fora, em todo o lado no supermercado.) Sorria, tenho a certeza, quando a minha mão se precipitou, automaticamente, num reflexo, para as pastilhas elásticas e o rapazinho à minha frente se voltou para trás para me olhar. Dou-lhe um sorriso de circunstância. Para o sossegar. É verão, está calor, as férias grandes ainda vão a meio, calma. Gosto de adolescentes e normalmente eles retribuem-me estes sorrisos. Não foi o caso. Fechei a janela de pensamento, e o sorriso, e detive-me com o prosaico: a quantidade de sacos da senhora à frente do rapazinho; a senhora, entre sacos, a facilitar o troco à senhora da caixa; o tapete da caixa mais ou menos limpo; o tapete da caixa vazio, a rolar; coloco ou não coloco a água e as pastilhas; o tapete da caixa a rolar; o rapazinho a encolher, a mochila puxá-lo para cima, a mantê-lo bípede, a endireitá-lo, a segurá-lo; o rapazinho a deixar cair das mãos, com algum estrondo, a caixa de preservativos; o tapete da caixa mais ou menos limpo; eu a olhar os pêssegos, as uvas e os morangos, pequeninos, a encimarem as instruções, flavored, da caixa do rapazinho e a pensar. If it sweeps the smile off your face...

Se te rouba o sorriso, então é porque não é.

quarta-feira, julho 29, 2009

Feito de demoras

Alguém diz
"Aqui antigamente houve roseiras" -
Então as horas
Afastam-se estrangeiras
Como se o tempo fosse feito de demoras.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Escrevo com os dedos a cheirar a chocolate. Escrevo com dedos que costumam ser ágeis, mas que hoje, agora, se colam a letras, teclas, que cheiram a chocolate.

Quando este texto terminar em mim, cheirará a chocolate? E amanhã, ainda? E ontem, desconfiar-se-ia que hoje, aqui, chocolate?

O tempo é uma coisa incrível. Não há tempo, convenço-me a cada momento. Não há tempo. Não há passado, não há presente, não há futuro.

Não há passado. De tanto o passado nos bater à porta. E quando o passado bate à porta, tudo pára. Pára a vida, paro a vida, pára o mundo, paro o mundo, paro eu, tudo. Paro. A olhar o passado repousado nas coisas. Paro. Para definir 'regresso'. Paro. A querer, a tentar, a fingir, a não tentar, a, enfim, perceber.

Não há presente. Todo o presente existe na sombra. Do que foi ou do que há-de ser. Por isso, é fugaz, o presente. Por isso, se recolhe em noite escura, se aconchega, oculto, se anula, se desfaz. Tudo o que existe na sombra, qualquer sombra, se transparece, à entrada. E tudo o que se transparece abdica de existir: cede a existência ao mais próximo, mais forte. Exactamente como o presente. O presente abdica de existir para o passado, quando cede a existência ao futuro.

E no entanto. Não há futuro. O futuro que nos espera, o que existe como imperativo, uma série de imperativos, serás, terás, estarás, só o é, só existe, até ao momento preciso em que dele nos aproximamos e se nos escoa em presente e se nos escapa para longe em passado.

E desaparece e nos deixa a braços com a nossa capacidade de abraçar. Cada momento na sua demora. Na sua completude, mais ou menos perfeita.

Vou lavar as mãos para regressar ao trabalho.

segunda-feira, julho 27, 2009

Onde o corpo termina

Começa na cabeça, não termina nos pés, nem na ponta dos cabelos ou dos dedos, dos pés ou das mãos, nem sequer na ponta do nariz. Não. O corpo começa na cabeça e termina onde o olhar encontra a luz.

O meu, agora, numa série de árvores vinte metros à minha frente. Uma parede de copas frondosas para lá, além, muito além, dos seis metros quadrados deste gabinete, uma parede de um verde espesso e escuro que cabe quase toda no portal quase janela por onde as olho.

A luz era romba esta manhã quando cheguei, chovia. O dia parecia esquecido de amanhecer e aquelas árvores, o começo de um sonho mau. Ainda pensei em acender as luzes, mas como não tenho medo do escuro e, antes de mais, era preciso esquadrinhar o dia pela secretária nos entretantos do computador, esqueci-me, esqueci-me das luzes. O dia despertou ao ritmo do computador, sem imperativos, com tempo. E foi assim que dei por mim a terminar ali, bem ali, onde começam, magníficas, aquelas árvores que brilham ao sol de agora.

No entanto, gosto mais de quando o meu corpo acaba no cotovelo direito. Nos dias em que a maior luz se faz pequenina e entra-me, de mansinho, pela janela, toda parede do meu lado direito, na Biblioteca, até à ponta do cotovelo onde o meu olhar pousa. Mesmo quando chove. (A chuva não tem nada a ver.)

É como se. Quanto mais pequeno o espaço, mais me espraiasse. Daqui agora até a mais pequena janela ali em frente; de lá agora até ao bosque, voando, planando, até aos ramos mais altos, até às árvores. É como se. Quanto maior o espaço, mais me aconchegasse. À minha secretária, ao meu cantinho; eu toda debruçada sobre o computador, toda pendida sobre a direita, toda olhar, todo voo na luz lá fora, pelo cotovelo.

Pode existir dentro do silêncio, o corpo, e viver assim, fora do tempo, eterno.

Pode crescer e ser coração, músculo de mãos e abraços, pés e caminhos, o corpo, e assim, fora do espaço, apagar distâncias e outros fogos.

Pode ser margem buscando a luz no trilho da sede, o corpo, e assim, fazer-se e refazer-se, constantemente, na vida.

Às vezes é maior. É quando é todo. É quando é mundo, casa, sonho, voz, alimento, coração, presença, chão, flor, céu, olhar. É quando se cumpre. Onde o corpo se cumpre é onde termina.

O corpo só termina onde o olhar encontra a luz.

quarta-feira, julho 22, 2009

Os blogs e a vida real

No outro dia, na Centésima, fui descoberta. Olhe, esta é a menina que que escreveu acerca do seu bolo de chocolate no blog!... Descobriram-me.

Descobriram-me e eu, a querer fugir, devo ter corado – coro sempre – ao mesmo tempo que retribuía o olá ao Olá, tudo bem, tem andado desaparecida... Verdade. Não vou à Centésima tão regularmente quanto desejaria. Na maior parte das vezes, nas vezes que são sempre poucas, vou porque não aguento mais, realmente. Há dias muito duros na vida de uma pessoa. Vou nesses dias. Vou porque não aguento mais, vou porque preciso de livros, e de sossego. E daquele cheiro a sol e a flores, daquela comida e das tropelias dos gatos, da minha paz total debaixo do guarda-sol. Há uma parte das vezes que é menor e que não tem nada a ver com a negritude de há duas linhas acima. É quando há amigos. Quando vêm cá acima lançar algum livro; quando vêm ainda mais acima e antes de irem embora passam por cá para um cházinho e dois dedos de conversa; quando vêm de longe e não conhecem nada (e não fazem ideia sequer do melhor bolo de chocolate do planeta...)

Descobriram-me e eu devo ter corado – coro sempre – enquanto retribuía o Olá!, que me parecia já tão longe, o pensamento todo na nudez de agora. Eu logo vi, eu sabia, só podia ser, é que foi comigo, lembro-me bem, fui eu que a servi e tudo... Eu, um sorriso desajeitado, eu, em choque, eu a não saber o que, eu a pensar sem dizer, a Ritinha e o Pedro?, não..., eu a pensar que não, que não podia ser, não estou a imaginá-los, eu a pensar, a dar voltas e mais voltas em pensamento, enquanto escolhia o almoço, eu a dizer antes de acabar de pensar, então, mas como é que? quem é que cometeu essa inconfidência?, Ah, contaram aqui..., eu a pensar, a pensar, Foi aquela senhora do, sabe quem é? Sei, perfeitamente. (Descansei.) Aquela senhora do conhece-me dos tempos da Faculdade. E não vejo grande mal em que se saiba que eu gosto do bolo de chocolate da Centésima - I do - para mim o melhor do mundo - no doubt. E também não vejo grande mal em que se saiba que tenho um blog - I do também, e ainda no doubt. Apanhou-me foi de surpresa, e acompanhada de um desprevenido, a descoberta... – coisas que se resolveram à sobremesa com o tal do bolo de chocolate, bueníssimo! - sus palabras...

Mas este post nem é acerca disso. Este post é sobre a distância. Os caminhos que escolhemos, os meios de que dispomos, para a tornarmos menor, mesmo na lonjura do espaço e do tempo que é preciso para respirarmos melhor, vivermos mais... Estava ali à frente, nos computadores, sentado, um rapazinho do norte da Europa pelo tom da pele e dos cabelos, que costuma tocar um instrumento que desconheço no centro da cidade. A mim parece-me ter uns dezoito, dezanove anos, mas pode ser mais velho. Encanta quem passa pela harmonia dos sons que consegue extrair daquele instrumento bizarro e por uma serenidade natural e sã que possui. Há dias, quando estava muito calor, passava por ele numa pausa em que bebia água fresca ao fim da tarde e dei comigo a querer ser assim. (Há coisas que se perdem com a idade e que só se re-ganham com a idade também, parece-me.)

Acho que está de partida. Entrou com duas grandes malas, uma muito velha, de cartão, e um saco desportivo gasto com saco-cama dependurado; posou tudo bem a meio da sala e foi para o computador. Não sei bem quanto tempo, sei que, a determinada altura, olhei ali para a frente, e ele estava a escrever um post, daí a nada a publicá-lo e um bocadinho depois a ler blogs. Recordei. Um blog para comunicar, um blog para manter contacto. Um post antes de partir. Um post para sossegar está tudo bem. Um post para dizer adeus. Ler para saber das novidades.

Também eu já fui aquele miúdo numa biblioteca estranha.

terça-feira, julho 21, 2009

Do extremo mais longínquo do armário

Hoje vai chover torrencialmente. Vai chover tanto, tanto, tanto, tanto, que me vou ensopar; que o cabelo vai ficar uma pasta – de chuva; que gotas delas vão escorrer-me cara abaixo, braços abaixo, computador abaixo, pernas abaixo...; que as cópias que espreitarem fora do saco, sem guarda-chuva, vão ondular tanto, tanto, tanto, tanto, que ai.

Hoje vai chover torrencialmente. Tenho a certeza. Não porque os pivots dos telejornais anunciaram isso ontem, não; não porque os senhores da metereologia falaram nisso esta madrugada, não; não porque acordei às quatro da manhã com as gaivotas mais barulhentas do mar em terra – na terra que fica bem pertinho da minha janela, não; não porque o céu está uma nuvem só, e escura, um manto de negritude que abafou o dia; não. Vai chover torrencialmente hoje porque o meu vestido curtinho verde e o meu bolero amarelo não agradam aos céus.

Temos de nos concertar, eu e os céus, urgentemente. Porque tenho para mim que não há direito, divino, celestial, providencial, o que for..., de fazerem chover em Julho quase-quase Agosto; não há direito de me estragarem os dias, poucos, em que quero ser menina bonita e a tudo o que o armário mostra a um par de olhos entreabertos à força, preferir um vestido. (Por uma questão de sensibilidade, os vestidos que são leves e curtos foram alinhados no extremo mais longínquo do guarda-fatos, não se dê o caso, por desatenção, tentação ou outro qualquer desvario, de provocar eu uma monção em Portugal. Coisa inédita.

Os vestidos que são compridos, os mais ou menos leves e os leves, os todos de mangas compridas e cavas discretas, por o serem precisamente e os céus a eles fecharem os olhos com bonomia, alternam com as calças nos cabides ao longo do armário. No entanto, para lhes agradar, não há como um par de calças e uma blusinha. Então, é vê-los, aos céus, resplandecentes, radiantes, radiosos, todos sol e azul, do mais azul possível, todos calor sem brisa, sem sombra, sem nada que não me faça pedir água fresca a toda a hora. E um lugar à sombra para descolar a roupa do corpo, ou, alternativamente, outro lugar, um bem perto de um ar condicionado.

Hoje vai chover torrencialmente. E a começar por volta do meio-dia e meio – a hora em que começo a pensar que tenho de ir almoçar. Eu sei. (Embora não seja claro: para me iludirem, os céus vão aguentar, pesados e negros, toda uma chuva durante a manhã, vão dando assim a vã esperança de uma ida e volta, secas, para mim que teimo em pensar que por volta da hora do almoço ainda é manhã, que sou rápida – é só um instantinho!..., que tendo estado toda a manhã sem chover o mais certo é que não, que mau era se.)

Temos de nos concertar, eu e os céus, urgentemente. Porque tenho para mim que aquela Lua de há cinquenta anos era nada mais nada menos que um queijo suíço que os americanos venderam a bom vender e que portanto toda a culpa das alterações climáticas e outras subsequentes reside no extremo mais longínquo do meu armário.

domingo, julho 19, 2009

Coincidências


O Amor tem desígnios estranhos. Há vinte e dois anos atrás o Paulo e a Sandra, sobrinhos dos noivos, eram o menino e a menina das alianças. Há dez anos atrás o Paulo e a Sandra eram dois adolescentes a descobrirem o Amor numa festa de aniversário, na casa daqueles noivos de há vinte e dois anos. Há vinte horas atrás o Paulo e a Sandra eram o Paulo e a Sandra adultos a comprometerem-se para a vida sob a ternura, imensa, daqueles noivos de há 22 anos. (E o meu olhar, e outros olhares, muitos.) O Amor tem, ocultos para os presentes, desígnios estranhos.

Não sei porque escrevo “o Paulo e a Sandra”. Normalmente digo “a Sandra e o Paulo”. E toda a gente diz igual – é quase fórmula... No entanto, foi o Paulo que conheci primeiro, há cinco anos atrás, no meu primeiro ano de aulas, a dar, na Faculdade – a Sandra só foi minha aluna no ano seguinte. Não sei também por que sou como sou, e muito menos como sou o que sou. (Mas acho que é porque tenho a mania.) Tenho esta mania nos olhos e no senso, que ainda não percebi se é bom, de olhar o que as pessoas não olham, o potencial de crescimento/desenvolvimento, de ver o que as pessoas (normalmente) não vêem, os objectivos pessoais, a determinação em querer ser mais, o trabalho, de valorizar coisas que. Foram, cada um à sua maneira, embora agora que penso nisso de uma maneira muito parecida, dois dos meus melhores alunos da Faculdade. E foram-no com excelência, com mérito, com provas dadas.

Nunca perdemos o contacto. E nada à força de o querermos manter. Braga é uma cidade muito pequena para quem se quer bem. Vamo-nos encontrando pela cidade – a Sandra nas lojas onde eu também costumo ir, o Paulo pela Biblioteca por causa de umas cópias para a Sandra, por causa de umas pesquisas para as aulas, durante a agitação do ano lectivo, ou então para simplesmente ler o jornal em tardes de Verão mais desafogadas. Acompanhamos o nosso percurso de forma natural. O encanto todo da nossa amizade reside aí, parece-me.

Às vezes ninguém me entende. Ninguém me entende quando digo que acredito em Deus na vida, no Amor em todo o lado, na minha atracção pelo abismo da perfeição..., por exemplo. Porque a perfeição não existe neste mundo, sabes? Porque andamos todos a correr e a pressa, sabes como é..., inimiga da perfeição. Porque há na perfeição uma centelha de eternidade que assusta, bom, bom é ser imperfeito, acolher as nossas imperfeições, todas as nossas imperfeições, de forma a. Penso agora que não me entendem porque provavelmente não me exprimo bem.

Gosto do potencial para tornar perfeito um momento que há sempre dentro de cada homem.

O Amor tem desígnios estranhos. Acabo de chegar de um dia, a pensar no dia como se fosse um manto; acabo de chegar de um dia, uma série de momentos, a pensar nos momentos como se fossem fios; acabo de chegar de um dia que começou da maneira mais natural e imprevisível, a pensar na maneira em como são tecidos os fios de um manto num tear; acabo de chegar de um dia que começou escondido atrás das coincidências há vinte e dois anos atrás, um dia como um manto, urdido pelo tempo e agora: perfeito.

A perfeição, o potencial para a beleza que ela sempre encerra, sempre foi vivo e fecundo naqueles dois. Vou dormir.

quinta-feira, julho 16, 2009

Do Arco da Porta Nova

Ando a fugir a atravessar o arco da Porta Nova há que tempos. Fujo-lhe porque soube, por uma pessoa que sabe, soube, também de outra pessoa, que mais dia menos dia aquilo cai. Como não me apetece estropiar-me ainda, finto o destino, fugindo ao arco: viro antes à esquerda, subo, perco-me por tabuletas antigas, janelas a abarrotar de vasos, mais ou menos floridos, e ruelas adormecidas, como eu, até ao café do costume; passo os olhos pelos chãos romanos em volta da Sé, quantas histórias!, encanto-me com cada recanto da parte antiga desta cidade ainda mais antiga. E o arco lá longe.

Há dias, como hoje, em que tenho muita coisa para fazer antes de, muitos lugares para ir, um telefonema importante, entre uma série de toques para despertar, coisas para marcar, coisas para comprar, coisas para ir levantar, coisas para deixar..., uma agitação antes do pequeno-almoço, que os vinte minutos do almoço não esticam e há que aproveitar que a Biblioteca entrou no horário de Verão e agora abre meia hora mais tarde.

Foi assim que, depois de tanto tempo, esquecida de tudo, mas especialmente das advertências amigas da informação privilegiada, foi assim que transpus novamente o arco. E foi assim que transpus o arco que. O saco das cópias a deslizar ombro abaixo, o telemóvel a vibrar como um louco na mala, o vestido a querer repartir a atenção voando, para longe e para cima. E para mim, que não sou Marilyn, pit stop obrigatória em boxe improvisada ao ar livre. Longe, o mais longe possível, de debaixo do arco, mas ainda assim tão ali.

Ajeito-me.

Deve vir tapado. Os que vêm da Alemanha, pelo menos, é assim que vêm.

Atendo o telefone, lacónica para ser rápida.

E... você vai?

Vou, então não vou!?, claro que vou!. Mas o pior nem é isso, o pior é a viúva. Agora é que vai ser um tormento. Se já antes, era o que era..., agora, viúva, é que vai ser!

Meto a rapidez junto com o telemóvel, no bolso da mala. Há histórias que nos desarmam e prendem ao chão – e isso, isso apaga todo o dever. Esqueço o tempo, e, cega para o mundo, toda a atenção na conversa, vou-me ajeitando-me vezes sem conta. Desajeito-me ainda mais vezes, para poder voltar a ajeitar-me e continuar a ouvir.

Antes, cada Verão que viéssemos, quando vínhamos, era vê-la bem a meio da tarde abrir a janela, eu na minha, por detrás da cortina a ver tudo, ela a olhar, ela ficava a olhar para cá o dia todo a ver se... Antes, cada Verão que viéssemos, eles também vinham, não sei como, era assim, acontecia!, nessas alturas é que era. E agora viúva!... É que..., eles sempre gostaram um do outro, desde miúdos, sabes? Eles sempre gostaram um do outro. O meu marido, o meu marido não diz nada, claro!, nem eu a ele, mas percebo tudo, eu a perceber tudo, naqueles verões, tudo, quando ela vinha a meio da tarde, em dias maiores que o passado, em dias em que olhá-lo da janela não chegava, naqueles verões, ela afastava a cancela e ficava a olhar. Ele nunca diz nada mas, desde miúdos, sabes? Ela olhava assim de muito perto. Ela, toda olhar, parada, quieta, ali à nossa porta. Às vezes, muitas vezes, ele à porta, passavam a tarde toda a conversar. Eles sempre gostaram um do outro. Ele à porta, eles, a tarde toda, a conversar. Cada Verão isto, um tormento!... É que... eles... eles sempre... O meu marido nunca me disse nada, claro!, nem eu a ele, mas. Agora que está viúva..., já estou a ver...

Eu também.
E lembrei-me do I carry your heart with me do E. E. Cummings:

I carry your heart with me (i carry it in
my heart) I am never without it (anywhere
I go you go, my dear; and whatever is done
by only me is your doing, my darling
I fear
No fate (for you are my fate, my sweet) I want
No world (for beautiful you are my world, my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you.

Here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life; which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
And this is the wonder that's keeping the stars apart

I carry your heart (I carry it in my heart).

quarta-feira, julho 15, 2009

Coisas do meu lado esquerdo (II)

Há coisas que me deixam sem palavras. Dizerem-me que ressono, por exemplo, que ressonei ontem à noite, muitíssimo, e não deixei dormir, é uma delas. Se ressono, é apenas e tão só do lado esquerdo. (Tenho quase a certeza que, a ressonar, ressono apenas do lado esquerdo.) O meu lado esquerdo é a coisa mais frágil, temperamental, esquisita e extraordinária de todas as coisas do mundo.

Se me dói a cabeça, é do lado esquerdo; se me doem os dentes, gengiva esquerda; se me morderem as melgas, bem a meio da perna esquerda; ao ir para o trabalho, se me pesam as cópias e os livros, ombro esquerdo; em casa, se de chinela no pé, mais ou menos calçada, mais ou menos descalça, vou contra os móveis, tantas vezes a toda a hora, colhe o embate o pé esquerdo – e só isso explica porque duas das minhas unhas desse pé condizem com o top de hoje no tom quaresmal.

Rio e choro do lado esquerdo. Sei disso porque quando choro muito fico com o olho esquerdo mais pequeno. (Muito mais pequeno.) Quando rio, normalmente depois, o mesmo olho acusa o toque, encolhe-se, apouca-se, diminui, e eu penso no quanto o riso pode ser uma outra forma de choro, e o choro, um outro riso. Do lado esquerdo.

Deito-me sobre o lado esquerdo, em considerações apenas. Aqui e agora. Na realidade, deito-me todas as noites sobre o cansaço que me mói cada dia o fundo das costas; deito-me a olhar-me nos vestígios do dia que a minha cabeça faz desfilar no tecto; deito-me na posição anatómica de referência e não ressono (!), não me mexo, quase não respiro. Ocasionalmente, viro-me sobre o lado direito. À direita fica a janela e o dia que amanhece todos os dias, um pouco antes de o meu despertador tocar.

O coração, quando me dói, é do lado direito.

terça-feira, julho 14, 2009

Património genético

Um dia a minha mãe mudou de dentista. Graças às maravilhas da globalização, competição e concorrência, no mercado das telecomunicações, a minha mãe não viu a agulha, não sentiu a picadinha da anestesia, não deu por nada senão quando a Lília disse, já está, mas faça como eu, o meu marido, a minha mãe, adopte esse tarifário, assim até falava com a Teresa, olhe, reconstruí como lhe disse, nota alguma diferença?

A Lília. A Lília era amiga de uma amiga da minha irmã Teresa dos tempos do colégio. A Lília tinha um irmão, o Sancho, que era colega do meu irmão Nuno, mesmo ano, mesma turma, tudo. A Lília tinha um tio que era professor de ambos os meus irmãos no Conservatório. A Lília tornou-se amiga da minha irmã Teresa instantaneamente. Com algumas pessoas é sempre assim.

A minha mãe não sabia, ou não se lembrava, da Lília; a minha irmã Teresa não sabe da Lília – e há que tempos!, a Lília, sabendo o suficiente, topou tudo pelo apelido da minha mãe. A minha mãe agradeceu o reconhecimento, entreteve-se a por-lhe em dia as nossas histórias – foi a esse respeito e bem a propósito que a Lília falou dos tarifários – e nem deu pela dor passar.

Já eu, dou por mim a falar actualmente com a minha mãe mais, muito mais, do que no tempo em que ingressei na Universidade, por exemplo. Na realidade, falamos todos os dias.

No tempo em que ingressei na Universidade, vivia num lar e o meu quarto ficava exactamente depois da sala do telefone do segundo andar. Era, à esquerda, o primeiro quarto do corredor, o que significava que. E o que isso me aborrecia. Com os anos tenho vindo a aperceber-me de que há inequivocamente algo no ser ilhéu e – muito importante – madeirense, que nos couraça de alguma forma para a saudade, a distância, ao mesmo tempo que nos agiliza para a mudança, qualquer mudança. Saber de experiência, e muita observação, feito. Então, no tempo em que ecos de um mar de lágrimas nortenho, açoriano, beirão, repetido noite-após-noite à hora da ceia, chegavam ao livro que lia avidamente no meu quarto, nesse tempo, a minha mãe era nova e falava comigo às quartas-feiras depois do trabalho e ao Domingo à noite. Nesse tempo tão cheio, eu tinha um mundo, todas as coisas, para lhe dizer: as alegrias da Faculdade, as surpresas da Faculdade, as chatices da Faculdade; o que queria fazer, o que não queria fazer, onde queria ir quando, onde ficaria se. A minha mãe era nova e ouvia e ria e dizia, fizeste bem, então, não sejas assim, pois eu acho bem que vás.

O amor é uma companhia. Um dia a minha mãe deixou de ser nova e as palavras multiplicaram-se. Cresceram. À força da distância, do tempo, e pelo carinho, - um amor infinito... -, arredondaram-se – é assim que atravessam o oceano que nos separa. Um dia a minha mãe deixou de ser nova e eu percebi. O amor é uma companhia e a vida, momentos. Às vezes, quando nos aborrecemos, ela diz-me: tens o feitio, hipersensível, do teu avô; outras vezes, muitas vezes, fala dos trabalhos de mãos que vamos fazer estas férias – à varanda, ao fim do dia, nós as duas, como sempre –; daquela peça recente para decorar a sala, daquela outra que pretende comprar, da vida, do mundo, do tempo. Quando não temos nada para dizer, coisa rara, então à porta da Biblioteca?, e eu, claro!, és mesmo igual à tua bisavó, a tua bisavó gostava de assistir à missa dos pescadores que era, naquele tempo, às quatro e meia da manhã..., e sabes a que horas ia para a porta da Igreja?

E eu, esquecendo a pergunta, sabendo, de serões antigos, a resposta, perco-me, penso neste património genético, inefável e tão nosso, neste amor-companhia, tão meu... E começo o dia com um sorriso maior.

domingo, julho 12, 2009

Não há meio-termo.


"... a vida é uma de duas coisas: algo verdadeiramente com sentido ou algo completamente absurdo. Não há meio-termo. E praticamente todas as pessoas que eu conheço estão no meio-termo: se admitissem que não faz sentido, tornar-se-iam estoicas, comovedoramente tristes, sem esperança e sem medo, até enfrentar um inexorável suicídio; se porventura descobrissem que a vida tem sentido, tornar-se-iam ascetas, apartar-se-iam da sociedade e das suas feiras de vaidades e horrores, passariam a contemplar a verdade, a bondade e a beleza num estado idílico e edénico. Na verdade, o que me magoa é não ser ainda um asceta..."


Daqui.

sexta-feira, julho 10, 2009

You oughta know



Como é que eu nunca me lembro na hora, como é que me esqueço tão facilmente, como é que só dias, e dias e dias e mais dias depois, tanto dia, meu Deus!..., é que a moeda cai, a lâmpada acende, eu vejo a luz e sou toda plim! dentro da cabeça, como é que, é que não percebo. Como é que?, só eu! Defeito de fabrico. Definitivamente. Não sinapso bem, caramba! Defeito. Feitio. Defeito. Definitivamente.

No outro dia, no cabeleireiro, a senhora a acabar de me fazer o cabelo, a senhora contente com a obra feita, a senhora a dizer, é tão nova!, mas, olhe, agora é que parece novinha!..., novinha,?!, eu a sorrir, eu a responder olhe que não, não sou, não se é aos vinte e oito, sabe?, ela a parar tudo, toda a estupefacção do mundo a olhar para mim no espelho, vinte e oito?, como é que?, olhe, nem sei que lhe dizer, dava-lhe vinte, no máximo vinte e três...

Vinte e três. Aos vinte e três dava eu aulas na Faculdade. Aos vinte e três morava em Braga e (des)contava no calendário os dias que faltavam para o fim-de-semana no Porto. Às vezes era fim-de-semana à quarta, às vezes – com alguma sorte – à quarta e à quinta. Aos vinte e três anos tinha um coração do meu tamanho: sentia-o vivo, nas pernas, nos pulsos, no pescoço, na cabeça, nos olhos ..., sentia-o meu, e – explicar como?... – todo do Tiago. Aos vinte e três anos já me achava velha. Os meus alunos da Faculdade a serem professores (estagiários) dos meus alunos da Escola; os meus alunos mais velhos da Escola a cruzarem-se comigo, caloiros, nos corredores da Faculdade. Aos vinte e três anos olhava a minha mãe do colo e não lhe via idade. Aos vinte e três era segura e ágil. Cega. Aos vinte e três anos achava que era cedo, que tinha tempo, que haveria sempre tempo, para quase tudo.

Pensava nisto esta manhã no comboio, quando a pessoa que se costuma sentar, e se sentou, à minha frente, falando com um amigo, colega, conhecido, não cheguei a perceber bem, das escolas em que andou, que desconheço em absoluto, mas foram, curiosamente, as mesmas, embora com um lapso temporal..., coisa que só se definiu e esclareceu pela idade de ambos, ah... é que eu tenho vinte e três... – eu a não conseguir evitar o meu sorriso velho – pois... acabei o ano passado... – eu a ajeitar-me na cadeira em busca de conforto para as costas – o ano passado é que foi bom!... – eu a pensar, a ver, o menino todo acne em vez da barba, cerradíssima, de agora; eu a pensar, a ver, o menino de ténis, t-shirt e calções, às voltas com a sua viagem de finalistas e os exames nacionais e a praia e as miúdas, quando eu; eu a pensar, a ver, o menino, conduzir só às escondidas, o menino, muito novo para o serviço militar, o menino, votar ainda não, o menino, adolescente, um coleguinha da minha irmã mais nova, quando eu tinha vinte e três.

You oughta know, Jo. You don’t smile like that, oh so sincerely, you don’t talk like that, oh so calmly, you don’t behave like that, assured, oh so assured!, going on thirty.

I oughta know. E aposto que a minha idade se transparece, defeito-feitio-defeito, de fabrico, e é uma coisa só minha.

quinta-feira, julho 09, 2009

Mesmo assim, de uma ternura imensa, bonito



Tenho vocação para ser pessoa idosa. Inequivocamente.

Agora, por exemplo, no momento em que escrevo este texto sentada na varanda, rosto iluminado apenas pelo écran do computador, camisa de dormir fininha, passando - espero eu!... - por vestidinho de Verão, encontro o olhar - e o pijama - do senhor do prédio em frente, à sua varanda, também. E... agora já não está, foi-se embora, levou consigo o olhar de fim de dia fechando a janela bem no momento em que eu fechava a frase anterior: no ponto final.

Tenho vocação para ser pessoa idosa.

Uma atenção desanimada ao avô que lança pela enésima vez o netinho ao ar nos prédios novos aqui ao lado. A mesma atenção, automática, ao tal avô que lhe conta agora deste céu que é mar de nuvens, ao mesma atenção ao avô que reproduz o movimento das vagas com uma mão, que balança o bebé com a outra, que de quando em vez aponta para cima. A mesma exacta atenção, rotinizada, à criança que se diverte, que quer entrar nas nuvens, metê-las ao bolso, voltar cá para baixo...; a mesma atenção à criança que se ri, dá palminhas e fala, muito, muito, a mesma atenção à avó que a chama para dentro, ao pai que lhe quer dar colo agora, à pequena mutidão que regressa lentamente à sala. O único pontinho de luz nos prédios novos, um raiozinho de curiosidade a entrar-me pelo lado esquerdo.

Tenho vocação para ser pessoa idosa.

Amo, à minha maneira, a minha família, os meus amigos, os meus amores. Não vivo sem o trabalho que me dá o trabalho. Gosto de adolescentes. Olho para sorrir e sorrio para ver. Prezo as minhas rotinas, os meus momentos, os meus lugares. Tenho os meus recantos e um roteiro de eleição sempre pronto para os amigos. Guardo memórias. Prefiro os serões em casa e na companhia de poucos. Leio para escrever. Alegram-me as plantinhas de que cuido na varanda. Aproveito, e cultivo, o sossego. Encantam-me as pessoas. Todas as pessoas.

Tenho vocação para ser pessoa idosa.

Uma vontade cansada. Um sorriso velho.

Mas, bonito, não há ternura para além de ti. És a pessoa mais terna que conheço, bonito.

De uma ternura imensa, bonito.

E isso, bonito, isso faz-me repensar a vida.


quarta-feira, julho 08, 2009

Cheira à minha infância, lá em baixo, no bar

A minha infância toda num único aroma, quente, espesso, nutritivo – palavra de mãe, de sopa a fumegar no prato. Eu com três, quatro, anos, sentada em frente a uma mesa baixinha e redonda, a olhar em volta para as dez, onze, outras batas, eu a olhar em volta, pratos de plástico quase vazios, colheres de plástico muito cheias, eu, eu a olhar os plásticos, eu a olhar em volta, eu a olhar os outros, eu, a minha infância toda... cheira a creme de cenoura. E a sumo de tomate. Coisas do infantário.

Cheira à minha infância, lá em baixo, no bar. Cheira ao creme de cenoura, de todos os cremes de cenoura, o mais meu do universo. Cheira à cenoura sem batata, cheira ao quente, cheira ao espesso, cheira ao nutritivo – palavra de mãe, cheira ao fumegar no prato, até cheira ao tempero que eu não faço ideia qual é, mas é o mesmo – exactamente o mesmo! – de há vinte e cinco anos atrás no Funchal. Cheira a creme de cenoura. Aquele que me levou uma adolescência inteira a ultrapassar, muita cenoura crua depois.

Creme de cenoura ao almoço, sumo de tomate ao lanche, havia um dia assim, havia um outro dia em que o creme era de espinafres, mas o sumo do lanche era de laranja e por isso desse dia não reza a minha história, agora do dia do creme de cenoura, o dia por semana em que eu era genuinamente infeliz, esse sim, esse único dia em que me obrigava a ser bem-comportada, coisa a que nunca me foi preciso obrigar e no entanto, um dia único para crescer à força, o único dia em que ser bem-comportada era coisa para gente grande, custava. Muito. No fim do dia, chegava a casa e contava. Passei, passo a vida toda a chegar a casa e contar – curioso, reparo agora... – hoje foi dia de creme de cenoura e sumo de tomate. E toda a gente Ahhh!!! e a minha mãe tem paciência, filha, a cenoura faz bem aos olhos, o tomate faz bem ao sangue e é tudo muito nutritivo. E eu assentia - em mim ter paciência é como ter nariz, de desde sempre e impossível de perder – tinha que ter paciência e tinha. Ainda hoje tenho. E o que isso me dói.

Creme de cenoura ao almoço, sumo de tomate ao lanche, uma vez por semana. Nunca fazer isto a uma criança. Um quarto de século depois ainda é capaz de sentir o nó na garganta ao lembrar a que cheira a paciência. E isso não é cheiro de infância saudável.

segunda-feira, julho 06, 2009

What a difference a hair-do makes...

Today's hair-do


O post fútil.

Então hoje foi dia de (me) esticar(em) o cabelo.

Só há meia dúzia de dias no ano, dias importantes, em que ando assim. Se calhar é por isso. Não habituo as pessoas. A minha mãe não gosta. Se calhar é por isso também. Mas a minha mãe é a única pessoa que não gosta, a única para quem não há nada que se equipare a um caracol meu. A minha mãe é única. Gostar das minhas imperfeições - capilares então!?... - é coisa para um amor maior, para um amor de mãe, só. Eu e o resto do mundo gostamos muito. Eu, por insatisfação natural de quem não tem cabelo liso e natural incapacidade de repetir o milagre de o deixar (e manter?) assim, a minha única aselhice de mãos... O resto do mundo nem sei bem por que razões. O resto do mundo tem nove anos, chegou com a mãe pelo braço, já a cabeleireira terminava o meu cabelo, e zás: "Que bonita! Pode fazer à minha mãe igual?"

Quando quiser passar despercebida das pessoas que conheço, mas não do resto do mundo, percebi hoje pela enésima vez - antes de me voltar a esquecer, amanhã de manhã, quando o duche me devolver as melenas onduladas... - estico o cabelo. Não preciso de dobrar esquinas a correr, de me esgueirar pela primeira ruela, de olhar em frente, muito, muito em frente, não. Quando quiser passar despercebida de bons-dias, dos convenientes e dos inconvenientes, de sorrisos, dos de educação e dos de verdade, das pessoas do comboio, dos amigos, dos conhecidos, dos colegas, dos superiores, de toda a gente, mas não do resto do mundo, estico o cabelo.

What a difference a hair-do makes...!

domingo, julho 05, 2009

A rapariga dos clássicos (II)



Saiu a semana passada numa edição limitada. Apressem-se.
Uma pérola de fogo. O toque. A marca de sempre. O génio.

Ai quando eu for grande!..., se se pudesse querer ser...
então, assim.

quarta-feira, julho 01, 2009

July is a sunk boat



Mas minha mãe está contente. Diz que ainda bem. Que filha, a gripe. Que filha, o México – ali tão à mão. Que filha, o Michael Jackson – que confusão, até nas nuvens! Nas nuvens. Pois... Americanices, ai!

A minha mãe, a única pessoa que não é indiferente nunca, a única contente. Ocorre-me agora que é porventura para me contentar também que insiste, vezes sem conta, à medida que se chega até hoje – adivinho até que de hoje em diante intensificar-se-á a frequência do reconto – a saga do seu avô na Califórnia.

O avô da minha mãe é para mim o tio Clemente em magro, uma figura anglicana de tão clara e esguia, em pé, olhos muito vivos, mão no ombro da avó mais impressionante de sempre, numa fotografia a sépia, a única que há deles, que descobri por acaso, nas minhas típicas incursões pelos álbuns da família, num verão antigo.

O avô que a minha mãe designa sempre por “o meu avôzinho” foi no início do século passado para a Califórnia. De barco. Da Madeira para o continente, do continente para os Açores, dos Açores para os E.U.A. Para trabalhar e ganhar o suficiente para voltar e comprar uma casa. (Aqui é quando começo a imaginá-lo a trabalhar numa plantação de algodão sulista. Com alguma sorte teria passado pelo Texas e assim os nossos destinos não se cruzando, ficam pelo menos ligados, o meu bisavô e eu, de alguma maneira, uma insondável e bonita. – Tudo o que é bonito, realmente bonito, é insondável. – Depois lembro-me de que as plantações de algodão, tal como as plantações de café africanas, não empregavam: escravizavam, e num século completamentamente outro. É quando volto a ouvir a minha mãe.) Faria o que lhe propusessem, o que aparecesse, que qualquer trabalho na América era tudo o que a agricultura na Madeira não era: dinheiro certo. (Aqui volto novamente a mim e àquele senhor da fotografia, igualzinho ao irmão da minha avó – afinal, o filho mais novo do avôzinho e, tens razão, filha, nenhum é tão parecido ao pai como o tio Clemente! – volto ao senhor da fotografia e noto o quanto aquelas mãos não me parecem mãos de terra, aquele corpo, tão franzino, não me parece corpo de terra, aquela pele, tão clara, aqueles olhos, tão vivos, aquela postura, tão outra, não me parece de terra.) É claro que não era da terra que o avôzinho ganhava a vida, achavam que não tinha corpo para isso, na realidade o “avôzinho” era sapateiro, ‘mestre de botas’. (Interrompo a minha simpatia pela saga do avôzinho para me rir, ‘mestre de botas’ é uma expressão deliciosa, hilariante.) Achavam que ele não tinha corpo para isso, mas ele achava que para isso não era preciso corpo, que para isso bastava o coração. E era assim que se escapava, sempre que podia, para a terra. Para semear e ver crescer. Que não há outro milagre que não seja esse. (A atracção pelo milagre que a minha avó herdou do pai pelo sangue, e eu, dela, não sei como, mas também.) O avôzinho casou, botas nas mãos, terra no coração – quase todo da avózinha agora. A família foi crescendo, o espaço da casa, da fartura e do coração, não. E foi por isso, foi assim, que o avôzinho deu consigo operário na maior fábrica de veludo de São Francisco. E foi por isso, foi assim que o avôzinho viveu grandes peripécias, como no dia em que saiu para comprar massa (pasta) e chegou à copa da fábrica com goma (starch). (Consigo explicar as mudanças morfofonéticas que o desconhecimento linguístico do avôzinho propiciou, mas não o vou fazer, tiraria a graça...) E foi por isso, foi assim que anos depois, missão cumprida, comprada a tal casa grande com terreno ainda maior, grande o suficiente para deixar operar-se o milagre, sem preocupações e sem pressas, muitos milagres, pequeninos, ao sabor do coração, a avózinha achava que não recebera o mesmo marido que mandara para a América, era tão bom rapaz, e agora?!, agora mente que é uma coisa!..., agora passa a vida a contar das cidades que eles têm debaixo da terra e das panelas reluzentes onde fazem a comida e da vez em que fui ao Texas, sabem que a Califórnia é um pomar de laranjeiras, mas o Texas.

Julho começa hoje. Julho é Califórnia. July is a sunk boat. A minha mãe, a única pessoa que não é indiferente nunca, a única contente. Dia 1 de Julho é Dia da Região. Feriado na Madeira, portanto. Acho que era lá que devia estar, contente, com(o) a minha mãe.