segunda-feira, agosto 31, 2009

Runaway Train

São engraçadas, as pessoas, todas as pessoas, se lhes prestarmos um bocadinho de atenção. São engraçadas as pessoas, nos olhares, nos sorrisos, nos não-olhares, nos quase-sorrisos, na cabeça ao fundo para não olhar, nos lábios apertados para não sorrir, o corpo todo remetendo-se à concha, para não falar, o corpo todo curvado, encaracolado, os bons-dias e o olá, inteiros, presos no bolso enquanto fogem para dentro, as pessoas.

Síndrome de todos os dias da semana, durante o dia, que à sexta-feira à noite, ao sábado à noite, de vez em quando a meio da semana, uma ou outra noite, as pessoas, as que são engraçadas e se encaracolam mais facilmente até do que respiram, são pessoas diferentes: de cumprimentos fáceis, múltiplos sorrisos e olhares que sobram. Às vezes são-no porque saem, quando saem; outras vezes, porque em casa, quando em casa há amigos e copos, amigos e música, amigos e risos, amigos e comida, amigos e grades de liberdade enfim, amigos e tudo o que durante a semana, de dia, não há tempo de haver.

Pergunto-me onde está a autenticidade do que somos, sem saber sequer definir ‘autenticidade’. Pergunto-me onde está a autenticidade do que somos a pensar em todo o cinzento que somos, eu primeiro que toda a gente. Pergunto-me onde está autenticidade, que é humanidade e divindade, sensibilidade e força, dias bons e maus, pessoas e coisas, passados e medos, circunstâncias e surpresas, onde está a autenticidade do que somos?, eu a pensar enquanto imagino balanças e pesos e medidas, coisas para enganar o mais óbvio: o imensurável que somos. O que é ser autêntico? Seremos mais autênticos quando somos o que somos todos os dias, ou somos autênticos quando o álcool e os amigos toldam aquilo que somos todos os dias, e nos permitimos finalmente ser só, sem pensar, sem temer, sem remoer, e somos aquilo que aquela brecha revela, e somos aquela ferida que se abre e somos, do vaso de Pandora, todas as lágrimas a inundarem o mundo dos amigos, nós outros, mais ou menos nós?, um dia, ou menos, por semana.

São engraçadas as pessoas que, bem a meio da semana, bem no final da noite, nos batem à porta, pessoas amigas, pessoas que o serão sempre, amigas, mesmo quando já deixaram de o ser há muito. Culpa minha, culpa delas, culpa de outras pessoas, igualmente amigas, culpa do tempo, culpa das palavras, culpa de circunstâncias, culpa da vida, culpa minha – no príncipio e no fim de tudo estamos nós, e estamos sós.

Engraçadas, as pessoas que regressam aos lugares que foram nossos, que o serão sempre, mesmo quando não o serão jamais; engraçadas na alegria deste regresso inusitado, pelo caminho mais longo e de olhos fechados; engraçadas quando os abrem e tropeçam nas palavras; engraçadas quando acusam o esforço e se desengonçam nos sorrisos; engraçadas até quando disparam cumprimentos a velocidades em que é impossível retribuir, um após outro, após outro, após outro, mimos para disfarçar a atrapalhação, para esconder a precipitação do gesto, o desconforto do corpo em cada movimento, o medo a prender o olhar, a fuga a tornar-se urgente por qualquer meio, o cansaço, o regresso à fuga, o cansaço à frente de tudo.

Tenho andado a pensar nisto. Nisto e no quanto as pessoas engraçadas não me conhecem. Não sabem da minha infeliz caninicidade, da minha memória curtíssima para aquelas coisas dos amigos, dos meus dias cheios de outros dias, pontinhos de luz, uma chama pequenina que não apagarei nunca no que de bom me trouxe, um fogo que alimento, conservo, a alumiar cada manhã de renovada esperança na minha sempre completa alegria.

No train is a runaway train.

sábado, agosto 29, 2009



Com que havia de embater de frente aqui!...

sexta-feira, agosto 28, 2009

Uma casa cheia



Terminaram hoje as minhas três semanas anuais de solitude.

Solitude é uma palavra bonita. Não confundir com solidão, não é nada disso, a solitude dos meus Agostos é aquele viver sozinho que é sossego e é tão bom, esta casa vazia a crescer tão grande em espaços, vazios, silêncios e outros rumores, eu a olhar e a conseguir finalmente ver e ouvir e sentir, tudo, até eu própria - especialmente eu própria, de uma outra maneira, mais completa, mais inteira, pessoal, eu outra, eu menos eu, em todas as restantes semanas do ano, ou eu outra agora. Enfim.

A minha irmã mais nova chegou esta manhã. Com a agenda preenchidíssima e uma série de novidades para por em dia, que eu não fui a Braga já a contar com isso, com recados e lembretes e recomendações e saudades, tantas já, dos pais e da tv cabo - o que as séries, a Ilha?, fazem às pessoas... e todas as palavras, e o almoço?, todos os risos, toda a graça, a encher-nos a casa de novo. Não achas piada? Eu a assentir e a ver o vazio puf!, eu outra puf!, o trabalho puf!, todos os espaços puf!, uma casa cheia.

As casas são organismos vivos. Não é à toa que se contraem e dilatam em estações do ano definidas. As casas são músculo. Contraem-se e dilatam-se ao sabor das vidas que vão nascendo e morrendo dentro delas. As casas, um músculo vital, contraído, dilatado, contraído, dilatado, ao ritmo das presenças que lhes vão dando forma, cor, sabor, textura, aroma, gerações a fio, famílias inteiras, vida fora.

Gosto muito de casas.

quinta-feira, agosto 27, 2009

A mais dura aprendizagem

A mais dura aprendizagem da vida é a da nossa convivência com a morte. A maneira como a vemos, olhando-a de frente ou não a olhando de todo, colando-a à ciência, à biologia, ou (des)enraízando-a da ou na religião, valorizando o agora da vida e do mundo apenas, apostando a vida e o mundo e todos os agoras num sempre do depois. O que for. Como o entendamos.

A mais dura aprendizagem da vida é a da nossa convivência com a morte que a própria vida nos dá tantas vezes. As primeiras aprendizagens de morte são justamente as da morte em vida. Das pessoas que nos morrem, das pessoas que continuamos a levar dentro com o mesmo rosto iluminado, o mesmo riso, a mesma nossa sempre eterna ternura, o mesmo encanto daquele primeiro momento em que nasceram em nós, e para sempre. As primeiras aprendizagens de morte que a vida nos dá são as daquelas pessoas que nos morreram um dia, e para sempre, mesmo se continuam a viver, mesmo quando continuam a viver os dias, todos os dias desde esse, nas suas casas, nos seus empregos, nas suas tardes de amigos e sol, o mesmo riso, o mesmo encanto, o mesmo rosto iluminado agora por outros rostos e outras ternuras.

As pessoas morrem-nos mas de alguma forma, uma inefável, se foram nossas, se nos arderam o coração um dia - é assim quando são nossas - sobrevivem-se para permanecer em nós, sobrevivem-se como se para se cumprirem finalmente. Permanecem em nós, e para sempre. Também. Enquanto a vida corre, o mundo avança e a Terra gira.

Recebi ontem uma mensagem da Irmã Maria do Céu, uma amiga muito, muito querida, a dar conta da morte do pai no início desta semana. Quis ligar-lhe logo, mas não consegui. Estive a pensar nisto que acabo de escrever e no quanto às vezes, reflexo imediato não sei bem de quê, tendemos a olhar os religiosos como pessoas imunes ao mais completo e devastador sentimento de perda que nos traz sempre a morte, no quanto fugimos a ouvi-los como medo que o consolo que lhes queremos dar seja vão, no quanto tendemos a falar-lhes como a pessoas de outro mundo, pessoas com o coração perfeito de Deus a perceber todos os caminhos, a ver para além de todos os escolhos, a esperança e as certezas todas à frente de toda a humanidade que é sobretudo angústia nestas horas, a fé a devorar-lhes todas as lágrimas no âmago mais dentro antes, muito antes, de lhes assomarem aos olhos.

Liguei-lhe esta manhã cedo. Ainda temi acordá-la, mas se bem me lembro no Lar acordávamos ambas à mesma hora, tomávamos banho e secávamos o cabelo à mesma hora, preparávamos o pequeno-almoço à mesma hora. Somos muito próximas – em todos os sentidos que o adjectivo possa ter. Sou muito palerma também, nunca na vida a vi como uma pessoa imune ao que quer que fosse – a distância provoca estas precipitações e estes esquecimentos, julgo – nunca na vida nos vimos como pessoas imunes ao que quer que fosse. É assim, somos assim.

Claro que está com a mesma alegria serena de sempre, Joaninha, querida, então?..., já tinha saudades suas, sabe? isto de pormos as novidades em dia por e-mail não é bem a mesma coisa..., as mesmas preocupações de sempre comigo, ai, sempre a mesma!, está tudo bem... e a sua mãe?, a mãe e aquele tom triste na voz, aquele fio fino, a dor mais pura, mais aguda, a escorrer do fundo das palavras, ... e permanecem em nós, e brilham connosco quando brilhamos, estão no fim do nosso sorriso, não é? Pois... Concordamos sempre. Continuamos a concordar sempre.

- Oh Irmã, um dia temos que discordar, pode ser?
- Pode.

quarta-feira, agosto 26, 2009

As linhas tortas

Os conselhos, se fossem coisas boas e essenciais à vida, nasciam e cresciam connosco, como um órgão que se levasse dentro e nos ajudasse a respirar melhor, a ver melhor, a compreender.

Não sei porquê, tudo vê em mim – sempre – um poço sem fundo de conselhos, dos melhores, mais avisados, mais pertinentes e certeiros, conselhos. Houve tempos em que os dava, e tão naturalmente como um copo de água para matar a sede. Eram os tempos em que tinha o coração cheio de palavras e de esperança, a esperança secreta, segura, de as ver, às palavras, sair à rua um dia. Hoje se tenho algo como certo é que as palavras não saem à rua, nunca saem à rua: valem o que valem, um sopro; duram o mais breve e amargo dos momentos, um enquanto. The ultimate Truth is beyond words. Doctrines are words. They're not the Way. The Way is wordless. Words are ilusions. – já dizia, diz, dirá, e sempre irrefutável, o Oriente.

A Linda foi uma das minha colegas de Departamento nos EUA. Não sei como começou, sei que como sempre, a amizade, a verdadeira, começa sempre igual, cega para o mundo de tanto que conhece, as mais das vezes intuitivamente, a vida, o que realmente importa. E foi assim que, a determinada altura, e quando não saía com o Manu, íamos para todo o lado as duas, a Linda e eu.

A Linda era a pessoa mais sã do meu Departamento – coisas que só se percebem realmente à distância de anos... – e faz-me falta muitas vezes, especialmente quando é Sábado de manhã. Tenho muitas vezes muitas saudades das nossas manhãs de Sábado em que íamos à procura da lã mais bonita para um cachecol ou um gorro, perfect for the european winter, Jo!..., e, paradas nos semáforos, acompanhávamos, como se não houvesse amanhã, os Depêche Mode e os Thompson Twins e tudo o mais que houvesse naquele ipod dela, tão 80s, tão bom.

So, Jo, what about you? Do you think I should invite him for ice-cream? Cause so far, nothing, it’s like he doesn’t see me or understand what I’m implying. Eu e a mania. I think that if you fancy him and he fancies you, he’ll invite you, no doubt. I think Kostas fancies me, not Dan. Eu e a mania. Do you fancy Kostas? Oh no!... Eu e a mania. Well, then perhaps you should be still for a while. To just try to figure out if and who. É claro que o 'give it a go with either one!' da Vica me levou a melhor. Ninguém quer ficar quieto. É claro que a Linda convidou o Dan para o tal gelado. É claro que ele disse que não tinha tempo.

Por isto, e outras histórias mais que não conto ainda, o Manu achava que a única pessoa sã do meu Departamento era eu. O Manu era preconceituoso, daquele preconceito enviesado que se tem muito em Portugal sobretudo quando/se se é homem, disse-lhe eu, que a Linda também era sã, e ele só não conseguia ver isso porque a Linda tinha duas vezes e um bocadinho o meu peso e um cabelo que media mais de um metro e meio. O Manu ria-se, confessava o medo que tinha de ser estrangulado algum dia por aquela trança...; mas mais a sério, achava que a Linda tinha vários problemas, dos quais ainda por cima não tinha noção porque andava a perseguir o Dan. Insistia que além de única pessoa sã do meu Departamento, eu era engraçada, tinha um jeitinho especial de por as coisas, oxalá as coisas não to tirem um dia. E ouve, o Dan não gosta dela. O Manu também era engraçado, ainda é.

Quando vim embora, a Linda esforçava-se por desistir do Dan, esforçava-se por fechar os olhos aos esforços do Kostas, esforçava-se por não parar, nunca ficar quieta. Ninguém quer ficar quieto. – Que conselho é esse, ficar quieto? – conselho de amiga, disse-lhe o que digo muitas vezes a mim própria, então se ela não gosta dele!... A minha mãe não quis saber, disse logo, fazes mal e fizeste mal, então se o Kostas gosta dela!...

Continuo a achar que às vezes é bom ficar quieto. (A minha mãe continua a achar que faço mal.) Continuo a achar que é a maneira mais completa que conheço de estar e de sentir a vida que queremos realmente para nós. Estava quieta quando, na minha festa de despedida, o Dan me pegou ao colo a prolongar um abraço em que, finalmente, percebi. E no entanto, até ao fim, quietos.

A Linda e o Kostas casaram ontem. Foi o evento do ano no Facebook da rede da Rice.

Não há linhas tortas para as mães, acertam sempre.

terça-feira, agosto 25, 2009

Retrato de L.

L. anda na casa dos quarenta anos mas de costas aparentará dezasseis. Aparenta dezasseis, veste vestidos e tops de adolescente de dezasseis, penteia os cabelos, ora presos num rabo de cavalo, ora soltos com fitinha, como se tivesse dezasseis, não come como se tivesse dezasseis, fuma e fala como se tivesse dezasseis e, sobretudo, pensa como se tivesse dezasseis.

L. é divorciada, e, mulher que é, tem um ódio visceral a tudo o que é mulher. Um ódio feito de invejas, maledicências, lambe-chinelismos – que ainda não atingiu o nível que lhe permite chegar às botas, ainda... – e todas as outras mesquinhices que minam as pessoas pequenas todos os dias, a situação marca a hora, até de humanidade só restar delas uma carcaça e a sombra.

Em tempos imemoriais, mas memoráveis, pelo menos para a própria, L. terá jurado aniquilar a raça humana no feminino, único óbice a um futuro de glória, eterno de tão longa e ardentemente desejado, junto do humano menos humano e mais deus de dinheiro e estatuto, que é poder e divindade nos dias que correm, e tão depressa!, na cabecinha, e no corpinho, da dita.

Inicialmente pensei que era comigo, o problema. Ter-lhe-ia sido indelicada, mas quando?, não tenho o hábito, porém é possível que me tenha distraído alguma vez, não sei. Depois, depois pensei que o problema era conjunto. Ter-la-íamos aborrecido com os risos de pequeno-almoço na esplanada aqui em frente, nem falamos ou rimos muito alto, mas é possível que alguma vez, não sei. Depois disso, comecei a pensar que o problema era com ele, que somos amigos, que tivémos professores em comum, que nos conhecemos da Faculdade, que coisas de há cerca de uma década levam tempo a por em dia, que ela pode não saber disso e porventura acalentar alguma esperança secreta e daí o medo que risos de pequeno-almoço e cafés e croissants seriam capazes de desencadear um cataclismo, risos e cafés e croissants ter-lhe-íam enviesado a esperança, não sei.

Por fim, soube, porque me disseram, de outra forma nunca, que o problema comigo especificamente é o da convergência do problema de sempre, a mulher odeia mulheres!, com o problema do futuro, a mulher vive para o estatuto!... (Que estatuto?)

Andam gerações de mulheres a lutar por uma sociedade cada vez mais plural, e por isso indiferente ao género, para sair debaixo de uma pedra qualquer, répteis destes!...

O que isto me aborrece! E me perturba – paralisa-me, aquele olhar ofídio. E perturbando-me, influencia o meu rendimento, o meu trabalho; porque invade o meu espaço pessoal, da estante onde finge ajeitar os livros, da secretária que finge arrumar, do computador que finge ligar ou desligar, da coxia do corredor quando passa pela minha mesa – estou a ver quando me salta ao pescoço para cheirar o perfume ou morder a carótida, ainda não percebi bem. Aborrece-me em especial porque fundamentalmente não compreendo. E isso me confunde. E o olhar, sempre o mesmo olhar, ofídio, que me dá uma sensação muito estranha, e forte, de quase medo.

Esta coisa de o homem ser o lobo do outro homem é muito real. Sinto-o, quando ela anda por aí.

segunda-feira, agosto 24, 2009

O deslumbre

Terão menos de vinte e cinco anos, estão casados, e grávidos, e devem ser dos casais mais bonitos que já vi.

Todas as manhãs passo por um casal muito novo, muito bonito, mesmo bonito, e muito tudo-o-que-um-casal-novo-e-bonito-deve-ser-naturalmente-num-plano-ideal, que não consigo explicar muito bem, nem quero, que este é isso tudo, e isso, essas coisas todas, só vendo.

Explicando o que quero, e vejo: ele é barba, crescida mas cuidada, e óculos de sol, sempre, e t-shirt sempre, e jeans e ténis sempre, e mão dada a ela sempre. Ela é uma miúda!, top sempre, sapatinho raso sempre, jeans ou saia – a de hoje, indiana, um deslumbre!...–, trança descaída sobre o lado esquerdo, sempre, uma flor no cabelo hoje, a mala na mão, sempre.

Não sei o que me encanta mais neles: se a juventude, se a gravidez, se a beleza, se a espontaneidade de um Amor jovem. Não sei, sei de resto muito pouco além da forte impressão que me causam. E que é boa. Muito boa. Como uma brisa fresca a lembrar que a perfeição consegue às vezes ser tão concreta e definida, real, como uma mão dada a outra mão, coração dentro.

Há tempos fiz uma lista – gosto muuuuuuuuuuuuuito de listas de palavras!, – das ‘Coisas que quero muito e não posso já’ e até a escrevi - uma maneira de a ter mais perto, próxima do quotidiano, à mão, debaixo dos olhos, a espreitar para fora da janela, de saída do plano das ideias, esbracejando de dentro do coração para a luz.

Feliz ou infelizmente, agora que a reli à luz do deslumbre desta manhã, a minha lista parece-me modesta, pequena, estreita. Pouco ou nada tem a ver com árvores, filhos e livros, coisas realmente importantes. Longe dos dias e das pessoas, do mundo, a minha lista parece um devaneio, um discurso alienista – ou pelo menos de alienado! –, o delírio febril de um enfermo, imprecações soltas de um louco.

E no entanto, Visitar a casa número 1 do Quai de Bourbon; Carregar uma borboleta ao ombro; Cultivar vários hectares de vinha; no entanto a minha lista, 'Coisas que eu queria muito mas não posso já', Conhecer São Petersburgo. E Budapeste e Salzburgo e Praga; foi construída, pensada, escrita, com base na vida, na minha vida vivida, na de todos os dias; Ter uma penteadeira; Ser avó; e no entanto, tenho a certeza que a vida, a tal minha que é de a de todos os dias, Forrar o meu tecto de dormir a Chagall ou Klimt; ...; e vivida, realmente, como sei, como posso, Viver numa casa branca, por dentro e por fora, e junto ao mar; essa, sei, vai levar-me a concretizar a tal lista, e a por ela deixar porventura em suspenso as coisas realmente importantes.

O que é realmente importante?...

sexta-feira, agosto 21, 2009

Coisas que me inquietam

O Inusitado.

Os meus livros de requisição presencial todos os dias desaparecidos da estante onde os busco todos os dias, os meus livros, quietos, gritando a mudança, lombadas para cima, no carrinho em que os deixei ontem ao fim do dia.

O tarado cá do sítio, o babão para tudo o que é utente-adolescente, o boçal que estuga o passo a olhar-me os afazeres no computador, o inconveniente que ainda há tempos elogiava as All-Stars de uma amiga, cassandra que não veio esta manhã como eu, para embater com o sorriso mais pantomineiro do mundo, hoje mais que em todas as manhãs, um par de All-Stars azuis-escuras novinhas em folha. Argh!


O despautério.

Ir lanchar a meio da manhã: ir à procura de um croissant de chocolate, coisa de pequeno-almoço, às onze da manhã. Revolver a vitrine, rebolar os olhos antes de fuzilar os bolos, todos, e me preparar psico-fisiologicamente para a negativa da senhora.

Sair da pastelaria com um croissant com creme, de certeza de ontem, a transbordar de açúcar, de certeza de hoje, olhar o despropósito e deitá-lo ao lixo. Sentir no coração o peso do desperdíçio – todos os meninos de África a olharem-me do caixote, até um outro olhar me apanhar. Olá, olá, desculpa não te estava a reconhecer, não faz mal, Isabel, tudo bem contigo, sim e tu que fazes, eu..., pensar que devia também responder sim, apenas e só, e voltar-lhe para cima as lombadas dos livros, deixá-los no carrinho, e ficar assim, olhar vitorioso no vazio, a medir a indignidade que é ela centrar a nossa conversa em mim, só em mim.

O irremediável.

Ter sido mordida por um insecto até agora desconhecido, até agora vivo, e ter as pernas uma lástima (ainda mais lástima que depois da queda), valham-me o ar condicionado e os santos vestidos! Prometer passar a dormir de janelas fechadas, antes de relativizar e não cumprir o prometido.

Sonhar “almodovarices” dentro de “lynchices” que estão por sua vez dentro de outras “almodovarices” e acordar a meio do sonho – o que é um sonho? – sorrindo de felicidade estúpida, perdida como uma tolinha!, voltar para o lado e resolver desistir do Lynch e nunca ver Almodóvar na insónia, dormir; acordar para repensar, voltar atrás, resolver não mais ver Almodóvar – sorrir à la Lynch...

Ou de como ‘querer tanto’ é um decalque perfeito de ‘não querer com muita força’.

quarta-feira, agosto 19, 2009

Miúdos (II)


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Aos 20 anos vivia aqui, 36 Rue du Montparnasse, a escassos cinco minutos a pé do Jardin du Luxembourg, a doze, da Sorbonne. Eu, cento e cinquenta outras raparigas e três freiras. Além de nós havia a equipa do catering, encarregue dos pequenos-almoços – e do melhor sumo de toranja do universo!, almoços – chez nous ou à porter, Mameselle? – e jantares – invariavelmente chez nous – para toda a gente. Além da equipa do catering, havia ainda duas senhoras que ficavam na Recepção encarregues de perto de uma centena de chaves de quartos e encarregues, sobretudo, de abrir e fechar o portão da entrada, trezentas vezes por dia, mais coisa, menos coisa, mas sempre com o mesmo Voilá! cantado em intervalo melódico singular e seguido de sorriso, uma; sempre com o meu nome Johaná!, aspirado mas sem intervalo melódico, a inclinar-lhe o rosto, com doçura, para a esquerda, outra.

Ter vivido aos 20 anos em Paris, viver em Paris em qualquer idade, é um luxo! Eu sei, toda a gente faz questão de frisar, sorriem-me que sorte!, e eu toda desconfortável, quase a querer desculpar-me o não partilhar da efusão de toda a gente. Acho que toda a gente pensa que eu sou como toda a gente e que por isso terei passado pelas experiências, incríveis, de toda a gente aos 20, de toda a gente em Paris, de toda a gente que é toda a gente, não importa quando, não importa onde. Mas não. Ou nem tanto.

Tinha um amigo rastafari, no qual esbarrei um dia por acaso antes de uma aula de Literatura, francês, estou em crer que, só de nome – chamava-se Luc – e que, primeira coisa depois de saber que eu era Erasmus e de Portugal, me deu o maior abraço de todos os abraços do mundo, que ele próprio tinha feito Erasmus em Lisboa e que ia voltar – num Português notável! – porque Portugal não é Lisboa – e foi aí: ficámos amigos. E duas únicas amigas: a Claire e a Yseult, as miúdas que se sentavam sempre na mesma mesa que eu ao jantar. A Claire passava os dias sentada muito próximo das pirâmides, perdão do Centre Georges Pompidou, a desenhar gente – era de Belas Artes – e queixava-se do quanto essas eram as suas aulas mais difíceis. Eu ria-me – pensava na minha Semântica Latina e Síntaxe Grega e ria-me. A Yseult, já não me lembro que fazia a Yseult, sei que me achava graça desde aquela primeira vez em que fomos apresentadas e eu, antes de mais nada, t’as un Tristan?, antes de rir, corou, mas depois que sim que tinha, mas não era Tristão, que eu era engraçada, que nunca ninguém lhe tinha feito essa pergunta, nem em Versailles – de onde eram ambos – nem ali em Paris e no entanto. E eu ria-me a pensar se fosses Joana em Portugal!..., não há Joana que não tenha ouvido, ziliões de vezes, até ao nojo, o Joana come a papa antes ou depois do Joaninha voa, voa.

Guardo de Paris uma imagem muito viva, não da Torre Eiffel, não da EuroDisney, não do Louvre, não do Sacré Coeur, não de Montmartre, não dos Champs Ellysés, não da Place de Vendôme, não das Galleries LaFayette, não da Opera, não do tudo que se possa imaginar Paris é e será de facto..., guardo de Paris uma imagem viva de gente. Destas pessoas que me encheram os dias do melhor da vida e de outras menos felizes no que de si me deram. Mas guardo sobretudo a imagem viva da gente dentro de um autocarro. De uma senhora de setenta anos que tem que desembainhar um cartão a atestar-lhe a idade para que se lhe ceda um assento. De uma senhora de meia-idade que lê. De um senhor de meia idade que lê. De pessoas jovens que lêem. De adolescentes que lêem. De crianças que lêem. Das Confessions do Rousseau, do Candide do Voltaire, da Madame Bovary do Flaubert, do Germinal do Zola, da Andromaque do Racine e de tudo o que consegui apanhar do Rimbaud, que acabei por ler na íntegra e sem tradutores traidores pelo meio, nos meus muitos quatro minutos de viagem de autocarro da Rue du Montparnasse à Sorbonne todas as manhãs – à tarde vinha a pé para atravessar o Luxembourg e dar, pelo caminho, os restos do panini do almoço aos patos.

Recordava isto ontem ao fim do dia quando observava, no comboio, Paris numa família de três: a mãe a acabar o Une morte en Venice do David Silva e a discutir com o marido as notas finais do autor; o pai a meio do Périple du Ciel, do Clézio, a discutir com a mulher a generalidade da obra do Clézio; e o pequenote, não lhe daria mais que seis anos, a ler não consegui bem ver o quê. A meio da viagem dos três, o pai ao filho, Julien, comment il est? Ao que o filho, seis anos de gente, segura, fundamentadamente, e num registo tão impressionantemente adulto, emite uma série de juízos que esqueço, retenho apenas o cerne: ‘il est passioné’. E todos os connectores discursivos: en fait, d’ailleurs, cependant, néamoins..., seis anos de gente!, néamoins, seis anos de gente, passioné, seis anos de gente, d’ailleurs.

“Et voilá, c’est ce que je dis, la lecture c’est ça: passioné. Et passionant”. – remata o pai a sorrir e, suspeitando da atenção que lhes prestei toda a viagem, procurando também em mim alguma forma universal de assentimento. Sorrio-lhe de volta, e penso, pode-se sair de Paris para férias, mas parisiense que é parisiense, dos seis aos oitenta, é, será sempre, em qualquer meio de transporte público, ávido leitor.

E ainda bem.
* Os google-maps são o máximo! As coisas que uma pessoa descobre...

terça-feira, agosto 18, 2009

Miúdos

“A senhora sabe a que horas abre a Biblioteca?” “Abre às nove e meia.” “E sabe, se falta muito?” E é aqui. Bem aqui quando olho o sorriso expectante, que eu começo a derreter por dentro e a pensar estes adolescentes descontam o tempo, anda uma pessoa a contar o tempo, uma pessoa envelhece a contar o tempo, contado, o tempo foge, uma pessoa conta todos os dias, sempre, e eles falta quanto?, eles nos descontos. “Faltam quinze minutos, pensavas que abria às nove, era?” “Sim, da última vez que vim para cá abria às nove, a senhora vem cá muitas vezes?”A senhora vem cá, estou velha, mentalizo-me, ou tento, a senhora. “Algumas, e tu, vens ver filmes, é?” “Não. Venho para a net. A da minha casa acabou e agora tenho de...” “A da tua casa acabou como?..., andas a descarregar muitos filmes. E jogos!” “Sim, acho que se acabaram os gigas por causa dos downloads, mais, mais são jogos, sabe?, alguns filmes também, mas...” Os gigas e os downloads, sou mesmo senhora, velha, velha, velha, está visto, ou melhor: ouvido, está ouvido e registado, assente.

“A senhora quer uma pastilha?” “Não, obrigada, também tenho.” Depois de derretido, o meu sorriso incontido, deliciado pelo à-vontade e pelo desprendimento, o meu sorriso de sempre, a esbarrar-lhe na mochila que começa a abrir, na t-shirt amarelo forte, nas adidas de um amarelo incrivelmente igual. Adolescentes. Os adolescentes, todos, e a senhora. “Destas?” Trident frutos silvestres. A senhora às vezes tem dessas, mas hoje não calhou. “Não, destas. Mas a marca é a mesma, vês?!” Mostro-lhe, ele ri-se. Acabamos por nos rirmos os dois, reconhecemo-nos, de alguma forma. A senhora permanece na nuvem, como se o reconhecimento a embalasse e levasse para um outrora, longe, longe, longe. A senhora recorda-se de quando era stôra. “Falta muito?” Os adolescentes e a pressa outra vez. Os adolescentes e nenhum relógio. “Cinco minutos.” “Cinco minutos é muito tempo, não acha?” “Depende. Mas neste caso não, não acho. Já cá estamos há dez e passou rápido, não?” “Sim, por acaso!... A senhora mora onde?”

Está uma menina lá em baixo, no jardim, a olhar cá para cima. É uma menina que conheço porque vem cá acima, costuma vir, a meio das tardes, todas as tardes, à procura do pai, normalmente ali à frente nos computadores. Conheço-a antes de passar por mim, conheço-a quando passa a porta e, de certeza, olha-me as costas, conheço-a quando passa ao lado de quem estiver na mesa atrás da minha com o fito nas costas do pai ali em frente, conheço-a, conheço-lhe o andar pequenino de passarinho. Tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic.

Sorrio-lhe. O costume. Um sorriso que ela não retribui, não percebe, finge não ver. Regresso às minhas coisas. Eu que queria um sorriso de passarinho de volta, eu a pensar naquele andar de todas as tardes, a meio da tarde, tic, tic, tic, tic, tic, tic, tic, eu a ver a malinha que costuma teimar em deslizar do ombro com a pressa, tic, tic, tic, a mão pequenina que põe e repõe o arquinho do cabelo ao passar, com a pressa, tic, tic, tic.

Talvez daqui a uns seis, sete anos, à espera da abertura de uma Biblioteca qualquer, quem sabe...

segunda-feira, agosto 17, 2009

Não se come chocolate de manhã

Gosto destes pais que não querem dar de pequeno-almoço bollycao, ou afins, aos filhos. Gosto, pisco o meu olho mais divertido ao olhar choroso e loiro do miúdo, a ver se lhe arranco, e consigo, um quase sorriso, migro séria para o pai, para continuar a gostar do pai que possivelmente começou o dia a respirar, inspira, expira, tabaco, mas que, não senhor, não se come chocolate de manhã, come-se um croissant simples ou um pastel de massa tenra ou um bolo a abarrotar de creme, quase de certeza, que este bar da Biblioteca é disso que tem, além dos bollycaos, claro. E continuo a achar-lhe graça.

Hoje vou achar graça a tudo. Sei. Comecei assim às sete da manhã, bem, um nadinha antes. Ia depressa, mas não a correr, ia para o metro, segura, sem cantarinha e nunca pela verdura - por muito que se queira, não há verdura no Marquês. Ia para o metro, apressada, porque mais tarde que o normal dos dias, e não escorreguei, não me desequilibrei, nem sequer tropecei - que não havia em quê - mas dei um tralho, um malho, uma queda absolutamente patética – não serão patéticas todas as quedas...? E nos dois sentidos. Resultado: dois pés estragados – e este período que rima duas vezes, engraçado!, corrijo: três vezes.

Se a isso acrescentar que o meu tornozelo esquerdo e o hálux, esfoladíssimo, do meu pé direito andam a rivalizar um com o outro no desconforto que me possam causar todo o dia, a graça aumenta – nem que seja afinal, por esta dever ser porventura a primeira vez que escrevo hálux neste blog. E as sandálias? As minhas sandálias mais bonitas, rasteirinhas, douradas, à la romana, a esquerda intacta, a direita, à frente, na zona do hálux, aberta como uma boca num estertor de dor – e a rima, a graça, outra vez!...

Escrevo isto a pensar muito no principezinho choroso por ser de manhã, e não se comer chocolate de manhã, eu que comi cereais de chocolate esta manhã, às horas indecentes a que me levanto todas as manhãs, e nem cheguei a ficar chorosa depois da queda por achar graça, porque achar engraçado é uma forma mais bonita, menos principesca mas pelo menos mais adulta, de chorar, e se calhar a culpa nem foi minha, nem da pressa, nem das sandálias, e se calhar, na volta foi mesmo, se calhar, desorientou-me o chocapic!, eis então por que caí esta manhã, os pais sabem sempre tudo.

Os pais sabem sempre tudo. E pergunto-me o que achariam os meus acerca dos dois olhos que se passeiam lá em baixo, alheios como sempre às coisas do mundo, presos como nunca a esta janela do meu lado direito.

Engraçado!, quase de certeza.

sexta-feira, agosto 14, 2009

De tabaco, saudades e outras coisas bonitas

Agora que o metro chega cinco minutos depois do costume de todos os dias do ano que são de trabalho, corro menos: acordo mais tarde, demoro exactamente o mesmo tempo no banho – os prazeres que não tiram férias!... – visto-me mais lentamente, tranco a porta com todo o vagar, saio porta fora a pensar devagarinho em tudo o que tenho de fazer no dia, apanho a pastelaria do fim da rua a abrir, cumprimento o dono, sorriso lento, dobro a esquina, voo lento, quase me arrasto até ao metro, lento. Saio do metro ainda a pensar devagar, uma prioridade para este dia em cada degrau até São Bento. Hoje, o insólito: um maço de Águia bem no cimo das escadas a baralhar-me as prioridades.

Águia era o que o meu avô fumava, sempre que não havia Santa Maria.

Quando tínhamos visitas de fim-de-semana, outros fumadores – que o meu avô era a única pessoa fumadora da família de casa –, entretinha-me a olhar para os outros do colo dele e a notar o quanto o meu avô era especial. As outras pessoas fumavam cigarros diferentes, com filtro, cheiravam diferente nos beijinhos, nada a ver com o meu avô, tossiam – às vezes muito, nunca o meu avô, e tinham unhas como as minhas de criança, nada a ver com o polegar e o indicador amarelo-torrado que sempre me davam a mão nos passeios.

Às vezes, a meio dos dias, o meu avô sentava-se no canapé da rua para aquele cigarro e eu seguia-lhe o encalço. Deixava-o sentar, puxar do cigarro, começar a fumar e logo trepava perna esquerda acima, ele a içar-me sem dizer nada, eu a endireitar-me lá em cima, eu a sentar, eu sentada a encostar a minha cabeça ao seu peito, nós dois quietos, calados, a ver o sol a descer no pico.

Hoje em dia, quando estou em casa e é Verão, na casa que é dos meus pais, foi dos meus avós e é, será sempre, nossa, às vezes, a meio de tardes demasiado longas, sento-me no canapé de agora a olhar o sol de agora no pico. E raramente me lembro do meu avô: o canapé é outro, o sol também, já não temos alpendre, e o cheiro a tabaco Santa Maria, ou Águia, desapareceu. Uma vinha substitui o alpendre, protege-nos do sol como um manto, e impregna todo o quintal com aquele cheirinho doce a uvas e a fim de férias de Verão.

Hoje em dia, quando estou em casa e não é Verão, e a ausência da vinha se faz sentir logo nas primeiras chuvas, e, cabelos molhados, ombros molhados, esquecida do meu avô, penso que toda a casa devia ter um alpendre com guarda-chuvas para as saídas e um baloiço-duplo e mantas para quando se quer ficar ali de chocolate-quente na mão, no Inverno. (E uma rede para um chá-gelado e conversas de fim de dia, no Verão – como nos EUA!...)

Hoje, quando me lembro do meu avô, é longe. Longe do canapé, longe do sol, longe do pico e, porém, demasiado perto da menina que queria aquele colo, para sempre, e só para si; demasiado perto da menina que, já perto do fim, lhe ia comprar o tabaco, mais ou menos às escondidas, mais ou menos ciente, mais ou menos ciosa - nunca deixei de ser a menina que queria aquele colo para sempre.

Hoje, lembro-me do meu avô muitas vezes, mas sobretudo quando passo por um aroma, o cheirinho dele, que nunca foi de tabaco, mas de beijos e da pressão terna de uma mão grande encaracolada dentro de uma mão pequenina.

quinta-feira, agosto 13, 2009

Uma cidade que conheço com o coração

A senhora do café anda preocupada com a escassez de roupa de Verão, chic mas sem ser de cerimónia, para um cocktail ao fim-do-dia, sabe?, que as lojas têm para oferecer nesta altura que é Verão para as pessoas como nós, mas início de Outono/Inverno para as pessoas que como elas, as das lojas.

Não me sabia com ar de quem percebe de roupa e cocktails, que até vou sabendo, em boa verdade mais de roupa que de cocktails, porque ao contrário dos gostos – aposto, aposto, aposto!... – o nosso tamanho é idêntico, e as lojas acabam por sempre as mesmas, em Braga ou no Porto.

Pois, mas também depende muito do sítio para onde vai: há lugares em que as noites são fresquinhas, outros em que são tão ou mais quentes que os dias, outros ainda em que são absolutamente imprevisíveis.

Vai para Cabo Verde que é um sítio fantástico que só conheço do Chiquinho do Baltasar Lopes e de brochuras em newsletters tap vitória. Vai doze dias, com roupa mais ou menos chic, mais ou menos fresca, vai para descansar do bulício desta cidade, vai para conhecer aquilo e trazer muitas histórias para contar, sei.

E é assim que, não tarda nada, vou conhecer Cabo Verde ainda mais por dentro.

No outro dia, segunda-feira – às segundas tenho-me deixado ficar em casa mais a prolongar o fim-de-semana do que a trabalhar, na verdade (tento) trabalhar só no intervalo, tão pequeno, desse prolongamento –, estive a espreitar amigos em férias. Às vezes às férias dos outros, de guardassóis às riscas e gelados, flores no cabelo, sol nas costas, vestidos estampados, olhos no mar, respingam um bocadinho para nós e isso é bom, muito bom.

Especialmente às segunda-feiras... Especialmente antes de ter chegado à conclusão que há uma cidade no mundo que conheço incrivelmente, assustadoramente, bem. Como se conhece, quando se conhece, a palma da mão direita, tão diferente - incrivelmente, assustadoramente - da esquerda.

Como se já lá tivesse estado muitas vezes. Como se me tivesse deixado lá ficar. Como se agora regressasse a mim que nunca saí de lá. Como se já lá tivesse vivido e, chave na mão, abrisse a porta, com o desprendimento de sempre, depois de mais um dia de trabalho. Como se já lá tivesse trabalhado e a atravessasse de metro todos os dias, quando o dia nasce e quando morre. Como se fosse minha em passeios e conversas e repastos tardios de fim-de-semana ao sol.

Como se conhece, quando se conhece, o que é, tão diferente - incrivelmente, assustadoramente - do que não é.

Há uma cidade no mundo que conheço com o coração. Coisas de uma outra vida.

quarta-feira, agosto 12, 2009

Do dia de hoje e de uma conversa de ontem

É jovem quem veste calças de ganga e sapatilhas. É jovem quem acaba o dia a desapertar a gravata para ver melhor o pôr-do-sol e as gaivotas.

É jovem quem come no Mac e simpatiza ya. É jovem quem vai ao cinema depois de jantar, no fim-de-semana, ou no fim-do-dia – qualquer dia.

É jovem quem masca pastilha elástica com a boca muito aberta e tem três telemóveis em cima de toda e qualquer mesa – um de cada rede. É jovem quem toma chá de menta e mata distâncias em caixas de fotografias.

É jovem quem combina saídas no MSN e tem de negociar as horas para chegar a casa. É jovem quem organiza, de surpresa, um serão entre amigos.

É jovem quem usa biquinis minúsculos e flores de plástico no cabelo. É jovem quem se deita na rede a pensar em flores. E borboletas. E joaninhas. E sapos.

É jovem quem não pensa e faz asneiras - as que pode e as que não pode. É jovem quem pensa que não pode fazer asneiras - e não as faz, umas vezes; e fá-las, outras tantas.

É jovem quem não mede palavras e despeja nessa sinceridade o coração. É jovem quem escreve poemas, quem canta - quem toca quem ouve.

É jovem quem ouve música alto e canta alto e pula, ainda mais alto!, em cima da cama ou do sofá. É jovem quem se enrola na mantinha para chorar saudades do futuro em livros e músicas e filmes.

É jovem quem ri desbragadamente e sorri com franqueza. É jovem quem ri com palavras – interjeições e advérbios e pronomes pessoais de segunda pessoa...–, e sorri com o olhar.

É jovem quem trabalha nas férias, aos fins-de-semana, parcialmente. É jovem quem não tem férias, nem fins-de-semana, se se entregar ao trabalho com paixão, completamente.

É jovem quem anda de autocarro e de comboio, um ramo de tulipas e os livros, uma baguette e chocolates debaixo do braço. É jovem quem anda de táxi e de avião, olhos abertos no relógio, fechados no ipod.

É jovem quem troca os compromissos pelo soninho bom da manhã. É jovem quer cumpre o prometido com sorrisos que não disfarçam o sono a pingar em cada palavra.

É jovem quem, atento aos ciclos da natureza, vive para as suas raízes. É jovem quem, atento aos mesmos ciclos, vive para os seus frutos.

É jovem quem tranca a porta do quarto – entrada proibida a pessoal estranho ao próprio. É jovem quem abre todas as portas e todas as janelas do tempo, de si, ao outro – estranho ao próprio.

É jovem quem espera cumprir-se e se distrai do caminho ao tropeçar em escolhos. É jovem quem espera cumprir-se sem se adiar, atravessando montanhas, voando sobre escarpas, incerto na partida, incerto na chegada, mas certo no caminho.

É jovem quem tem o coração dentro do peito, todo seu para guardar. É jovem que o não tem, quem tem no lugar do seu outro – para conservar.

É jovem quem espera o Amor com impaciência. É jovem quem já o encontrou e o vive, coração a arder.

É jovem quem o vê em todas as coisas. É jovem quem o vê na vida: nas coisas que o são e, muito especialmente, nas que não o são.

terça-feira, agosto 11, 2009

O outro lado do mundo

Ando a fintar eu por cá. Ando a fintar eu por cá porque não quero escrever o que, com todas as forças, me apetece escrever. E acho que isso é por causa da responsabilidade que traz a amizade. Porque, felizmente para mim, a generalidade das pessoas que comenta aqui são amigas, daquele amigo-mesmo-amigo com quem se partilhou, partilha, partilhará, a vida em momentos: manhãs e tardes de sol, abraços e conversas, um cházinho ou um cafézinho, um jantar ou uma saída.

São-me difíceis, os verões – acabam por sê-lo, enfim, de alguns anos a esta parte. Na realidade, pensando bem, acabam por sê-lo desde que fui para o outro lado de mundo.

Gosto de dizer: Fui para o outro lado do mundo. Mesmo tendo apenas cruzado o Oceano Atlântico, mesmo tendo ido para os EUA, e não para a Austrália ou para Singapura ou para a Tailândia ou para o Tahiti – aqueles locais a que se costuma associar “o outro lado do mundo”. (Na verdade, a maior parte das pessoas não percebe, não sonha sequer, o que é na realidade o outro lado do mundo.)

Às vezes vamos para o outro lado do mundo sem nos mexermos sequer do lugar, e a viagem muda-nos, constrói-nos por dentro, mesmo que nos destrua, sobretudo se nos destrói.

Apesar de este meu ter ido para o outro lado do mundo ter sido da outra espécie – daquela que implica fazer malas, entrar em aviões, trocar de aviões, apanhar comboios e táxis, chegar a novas cidades e casas e pessoas e começar a recomeçar – a viagem por dentro, aquela que nos transfigura especialmente quando estamos quietos, terá começado bem a meio da outra e por razões absolutamente providenciais: o inefável tem caminhos que só o inefável.

São-me difíceis, os verões – acabam por sê-lo sempre, e isto, percebo agora, porque me acordam de uma maneira violenta para a vida. Não sei se ando distraída no resto do ano, se me cegam as ocupações, as pessoas, os deveres e as obrigações do dia-a-dia, se por isso me limito a vivê-lo, o quotidiano, sem pensar muito, sem olhar, tanto quanto devia, para os lados, sem analisar muito, sem julgar muito, replicando quase nada, absorta em palavras escritas, sem visão de conjunto, sem o óbvio, sem dar pelo óbvio.

Às vezes vamos para o outro lado do mundo sem nos mexermos sequer do lugar, e a viagem muda-nos, constrói-nos por dentro, mesmo que nos destrua, sobretudo se nos destrói. Às vezes vamos para o outro lado do mundo nos EUA ou em casa, em frente ao computador ou num abraço, bem a meio ou só na última página de um livro, depois de muito choro ou riso.

As pessoas não sabem, algumas pessoas não sabem, mas o outro lado do mundo não é a Tailândia lá longe no Pacífico, nem é o céu que o mar espelha, fulgurante, estes dias, nem a lua que o sol ilumina quando cai a noite, nem sequer é o Amor, ou o desamor, a decrepitude ou um momento de extâse.

O outro lado do mundo é o outro lado da vida.

Que vamos trilhando pela margem.
Que vamos percorrendo no limite da sede.
Que vamos construindo: dificuldade após certeza, certeza após dificuldade.
Que nos vai pesando da cabeça aos ombros até chegar mais dentro, ao coração.

O outro lado do mundo é o outro lado da vida.

quinta-feira, agosto 06, 2009

Levasse-as, o vento

Coisas que eu não percebo. Porque é que as palavras que deviam ficar connosco para sempre, no coração, na cabeça, nas mãos, em cima da secretária, no espelho da casa de banho, em post-its no frigorífico, no ligar o telemóvel, aquelas sensatas, amigas, e as outras, igualmente sensatas, mas repreensivas, do tipo abanão, tão ou mais amigas, todas, de anos e anos de vida e de mundo, porque as leva o vento as mais das vezes? Porque prefere essas e não outras, as más, porventura mais leves: as más mesmo-más e as más que-quê-são-nada-tão-puras, lindas!: as más mas só depois de muito, porque só em potência, as perigosas, as que abrem buracos em músculos vitais, aquelas que são vazias e informes e que por isso se nos colam por uma eternidade – até desbotar enfim a cor, o peso, a importância, a verdade, o valor que lhes dermos...?

Não percebo o vento. Nem esta chuva de Agosto. Nem as pessoas. Não percebo as pessoas que se sentam bem ao meu lado, me olham bem de frente, e logo, uma palavrinha e outra e ainda outra e outra, todas as palavrinhas a serem ditas, todas a sairem-lhes dos olhos, da boca, todas para mim, todas em fila, encadeadas, a chegarem aos meus olhos, aos meus ouvidos, e eu a não saber que dizer, eu a não saber como replicar. Eu a sorrir e a prosseguir o que estava a fazer normalmente. E a dizer de mim para mim Outra! e a fugir a dizer Não esquecer!, porque isso, oh boy, devo ser a pessoa mais rancorosa do Universo, Não esquecer! nem é preciso dizer.

E depois esqueço. O dia seguinte é sempre outro dia, eu sou sempre outra, as pessoas, outras também certamente. O pior é quando chega ao dia, sempre um hoje, mas sempre terrivelmente longínquo do dia em que se sentaram bem ao meu lado e me olharam bem de frente, quando chega o dia, contava, em que não se sentando perto, nem olhando muito, as palavrinhas que lhes saem são outras muito-outras, quase ternas e absolutamente diferentes e indiferentes de e àquelas palavras primeiras; como se aquelas palavras primeiras nunca tivessem existido ou então tivessem existido numa outra vida ou ainda com outras pessoas. E eu novamente sem saber o que dizer, eu novamente a não saber como replicar. Eu a sorrir e a pensar no quanto é ténue a linha que separa a sanidade da loucura, nunca sabendo qual de nós é o louco mais-louco, antes de desistir de saber o impossível e prosseguir o que estava a fazer o mais normalmente possível – que pensamentos destes absorvem-me quase completamente e... tão longe o trabalho ali tão perto.

Acho que, dos mil quatrocentos e noventa e sete, este é o meu pior sorriso. Cá para mim que nunca o vi e, a cada vez atordoada com a surpresa sempre nova, mal o sinto, nem deve chegar a ser sorriso: um rasgão pequenino a acompanhar um movimento de olhos indefinido, gestos que não querem dizer mais do que Esta agora! – expressão máxima do rancor joanino... –, gestos que na realidade não querem dizer nada. Que no meu mundo a generalidade das palavras, mas estas sobretudo, estas palavras, pagam-se com o silêncio. O mais absoluto silêncio é o melhor sítio para pensar no que fazer à vida.

Há também aquelas pessoas que são na vida da gente, na minha, um marco. Não por marcarem o que quer que seja, ou marcarem nesse aspecto pouco, mas porque entram na minha vida com uma missão para elas certamente oculta, mas óbvia para mim: a de determinarem, determinar-se, quem sou, que tipo de pessoa sou. Pessoas que são um desastre que soluça palavras e respinga momentos, estranhamente, só na nossa direcção, pessoas aos tropeços para se cumprirem, para nos cumprirem?..., pessoas que embrulham os nossos momentos felizes nas piores palavras, mas que também têm o condão de desembrulhar de momentos infelizes as palavras mais certas, todo o conforto no colo de uma palavra delas. E por isso enternecem-me, e por isso não as consigo relegar para a esfera segura do silêncio. Mas perturbam-me também: enternecem-me tanto quanto me perturbam. E confundem. E me deixam com poucas palavras, sem sorrisos, nem pensamentos mais ou menos profundos acerca da mente humana. Essas são as pessoas que me põem a escrever aqui agora, numa linha com mais dúvidas do que ternura, na seguinte com mais ternura do que dúvidas, quase esquecida do almoço que já não vai ser, quase trocando essa prioridade pelo peso, na memória, de palavras ditas, más - não sei, infelizes - talvez..., palavras ditas, num dia triste, distante, tão presente!, tão presentes, essas palavras que quase esqueço o almoço, a agenda para a tarde, tudo, e por isso maldigo o vento.

Levasse-as, o vento.

terça-feira, agosto 04, 2009

Trabalho em Agosto



Trabalhar em Agosto é como trabalhar ao Domingo sem folga à semana. Ruas desertas, metro com horário de Verão, comboio com lugares até para sentar a mala, Biblioteca vazia, cheia de silêncios e ecos. Trabalhar em Agosto num dia bonito, quase quente de sol e azul de poucas nuvens, como hoje, com a praia e as pessoas e o descanso tão longe, é aceitar cegamente um castigo daqueles de quando se têm sete, oito anos, e nos mandam fitar o quadro negro, costas viradas à animação da sala por uma eternidade.

Trabalhar em Agosto custa. Mesmo se nos apoiamos nas pessoas que, sabemos, também mostraram a língua à professora depois de terem puxarado o cabelo à colega da frente, ou nas pessoas que pontapearam forte a bola que quebrou o vidro da janela, mesmo se nos apoiamos nessas pessoas que conhecemos de sempre, seis olhos de meia idade que varrem o comboio todos os dias por hábito e curiosidade, e nas outras que conhecemos de há um bocadinho menos que sempre: botões de punho redondamente vermelhos, às riscas azuis marinhas, como a gravata, e que, novidade das novidades, partilham, estes dias, o castigo connosco.

Trabalhar em Agosto custa a todos. Mas custa mais a quem trabalha a saber que não vai ter férias. Setembro, Outubro, Novembro, outros dias, meses, o mesmo trabalho. Custa mais àqueles a quem um almoço de mais de uma hora pesa a meio do peito antes de cair no estômago. Custa mais àqueles que fogem das estatísticas para o cinema ao fim do fim-de-semana a pensar se estarão absolutamente salvos de todas as modas e amostras. Custa mais àqueles que trocam meia hora de computador e cópias por dois dedos de conversa, amena e amiga, a pôr realmente em dia amanhã mais um bocadinho, ou depois, ou depois, de certeza numa próxima em que tenha mais tempo, prometo. Custa mais àqueles que acordam no meio da noite, qualquer noite do ano, muitas noites, às vezes seguidas, o coração a bater em todo o lado, a pensar eu não vou conseguir fazer isto.

Trabalhar em Agosto é assim para algumas pessoas. Que eu conheço, que eu não conheço, para mim. É assim para mim. Agora alguns dias, muitas vezes no ano estes últimos anos. Quando não é o contrário e é por amor. E me fascina e desafia, e de alguma forma de me completa e encoraja a prosseguir determinada e mais ou menos feliz. Às vezes, é verdade, o trabalho me rouba ao mundo, porventura porque me deixo absorver por ele, por paixão e para avançar. É quando é maior que eu “a vontade que me ata ao leme” e termino cada dia, exausta, a pensar estou a trabalhar num sonho. Estou a trabalhar num sonho, antes de dizer adeus ao mundo por sete, oito horas do sono mais profundo. Estou a trabalhar num sonho, ao acordar para mais um dia de dez doze horas de computador e cópias.

E almoços e amigos e conversas, a meio do verão, meio inverno, de fugida, à tarde.

Estou a trabalhar num sonho. E isso chega-me para acalmar Agosto nos dias.