sábado, novembro 28, 2009

'Boomerang' de Pedro Eiras hoje no Gato Vadio



Boomerang. 27 postais. Sobre a Europa ou os seus fantasmas. Poderia ter sido um livro mas afinal é um trânsito. Ir e vir. Escrita sobre a escrita sobre a escrita. Recuo histórico. E depois sobre o presente: desafiar a miopia. Aceleração do tempo. 27 vezes, menos uma, porque há sempre o imponderável. Ensaios postais crónicas relatórios de leitura. Acordos e desacordos. Para desmontar perder dispersar.
apresentado por João Miguel Teixeira Lopes com Pedro Eiras e António Preto colecção O Rato da Europa edição Pé de Mosca na Livraria Gato Vadio Rua do Rosário, 281 – Porto HOJE, 28 de Novembro 2009 às 22 horas

Apareçam!, que eu também.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Vocês têm?


Para facilitar o troco:

- Vocês têm vinte e cinco cêntimos?

Nós tínhamos. Do fundo da carteira, uma moeda de vinte, uma moeda de cinco, os cêntimos pedidos, coisa fácil de se ter ao fim do dia, entregues naturalmente rápido. Cataclismo universal ao balcão da pergunta: muito barulho de plástico desmoronando-se, todos os polímeros anunciando combinados e promoções, preços de take-away e bolos de aniversário, de borco.

Nós termos é uma coisa poderosíssima.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Tempus longum vitiat lapidem

Fugir de alguém, ou de alguma coisa, deve ser uma luta muito grande. Uma tarefa que se assume, sabendo, se não de início, em algum momento, a muita força que requer. Não fortaleza, força. A que é necessária ao acelerar de passo, ou ao encolher-se, ao assobiar para cima, ou - alternativa - virar a cara para o lado mais próximo mais distante, ao pretender passar despercebido, ao intentar não ver, ao ver e puxar da algibeira da camisa por dentro da camisola o trabalho antes de mais, a metereologia de fundo de bolso, roto, se houver um depois.

Passarei a admirar um bocadinho a partir de hoje todas as pessoas que andarem a fugir de alguma coisa. Fortes, na hora da sopa.

Tudo encontrado no desencontro: premissa maior, premissa menor, conclusão - continuei a comer. Há dias muito felizes na vida de uma pessoa. Dia de sopa de feijão é dos poucos que nisso é certo. Até me esqueci do que tinha trazido da rua - a chuva portátil, ping, ping, ping, do guarda-chuva sempre no meu encalço, as botas encharcadas, as calças quase, o frio, o quanto me arrasto, pedindo licença às mãos e aos pés, e gemo, para chegar ao que quer que seja, estes dias.

Mas ontem devia parecer pior. Ontem era hora de ponta e deram-me o lugar no metro. Deu-me um miúdo, para gáudio sorrido da avó, eu a dizer que não obrigada, senta-te tu, e ele a dizer mas a senhora, eu a pensar que aquele 'a senhora' tinha um sotaque bonito, antes de pensar naquele 'a senhora' em abstracto e sentar-me obediente, uma amostra de sorriso, baratinha baratinha, à sombra dos dentes. Não sei sorrir gáudios que não sinto.

Um dia vou ser avó e os meus netos cederão, civis, os seus lugares a meninas que pareçam doentes, ou cansadas apenas..., dizendo mas a menina, com um sotaque bonito. Mais tarde, esses mesmos netos meus encontrarão, em hora de almoço e por acaso, velhas professoras no shopping e cumprimentá-las-ão com naturalidade.

O tempo longo gasta a pedra. Mas o silêncio apressado, em pé, ainda mais.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Toponímia meridional

Existe mesmo, escondido ou nao, ele existe! on Twitpic

A foto diz que é pic e do twitter, twitpic portanto, e do David Fonseca.

terça-feira, novembro 17, 2009

Back on track


Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Mário Quintana

No metro das sete já não vai o rapazinho da poupa cor-de-abóbora. Nem o senhor que lê O Jogo encostando empates e derrotas à mochila que encosta à parede. Nem eu - mas vai o meu telemóvel e, com ele, uma miúda que flutua a pensar na sorte que é as coisas serem o que são. Em São Bento já não me cruzo com a senhora que sai ao mesmo tempo que eu da outra linha, parece-me - mas o telemóvel e a miúda que flutua devem saber melhor que eu. De resto, tudo igual.

O meu lugar de janela à espera - os outros à espera das pessoas de sempre -; a confusão barulhenta, adolescente, na Trofa; a chegada indolente a Braga; a subida vertiginosa, de rápida, até ao café; a senhora do café diligente na discussão, seríssima, de figurinos - depois de admirar o meu, de soslaio, enquanto ajeita os guardanapos -, do seu estacionamento forçado em segunda fila, do tempo, da economia; a chegada à porta da Biblioteca com os bons-dias mais esquisitos do universo - estamos num dia bom: há bons-dias de fugida ao acelerar do passo; a chamada matutina, enquanto não dá a hora, que a minha mãe, como sempre, não ouviu; a senhora mais serena que conheço daqui a colher, olhos fechados, coração aberto, os primeiros raios de sol antes de entrarmos; o costume.

Às vezes precipitamo-nos na vida a fazer planos. Emparedamo-la com planos bês - depois dos depois, os que cremos nossos de alcance. Cada plano bê, um círculo; cada círculo, um nome, uma definição; um espaço, um tempo; uma causa, uma consequência; uma pergunta, uma resposta - a segurança na nossa cabeça; a segurança, um círculo que se vai apertando, que nos vai apertando, progressivamente, no sufoco de já não sermos; um círculo à volta da nossa casa, do nosso quarto, da nossa cama, do nosso corpo, do mundo que a vida nos fez pensar um dia que era o nosso-mesmo-nosso; fora daí, monstros, fora daí, nada. Os nossos pés à procura de caminho, as nossas mãos perdidas, aquela coisa de no princípio e no fim de tudo estarmos sozinhos a guilhotinar-nos o espírito, a cabeça que pesa, encolhida entre os ombros, dentro do círculo.

Vinha a pensar nisto esta manhã no comboio. Vinha a pensar nisto porque definitivamente a Primavera desconhece o nome das coisas. O nome das coisas, o espaço dos meses, as causas da beleza. Recomeçou. Depois de cinco dias de chuva contínua, os passarinhos de pouco depois das seis à minha janela não se enganavam. Primavera. Há manhãs de Primavera em Novembro. Como se nada continuasse, como se tudo recomeçasse no mundo. Por entre as rotinas, pessoas, dias, vida - a vida. Nada continua, tudo recomeça: abra-se a janela ao amanhecer.

Nada continua. Tudo recomeça. A minha mãe diz muitas vezes que parar é morrer. A minha mãe é de uma geração que, felizmente, desconhece o morrer que é continuar. Já eu que sou de uma outra... Gosto de janelas e Primaveras inusitadas de passarinhos às seis da manhã. E às sete. A música que se lê na palma da mão que o telemóvel incendeia. O comboio que é outro comboio. O ruído dos carris, outro, sobre o pensamento. Nada continua, tudo recomeça - a Primavera, uma verdade de janela, a dar saúde e a fazer crescer, aos pulinhos, para fora do círculo. Há mais terra para além da pouca-terra.*

* Eu sabia que isto era de algum lado: daqui.

quinta-feira, novembro 12, 2009

De ironias e mimos

Já não saía de casa há muito tempo. Sair de casa é bom, quase tão bom quanto ficar em casa, ainda que por estas razões, enfim. Quando não saio de casa, faço aquelas coisas que uma pessoa, como eu, gosta sempre de fazer, especialmente porque sabe que em princípio não deverá fazer disso vida na vida que é a sua, a vida que é a sua, toda, a ser vivida mais ou menos à margem disso. Limpar, lavar roupa, loiça, cozinhar, passar a ferro, dar uns pontinhos, limpar, lavar roupa, loiça, cozinhar, passar a ferro. Coisas boas, coisas que deixam a cabeça livre para aquela musiquinha, os pensamentos todos no ar, dourados, a misturarem-se com o pó, a cairem sobre os móveis, o meu dedo a desenhar formas tontas na superfície de cada móvel, eu contente.

O meu irmão, andas contente, não andas?, tens um bebé para cuidar, refeições com horas, antibióticos com horas, casa arejada, pós longe, tudo controladinho, estás no céu, por isso andas assim contentinha, não é?, vê lá se arranjas um avental! Eu, uma pessoa doente não é um bebé, a mania do controlo já era, não ando contentinha, nem de avental, mas, pulga atrás de orelha contente, não contentinha, contente, não resisto - para a minha irmã: achas que eu vou ser uma boa mãe?, tu? péssima!, só sabes dar mimo!, só?, só!, pobres miúdos!, insuportáveis e obesos, mas..., mas eu, mas nada.

Não sei se destes diálogos elogiosos, se da incrível agilidade mental e intelectual que é necessária à confecção de refeições e demais actividades de manutenção de uma casa, depois de uma compra rápida na farmácia, dei comigo na reprografia cá do sítio, muito inteligente, a responder com risinho irónico ao senhor que especificava ... cêntimos, menina, dez cêntimos. Evidentemente, eu a pensar uma fotocópia e um envelope nem em Portugal a inflação sobe assim numa semana - mas não isso chegou para o senhor, um sorrisinho irónico é um perigo, às vezes magoa, e eu sem querer, o senhor achou que devia explicar-se, sabe porque é que lhe digo isto, menina?, eu, sorriso polido, não sei, diga por favor, porque se digo dez, como lhe disse primeiro, tenho sempre um ou outro cliente que me pergunta mas dez quê?, eu sorriso reluzente de polido, pois, de facto..., adeus, obrigada sorrido, boa tarde.

Gosto do meu sorriso quando digo obrigada, tenho para mim que o senhor também. E agora regresso aos tachos que é hora de jantar e o mimo que não vai dentro de um envelope, serve-se sempre, mas sempre, quentinho.

domingo, novembro 08, 2009

Eyes shut


A minha irmã mais nova está doente. Fomos ao médico na quinta-feira, voltámos na sexta, devemos fazer o mesmo amanhã. O corpo dos outros, o nosso, o que fazemos ao nosso, o que este tempo de américa e televisão faz ao nosso; o corpo, um mundo imperscrutável, eu a pensar enquanto olho, na sala de espera, as fotografias de nus do pior gosto que já alguma vez vi.

Entrámos. Auscultação a medo, ao de leve do medo, diagnóstico à distância, e verde, inacreditavelmente atirado ao tecto com um sorriso - a ver se cola com um sorriso -, rabiscos de um antibiótico, o primeiro que lhe veio à ponta dos dedos, se tiver febre, já sabe, então, as melhoras; nós a olharmo-nos incrédulas, eu a pensar nestes médicos de centro de saúde, meninos pequenos aterrorizados com o escuro da gripe; a minha irmã, mais prática, a pensar que tinha que ligar ao meu pai, demasiado velho, e/ou - e - à minha outra irmã, demasiado nova, para terem medo à gripe.

Quando preciso de ir a casa - às vezes fora do Verão e do Natal vou a casa porque é preciso - apanho um avião. A minha casa, que a é dos meus pais, é longe e a única ponte que há para lá é a aérea. A viagem costuma demorar uma hora e trinta minutos e quando a fazia ao fim do dia de sexta-feira, e tinha a sorte de não encontrar turbulência - ou de encontrar pilotos experientes o suficiente para a contornarem -, dormia a duração da viagem. Um dia, claro, cresci e os pilotos deixaram de ser aqueles senhores de meia-idade, garbosos e profissionalíssimos a sobrevoar toda a metereologia; foi quando uma turbulência fez desfilar-me, muito depressa dentro da cabeça, a vida, pequena e oca aos vinte anos, uma idade estúpida para morrer.

Tudo o que é muito fora de nós, muito dentro do outro, é bruma e sombras, mistério e dúvida. Sempre. Pilotar a saúde dos outros, sem um fio colado ao tecto do mundo para não se cair, sem o mesmo fio para se sair de labirintos, não deve ser fácil. Mas pensar demasiado, medir distâncias, enviesar com isso avaliações e diagnósticos, pensar tanto que o pensamento tolde as respostas, prenda os movimentos, atravanque a simplicidade das soluções, é trabalhar ao contrário.

Entregar-se a vida nas mãos de alguém é uma coisa muito importante, demasiado importante para ser obliterada pelo escuro - da dúvida, do pensamento, do medo, coisas que apoucam a nobreza, às vezes a saúde, de quem se entrega. Quando não estou a limpar pós ou a aspirar, nem a mudar roupas de cama e pijamas, nem a fazer canjas ou sopas, chás ou gemadas, nebulizações ou emplastros, e tenho tempo para encostar as costas um bocadinho à primeira cadeira que me aparecer à frente do cansaço, e sinto telemóvel no bolso do casaco, pego-lhe como se fosse um tesouro, é um tesouro - toda a gente devia ter um telemóvel assim, leio e respondo, às vezes só leio, sorrio e adormeço. Dois, cinco minutos, às vezes mais, de todas as vezes: um bocadinho de céu. Um bocadinho de céu, uma entrega que é mútua, a adormecer-me a sorrir. É sempre assim quando ando segura. Em sossego. O sossego é o único preâmbulo que o meu corpo conhece para uma verdade maior.

Entregar-se a vida nas mãos de alguém, assim, eyes shut para o escuro, tão bom.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Busy being happy


Ando, desde Lisboa, com um livro na estante à espera de tempo para lhe ler o final. Ando à espera de disponibilidade de coração, que todo o tempo é isso, para lhe ler o final. Mas não tenho disso agora e por essa única razão não me ocorre nunca ir buscá-lo. Lembro-me ocasionalmente, no comboio, na biblioteca, mas em casa, em frente à estante, nunca! - e é por andar sem tempo, sei. Andar sem tempo é uma coisa muito avassaladora.

Fugiu-me. O tempo fugiu-me, não quer nada comigo, prefere ver a banda que eu sou passar - o tempo anda ocupado a ver-me passar, inacreditável. Mas eu banda, ora essa, com todo o gosto. E é assim que trepo paredes - passo o dia a trepar paredes, e janelas; acomodo a cabeça às esquinas - não há como as lá de casa, mas não sou esquisita; deixo-me descair, suspensa, de toda a esquina, de todo candeeiro de tecto, dos tectos - pendo muito, cabeça para baixo, do tecto do meu quarto, à noite, - antes da gravidade da brincadeira me descer toda adrenalina para as bochechas, num beliscão de realidade. E resulta. Volto a mim: começo a pensar - o costume... Primeiro, na minha triste figura - eu a imaginar o meu peso, pouco amigo de malabarices, dividido por dois pés, dez dedos que se agarram não sei como ao rebordo do candeeiro, o meu peso no rebordo do candeeiro grego, num dos rebordos do, eu a pensar que não é candeeiro que se diz - que a minha mãe diria lustre, que candeeiros são os das mesinhas, que eu diria que não, que lustre é a cristalice bomba-relógio que lhe faz pontaria aos órgãos vitais todas as noites e aquilo, muito diferente, é um candeeiro de tecto - eu a olhar depois para o relógio e a perceber que ao contrário de mim, a minha sanidade comporta-se, já dorme, é tarde..., devo portanto apressar-me a fazer o mesmo que daí a nada começa a ser cedo, aquele cedo muito cedo de quando a irmã mais nova mais velha do mundo entra no quarto a apontar isso vai cair, isso vai cair, ora por isso é que está todo inclinado para esse lado, então és tu, para o que te havia de dar agora, olha que isso um dia, pior que o lustre da mamã.

O bom de ser a irmã mais velha mais velha do mundo é a naturalidade com que intuitivamente uma pessoa faz do edredão burka, e se antecipa, embora no fio da navalha, à luz que se desliga, aos passos arrastados no corredor, à porta que se abre e fecha devagarinho - há irmãos mais novos que crescem para rivalizar connosco em intuições e dar trabalho, muito trabalho: não se pode sorrir como se não houvesse amanhã - não há tempo, não há amanhã, boa!, mas não se pode; não se pode ir ao cinema só porque sim; não se pode vestir saias todos os dias, nem deixar de por os anéis - mesmo que tenham começado apertar muito - não podem, é Inverno!, no Inverno isso não acontece, eu não digo!?, não andas bem...-, não se pode tardar mais um bocadinho ao espelho, nem perder o metro - mesmo que se peça calma, que não se perde coisa nenhuma... -, nem perder o lugar no comboio e a mesinha de sempre no café - ainda que se afiance que não há por que desesperar, que dá tempo... -, não se pode; não se pode porque não se é, nunca se foi, assim. E ela sabe, vê tudo, e preocupa-se. (Numa outra vida, eu faria exactamente o mesmo.)

A funcionária desta sala acaba de me dar uma maçã, a sua de sobremesa que trocou pelo bolinho de aniversário da colega, que a menina está aí a trabalhar tanto e sem nada no estômago, ora tome, e eu, desistindo de perceber, cabeça para baixo, obrigada!, recebendo o pomo como se fosse um tesouro, sorrio-lhe, um sorriso muito anterior ao tempo a descer inteiro do tecto. A minha vida estes dias é isto.

Ah, mundo perfeito!

domingo, novembro 01, 2009

Bom dia de Pão-por-Deus!


Coisas que a minha mãe manda pelo correio todos os anos, não falha, que vocês hão-de fazer o mesmo quando tiverem filhos não importa a idade, não vão?, vamos.