domingo, janeiro 31, 2010

Universal


E para sempre. Ou de como é tão difícil ser-se indiferente a São Paulo.

Quando desisto de pensar muito e recordo apenas, chego à esquina inevitavel, incontornável, da conclusão de que sou velha - a idade fora, há pessoas que passam por tanto como vivessem muitas vidas, de cada uma guardando reflexos de luz, bocadinhos de gente instante, o hábito de aproveitar o sol na busca fora-de-horas de um calorzinho bom e o de cair de pé. Coisas de animais com muitas vidas por vida, também.

O ir-se ficando velho muda-nos, muda-me desde dentro. Muitíssimo. Muda até o modo como penso acerca da minha velhice de mundo: agora tenho vindo a achar que sou uma velha rapariga velha cheia de sorte, por exemplo. Recordo os lugares por que passei e penso há gente que dava tudo para, que quer muito, que sonha um dia.

Quando fui para a Sorbonne fazer Erasmus e fiquei a viver no Foyer La Maison em Montparnasse, como o foyer era dirigido por religiosas, havia uma imposição, mais ou menos regulamentar, mais ou menos tácita, de participação em actividades de carácter religioso que elas costumavam desenvolver ao longo do ano.

De todas, a recordação mais viva que tenho foi a de um fim-de-semana de retiro que passámos no Sacré Coeur. Terá sido no início do ano lectivo, e por conseguinte da minha estadia, porque me lembro bem da minha tarde pasmada a olhar as fachadas floridas de uma e outra casa, as pracetas pejadas de telas e bóinas ávidas por caricaturizar as meninas que passavam - a Montmartre romântica e boémia que se dava a conhecer enquanto eu roía, uma após outra, uma quantidade absurda de maçãs caramelizadas.

Não me lembro do acolhimento na basílica, não me lembro do alojamento, na basílica também, creio, não me lembro de muito para além daquela noite da chegada em participámos da adoração perpétua e do dia seguinte em que formámos grupos para um trabalhinho simples de brainstorming acerca de qual a parte da Bíblia que mais nos tocava e as razões da escolha. Lembro-me de enfrentar alguma resistência face ao meu São Paulo, que toda a gente o tem sempre na ponta da língua, que é escolha automática, imediata, conhecida, a fácil.

Nesse semestre enfrentei muita resistência face a muita coisa minha. Mas um percurso de vida que se altera radicalmente, por amor, uma vida que é vivida mundo fora e que desagua numa escrita com todo o ardor, capaz de mudar mentalidades, alterando o próprio pensamento religioso, numa época tão difícil, não pode deixar de ser cativante. E desafiador. Não pôde - foi o que me disseram, depois de todas fotografias na imponente escadaria da basílica, quando já descíamos para Paris.

Cinco anos depois, deparei-me com isto no Museu da Blaffer Collection. Estava fora do ninho pela segunda vez. Desta vez on my own e com um coração bem mais pesado que todas as maçãs caramelizadas da última vez em que nos tínhamos encontrado no dentro mais dentro que ninguém sabe.

Esta manhã, as escrituras lembraram-me disto. (E do Ubi Caritas de Taizé, outro lugar.tempo que passou em mim para permanecer.)

No outro dia, olhando as minhas mãos e vendo-lhes as veias salientes, tive a impressão íntima de vir a herdar pelo sangue dos dias as mãos da minha avó. As mãos da minha avó eram todas sinais, um mar deles, e veias furiosas, encavalitadas nos ossos, a quererem romper a pele. A minha irmã mais nova inveja-me o pressentimento. Diz que também queria, que se lembra bem delas, que eram bonitas assim.

quinta-feira, janeiro 28, 2010

segunda-feira, janeiro 18, 2010

De ir querer


A confiança é um músculo que se exercita. No presente dos dias. Na distância. Na vida. No Mundo. No presente. Para o presente. A confiança constrói, pontes, mundos. A confiança constrói.

Estranhamos mais um fenómeno antigo?, nós a medi-lo, a pesá-lo, a analisá-lo com os olhos do presente, do nosso tempo, nós críticos; ou um fenómeno novo?, nós a medi-lo, a pesá-lo, balança e pesos de antiquário, nós a analisá-lo, olhos brancos.

Se o caminho que fazemos for sempre o do presente - e é sempre o do presente - são do presente os olhos que rasgam honestidades, as mãos que constroem confianças, os pés que atravessam confortos?

E os olhos que se fecham? E as mãos que se cruzam imóveis? E os pés que descansam ao alto?

Perguntava-me isto há pouco quando lia: "querer algo é diferente de o ir querer". Podia ser uma máxima. É uma máxima.

Civilizações inteiras nasceram de um ir querer; morre o mais puro amor de um querê-lo sem mais. As nossas vidas, os nossos projectos, os nossos mais pequenos gestos de todos os dias, de vida, de mundo, estou em crer, assentam sobre o equilíbrio da acção e da vontade no arame.

Um dia, era Novembro em Braga, vi a minha vida toda no mais fundo presente de um olhar. E compreendi a extensão, o peso e o tamanho, o dom, e aprendi o significado, de ir querer.

quarta-feira, janeiro 13, 2010

segunda-feira, janeiro 11, 2010

I contain multitudes


Gosto de lugares aonde pessoas chegam, gosto de lugares de onde partem pessoas.

Sem querer, sem nunca ter pensado sequer muito nisso, passei, passo ainda, grande parte da minha vida em lugares assim. Terminais de aeroportos. Estações de comboios. Centrais de camionagem. De todos, continuo a preferir os aeroportos - os locais no mundo onde o afecto é puro e vivo todos os dias, todo o dia. (Às sextas e às segundas-feiras nos comboios e nas camionetas, também.)

Indo com tempo - vai-se sempre com tempo para um aeroporto, com mais ou menos tempo para os comboios e as camionetas -, buscar alguém e a sua vida, levar alguém e os seus sonhos, chegar ou partir, sozinho ou acompanhado, um aeroporto, uma estação, uma central, não nos deixam nunca ilesos - chega-se ao destino sempre mais humano. Não é mais feliz, não é mais infeliz - é desperto, só desperto. Todas as cores a inundarem-nos o olhar, a luz da vida num mundo que cheira a novo. A alegria pequenina de quando se usa bibe e se recebe um doce.

Gosto de lugares aonde pessoas chegam, gosto de lugares de onde partem pessoas. Gosto de casas. E de livros. Gosto dos cheiros das vidas que ambos, casas e livros, contêm. Gosto dos caminhos que percorro, por vezes abro, por eles e com eles, e gosto dos mundos que as minhas intromissões lhes costumam atribuir.

Cheguei esta manhã. Chegar a uma casa vazia, mesmo quando já se sabe de antemão, mesmo quando é quase sempre assim, mesmo quando cheia de vida - da vida que devo passar a tarde a arrumar -, faz-me confusão, a mesma confusão de quando rodo a chave ao fim do dia e acendo a luz contra a escuridão: uma casa em estado de espera, a minha casa à espera, a casa à espera.

A casa à espera de ser vivida: perdida no breu, enquanto eu vou entrando; sonâmbula, ao arrastar a mala até ao fim da entrada, desperta, quando pouso as chaves, atenta ao ferver da água, a sorrir-me quando preparo o chá. Viva.

Regresso aqui também e, sobre a secretária, deparo-me com um mimo que, pela minha ausência, transitou do ano passado para ser o primeiro deste ano no Porto: a lembrança de Natal mais surpreendente!, que os amigos que o são e assim puxam-nos para a superfície em que a vida da vida se move - o The Complete Poems do Walt Whitman veio ter comigo numa tarde difícil em Houston e acompanhou-me largo tempo mesmo depois de ter encontrado um lugar na estante.

terça-feira, janeiro 05, 2010


Ando com uma expressão atrás da orelha, que estas coisas que se vão aninhando no coração para o resto do tempo, ficam primeiro a pender, a pender, a pender, atrás da orelha. O tempo certo. O tempo certo não é expressão minha - quando muito é da melhor parte de mim - e chegou-me no final do ano, resoluta, muito muito muito assim, e tanto, que me enche, se possível, de um orgulho maior que o do costume, e babado, de resto como sempre. Mais: chegou naturalmente. Como todas as pequenas coisas. Como todas as pequenas coisas que alicerçam, sustêm e sustentam as grandes coisas, que nascem, crescem e se desenvolvem das pequenas coisas.

O tempo certo. A minha irmã migrante mais longínqua partiu no Sábado, os mais novos no Domingo. Eu não. Eu aqui, eu para trás - ou para a frente, nem sei... Eu à espera do Dia de Reis para poder partir também. O Dia de Reis é como o dia de Natal: um amanhã que se celebra sempre de véspera. Se calhar os dias importantes, todos os dias importantes, são assim: começam antes de acontecerem, celebram-se antes de se cumprirem. Eu a deixar-me ficar, por essa eventualidade também, um pouco mais no ninho, que este mimo que passa de geração em geração é precioso, incondicional, e o ano promete ser longo e cheio. Coisas próprias de remates - o mais duro trabalho.

No entanto, já regressei ao trabalho, já ando por cá também - porque, parece-me, há qualquer coisa de final de festa e consequente retoma da rotina, que o corpo pressente ao segundo dia do mês de Janeiro; qualquer coisa de inefável que, despertando dentro, se apressa para nos por a caminho. Se calhar é o tempo, o tempo certo.