terça-feira, março 30, 2010

I think I know



Tenho muito esta mania de, fora, querer conhecer os museus, vidas de pessoas, antes da vida das cidades. Acho que é o meu fascínio por determinadas personalidades, uma coisa que vou alimentando anos a fio, a sobrepor-se à curiosidade cultural mais genérica. Acho também que pode ter a ver com a minha timidez, mais ou menos residual, mais ainda assim efectiva - sinto-me sempre mais eu dentro de portas.

Ainda assim ando entre a gente, claro!, ando entre as pessoas, embora mais para comprar comida e chegar antes de toda a gente à abertura do museu, do que para ver cores e sentir cheiros, pelo menos numa fase inicial - penso sempre que para isso tenho tempo depois. Às vezes não tenho, há muitas cidades de que apenas conheço os museus ...

Quando, há dois Verões, estive na Bélgica pela segunda vez, já tinha tudo organizado para ir à Holanda uns dias. Tinha lá uma amiga muito amiga, tinha tempo e curiosidade, uma série de cidades, museus, a visitar. Até hoje foi o único país em que consegui visitar tudo o que tinha em lista e mais - aquilo que a minha amiga a viver lá há anos lhe quis acrescentar. Às vezes penso no meu necessário regresso à França, ao Reino Unido, mas não à Holanda - é uma sensação esquisita, como um nó que finalmente tivesse dado a fechar um pacote, um ciclo que se cumpriu.

Lembro-me de muita coisa em flashes, os Vermeers, as nossas tardes de sol estendidas nos parques, salivo a recordar a comida turca e as gauffres com gelado, sorrio aos passeios nos canais, na Dam, na Mme. Tussaud... Recordo o nosso desalento a sobrepor-se à fome, ante a nossa demanda, ingrata, por uma tarte de maçã às quatro da tarde - temos mas só ao almoço e ao jantar, como devem perceber não podemos servir agora, podem sempre esperar duas horas para jantar e pedem-na à sobremesa. Nós a não esperarmos. A minha amiga a explicar-me o quanto lhe desagradava este rigor cego dos holandeses, eu a assentir: nordiquices... (Voilá o povo, os costumes, a cultura...)

E no entanto, a Holanda pesa-me. A Holanda é sobretudo a medida precisa do inefável a trespassar-me o coração no último andar do Museu Van Gogh. Os últimos quadros, não mais que meia dúzia - 'tempo do sanatório' podia ler-se à entrada -, excertos das cartas dirigidas ao irmão a legendarem-nos, a cor da argila, esquecidos os amarelos, o verde caqui, nenhum azul, o desespero das formas, uma aridez, uma morte muito grande antes da morte. Não sei se por compaixão, se por empatia - o Verão que estava prestes a terminar não me tinha sido propriamente fácil - demorei-me muito ali, no final da exposição, onde quase ninguém se demora. Deviam já ser horas de tarte de maçã, quando a minha amiga veio finalmente resgatar-me, eu a não querer tirar a mão do ombro do Van Gogh, eu a soçobrar por fim e a dizer adeus.

E foi assim que nos encaminhámos para a parte mais comercial da cidade, desta vez a horas próprias de reclamar a tarte do dia anterior. Por entre o burburinho dos turistas e dos asiáticos nas suas tendas de souvenirs, um rapazinho de sotaque americano, a cantar mal e a tocar pior, a lembrar-me muito os meus domingos americanos, e a quem dei a única esmola de que me lembro na vida adulta; dizia '"The mass of men leads lives of quiet desperation." - Henry David Thoreau' no cartão pardo sobre o estojo da guitarra.

domingo, março 28, 2010

terça-feira, março 23, 2010

domingo, março 21, 2010

De Mundialidades

UMA ÁRVORE NA MINHA VIDA

Não sei um dia mas alguma coisa me doía
ou talvez não doesse mas havia fosse o que fosse
Era isso sentia a grande falta de uma árvore
e pensei plantar em seguida uma árvore na minha vida
uma árvore ouvida sempre que me sentisse só
e mostrasse ela só na face a compreensão que mais ninguém mostrasse
mesmo que não me queixasse fosse por pudor ou fosse pelo que fosse
Era mesmo uma árvore que me faltava
precisava de sombra mais do que vivia eu envelhecia
não dispunha da companhia de ninguém
e far-me-ia decerto bem conhecer gente nova
gente que se renova no alto de um tronco forte
que não sabe da morte que floresce ou sorri
Mulher nenhuma vi tudo à minha volta
eu tinha a cabeça de tudo envolta numa última manhã
sabia que sempre seria vã porque até aí sempre o fora
a promessa dessa virgem loura completamente absorta em florir
em ser alta sorrir caminhar pela estrada
Fora uma pessoa despreocupada ao longo de toda
a vida um dia porém conheci a mulher alada
por charlie chaplin somente em the freak conhecida e transfigurada
conheci-a e desde esse dia nunca mais fui nada
Fora bem feito deixar-me vencer pela hidra
sentir essa pedra pesada no peito
essa arquitectura que tudo devora mas tudo inaugura
mulher tensa fechada como o é a pedra
Ajoelhei na terra senti-me chorar
a noite desceu e quando o dia nasceu
havia uma pedra a mais sobre a terra
Cabelos compridos da cor dos montes
alvos ouvidos olhos rasgados como horizontes
concentrada fechada nada mais do que pedra
coisa que se cerra que ou não sofre ou não precisa de alívio
forma fugaz de convívio na ponta das unhas com terra entranhada
mulher talvez menos que nada talvez solução para a vida
casa coisa de terra na vida de um homem
árvore dor árvore vida árvore humana
luz que ilumina de ano para ano
lume expansivo e pleno aceso no ar
tocha toda ela a arder à custa de se consumir
de mão de mulher para mão de mulher
Eu tinha nas mãos então meia dúzia de nomes
quando às vezes os pronunciava o tempo rodava e parava
(...)
Nesse tempo porém a árvore era a virgem loura
ela vivia devagarinho rodava todo o dia com o sol
sabia perfeitamente saborear a vida na chuva contida
mas era pouco para ela o espaço dos dias para ser bela
Sentia esse dia afinal a grande sombra de uma árvore
eu disse que sobre ti árvore ou nuvem o sol incida
e seja como de ti uma espada que de ti faça romper a vida
Quero alguém para mim onde eu me renove
uma árvore sempre comove tem verdes os ramos
ó árvore vamos fazes-me falta
Eu sou do pólen sulfuroso dos pinheiros
da tília de sombra ungida e tingida
diamante por vezes polido pela noite
à luz erma do candeeiro de algum jardim
das folhas de plátano dobadas por vezes pelo vento
das primeiras ameixas maduras no santo antónio
pequenas vinhosas sombreando a árvore
seguidas das peras e logo das várias castas de maçãos
expostas sobre as mesas nas casas da praia
perfumando esses dias demorados no verão
sou das macieiras noivas naqueles seus véus
quando os campos à volta como que ainda dormitam
sou da cerejeira essa árvore vista pela primeira vez
quando eu olhava todas as coisas da primeira vez
cerejeira da noite aparição carícia
nas mãos daquela primitiva primavera
mas vamos árvore seja o teu nome ele qual for
(...)

Ruy Belo, Todos os Poemas III,
Colecção Obras de Ruy Belo,
Assírio e Alvim, 2004

sábado, março 20, 2010

O bom tempo


O tempo de estender a mão aos sonhos como a uma flor.

quinta-feira, março 18, 2010

De toda a segurança

http://www.flickr.com/photos/27164182@N00/87327596/

Ontem uma amiga confidenciava-me da dificuldade de motivar os alunos para a Escola em geral. Não para os trabalhos de casa, não para a frequência às aulas, nem sequer para a sua disciplina, mas para o conjunto de predisposições, actividades e, em todas - em tudo, esforço, para o esforço, que a Escola, como qualquer outra coisa que se centre em nós, implica.

Dizia-lhe que a conhecendo como conheço, não tardará muito, encontrará não uma solução, mas a solução para esse pequeno obstáculo à optimização do seu trabalho, do seu desempenho. Dizia-lhe que deveria fazer ver aos alunos que a Escola é a única segurança que depende só deles.

Nestes dias que tenho ficado por casa, a janela do escritório tem sido um tormento. A Primavera tem chegado de mansinho, mas entra-me pela janela, como toda a beleza maior, sem cortesias. Os passarinhos pela manhã, as cameleiras daqui da frente - da casa das hortenses - rebentando num vermelho mais bonito a cada vez que as espreito, o sol do meio-dia, dois estendais de roupa branca que balouçam um contra o outro, as quatro estacas que os sustêm oscilando muito, muito, numa casa pequenina bem lá atrás.

Desde a semana passada que ando a olhar para lá. No Domingo pela tarde, dei com um casal jovem naquele quinto de quintal, um quintal tão pequeno!..., a falar com a senhora que vejo de vez em quando junto aos estendais. Estavam de visita. O rapaz não dizia nada, mas a rapariga falava como falamos às vezes com os nossos: de braços cruzando a pachorra, palavras poucas e de frete, a enganar o tempo, e a senhora e a ela própria, ocasionalmente arrancando os secos dos vasos.

Sempre que verifico o rubro das cameleiras aqui da frente e não resisto a espreitar aquele espaço tão pequenino - o telhado de zinco remendado, as três persianas corridas, as plantas quase secas nos vasos, o alguidar de plástico azul em cima da cadeira, - das poucas vezes que vejo a senhora a estender roupa pela semana, ela parece-me mais feliz do que ao Domingo. Como se a presença de outros no seu mundo, pequeno e imperfeito - é verdade - mas seu, a apoucasse, a tornasse menos ela própria.

Os dois estendais continuam a convergir ao sabor do vento e eu penso na inexactidão daquilo que disse à minha amiga - bem vistas as coisas, toda a segurança depende de nós, o saber viver que é responsabilizarmo-nos por ela é que tem um prazo de validade.

domingo, março 14, 2010

sexta-feira, março 12, 2010

The shifting panorama of the stream

No início de A Passage to India, do E.M. Forster, não me lembro já se descrevendo o meio físico, se a sociedade, o autor fala do shifting panorama of the stream. Por alguma razão absolutamente desrazoada, que só os meus catorze, quinze anos explicam, a expressão ganhou-me completamente.

Lembro-me bem: era sábado de tarde, li, ri-me para dentro, reli, voltei a rir-me, achei digno de partilha, e pulei da secretária para fora a correr contar à minha irmã Teresa. Galhofa a tarde toda. Repetimo-la, inflexionámo-la à-la-oh-so-very-british, inflaccionámo-la à-la-portuguesa e depois de a termos insuflado, muito, muito, muito, depois disso, foi pau para todo o serviço - passou a designar todo e qualquer estado-de-coisas, quanto mais extraordinário, e - de preferência - deplorável, melhor. Maldades. Às vezes fazemos umas coisas à língua, uma que, ainda por cima, só é nossa porque entenderam os meus pais preferi-la ao judo, à natação e ao voléi, que abonam pouco em favor dela e só um bocadinho à saúde da nossa adolescência.

Pensava nisto agora olhando as pontas dos meus dedos incansáveis no teclado. A unha do meu anelar esquerdo e a do indicador direito constituem o mais admirável shifting panorama of the stream. (Tenho que ligar à minha irmã Teresa.) Há quem adorne o anelar esquerdo com anéis, há até quem aí os tatue, eu não - eu tenho um corte a meio da unha, um lanho discreto, curvo, e por baixo dele, uma espécie de pálpebra fechada com direito a pestanas de sangue seco e tudo. Note to self: nunca invectivar contra objectos cortantes que não raspam placas de fogão decentemente. Mas a do indicador direito, pior. À do indicador direito falta um bocado da pontinha excrescente. O que eu dava - adianto o resto da excrescência - para descobrir por que artes...

Fiquem os dedos, fiquem os dedos.

terça-feira, março 09, 2010

Burano


Dou comigo a pensar, pela enésima vez hoje, nesta imagem que encontrei por acaso no fim-de-semana; forço a pausa.

Primavera. Hoje está o mais absoluto dia de Primavera. Um dia para colher - quem possa -languidamente, ao sol; um dia desafiadamente bonito; um dia desimportado das coisas importantes de todos os dias, impróprio, muito impróprio, para trabalho.

Dei comigo esta manhã, sob o sol, a admirar até o verde forte dos guardanapos do almoço. Na Primavera toda a cor reluz ou reluzimos nós, ante as amenas perspectivas que o crescimento dos dias, o frio quase longe, a luz que se demora, nos dão?

Em Braga, as pessoas, crianças felizes, enchem as ruas; o ruído das pessoas, crianças felizes, que enchem as ruas, enche as ruas; uma amostra disso lá em baixo, vozes pequeninas em festança a crescerem até aqui em cima, a encherem o jardim interior da Biblioteca até ao topo, risos listrados a duas cores a reposarem por fim, como uma película, como um véu sobre o topo do edifício. O jardim todo a espelhá-los.

Burano.

sexta-feira, março 05, 2010

Da regularidade

Quando eu era pequena, o álbum de fotografias do meu Baptizado entretinha-me tardes inteiras: encantava-me. Deixava-me encantar pelas mais pequenas coisas - na verdade, ainda hoje sou assim. Mais do que as fotografias, maravilhava-me cada a folha branca e fina que as protegia e que eu virava solene, como se num ritual secreto manuseasse um bocadinho de um céu de arco-íris.

Assim que aprendi a ler, o meu enlevo abandonou a segunda metade do álbum e centrou-se com o mesmo fervor apaixonado na primeira: deixei as fotografias e a película protectora, e demorava-me na minha infância caligrafada, desenhada, por palavras e sublinhados que só a minha mãe. Ao virar a página das doenças, depois do sarampo, da varicela e da papeira que não tive, o dedo a curvar-se muito para à tosse convulsa - a doença mais feia da página - perfilavam-se os signos do Zodíaco. Nova demora. Grande demora.

A minha mãe tinha sublinhado Touro e Constância. Esta última, a verdadeira razão que me prendia à página. Porque não sabia o que significava. Porque sabia que era bom - antes disso podia ler-se Maior Virtude: Durante uns tempos foi o bastante. Sossegava-me o facto de ser virtude e por isso virava displicentemente as páginas, aquela mais rápido que todas as outras, todo um estado-de-imagens-palavras-e-sublinhados intacto, inalterado, o signo espiado apenas pela pontinha do olho.

Depois, não sei ao certo quanto tempo depois, a palavra deu cabo do signo, da página, do álbum inteiro. A palavra cresceu-me dentro da cabeça e começou a pesar-me, mais e mais cada dia. Ocupou-me todo o espaço do cérebro e muito tempo, todo o que dispunha na altura a intimidade dos meus pensamentos. Um dia não aguentei mais e corri a perguntar o significado à minha mãe. Fui relembrada de duas verdades universais: a minha irremediável não-subtileza não compensa; as mães nascem imunizadas a efeitos-surpresa. Obtive o isso-vai-se-ver-ao-dicionário!, o costume.

Fui. Voltei a sossegar. Nem foi o colo da minha mãe no depois. Nem a perseverança, a firmeza ou a persistência do dicionário. Foi o inquebrantável da definição. O inquebrantável a ser água. A certeza do vaso que não se parte. Do que é para sempre. Coisas que enchem a vida da mais completa satisfação, felicidade.