segunda-feira, maio 31, 2010

Sublinhado

Henri Matisse, Woman Reading, 1894

As mulheres, meu deus, são assim. Vivem cada dia a pensar no seguinte. Mas é essa a sua forma de estar no presente. Integralmente e independemente de haver um dia que se siga a esse. Pensam no espelho para o poderem ignorar. Mas tem de estar ali, esquecido a um canto, para que saibam que, se quiserem, poderão ver o rosto do amanhã, qual a sua feição (...)

Ana Salomé

segunda-feira, maio 24, 2010

Os Meus Lírios

Os meus lírios, a minha varanda bonita. Foto: Joana Jacinto


Foi há pouco: fui regar as plantinhas da varanda, aproveitando a hora em que o arroz descansa, e deparei-me com esta beleza!


A imagem no pacote, na lata, induziu-me em erro: andei estes meses todos a imaginá-los brancos, imaculadamente barncos como aqueles que levei, solene, no dia da minha Primeira Comunhão. Mas, afinal, rebentam de vida em cor-de laranja, como um fruto maduro, o fogo, um sol, a entrar na vida a arder. Comovo-me. Há muito de escatológico nisto.

sábado, maio 22, 2010

Oh, oh oh oh oh - era bom.

Imagem daqui.

O sol no pino ainda, e eu quase completamente às escuras, eu a experimentar a cegueira, eu a divertir-me, a exercitar a memória das teclas, a confiança na habitualidade ágil dos dedos sobre elas, às cegas. Escrevo às cegas. A cortina que me separa da visão, certamente perturbadora, da janela, que me separa da visão, certamente encantadora, da rua, é branca. Mas de uma opacidade que me escurece o écran do computador.

Está sol. Mesmo cá dentro. Tudo fechado e está sol. E calor. Engano o calor com copos seguidos de limonada, e é esse meu engano, pequeno e ingénuo, credível o dia todo, que se faz ocaso acelerado agora pelo breu a crescer a crescer na tela. Penso que lá fora muitas e muitas pessoas enganam o calor à beira-mar. Está de praia.

Não sou muito de praia - a minha pele não gosta. Mas vou. Gosto do descanso de poder ler de barriga para baixo, pernas cruzadas em cima; gosto do descanso de não poder ler e adormecer, o sol desenhando todo um alfabeto na minha barriga; gosto do passeio de lés-a-lés, das conversas absolutamente desimportantes, e das outras, existenciais, que se têm sempre nessas horas; gosto da companhia, mesma quando a companhia é somente a da vida, gritada, dos outros; gosto dos gelados e das outras doçuras de validade duvidosa que se apregoam, gosto da areia nos sapatos e do cheiro a sal cabelo e na pele.

Não sei a quantos quilómetros equivalerão dois meses. Dois meses, mais ou menos, distam de mim a uma praia inteira de descanso. O mesmo, caculo, em litros de limonada. A distância é um lugar seco.

terça-feira, maio 11, 2010

Joaninha voa, voa

Marc Chagall. The Promenade (La promenade)
1917-18
State Russian Museum, St.Petersburg, Russia


De toda a sua vida, qual é o instante, o fragmento, o pontinho de luz que mais vezes lhe ocorre para dizer que viver vale a pena?

Ter a capacidade de amar alguém ou algo na vida. Ser capaz de pôr nisso todas as forças, toda a capacidade que, no fim de contas, é a capacidade para viver.


Agustina Bessa-Luís em entrevista à
Ler (outono 2003).

(Relembrado aqui.)

sexta-feira, maio 07, 2010

Depois de anos, ONTEM

Rufus Wainright, Coliseu do Porto, 06/05/2010 Foto: Joana Jacinto


Toda a música tem vida dentro. Este senhor salvou-me a vida um dia.

Devoto-lhe um amor-ternura que é para sempre.