sexta-feira, julho 30, 2010

Recordá-lo assim



Acabo de chegar do cinema. Fomos ver o 'Contra-Luz' do Fernando Fragata - uma ideia brilhante (a do absurdo do destino), sem um enredo, uma escrita e uma música à altura, infelizmente. O caminho todo peso a falibilidade das nossas capacidades de dar forma a boas ideias. Uma questão que me é cara, mas que desolho (esforço-me por isso) quando me tenta.

Chego, abro as janelas, demoro-me ao computador enquanto a casa arrefece; leio por aqui o desaparecimento do António Feio - a minha irmã mais nova arrastou-nos para o cinema por causa do trailer e dele. A falibilidade das nossas capacidades esvanecida. O António Feio morreu. Não há mais absurdo que essa fatalidade. Hoje.

quinta-feira, julho 29, 2010

De vozes que vêm ter connosco no quase sono



De ontem. Demasiado cansada - o calor -, para adormecer; demasiado desperta - os sonhos, os sorrisos, muitos sóis - para adormecer; demasiado distraída - os afazeres, a fazer, a fazer, a fazer - para ver o filme. Do fundo do filme, esta voz, antiga, de sempre, como se fosse de mim, do fundo do tempo, antes de todas as coisas.

sábado, julho 24, 2010

De ir e voltar

Anteontem o meu namorado perguntava-me da Shakespeare & Co. em Paris. Estaquei. Eu a parecer-me impossível não saber francamente se tinha lá ido - Paris já foi há quase dez anos -, eu incrédula a pensar como não tinha ido se palmilhava aquela zona diariamente, ele a mandar-me fotografias, eu a reconhecer o interior, mas... - paredes forradas de livros, pilhas de livros, pessoas a lerem livros em pé, é coisa que já vi em muito sítio de há dez anos para cá.

A verdade, acabei por dizer-lhe, é que, na altura, era uma pessoa diferente; os livros interessavam-me de uma maneira mais enciclopédica do que literária, o que, por vezes penso, talvez fosse preferível nunca ter deixado de ser assim. Coisas estranhas acontecem quando os livros deixam de ser apenas os dicionários e as enciclopédias e se esgueiram das estantes do escritório para velarem por nós na mesinha de cabeceira. Como se o mundo nos fosse mais pesado e mais leve, mais real e mais surreal; como se a vida mais triste e mais feliz, nós também mais tristes e mais felizes nela, todas as coisas mais vivas e mais mortas. Acho que a melhor maneira de explicar é dizer que nos nasce um olhar inteiro, verdadeiramente humano, e, talvez por isso, velho. E é legítimo que assim seja. Em todos os sentidos, bons e maus, que uma visão deste calibre possa ter.

E, ainda assim, a minha vida começou a mudar em Paris. Digo isto a toda a gente, recomendo vivamente a viagem - não necessariamente Paris - prescrevo, sem indicação específica, o aproveitamento possível das low cost, do couchsurfing, dos interrails, das casas dos amigos até. Mudamos muito quando vamos para fora - uma coisa que acontece também, e tanto!, com a leitura. Fui para Paris por razões académicas, mas a fugir de uma desilusão pessoal. Escusado será dizer que não se pode fugir dessas coisas, levamo-las connosco para todo o lado, como uma sombra que nos apouca, enquanto as não resolvermos. Hoje, sei, indico, específica e inespecificamente e em doses imoderadas, viagens ao fundo dos livros no quarto, que os livros têm na verdade ousadias e um acompanhamento de que os amigos, por todas as razões, muitas vezes se escudam.

Quando fui para os EUA, felizmente sem nada de que fugir, e fui a NY e fui à Strand, estava longe de pensar que começaria a escrever. Na realidade, a realidade é simples: estava longe e comecei a escrever. Para manter laços, para continuar a viver a língua, para me entreter. Não tinha qualquer pretensão, não procurava nada, fora de mim pelo menos, nada de nada. (Ainda hoje a escrita a sério, aquela de trabalhar a papelada que se vai mandando para a gaveta, é uma coisa que planeio deixar para a reforma, se o acaso afortunado, e muito desejado, de ser avó não me conquistar uma dedicação apaixonada e exclusiva.)

Tenho uma amiga que, estranhando tanta música aqui, me perguntou um dia se não sentia necessidade de escrever. Disse-lhe dos lugares da escrita. São muitos; não é preciso passá-la necessariamente por este parapeito. A escrita é um acto contínuo. Às vezes como respirar, às vezes como beber água. Este blog data dos EUA e aconteceu por acaso; trouxe-me muitas coisas, boas e más. Foi mudando ao longo do tempo, concedo que em sincronia com o meu coração; mais recentemente coincidiu com uma mudança major na minha vida e com o caminho que, querendo meu, desde então construo diariamente.

Mudamos muito ao longo da vida. Mudamos quando saimos de casa para ir viver sozinhos com a maioridade de fresco. Mudamos quando temos vinte anos e se vai para uma cidade como Paris. Ou quando se tem vinte e cinco, e um coração de dezassete, ou menos, e se vai para os Estados Unidos. Mudamos no regresso, a idade, a idade do coração e os planos, baralhados. Mudamos no depois. Mudamos no ser, nos quereres, mudamos no estar aqui. Se hoje indico, específica e inespecificamente e em doses imoderadas, viagens ao fundo dos livros que vamos acumulando no quarto, e viagens, é porque um dia, não sei se em Paris, nos EUA, se aqui, fui para o outro lado do mundo e a minha vida mudou.

(Desconfio de que também mudamos, desbaralhados, aos trinta.)

domingo, julho 18, 2010

terça-feira, julho 06, 2010

"Eu gostei sempre muito de olhar as árvores, os animais, o mar, os céus, o mundo. É a vida (...)"

De pessoas muito muito bonitas.

Matilde Rosa Araújo (1921-2010)

Imagem daqui

O facto de ter estudado em casa, com professores particulares, até à ida para a universidade, fê-la ter uma educação pouco comum à generalidade das nossas crianças?

Nessa altura ficava muito ansiosa por ver as outras crianças irem para a escola. Tinha muita sede de comunicação, tanta como agora tenho; e de solidão, mas não daquela solidão egoísta.

No seu livro Segredos e Brinquedos (2000) considerava-se uma "professora de meninos, meninos do meu amar". Teve sempre essa ligação fraterna com os seus alunos?

Foram eles que me deram o sangue para viver.

E sobre a eterna questão das relações entre realidade e ficção; a sua escrita reflecte a sua experiência de vida?
A ficção emerge da realidade. O sol e o menino dos pés frios (1971) tem muito de alunos que fui encontrando. Mesmo O Palhaço Verde (1962) nasceu quando eu estava em Portalegre e fui ao circo e os circos da província eram muito pobres. Eu acho que o circo tem tanto de mágico como de trágico. E o "menino dos pés frios" é, por exemplo, um rapazinho que eu conheci no Cabedelo (perto de Viana do Castelo), que vendia moinhos de vento na praia, chamava-se Joaquim e foi meu companheiro de praia durante dois anos. Ele dizia-me que os pais andavam pelas feiras e que ele dormia numa taberna, na estrada, e todos os dias de manhã lá aparecia ele com os seus moinhos. Aí está uma realidade. Uma, entre tantas mais.

Na sua poesia é nítida a ligação que mantêm com a Natureza.
Eu gostei sempre muito de olhar as árvores, os animais, o mar, os céus, o mundo. É a vida, das várias recordações que tenho da infância. Recordo que na quinta onde nasci e vivi, em Benfica, havia flores, árvores, animais. Tal como na aldeia distante da minha avó paterna.

Não é das escritoras que acha que os jovens lêem menos hoje em dia?
Podem parecer ler menos, porque a massa dos jovens escolarizados é grande. Mas lêem. Antigamente esse espaço de potenciais leitores era muito mais reduzido, hoje há uma maior diversidade de circunstâncias para se ser leitor. O tempo de que o aluno dispõe também é diferente. A televisão podia ter um papel não digo didáctico, no sentido estrito do termo, mas fecundo na abertura para a cultura, não uma cultura elitista mas a cultura autêntica da vida com verdadeiro entendimento da Infância e da Juventude. E também temos os computadores e a Internet, ainda assim não podemos deixar que a "leitura" fique só por aí. De forma alguma.

Entrevista daqui.

sexta-feira, julho 02, 2010