domingo, outubro 31, 2010

De dias que passam a ser nossos



De dias que já vivi. Do que trago comigo.
Ninguém o explicará melhor do que Arnaldo Antunes: "A nossa casa é onde a gente está,/ a nossa casa é em todo o lugar."
Em memória dos melhores tempos em paragens longínquas entre amigos ainda hoje próximos.

sábado, outubro 30, 2010

De nos (re)conhecermos

Imagem daqui

Quando se diz que os amigos se reconhecem, não se fazem, diz-se mais do que isso. Afirma-se uma coisa maior que a generalidade desolha e que porventura só uma ínfima parte intui: somos todos feitos da mesma massa, possuimos os mesmos desejos e os mesmas ambições; sentimos a mesma desilusão, o mesmo desalento, o mesmo desespero; acreditamos com o mesmo ardor, a mesma vontade, a mesma esperança. Todos. Independentemente da raça, da cultura, da religião, da educação, das ideologias, das opções, dos traços de personalidade... Onde bater um coração, baterá, inexoravelmente, a vida e o seu contrário, ao ritmo daquilo que se foi construindo e se é.

Variam as pessoas, sujeitos e objectos dos humores que enunciei acima; variam as situações que lhes dão existência e lugar; varia a intensidade com cada cada um as sentirá; permanece invariável o nexo de causalidade, o mecanismo reflexo da resposta ao estímulo, aquilo que em nós é bramido e freme como pergunta a pedir uma resposta do corpo - às vezes o silêncio, às vezes o ruído; às vezes a indolência, às vezes a energia; às vezes a acção, às vezes a re/inacção.

O corpo tem urgências que, não escapando à razão, se lhe antecipam muita vez. Cortar o cabelo às vezes não é apenas cortar o cabelo, pintá-lo às vezes não é apenas pintá-lo, pôr um brinco, fazer um piercing, uma tatuagem, às vezes não é só isso. Apesar de o consumismo ter posto as mudanças de visual na ordem do dia, para algumas pessoas, num período de dor, fazê-lo, é mais do que consumo, é procurar um caminho, uma saída, é desenlutar-se.

Como se o corpo fosse a mais perfeita metonímia da nossa vida, o desejo de mudança é a vida a chamar por nós, a querer-nos de volta. Mudar o que somos aos nossos olhos e aos olhos dos outros é marcar o ponto final que será de viragem. Eternizar um momento de dor, imprimi-lo na nossa pele, assimilá-lo, pode ser a única maneira de o arrumar, de lhe fechar a porta, deixar para trás, ultra-passar. Mudar a cor, o comprimento, a textura, do cabelo pode ser o sinal exterior de uma necessidade básica - a de mudar de andamento e de percurso, essa necessidade a ganhar forma, a tornar-se próxima, visível, palpável, quase real. (O real é sempre interior). Tal como é imperativo comprar uma roupa nova para um primeiro encontro - recomendação da minha mãe - pelo sinal que damos a nós próprias de vontade de começar, sem recomeçar. (A psicologia feminina, e a das mães, dava uma enciclopédia de volumes mil.)

Vinha isto a propósito de dois textos que li ontem e que me fizeram recuar ao ano mais difícil da minha vida.

*

Viver não é fácil, mas mais difícil é viver bem. Não arrumar as luvas, não ceder à comodidade apenas ocasionalmente incómoda de sobreviver é que custa, muito. No íntimo, todos queremos viver bem, independentemente do que esse bem signifique na gramática dos afectos de cada um. Somos todos muito parecidos, muito mais do que supomos, muito mais do que nos é confortável, muito mais do que pensamos ser possível. Ser parecido não é ser igual. Ser parecido é terem, dois ou todo o plural, um caminho desimpedido de inultrapassáveis pela frente. Os amigos reconhecem-se nesse caminho. "Dá-me uma mão a mim e a outra a tudo o que existe." Ousar mudar por fora é estabelecer um compromisso com o dentro mais dentro de si. Não há compromisso sem lastro de poalha de estrelas.

quinta-feira, outubro 28, 2010

Outubro quase Novembro

Porto, Jardim Romântico, 27 de Outubro de 2010 Fotografia: A. G.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Unabridged

Imagem daqui
A sua vida em fotografias aqui

O primeiro diário que comprei não foi para escrever, foi para ler, e não foi um, foram os dela. Sylvia Plath nasceu há 78 anos: a sua vida, tal como os Diários, unabridged.

domingo, outubro 24, 2010

A oração do humilde atravessa as nuvens*

Prezo o silêncio mais do que quase tudo actualmente. Prezo-o como um espaço de que preciso como água, como abrigo, com ardor, para ganhar forças e prosseguir. Vários compromissos e outras tantas razões me têm, nos últimos tempos, afastado da minha rotina dominical. Acabo por ir de encontro a ela a meio da tarde, mais longe de casa, ou no final do dia, perto de casa. E nunca é igual. Ao meio-dia de Domingo é que o silêncio é silêncio.

Costumava ser: hoje voltei à rotina que andava há que tempos a tentar retomar e o silêncio empequeneceu-se. Á minha frente, o senhor do costume. O senhor pesado a chegar, como sempre, um bocadinho mais tarde, pé ante pé, um passo a seguir ao outro, cada passo com esforço, muito esforço e diligência no manuseamento das canadianas para a firmeza dos passos. É uma imagem dolorosa, confesso, mas a que me habituei. Pergunto-me sempre se não há mascarada na habitualidade de o ver chegar assim, semana após semana, um obscurecimento do olhar, uma quase-indiferença, uma crueldade que me retine dentro como falta de humanidade -, eu que luto diariamente pela pureza do olhar...

O senhor chegou, sentou-se no banco à minha frente quase vazio, acomodou as canadianas, seguiu cada rito levantando-se, como sempre, quando pôde. A meio do banco, uma senhora muito voluntariosa correu para ele a cada vez que o senhor se levantava. Adeus silêncio, adeus concentração. Quase no final, genuflectindo, ouço-a baixinho: "Saiba que o importante é ter um coração desperto, que isto começa a ser demasiado sacrifício para si." Adeus silêncio, adeus conforto da Palavra. Desde esse momento até ao final, o senhor nunca mais se levantou. Desde esse momento até ao final, nunca mais sosseguei. Antes de se ir embora, o senhor olhou, pequenino, a companheira de banco empenhada em cumprir com mestria o responsório, os cânticos na parte do coro, o sobe e desce do rito. E eu senti-lhe a humilhação.

O silêncio é um espaço que se busca. Interiormente. Exteriormente. Às vezes ajudar o outro não é içá-lo a cada levantar, não é ampará-lo a cada sentar; é dar-lhe o espaço que ele procura. Compreender o outro, que é etimologicamente inclui-lo, é acolhê-lo, aceitá-lo na sua totalidade de homem. Prezar o silêncio, preservá-lo, acaba por ser, às vezes, uma questão de dignidade - de todas, a forma mais básica de humanidade.

* Livro de Ben-Sirá

sábado, outubro 23, 2010

HOJE

Eu vou lá estar. Venham também.

segunda-feira, outubro 18, 2010

De certos prolegómenos


Às vezes pergunto-me se não sou duas. Se não ando num arame em permanente luta comigo, com a outra de mim que também sou eu, à procura de uma coerência que me apazigue e conforte, um bálsamo. Por exemplo: serei das minhas amigas a mais feminina e a menos feminista. E isto parece-me tão óbvio quanto natural, coerente, compreensível... Não ando confusa, confunde-me o mundo.

Não gosto de, a meia manhã, ler isto. Desagrada-me profundamente a maneira como é apresentada a pertinência da obra. Não sei o que é "a causa das mulheres", possivelmente porque não concedo perceber uma série de coisas relacionadas. Desconcerta-me este militantismo fora de época. Não vou falar da escolaridade das mulheres, que é maior, das posições de chefia e dos cargos públicos que detêm, do lugar que ocupam na sociedade sem se demitirem da família, porque não se trata disso, nem dessas mulheres. As autoras pretendem e proclamam um Maio de 68 para as artes, para a escrita no feminino.

Toda a boa escrita é, em algum momento, de alguma forma, "escrita discriminada". Transformar este facto numa questão de género parece-me, além de manobra publicitária, fraqueza: o não conseguir resistir ao impulso de reclamar, constantemente e com juros, não só uma valorização - a que o progresso da sociedade e das mentalidades já foi de encontro -, mas também uma sacralização maior no âmbito das artes. No meu entender, trata-se de uma postura infeliz e incompreensível - o conhecimento que temos destas escritoras no presente não deixa lugar para este tipo de reclamação - politizante, politizada, e polemizante, pelo menos. Servirá naturalmente os intentos de quem a tomou e aqueles de quem a seguir, muito embora para mim permaneça sobretudo, e paradoxalmente, como redutora de uma condição que também é a minha, que me interesso por estas coisas.

Desvalorizaremos hoje Sophia, Agustina, Florbela Espanca? Desconhecê-las-emos? Preteri-las-emos em favor de escritores homens? Não me parece. A História e progresso do nosso tempo e da nossa sociedade nisso são claros: qualquer aluno que termine hoje a escolaridade obrigatória o comprova, qualquer pessoa interessada em leituras e livros o desmente. Ocupam um escaninho no campo da Literatura? Também não. Ocupam o seu próprio espaço, aquele que os seus génios fizeram surgir.

A mulher das artes, a mulher da escrita, é, antes de mais, uma de carne, sangue e osso, casa e filhos, e isto tanto quanto é distinta - uma mulher visionária, mais ou menos atormentada, culta. A bem da arte, e da Literatura enquanto tal, entenda-se, estude-se, divulgue-se a autoria mais como formato, que o é e riquíssimo, e menos como epifenómeno social. A mulher agradece.

sexta-feira, outubro 15, 2010

Collaboration is the stuff of growth

Da necessidade de sublinhar um sublinhado

Hoje fazem anos este senhor e este. Acompanharam-me a adolescência e a juventude, e, naturalmente, sem saberem, ajudaram-me a crescer e a ser parte do que sou hoje - um hoje de algum tempo a esta parte: deixamos de ter algo para se ser, realmente ser, a partir dos vinte e cinco, parece-me. Coisas para outra reflexão.

Não faço a menor ideia de quem são os ídolos das pessoas que têm hoje entre quinze e dezoito anos, não sei se dez, quinze anos depois da idade actual se vão levantar da cama a pensar no peso das efemérides da geografia pessoal que é sobretudo afecto; se antes de se sentarem à secretária para começar o dia procurarão matar saudades desses tempos remotos, buscando na estante a edição velhinha, anotadíssima, da obra que propiciou aquele primeiro encontro; não sei perturbam, se inquietam, se questionam, os ídolos actuais, os mais jovens para lhes transmitir alguma coisa viva e transformadora do que cada jovem quer ser neste mundo em constante mutação e permanência no essencial.

Hoje - hesito entre uma conjunção explicativa e uma adversativa - o meu sublinhado maior vai para aqui.

quinta-feira, outubro 14, 2010

Da morte do crioulo de Cochim

Pidgins e Crioulos era a matéria do final do ano na Faculdade. Se calhar porque os dias cresciam e o sol de Maio já avançava promessas de Verão, sempre me foi fácil falar do Português no mundo. Começava pela gradação que existe entre pidgin, crioulo e língua. Pidgin é toda a linguagem básica que serve a comunicação entre dois povos que não partilham, naturalmente, a mesma língua. Crioulo é a língua que se nativiza após descobrimento, colonização, invasão, aquela que, originada num pidgin, num pidgin e noutra língua, ou em duas línguas distintas, herda o léxico do descobridor, colonizador, invasor, e a gramática singular da(s) língua(s) nativa(s).


Crioulo etimologicamente vem de ‘criar’, ‘educar’, ‘ajudar a crescer’, e, não obstante o paternalismo que se possa ver na origem da palavra, os quase vinte Crioulos de Base Portuguesa espalham-se pelo globo e são presença de Portugal no mundo. Portugal como História, Portugal como conceito, marca, Portugal como cultura, está em regiões tão distintas como a Guiné Equatorial, Cabo Verde, Korlai, Perth, Antilhas holandesas, Suriname e Sri-Lanka.


Recebo por mail esta notícia. É mais corrente do que se possa pensar, nascerem e morrerem línguas. Da morte mais ou menos anunciada de uma língua à sensação cada vez mais forte de que vivemos um presente que desolha a História, que inclusive se preocupa com preservar dela os fragmentos que mais se coadunarem com a maioria, nas suas convicções e ideologias, é que é algo novo, um nexo que é um sinal, um anúncio de finais dos tempos, do começo de outra coisa qualquer, indicialmente retrocessa, de âmbito global, para a qual não estamos, em definitivo, preparados.

Deixou de haver Portugal em Cochim.

Do que vai para além da comoção

Imagem daqui

"Julgo poder ser verdadeiro o facto de a sorte ser árbitro de metade das nossas acções, mas que, mesmo assim, ela permite-nos governar a outra metade ou parte dela."

O Príncipe, Maquiavel

quarta-feira, outubro 13, 2010

Hand language

Rota do Chá, 10/10/10

A Vanessa, a fotografia, e a conversa animada das minhas mãos.

terça-feira, outubro 12, 2010

Trabalhar cansa

Descia a rua, todas as ruas até chegar à Biblioteca, a contar as crianças pelo caminho – os filhos dos outros pelas mãos deles e dos pais deles, dos avós, como as migalhas de um conto longínquo de que se socorriam duas crianças para não perderem o seu norte, no meu caso o sul da manhã. Acho que há uma altura na nossa vida em que invejamos os filhos dos outros, como há uma altura em que invejamos os namorados, a figura, a popularidade, o dinheiro, as casas e os pais dos outros. Muitas alturas quando não se quer chã a vida.

A diferença entre um e outro momento – cada um dos outros momentos a que deliberadamente chamei alturas – é a idade, altura da vida, em que nos nascem e o que, naturalmente, pomos, ou nos é possível pôr, de nós, nessa demanda. De resto, entre a cupidez da adolescência e os projectos da idade adulta acaba por não haver muitas diferenças. Em todas as situações, é o tempo presente, a situação, que dá substância e importância, ardência, ao objecto do nosso desejo. E no entanto, todo o objecto de desejo depende de nós e não depende de nós.

Não sei se temos claro e consciente o alcance disto. Eu sei que não tinha até há muito pouco tempo. Não nos é possível fazer qualquer coisa a que nos determinemos. Qualquer coisa é muita coisa. E alguma da muita coisa não nos está pura e simplesmente reservada. Mas o reverso também é falso. Equilibrar-se neste arame é para poucos; requer muita fortaleza, quatro mãos e dois corações a bater como um. Algumas vezes menos que isso, outras mais. Há coisas nossas de antes dos tempos; há coisas nossas, façamos por elas; há coisas nossas, mesmo nesse sentido não fazendo nada.

A fortaleza, que não é substantivo concreto, é amplamente desconhecida da gente. Os poucos que a terão retido, nalgum fragmento remoto de uma infância longínqua de sábados longos a começarem com a catequese, equiparam-na à força. A força é uma presença de vitalidade física; a fortaleza, a correspondente espiritual –uma característica muito rara, difícil, exigente. A força nem sempre constrói, a fortaleza fá-lo sempre – e apazigua.

Entretive-me esta manhã cedo, ao acordar, com o telemóvel. Rodeamo-nos de maquinetas que, por nos facilitarem a vida, começam a fazer parte dela ao mesmo tempo que a contêm. E não pude deixar de pensar na incrível fortaleza da fragilidade. Mostrarmo-nos aos outros na nossa fragilidade é a maior prova de fortaleza que é esperança e confiança, que é amor e entrega – a da nossa vida à vida do outro, tudo o que se é nas mãos do outro, para cuidar.

Ontem à noite, muito a meio da noite, fui buscar o Trabalhar Cansa. Desconfio que lhe devo a atenção às migalhinhas no meu caminho esta manhã. O resto, devo-o ao telemóvel.

segunda-feira, outubro 11, 2010

De Um Céu Que É Um Abrigo

Reparti pelos dois serões do fim-de-semana o visionamento de The Sheltering Sky, um filme de Bernardo Bertolucci, com uma fotografia magnífica. Brevemente, trata-se da história de um casal de artistas que empreende, juntamente com um amigo, uma viagem pelo deserto. O início e o final da narrativa, moralizadores, estão a cargo de um senhor de olho vivo e muita idade que está sentado a um canto do bar da cidade que assiste à chegada dos protagonistas e à sua despedida possível.

Escudo-me da crítica cinéfila por não crer ter conhecimentos para tal e achar que escrever sobre o filme aqui e agora é o bastante. É boa a obra de arte com vida dentro. Qualquer obra de arte que tenha vida dentro questiona naturalmente a vida daqueles que a experienciam. No caso, a facilidade com que desolhamos a irrepetibilidade do presente, de vivências, momentos e condições que, por todas as razões, desabituámo-nos de ver como únicos. Vai um bocadinho mais além do carpe diem, que anda hoje tão longe de Horácio, tão nas bocas de um mundo precário e confuso. Não é o aproveitar o dia porque amanhã não se sabe, é o aproveitar o dia porque amanhã começa hoje.

É claro que isto vai contra a noção instituída do tempo como um continuum, cuja repartição se deve apenas à regulação da vida em sociedade; é igualmente claro que isto vai contra a psicologia contemporânea do amparo, em que tudo tem solução, nada é culpa nossa, e as felicidades e os bens-estar sucedem-se como autocarros. Nem tudo tem solução. Às vezes, a culpa é nossa (às vezes não, de todo). A felicidade e o bem-estar são substantivos abstractos, não se pluralizam.

Utilize-se sabiamente o tempo, empregue-se ardor na nossa entrega à vida, conduzamo-nos nela com sinceridade, administre-se bem a paixão, preservem-se as memórias como tesouros, cuide-se dos nossos como de nós próprios, demo-nos valor, dê-se valor ao outro, ao que temos. Atente-se no sol que nasce (e morre) todos os dias de uma manhã distinta e irrepetível. Nem o céu que nos abriga é sempre o mesmo.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Cada momento

The equestrian, Marc Chagall 1931

Milagres

Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa de especial?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres:
ou ande eu pelas ruas de Manhattan,
ou erga a vista sobre os telhados
na direcção do céu,
ou pise com os pés descalços
bem na franja das águas pela praia,
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem
/amo,
ou à mesa tome assento para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos na carruagem
de frente para mim,
ou siga as abelhas atarefadas
junto à colmeia antes do meio-dia de verão
ou animais pastando na campina
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,
ou a maravilha de um pôr-de-sol
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,
ou o estranho contorno delicado e leve
da lua nova na primavera,
essas e outras coisas, uma e todas
— para mim são milagres,
umas ligadas às outras
ainda que cada uma bem distinta
e no seu próprio lugar.

Cada momento de luz ou de treva
é para mim um milagre,
milagre cada polegada cúbica de espaço,
cada metro quadrado da superfície da terra
por milagre se estende, cada pé
do interior está apinhado de milagres.

O mar é para mim um milagre sem fim:
os peixes nadando, as pedras,
o movimento das ondas,
os navios que vão com homens dentro
— existirão milagres mais estranhos?

Walt Whitman, Folhas de Erva
Relógio d'Água, 2003

segunda-feira, outubro 04, 2010

Umbilicalidades



Quando fazemos anos, também estão de parabéns os nossos pais. E o contrário?
Hoje é Dia da Minha Mãe. Eu sei que não seria eu sem ela.