terça-feira, novembro 30, 2010

Fernando Pessoa (13-06-88 — 30-11-35)

Imagem daqui
I

Atravessa esta paisagem o meu sonho dum porto infinito
E a cor das flores é transparente de as velas de grandes navios
Que largam do cais arrastando nas águas por sombra
Os vultos ao sol daquelas árvores antigas...
O porto que sonho é sombrio e pálido
E esta paisagem é cheia de sol deste lado...
Mas no meu espírito o sol deste dia é porto sombrio
E os navios que saem do porto são estas árvores ao sol...
Liberto em duplo, abandonei-me da paisagem abaixo...
O vulto do cais é a estrada nítida e calma
Que se levanta e se ergue como um muro,
E os navios passam por dentro dos troncos das árvores
Com uma horizontalidade vertical,
E deixam cair amarras na água pelas folhas uma a uma dentro...
Não sei quem me sonho...
Súbito toda a água do mar do porto é transparente
e vejo no fundo, como uma estampa enorme que lá estivesse desdobrada,
Esta paisagem toda, renque de árvore, estrada a arder em aquele porto,
E a sombra duma nau mais antiga que o porto que passa
Entre o meu sonho do porto e o meu ver esta paisagem
E chega ao pé de mim, e entra por mim dentro,
E passa para o outro lado da minha alma...



II



Ilumina-se a igreja por dentro da chuva deste dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça...
Alegra-me ouvir a chuva porque ela é o templo estar aceso,
E as vidraças da igreja vistas de fora são o som da chuva ouvido por dentro...
O esplendor do altar-mor é o eu não poder quase ver os montes
Através da chuva que é ouro tão solene na toalha do altar...
Soa o canto do coro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a água no fato de haver coro...
A missa é um automóvel que passa
Através dos fiéis que se ajoelham em hoje ser um dia triste...
Súbito vento sacode em esplendor maior
A festa da catedral e o ruído da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre água perder-se ao longe
Com o som de rodas de automóvel...
E apagam-se as luzes da igreja
Na chuva que cessa...



III



A Grande Esfinge do Egito sonha pôr este papel dentro...
Escrevo - e ela aparece-me através da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pirâmides...
Escrevo - perturbo-me de ver o bico da minha pena
Ser o perfil do rei Quéops...
De repente paro...
Escureceu tudo... Caio por um abismo feito de tempo...
Estou soterrado sob as pirâmides a escrever versos à luz clara deste candeeiro
E todo o Egito me esmaga de alto através dos traços que faço com a pena...
Ouço a Esfinge rir por dentro
O som da minha pena a correr no papel...
Atravessa o eu não poder vê-la uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do teto que fica por detrás de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre ele e a pena que escreve
Jaz o cadáver do rei Queóps, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal difusa
Entre mim e o que eu penso...
Funerais do rei Queóps em ouro velho e Mim!...



IV



Que pandeiretas o silêncio deste quarto!...
As paredes estão na Andaluzia...
Há danças sensuais no brilho fixo da luz...
De repente todo o espaço pára...,
Pára, escorrega, desembrulha-se...,
E num canto do teto, muito mais longe do que ele está,
Abrem mãos brancas janelas secretas
E há ramos de violetas caindo
De haver uma noite de Primavera lá fora
Sobre o eu estar de olhos fechados...



V



Lá fora vai um redemoinho de sol os cavalos do carroussel...
Árvores, pedras, montes, bailam parados dentro de mim...
Noite absoluta na feira iluminada, luar no dia de sol lá fora,
E as luzes todas da feira fazem ruídos dos muros do quintal...
Ranchos de raparigas de bilha à cabeça
Que passam lá fora, cheias de estar sob o sol,
Cruzam-se com grandes grupos peganhentos de gente que anda na feira,
Gente toda misturada com as luzes das barracas, com a noite e com o luar,
E os dois grupos encontram-se e penetram-se
Até formarem só um que é os dois...
A feira e as luzes das feiras e a gente que anda na feira,
E a noite que pega na feira e a levanta no ar,
Andam por cima das copas das árvores cheias de sol,
Andam visivelmente por baixo dos penedos que luzem ao sol,
Aparecem do outro lado das bilhas que as raparigas levam à cabeça,
E toda esta paisagem de primavera é a lua sobre a feira,
E toda a feira com ruídos e luzes é o chão deste dia de sol...
De repente alguém sacode esta hora dupla como numa peneira
E, misturado, o pó das duas realidades cai
Sobre as minhas mãos cheias de desenhos de portos
Com grandes naus que se vão e não pensam em voltar...
Pó de oiro branco e negro sobre os meus dedos...
As minhas mãos são os passos daquela rapariga que abandona a feira,
Sozinha e contente como o dia de hoje..



VI



O maestro sacode a batuta,
E lânguida e triste a música rompe...
Lembra-me a minha infância, aquele dia
Em que eu brincava ao pé de um muro de quintal
Atirando-lhe com uma bola que tinha dum lado
O deslizar dum cão verde, e do outro lado
Um cavalo azul a correr com um jockey amarelo...
Prossegue a música, e eis na minha infância
De repente entre mim e o maestro, muro branco,
Vai e vem a bola, ora um cão verde,
Ora um cavalo azul com um jockey amarelo...
Todo o teatro é o meu quintal, a minha infância
Está em todos os lugares, e a bola vem a tocar música,
Uma música triste e vaga que passeia no meu quintal
Vestida de cão tornando-se jockey amarelo...
(Tão rápida gira a bola entre mim e os músicos...)
Atiro-a de encontro à minha infância e ela
Atravessa o teatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarelo e um cão verde
E um cavalo azul que aparece por cima do muro
Do meu quintal... E a música atira com bolas
À minha infância... E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavalos azuis e jockeys amarelos...
Todo o teatro é um muro branco de música
Por onde um cão verde corre atrás de minha saudade
Da minha infância, cavalo azul com um jockey amarelo...
E dum lado para o outro, da direita para a esquerda,
Donde há arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orquestras a tocar música,
Para onde há filas de bolas na loja onde comprei
E o homem da loja sorri entre as memórias da minha infância...
E a música cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...


Chuva Oblíqua
Poesias - Pessoa Ortónimo
Fernando Pessoa
Porto Editora

segunda-feira, novembro 29, 2010

Escrever a Vida: da escrita e da memória

Imagem daqui

Ontem estive quase uma hora a olhar uma fotografia desta menina. A fotografia era de um grafitti onde se podia ler: FOREVER BEGINS WHEN YOU SAY YES.

Escrever é pensar. Ler é pensar. Olhar e ver também é pensar. Pensar faz-nos. Quando se diz verba volant, scripta manent, diz-se da palavra escrita, daquela que permanece, que é valor seguro, que passa de geração em geração, que atravessa culturas, que dita mundividências. Toda a palavra escrita é conhecimento, toda a palavra escrita é ciência, toda a palavra escrita é História. Toda a palavra escrita é pensar.

Olhamos com a nossa vida nas íris, lemos com o nosso passado ao lado, escrevemos com a nossa história a espreitar pelo ombro. Se a cognição e a emoção fossem fenotípicas seríamos animais diferenciados por várias camadas e filtros. Temos as nossas verdades, os nossos medos, as nossas éticas, os nossos dogmas - as nossas vidas, pessoais e intransmissíveis. Assimilamos a realidade segundo os nossos quadros conceptuais, as nossas vivências emocionais, o legado da hereditariedade, as aportações do meio e o momento.

Escrevemo-nos quando escrevemos. Mesmo ficcionando, escrevemo-nos. Escrever-se, porém, é outra coisa. Escrever-se é aceitar o desafio para um duelo - aquele que nos impuser a nossa história pessoal. Escrever-se é, pela mão frágil da memória, ousar olhar-se, encontrar-se, conhecer-se, aceitar-se. Assim sendo, a autobiografia, mais do que um género para finais de vidas cheias, é um exercício de liberdade, imperativo nos dias que correm, a que qualquer um de nós se pode propor em determinado momento da vida.

Este livro encheu-me o final do dia. Antes de ser um manual de escrita, é a sombrinha do equilibrista no arame. Recomendo.

domingo, novembro 28, 2010

sábado, novembro 27, 2010

Nas nuvens

Imagem daqui

Sabe-se que se está apaixonado quando se deixa de ser o que se é. Quando o que se é passa a ser outra coisa, uma coisa que só a gente entende, uma coisa que, se a gente não entender, pouco importa.

O ano passado no Natal, dois ou três dias após a chegada mais desejada do ano todos os anos, a fazer guacamole ou esparregado - já não lembro ao certo - trilhei o dedo médio e o indicador direitos com a varinha mágica. Mexi-lhe, ligada, e foi o fim do guacamole, acho que foi guacamole, e o início de um pânico pequenino - a minha mãe não estava, escapámos, eu e o meu pai, ao pânico geral. O pânico pequenino é outra coisa, uma muito minha e metabólica - a de me saber não estar em controlo da situação. O meu pai, virtude profissional, nunca entra em pânico: fez-me o curativo e prosseguimos sem mais com a rotina normal da hora de almoço.

À tarde a minha mãe queria ver. Mostrei. Um silêncio alarmado de olhos entre ela e o meu pai. Uma coisa que, sei, não tinha nada a ver com a ferida. Devias levar dois pontitos nisso, que o teu pai disse-me - o meu pai já longe, no quintal - mas como és sossegada, ou costumavas ser, enfim, ... a ver se isso passa sem se ir às urgências. Passou. Ia Janeiro já a meio, quando se dissiparam as marcas maiores e recuperei a mobilidade.

Acabo de agrafar o dedo indicador, bem no lugar onde as cicatrizes do Natal passado se escondem. A ponta do dedo a ferver lembra-me que o que a vida traz ao "coração em redor do fogo" não se compadece de imperativos profissionais.

quinta-feira, novembro 25, 2010

De dias que passam a ser nossos - 2



Agradecermos o que temos, estarmos conscientes de que temos muito, ou mais do que a generalidade, é tomar consciência da felicidade que é nossa e da que, por isso, para nós pode estar guardada.

A primeira festa de Natal nos EUA. Mais sobre o Dia de Acção de Graças aqui.

terça-feira, novembro 23, 2010

Relembrando o início deste blog

nos 80 anos de Herberto Hélder


Feliz possa caminhar.
Feliz com abundantes nuvens negras possa caminhar.
Feliz com abundantes chuvas possa caminhar.
Feliz com abundantes plantas possa caminhar.
Feliz por uma senda de polen possa caminhar.
Feliz possa caminhar.
Como aconteceu em dias distantes possa agora caminhar.
Que defronte de mim seja tudo belo.
Que atras de mim seja tudo belo.
Que debaixo de mim seja tudo belo.
Que por cima de mim seja tudo belo.
Que derredor de mim seja tudo belo.
Belo belo acaba aqui. Belo belo acaba aqui.

Oração dos Indios Navajos,
trad. de Herberto Hélder
Poesia Toda

domingo, novembro 21, 2010

sábado, novembro 20, 2010

Da História

"The end of history will be a very sad time. (...) In the post-historical period there will be neither art nor philosophy, just the perpetual caretaking of the museum of human history. I can feel in myself, and see in others arround me, a powerful nostalgia fot the time when history existed. (...) Perhaps this very prospect of centuries of boredom at the end of history will serve to get history started once again."

Francis Fukuyama

terça-feira, novembro 16, 2010

domingo, novembro 14, 2010

Livro de Horas - 1

Elaine Freeman (Imagem daqui)

"Pela perseverança salvareis as vossas almas."

quinta-feira, novembro 11, 2010

Quentinhas e boas

Imagem daqui

Às cinco da tarde havia fila. Todos os anos há fila, mas este ano foi diferente: uma fila maior, a fila a crescer, a crescer, a estender-se pela praça fora até à Igreja. (O fumo a investir no sentido inverso.) Eu a pensar nos sentidos e no sentido do dia de hoje, uma criança mão na mão do pai, mão num mega cartucho de castanhas, quando me sobressalta, na passadeira, um ... e com esta crise ainda há fila para castanhas!... Poucas coisas me perturbam tanto como a amargura da ironia.

Vou à minha vida, ao supermercado, confiando numa fila mais pequena no regresso. Chego ao cair da noitinha a uma fila não muito mais pequena, mas ágil a decrescer. Concentro-me no tráfego rodoviário a furar o tempo - é hora de ponta -, detenho ocasionalmente o olhar no humano a passar a malha larga da fila, apressado e distante do conforto de um serão de castanhas e jeropiga. Três pessoas vindas da Constituição perscrutam futuros através da fila, três olhares num horizonte muito próprio, a desintoxicação: uma rapariga que já é senhora explicava a uma senhora, senhora desde há muito, que a ressaca não a mataria, que é diferente da da heroína e da da metadona.

Não saio à rua há algum tempo, pensei. Andava nisto quando, na curva da passadeira, de dentro de um carro, nas costas da fila, se pôde ouvir claramente, oh minha senhora, mas são dadas ou quê? Poucas coisas me perturbam tanto como a amargura da ironia.

A crise não é uma coisa dos mercados. A crise é um fosso, aquele que se abre entre os poucos e a maioria. Claramente, a verdadeira crise é uma coisa da cabeça, do coração e do estômago, da maioria: esta inescapável boçalidade mesquinha do povo é que lhe permite a instalação. Chega à minha vez, o senhor diz não é o costume, pois não?, rio-me que não, que não, peço, pago e vou aos pulinhos pela rua abaixo até casa.

O senhor das castanhas do Marquês tem as melhores castanhas do Porto. - Explicação para o tamanho da fila e da minha alegria pequenina de fim de dia.

terça-feira, novembro 09, 2010

Da fibra

BE LINEN MOVIE from Benoit MILLOT on Vimeo. (Video daqui.)

Tiraste o linho da arca

Da arca tiraste o linho.

Meu coração tem a marca

Que lhe puseste de mansinho.



Fernando Pessoa

terça-feira, novembro 02, 2010

A esperança é um jardim dentro dos olhos

Jardim de Santa Bárbara, Braga, 2 de Novembro de 2009 Fotografia: A.G.

segunda-feira, novembro 01, 2010

A little bit of History repeating

Pão-Por-Deus 01/11/2010 Fotografia: minha.

"(...) é a tradição que faz de nós aquilo que somos."
Albert Einstein



O Pão-por-Deus de outros anos neste espaço: aqui, aqui, aqui.