terça-feira, maio 31, 2011

Desapontado desabafo em jeito de pergunta

Que farão connosco amanhã, quando nós formos velhos estorvos, pouco doentes, muito cansados, muito deslocados, estes jovens que hoje humilham e ferem os seus pares?










Ser livre. Ser independente. Ter opinião.

E-u-r-o-p-a

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Não foi a literatura que se aproximou da política, foi a política que invadiu o campo da linguagem – invadiu e aí ficou. E com a política da Europa, a economia. Já há muito que nestes campos não se trata de deslocar coisas materiais, de decidir sobre o reino vegetal (mandar ou não cortar árvores), animal ou humano – agora quase tudo se decide no campo dos signos – números e letras; e eis um regresso ao mundo infantil: na Europa acreditamos que traços num papel não são apenas traços, mas a diferença entre riqueza e pobreza.

A já velha separação entre o signo e a coisa. A célebre frase “a palavra CÃO não morde”: se pusermos os dedos no C no A ou no O não corremos qualquer risco, os nossos dedos ficarão intactos, o C e o A não mordem – velha lição de linguística. E foi esta separação que inaugurou a modernidade. Os primitivos não acreditavam nisso, não acreditavam em dois mundos separados. Para os primitivos o signo era já uma coisa. O desenho de veado não era o desenho de um veado, era o veado. Não havia diferença.

De certa maneira, a Europa – desde há décadas – que acentuou o seu lado primitivo. Voltou a acreditar na magia. Quase toda a economia está hoje instalada no mundo abstrato, no mundo das letras e dos números – e não no mundo das matérias com volume. Porque a velha economia era isto: duas vacas que se trocavam por mil galinhas; fábricas e máquinas, árvores que se vendiam ou compravam. Pouco a pouco, no entanto, os elementos vivos e os metros quadrados foram desaparecendo de cena. Ficaram papéis com signos e números e a Europa transformou-se assim num Novo Continente Primitivo, em que as pessoas assumem comportamentos idênticos aos das tribos da Amazónia que confundiam signos com o real e acreditavam que a letra A ou um desenho os podia esmagar ou amaldiçoar.

É que se escrevermos num papel a frase “este papel vale cem mil euros”, certamente não iremos acreditar que esse papel, essa folha que antes estava branca, passará a valer 100 mil euros. Mas se ganharmos uma certa distância, veremos que, em parte, toda a queda económica a que assistimos hoje se deve a um processo semelhante, a grande escala.

A economia abstrata instalou-se aí, precisamente, no campo da crença. Quem tem um papel formalizado com um certo símbolo ou selo (mais signos) de uma Instituição Financeira acredita que esse papel vale, se pensarmos nas ações, um certo dia 2 euros, no dia seguinte euro e meio, e na semana seguinte três euros. Estas subidas e descidas do valor das ações, para quem está de fora e não entende nada de nada, são algo ainda mais estranho. Não é apenas a crença fixa num signo, como era a dos Primitivos, agora é uma crença flutuante – que a cada dia muda o valor material que atribui ao signo.

O mais absurdo é que a crença no abstrato, este regresso ao pensamento primitivo que invadiu o mundo contemporâneo, foi acompanhado por uma destruição sem precedentes da matéria concreta. Foram abatidos na Europa vacas e barcos, campos de cultivo foram desativados, máquinas destruídas ou impedidas de trabalhar, pois não se devia produzir mais do que uma certa quantidade. E ano após ano os dois processos foram avançando em paralelo: destruição das coisas que no mundo tinham volume e multiplicação dos papéis sem volume que simbolizavam riqueza. Acreditou-se, no fundo, que a riqueza estava nos signos e que as vacas, os barcos ou os metros quadrados eram uma riqueza, sim, mas antiga, ultrapassada, inadequada. Uma riqueza sem higiene, dir-se-ia.

E durante anos trocaram-se papéis de um lado para o outro. Pequenas folhas de tamanho A4, A5 ou A6 que rodavam de mão em mão; e, a cada passagem, por magia, essas folhas A4 pareciam aumentar de valor. Como uma passagem de testemunho mágica: o indivíduo A passava um papel ao indivíduo B, este ao indivíduo C, este ao D, e o último da fila, por fim, acreditava que o papel recebido valia já mil vezes o valor inicial.

Em suma, a crise na Europa resulta de inúmeras causas, sem dúvida, mas uma parte da questão é esta: estamos agora diante de uma mudança de crença. A Igreja do Abstrato, a crença no papel que vale dinheiro, parece ter chegado a um beco sem saída, e o número dos seus fiéis diminui – uns abandonam voluntariamente, outros contra vontade, muitos de forma trágica. E talvez com o fim desta crença se esteja a regressar, então, a uma outra. A moderna Igreja do Concreto parece, assim, a cada dia, recuperar a posição forte que já teve – a crença no que é matéria: a crença nas vacas, nos barcos, nos campos e nas máquinas – aí está ela, de volta. (E assistiremos nós, ainda, à destruição dos papéis?)

A Europa avançou muito, tecnologicamente e não só, mas para o europeu não se molhar ainda precisa de um elemento material entre o seu corpo e o céu. Não nos podemos abrigar no desenho de uma casa. E é por isso que a Europa parece avançar e recuar ao mesmo tempo. O que tenta não é fácil: quer deixar para trás o mundo primitivo, e regressar, de novo, à antiga modernidade. Trata-se de voltar a ser materialista, no sentido primeiro do termo. O velho materialismo de que as vacas são o bom exemplo, pesadas e calmas: o seu valor é o seu peso – e assim está bem.

Gonçalo M. Tavares
28 Dezembro 2010
PRESSEUROP

A moon, a tune and you - 2

Coisas do 28 e outras coincidências bonitas - 9

Do que não se diz. Esta manhã, distraída a falar ao telemóvel com a minha mãe, quase não me dou conta da passagem do eléctrico, mas a menina guarda-freios pára na mesma para eu subir.











segunda-feira, maio 30, 2011

De um jeito manso que é só seu - 14

O tempo de Gallimard

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A Gallimard está a comemorar o seu centenário com uma iniciativa original. A editora francesa, fundada por Gaston Gallimard em 1911, pôs-se a rebuscar os arquivos e seleccionou algumas dezenas de fichas de leitura redigidas, ao longo deste último século, pelos seus consultores literários. Estes papéis, recomendado um manuscrito para edição ou, pelo contrário, destinando-o ao caixote do lixo, integram a exposição "Gallimard, 1911-2011: Um Século de Edição", que estará na Biblioteca Nacional de França, em Paris, até 3 de Julho. O que a Gallimard pedia aos seus leitores era uma descrição breve do livro, acompanhada de uma pontuação: 1 para obras a publicar, 2 para casos a ver, 3 para manuscritos que deveriam ser recusados. Mas o que dá um sabor particular a estas revelações não é apenas ficarmos a saber o que alguém pensou de um Proust ou de uma Duras em princípio de carreira: é a circunstância de esse "alguém" se chamar Albert Camus ou André Gide, Raymond Queneau ou Jean Paulhan. A Gallimard escolhia os seus consultores a dedo, e muitas destas revelações impressionam pela capacidade de surpreender um talento ainda em gestação, antecipando a sentença da posteridade. Mas mesmo estes "super-leitores" não estavam livres de se estampar ao comprido. "As frases são retorcidas e ele usa uma página para dizer o que poderia ser dito em três linhas. Imagine-se um discípulo de Charles du Bos improvisando-se como romancista". É assim que Gide lê o primeiro volume de "Em Busca do Tempo Perdido", do desconhecido Marcel Proust. Remete-o para o limbo, avaliando-o com um 2. Um gesto generoso, tendo em conta que termina a sua nota de leitura com esta apreciação: "Terrívelmente aborrecido, inútil e respeitável". Conclusão: a Gallimard perde o autor para José Corti, que será, para toda a vida, o editor de Proust. Jean Paulhan não trata melhor o romance de estreia de Nathalie Sarraute, "Tropismes". Depois de sugerir que a autora é uma discípula óbvia de Virginia Woolf e de lamentar que os seus verbos prescindam de um sujeito, recomenda: "Se Mme. S. escrever mais tarde um romance (receio bem que este primeiro esforço a possa ter esgotado), podemos pedir-lhe que no-lo mostre". O mesmo Paulhan, director da "Nouvelle Revue Française", que está na origem da Gallimard, dirá de "Qui Je Fus", de Henri Michaux: "Não é detestável, ainda que ocasionalmente obscuro". Mas, vá lá, recomenda-o para publicação. Já o poeta René Char teve menos sorte com Camus, que, a respeito de "Seuls Demeurent", que a Gallimard viria mesmo a publicar em 1945, escreve: "Sou um mau juiz. Esta estética irrita-me sempre porque vejo nela um talento sem frutos". Mesmo os juízos essencialmente certeiros são às vezes expressos em termos que os tornam mais ridículos do que se falhassem o alvo. "Um bonito livro de mulher", diz Queneau sobre "África Minha", de Karen Blixen. Já o próprio Camus não pode queixar-se da apreciação que Paulhan faz de "O Estrangeiro": "A publicar sem hesitações". Mas é menos certo que se revisse nesta descrição do seu livro: "Começa como Sartre e acaba como Ponson du Terrail". Ramon Fernandez, um colaborador da "Nouvelle Revue Française" que iria tornar-se um especialista de Proust, escreve, em 1936, sobre "E Tudo o Vento Levou", de Margaret Mitchell: "Não me parece oportuno publicar um romance histórico sobre a guerra civil americana, tanto mais que o livro é enorme". Mas Fernandez não era, apesar de tudo, um André Gide, e Gallimard não lhe deu ouvidos. Mandou traduzir o livro, que, em poucos anos, vendeu 385 mil exemplares.


Mais aqui.

sábado, maio 28, 2011

Da semana

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“We went down into the silent garden. Dawn is the time when nothing breathes, the hour of silence. Everything is transfixed, only the light moves.”

Leonora Carrington
The House of Fear
1988

Bom fim-de-semana - 4

sexta-feira, maio 27, 2011

The Allure of Love and Madness


Amy Nostbakken em The Big Smoke. Foto: Ryan Garside.

W

ould you go and see a play performed entirely by a single unaccompanied singer that describes itself as a ‘poetic waltz’ about one woman’s descent into madness and suicide? Does it appeal as much as, say, a Sarah Kane play on a rainy Wednesday evening? For some people (and I count myself among them) it’s just the ticket. The Big Smoke, written and performed by Amy Nostbakken, cites as its influences the work of Virginia Woolf, Sylvia Plath and Anne Sexton, and its sultry trailer shows a woman in a 1950s prom dress singing out her pain amid plumes of cigarette smoke.

Sounds heavy-going, and let’s face it, it probably is, though my interest was piqued. I work for a publisher with indelible connections to those three writers, and one whose editorial staff consists entirely of women. Feminist agendas are on our books. Judging from the trailer, the play’s approach seemed too direct for Woolf, too showy for Plath, but I could distinctly detect the influence of my poetic heroine Anne Sexton in Nostbakken’s pose.

Unlike Plath and Woolf, Sexton has never been required reading in Britain. I first encountered her in the pages of a battered library edition of The Faber Book of Contemporary American Poetry, and the directness of her verse and the boldness of their subject matter drew the teenaged-me like a lure. If ever there were a poet to lend despair a certain glamour, it was Sexton. She would turn up at her readings ten minutes late, mount the lectern, light a cigarette, kick off her heels and announce in a throaty voice: ‘I’m going to read a poem that tells you what kind
If ever there were a poet to lend despair a certain glamour, it was Sexton.
of a poet I am, what kind of woman I am, so if you don’t like it you can leave,’ and then go on to read compelling, incisive poems of abortion and adultery, love and madness, death and desolation. This rare clip of Sexton reveals her for everything she was: beautiful and alluring, yet savage and vaguely menacing, cutting right to the bone and straight to the heart.

Sexton killed herself in 1974, but the torchbearers of her confessional legacy include such poets at Clare Pollard, Helen Farish and Sharon Olds (who still hasn’t stopped writing about the time her parents tied her to a chair).

And yet this mode, largely speaking, is deeply unfashionable, with its connotations of rampant egotism, bad ethics and sloppy craftsmanship. Most critics and poets take T.S. Eliot’s high road (that poetry is not an expression of personality, but an escape from it) and look upon Confessional poetry as nothing but amateurish, introspective navel-gazing. How, they say, is a poem about menstruation at the age of forty necessary or relevant? Bring on the Aenead and Rilke.

And yet it is necessary and relevant. Intensely so. Poets like Sexton and Plath enabled a cultural expression of female discontent that anticipated the ideas of Betty Friedan’s The Feminist Mystique and Second-wave feminism. We owe these combustible figures much, not only for breaking down the white picket fences of poetic form but, by speaking in their own voices, changing what women could talk about not only in poetry but outside of poetry too. I can’t imagine a publishing landscape with such memoirs as Prozac Nation orThe Voice Inside My Head ever existing without the trail blazed by the oracular truth-sayers that came before them.

For all the criticisms The Big Smoke or Anne Sexton might attract, they signify a bravery I still don’t detect in most contemporary art forms. A one-woman, sixty-five minute, A capella play about madness and suicide might be a little too much to bear for most people, but it wholeheartedly embodies Sexton’s conviction: ‘In celebration of the woman I am...I sing for you, I dare to live.’And that can only be a good thing.

Tudo daqui.

Música das Esferas - X

The Letter

Amy Lowell (1874 - 1925)
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Little cramped words scrawling all over
the paper
Like draggled fly's legs,
What can you tell of the flaring moon
Through the oak leaves?
Or of my uncertain window and the
bare floor

Spattered with moonlight?
Your silly quirks and twists have nothing
in them
Of blossoming hawthorns,
And this paper is dull, crisp, smooth,
virgin of loveliness
Beneath my hand.

I am tired, Beloved, of chafing my heart
against
The want of you;
Of squeezing it into little inkdrops,
And posting it.
And I scald alone, here, under the fire
Of the great moon.




Amy Lowell
The Complete Poetical Works of Amy Lowell
Houghton
1925.

quarta-feira, maio 25, 2011

Um sábio pode ser útil a outro sábio

O Séneca (4 a.C. - 65 d.C.) de Rubens (1577 - 1640)
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Estás interessado em saber se um sábio pode ser útil a outro sábio. Nós definimos o sábio como um homem dotado de todos os bens no mais alto grau possível. A questão está pois em saber como é possível alguém ser útil a quem já atingiu o supremo bem. Ora, os homens de bem são úteis uns aos outros. A sua função é praticar a virtude e manter a sabedoria num estado de perfeito equilíbrio. Mas cada um necessita de outro homem de bem com quem troque impressões e discuta os problemas. A perícia na luta só se adquire com a prática; dois músicos aproveitam melhor se estudarem em conjunto. O sábio necessita igualmente de manter as suas virtudes em actividade e, por isso mesmo, não só se estimula a si próprio como se sente estimulado por outro sábio. Em que pode um sábio ser útil a outro sábio? Pode servir-lhe de incitamento, pode sugerir-lhe oportunidades para a prática de acções virtuosas. Além disso, pode comunicar-lhe as suas meditações e dar-lhe conta das suas descobertas. Nunca faltará mesmo ao sábio algo de novo a descobrir, algo que dê ao seu espírito novos campos a explorar.

Os indivíduos perversos fazem mal uns aos outros, tornam-se mutuamente piores, na medida em que despertam a ira, favorecem o mau carácter, enaltecem os prazeres; tais indivíduos são mesmo tanto mais nocivos quanto mais partilham os seus vícios e juntam as suas forças maléficas com um objectivo comum. O contrário é igualmente válido: um homem de bem só pode ser útil a outro homem de bem. "De que modo?", perguntarás tu. Transmitir-lhe-á o seu contentamento, reforçará a sua autoconfiança; a contemplação mútua da respectiva tranquilidade fará aumentar em ambos a alegria. Além disso pode ainda proporcionar-lhe o conhecimento de certas matérias, já que mesmo um sábio não pode saber tudo. E mesmo que soubesse tudo, outro sábio pode muito bem descobrir um método mais rápido para atingir o conhecimento da natureza e facilitar-lhe o acesso a um meio de melhor formular uma visão global das coisas. Um sábio pode ser útil a outro sábio, e não somente graças às suas próprias forças, mas graças também às daquele a quem está auxiliando. Claro que o primeiro, mesmo entregue apenas a si próprio, é capaz de desempenhar perfeitamente o seu papel. Todavia, embora corra com a velocidade que lhe é própria, nem por isso deixará de lhe aproveitar uma voz de incitamento.


Lúcio Aneu Séneca

Cartas a Lucílio

Trad. José António Segurado e Campos

FCG

2008

segunda-feira, maio 23, 2011

Cabe nós dois

Eucanaã encontra Sophia

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Lisboa, 2001

Desde que li, pela primeira vez, a sua poesia, o nome de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919- 2004) instalou-se em mim como a visão de um mar novo, de uma natureza bela e incorrupta. Meu ideal de uma escrita clara e vertical, lírica e lógica, alimentou-se durante muito tempo e exclusivamente de sua obra, fundada como um gesto de libertação dos limites de tempo e espaço, bem como de superação do aprisionamento dos nomes e da descontinuidade dos corpos.

No meu “Livro Primeiro” (1990), além de um poema dedicado a Sophia -que remete às imagens e ao ritmo de seus versos-, a presença dela está onde poucos a reconheceriam: na capa do livro, por exemplo. Eu próprio a esbocei a partir de uma antologia sua publicada pela Figueirinhas, de Lisboa, na sua quinta edição, em 1985. A disposição interna dos poemas e da numeração das páginas no “Livro Primeiro” obedecem ao mesmo modelo. E, por fim, o próprio título, que me pareceu justo para um livro de estreia, veio-me por causa de Sophia, de seu “Livro Sexto”.

Mais tarde, incluí em “Martelo” (1997) um poema que se chama “O Nome do Poeta” e que tem como último verso apenas isso: “Sophia de Mello Breyner Andresen”.

Ouvira de meus amigos portugueses vários episódios acerca da mulher bonita e elegante, encantadora e um bocado desligada, conhecida por seus imensos atrasos; mas também não faltavam histórias que ilustravam sua coragem como ativista política em plena ditadura salazarista, quando ajudou a fundar a Comissão Nacional de Socorro aos Presos Políticos, ou depois da Revolução de Abril de 1974, quando foi deputada da Assembleia Constituinte pelo Partido Socialista.

Foi uma grande alegria tê-la conhecido pessoalmente no dia 7 de outubro de 2001, na célebre casa da Travessa das Mónicas, no bairro da Graça, em Lisboa. Em meio à conversa, ela volta e meia se recordava de algum amigo brasileiro -Manuel Bandeira, Murilo Mendes, João Cabral de Melo Neto- e lembrava-se de que haviam morrido. Então, as lágrimas mal se sustentavam nos olhos, uns olhos grandes, claros, ao mesmo tempo doces e agudos. Mas o que mais me impressionou em Sophia é o mais difícil de explicar: não havia qualquer descontinuidade entre o que falava e o que escrevera.

Exatamente isso: falava como se estivesse escrevendo versos. Dizia coisas como “trago o terror e trago a claridade”, ou “o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas”, e, enquanto me servia chá, talvez tenha dito: “Vê como os gestos se esculpem em geometrias exatas do destino.” Tudo era absolutamente natural e verdadeiro, cotidiano e límpido.

Contou-me que, quando nasceu, o pai adentrou o quarto com os cães e os apresentou a ela. “Gosto de ouvir o português do Brasil”, disse-me, como se recitasse o primeiro verso do seu “Poema para Helena Lanari”: “Gosto de ouvir o português do Brasil/ Onde as palavras recuperam sua substância total/ Concretas como frutos nítidas como pássaros/ Gosto de ouvir a palavra com as suas sílabas todas/ Sem perder sequer um quinto de vogal// Quando Helena Lanari dizia o ‘coqueiro’/ O coqueiro ficava muito mais vegetal”.

Contou-me ainda que sua filha, Maria, estava de partida para o Rio de Janeiro e pediu-me que eu procurasse por ela, porque todos os seus amigos – repetia como se, de repente, se lembrasse outra vez e se espantasse e se comovesse – haviam morrido. Longas pausas pontuavam suas perguntas, seu interesse por mim, pelas coisas, seu modo de dizer “nós não sabemos ao certo como nos marcaram as coisas que verdadeiramente nos marcaram”.

Foi um amigo comum, Gastão Cruz -outro grande poeta português-, quem me levou a ela num dia de azul líquido e simultaneamente preciso, matemático. Nenhum de nós morreria naquele outono de arames claros: a hora como que se curvava quando Sophia falava, e então todas as palavras eram números mágicos.

Eucanaã Ferraz

Folha de São Paulo

"Arquivo Aberto" - Série


Daqui.

terça-feira, maio 17, 2011

Música das Esferas - VIII

Coisas do 28 e outras coincidências bonitas - 7

Nove anos de gente: - Achas que eu vou ser amigo daquele que me traiu? Alguma vez... Não estivesse a professora a ver e dava-lhe um soco.

Avó: - Tens que lhe dar uma oportunidade. Vai ter com ele e diz Ora pensa lá bem no que fizeste e depois falamos; depois dizes Achas justo pagar só eu por uma coisa que fizemos os dois? Os dois temos culpa, não te parece?

Blá, blá, blá.

Não, por acaso não me parece. A mim o que me parece é que a culpa é da avó. As coisas são muito simples. As coisas são muito simples quando se tem nove anos. Uma década depois e daí em diante é que é sempre a complicar, avó.

segunda-feira, maio 16, 2011

Do infinito

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Até um caco oferece ao espelho infinitude e “basta dois (espelhos) para que um reflicta o outro, com uma vibração que se propaga ad infinitum como uma mensagem tensa e insistente, um líquido no qual podemos mergulhar a nossa mão fascinada e retirá-la a gotejar [...] dos reflexos daquela água concentrada.”


Clarice Lispector
crónica a propósito de
“Os Espelhos de Vera Mindlin”

Um vocábulo pode desaparecer num momento dado, definitivamente

"(...)
(fome, depois de Nicolau Tolentino de Almeida; leito, depois de António Nobre; mágoa, depois de Guerra Junqueiro; mal, depois de Bocage; pé, depois de Cesário Verde), ou provisoriamente, para reaparecer em seguida. Vamos indicar o vocábulo, o nome do poeta depois do qual ele desaparece e enfim, o nome do poeta a partir do qual ele reaparece: boca: Camões - António Nobre; braço: Rodrigues Lobo - João de Deus; campo: Manuel de Melo - Cesário Verde;carne: Camões - António Nobre; corpo: Correia Garção - Camilo Pessanha; lágrima: Camões - Garrett... Porquê este eclipse? Outros textos não conteriam estas palavras? Não as teriam utilizado outros poetas neste lapso de tempo? Enfim, uma palavra pode aparecer mais tardiamente do que se teria pensado: ânsia, a partir de António Nobre; árvore, a partir de Gomes Leal; astro, a partir de Antero de Quental; aurora, a partir de João de Deus; aventura, a partir de Teixeira de Pascoais; beijo, a partir de Guerra Junqueiro; cidade, a partir de Gomes Leal; criado, a partir de António Nobre; encanto e espaço, a partir de João de Deus; espelho, a partir de Gomes Leal;fumo, a partir de Teixeira de Pascoais; hora, a partir de Nicolau Tolentino de Almeida; idade, a partir de Teixeira de Pascoais; lar, a partir de Gomes Leal; lua, a partir de Garrett; menino, a partir de Guerra Junqueiro; mulher, a partir de João de Deus; ninho, a partir de Gomes Leal; olhar, a partir de Antero de Quental; pecado, a partir de João de Deus; punhal e quarto, a partir de Gomes Leal; seio, solidão e tristeza, a partir de Antero de Quental; sonho, que nunca mais tinha sido reempregado depois de Camões, reaparece em Gomes Leal, como saudade que encontramos somente em Camões e Nicolau Tolentino de Almeida, mas que começa então uma nova carreira ... Talvez seja preciso rever muitas ideias recebidas. (...)"

Introdução a Sobre o Vocabulário da Poesia Portuguesa
Fundação Calouste Gulbenkian / Centro Cultural Português
1975


Mais sobre isto e poesia, muita poesia, aqui.