quarta-feira, junho 29, 2011

Num dia em que se vai falar muito

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... de juventude, de morte, da estrada, de números, de condução, de condução defensiva, de civilidade, não deixemos de exigir a quem nos governa acção: campanhas de sensibilização, acções de consciencialização, educação. Carros rápidos e seguros são coisa possível pelas mãos de pessoas responsáveis, informadas, sensibilizadas. Limitar as funcionalidades dos veículos em circulação é escolher o caminho mais fácil. E isso poder ser tido como uma espécie de indolência, pelo menos.

terça-feira, junho 21, 2011

Ainda do dia.

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"Depois da invenção do fumo não há solidão possível. É a melhor companhia deste mundo. Demais, o charuto é um verdadeiro memento homo: convertendo-se pouco a pouco em cinzas, vai lembrando ao homem o fim real e infalível de todas as coisas."


Machado de Assis
Contos Fluminenses
Clássicos da Literatura Portuguesa
Legatus Editora
2010


Do que vai para além do dia

É de azulejo.

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Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos


Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
detidos: hei-de partir quando as flores chegarem
à sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Mas chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.


Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.


Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a cólera que me leva
aos precipícios de agosto, e a mansidão
traz-me às janelas. São únicas as colinas como o ar
palpitante fechado num espelho. É a estação dos planetas.
Cada dia é um abismo atómico.


E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Bate em mim cada pancada do pedreiro
que talha no calcário a rosa congenital.
A carne, asfixiam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.




Herberto Helder
Cobra
Poesia Toda
Assírio & Alvim
1979

sábado, junho 18, 2011

Gostar é provavelmente a melhor maneira de ter

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Um homem foi bater à porta do rei e disse-lhe, Dá-me um barco. A casa do rei tinha muitas mais portas, mas aquela era a das petições. Como o rei passava todo o tempo sentado à porta dos obséquios (entenda-se, os obséquios que lhe faziam a ele), de cada vez que ouvia alguém a chamar à porta das petições fingia-se desentendido, e só quando o ressoar contínuo da aldraba de bronze se tornava, mais do que notório, escandaloso, tirando o sossego à vizinhança (as pessoas começavam a murmurar, Que rei temos nós, que não atende), é que dava ordem ao primeiro-secretário para ir saber o que queria o impetrante, que não havia maneira de se calar. Então, o primeiro-secretário chamava o segundo-secretário, este chamava o terceiro, que mandava o primeiro-ajudante, que por sua vez mandava o segundo, e assim por aí fora até chegar à mulher da limpeza, a qual, não tendo ninguém em quem mandar, entreabria a porta das petições e perguntava pela frincha, Que é que tu queres. O suplicante dizia ao que vinha, isto é, pedia o que tinha a pedir, depois instalava-se a um canto da porta, à espera de que o requerimento fizesse, de um em um, o caminho ao contrário, até chegar ao rei. Ocupado como sempre estava com os obséquios, o rei demorava a resposta, e já não era pequeno sinal de atenção ao bem-estar e felicidade do seu povo quando resolvia pedir um parecer fundamentado por escrito ao primeiro-secretário, o qual, escusado se ria dizer, passava a encomenda ao segundo-secretário, este ao terceiro, sucessivamente, até chegar outra vez à mulher da limpeza, que despachava sim ou não conforme estivesse de maré.

Continua aqui.


José Saramago
O Conto da Ilha Desconhecida
Editorial Caminho
1999

sexta-feira, junho 17, 2011

Admirável mundo nético

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A partir de hoje, toda a obra do cantor e compositor Chico Buarque está disponível na Internet, no site do Instituto Tom Jobim. O arquivo inclui canções, vídeos, fotos e textos do arquivo pessoal do cantor.

Musiquinha de sexta

A norte

o meu irmão faz hoje anos. Oh, tempora!











segunda-feira, junho 13, 2011

Do manjerico

Estes dias de prazer
Que eu hei gozado ao teu lado
Abrandarão meu sofrer
Se este cravo for guardado.









sexta-feira, junho 10, 2011

You may say I'm a dreamer

Mas ainda é dia de Portugal, eu já sei disto há tanto tempo e só agora é que enfim. Mas cá está. Esperança.











No dia de Portugal, leia Camões


Camões na gruta de Macau, Metrass
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Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nu~a hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar u~a hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís de Camões
Rimas
(org.) Álvaro J. da Costa Pimpão
Edições Almedina
1994

De um jeito manso que é só seu - 16

terça-feira, junho 07, 2011

Coisas do 28 e outras coincidências bonitas - 10



No castelo eu lembrava-me que isto apareceu quando eu era muito muito pequena, já o senhor guarda-freios devia ser grande, maior que eu pelo menos, a julgar pela alegria calma com que acompanhava o ritmo da música com a cabeça.

segunda-feira, junho 06, 2011

A beleza ousada e surpreendente, a poesia

Thomas Mann (1875 - 1955)

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A solidão mostra o original, a beleza ousada e surpreendente, a poesia. Mas a solidão também mostra o avesso, o desproporcionado, o absurdo e o ilícito.

Thomas Mann
A Morte em Veneza
Relógio d'Água
2005

(O dia de nascimento do autor é sempre um bom dia para começar a ler o que se trouxe dele da Feira do Livro.)

La ra ri, la ra ra.

Coisas que me fazem muita confusão (para não dizer medo)

Um país sem esquerda.











sexta-feira, junho 03, 2011

Um bom motivo para (re)abrir o Rosa do Mundo

Manuel Hermínio Monteiro (10-9-1952 - 3-6-2001)
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«Há muitos e muitos milhares de anos, a poesia aproximou-se do homem e tão próximos ficaram, que ela se instalou no seu coração. E começaram a ver o mundo conjuntamente estabelecendo uma inseparável relação que perdurará para sempre. Não demorou muito a que a poesia se emancipasse, autonomizando-se. Como uma rosa de cujas pétalas centrípetas emana a beleza e o mais intenso perfume, sem nunca prescindir da defesa vigilante dos seus espinhos, assim cresceu livre a poesia carregada de silencioso mistério e sedução.»


Manuel Hermínio Monteiro
in Rosa do Mundo -
2001 poemas para o futuro,
2001, p. IX.

Tudo daqui.

quinta-feira, junho 02, 2011

Correct amounts of lust and respect - 2

Joanna Woodward e Paul Newman
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Coisas que podiam ser do 28 mas são do 34

Hoje que as mercearias levaram-me a apanhar o autocarro na Graça, entram na minha paragem três crianças. Uma loira, uma morena, uma preta. A loira de uns cinco anos, a morena de uns dez, onze ou doze, a preta de uns dez, onze ou doze. Entram em grupo, em grupo olham o motorista, em grupo se riem. Procuro nelas aquele riso disforme do medo que quase desculpa a audácia. Não encontro. Meia dúzia de segundos depois, o motorista solta furioso: "Três viagens, três bilhetes!" Elas saem.

Quando eu andava na Primária e comecei a ir para o Conservatório, certo dia, tendo perdido (ou sendo-me roubado na aula) o bilhete de autocarro do regresso, fiz os 3,5 kms de distância entre o Conservatório e a minha casa a pé. Cheguei tardíssimo, à hora do jantar, perdidas que estavam as duas horas para fazer os trabalhos de casa, e ainda tive que explicar o atraso e ouvir que para a próxima deveria ter mais cuidado e manter a carteira não debaixo de olho, mas comigo.

Do Panteão a Santa Apolónia, a reacção chocada do motorista fez-se sentir em todo o autocarro e prosseguiria em repeat. "Estes pais não dão educação nenhuma aos filhos, acreditas que" dizia ao telefone quando saímos todos.

É claro que há 25 anos atrás, as crianças tinham trabalhos de casa, que faziam em determinada hora do dia, preferencialmente antes do jantar, para poderem contar com a supervisão dos pais, com quem jantariam depois e conversariam sobre a jornada.

Esta mudança súbita da sociedade, este passado tão recente que passou tão depressa... Apesar dos vinte anos que nos separam, eu percebo o motorista.

quarta-feira, junho 01, 2011