segunda-feira, outubro 31, 2011

Do Halloween

Ainda do dia.

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Hoje também é dia de outra poeta, Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, a Marquesa de Alorna, avó em quinto grau de Maria Teresa Horta que a biografou recentemente. "As Luzes de Leonor - A marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis" é um livro belíssimo que ando a ler aos bocadinhos nas livrarias e que há-de me chegar às mãos, se não antes, no Natal.

Dia de Drummond, esqueçam as bruxas

domingo, outubro 30, 2011

Grandes revelações

Dinis Machado (1930 - 2008)
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Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militares, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e constrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado mais cómico disto? Daí a fazer essa pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença, a brutalidade, a estupidez, a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica – até o leito do sofrimento, o leito da morte. E eu: qual é o lado mais cómico disto?

Andava nessa altura a rir-me muito com as caras burlescas do cinema, não sabia que Shakespeare e Bergman existiam, ainda não tinha lido alguns livros trágicos e patéticos – e se soubesse que devia ter a faculdade de me rir de mim próprio, sabia-o sem o saber. Quando uma vez caí, a patinar no passeio com botas cardadas, e parti o dente da frente, fiz a pergunta calada e sacramental, enquanto as pessoas olhavam para mim: – Qual é o lado mais cómico disto?Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. E até na dor que retirava dos que amava (dos meus avós, das minhas velhas tias, por exemplo), e até na mor-te, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro.Creio que os cómicos do cinema me compreendiam melhor do que ninguém. Habitavam o coração do desastre com a desenvoltura, o corpo de borracha e a paciência evangélica dos grandes missionários da naturalidade.



Dinis Machado
Reduto Quase Final

sexta-feira, outubro 21, 2011

Do que fica - 2

A vós, aspirações vagas, entusiasmos;

cismas depois do almoço; impulsos do coração;

enternecimento que vem com a satisfação

das necessidades naturais; clarões de génio; apaziguamento

da digestão bem feita; alegrias sem causa;

distúrbios da circulação do sangue; recordações do amor;

perfume de benjoim do banho matinal; sonhos de amor;

minha enorme molecagem castelhana; minha imensa

tristeza puritana, meus gostos especiais:

chocolate, bonbons, doces de derreter, bebidas geladas;

charutos entorpecedores e vós, acalentadores cigarros;

alergrias da velocidade; doçura de ficar sentado; delícia

do sono na completa escuridão;

grande poesia das coisas; noticiário de polícia; viagens;

tziganos, passeios de trenó; chuva no mar;

loucura da noite febril, sozinho com alguns livros;

oscilações do temperamento e do tempo;

instantes de outra vida, reaparecidos; recordações, profecias;

ó esplendor da vida comum e do ramerrão quotidiano,

a vós esta alma perdida.


Valéry Larbaud

(trad. Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, outubro 20, 2011

Ma Bohème

La Muse Verte, Albert Maignan
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Je m'en allais, les poings dans mes poches crevées;
Mon paletot aussi devenait idéal;
J'allais sous le ciel, Muse ! et j'étais ton féal;
Oh! là là! que d'amours splendides j'ai rêvées!

Mon unique culotte avait un large trou.
- Petit-Poucet rêveur, j'égrenais dans ma course
Des rimes. Mon auberge était à la Grande Ourse.
- Mes étoiles au ciel avaient un doux frou-frou

Et je les écoutais, assis au bord des routes,
Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes
De rosée à mon front, comme un vin de vigueur ;

Où, rimant au milieu des ombres fantastiques,
Comme des lyres, je tirais les élastiques
De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur!



Arthur Rimbaud

terça-feira, outubro 18, 2011

Veritatis splendor: TORSO ARCAICO DE APOLO

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Não sabemos como era a cabeça, que falta,

de pupilas amadurecidas. Porém

o torso arde ainda como um candelabro e tem,


só que meio apagada, a luz do olhar, que salta


e brilha. Se não fosse assim, a curva rara

do peito não deslumbraria, nem achar

caminho poderia um sorriso e baixar

da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.


Não fosse assim, seria essa estátua uma mera

pedra, um desfigurado mármore, e nem já

resplandecera mais como pele de fera.


Seus limites não transporia desmedida

como uma estrela; pois ali ponto não há

que não te mire. Força é mudares de vida.


Rainer Maria Rilke

(Trad. de Manuel Bandeira)

Desapontado desabafo - 4



"Oh, baby, baby, it's a wild world
It's hard to get by just upon a smile."








solavancava o Cat Stevens, esta manhã, no meu 28. Parece cena de filme.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Poema dum Funcionário Cansado


António Ramos Rosa (1924 - )
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A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

António Ramos Rosa
Viagem através de uma Nebulosa
D.Quixote
1960

sexta-feira, outubro 14, 2011

Vampiros

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas Pela noite calada
Vêm em bandos Com pés veludo
Chupar o sangue Fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada [Bis]

A toda a parte Chegam os vampiros
Poisam nos prédios Poisam nas calçadas
Trazem no ventre Despojos antigos
Mas nada os prende Às vidas acabadas

São os mordomos Do universo todo
Senhores à força Mandadores sem lei
Enchem as tulhas Bebem vinho novo
Dançam a ronda No pinhal do rei

Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada

No chão do medo Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos Na noite abafada
Jazem nos fossos Vítimas dum credo
E não se esgota O sangue da manada

Se alguém se engana Com seu ar sisudo
E lhe franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada


terça-feira, outubro 11, 2011

Funchal

Tomas Tranströmer (1931 - )
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O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca,
construída por náufragos.

Muitos, chegados à porta, voltam para trás, mas não assim as
rajadas de vento do mar. Uma sombra encontra-se num
cubículo fumarento e assa dois peixes, segundo uma antiga
receita da Atlântida, pequenas explosões de alho.

O óleo flui sobre as rodelas do tomate. Cada dentada diz que o
oceano nos quer bem, um zunido das profundezas.

Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trepássemos
as agrestes colinas floridas, sem qualquer cansaço.
Encontramo-nos do lado dos animais, bem-vindos, não
envelhecemos. Mas já suportámos tantas coisas juntos,
lembramo-nos disso, horas em que também de pouco ou nada
servíamos ( por exemplo, quando esperávamos na bicha para
doar o sangue saudável – ele tinha prescrito uma transfusão).
Acontecimentos, que nos podiam ter separado, se não nos
tivéssemos unido, e acontecimentos que, lado a lado,
esquecemos – mas eles não nos esqueceram!

Eles tornaram-se pedras, pedras claras e escuras, pedras de um
mosaico desordenado.

E agora aconteceu: os cacos voam todos na mesma direcção, o
mosaico nasce.

Ele espera por nós. Do cimo da parede, ele ilumina o quarto de
hotel, um design, violento e doce, talvez um rosto, não nos é
possível compreender tudo, mesmo quando tiramos as roupas.

Ao entardecer, saímos. A poderosa pata, azul escura, da meia
ilha jaz, expelida sobre o mar. Embrenhamo-nos na multidão,
somos empurrados amigavelmente, suaves controlos, todos
falam, fervorosos, na língua estranha. “ um homem não é uma
ilha.“ Por meio deles fortalecemo-nos, mas também por meio de
nós mesmos. Por meio daquilo que existe em nós e que os outros
não conseguem ver. Aquela coisa que só se consegue encontrar
a ela própria. O paradoxo interior, a flor da garagem, a válvula
contra a boa escuridão.
Uma bebida que borbulha nos copos vazios. Um altifalante que
propaga o silêncio.

Um atalho que, por detrás de cada passo, cresce e cresce. Um
livro que só no escuro se consegue ler.

Tomas Tranströmer
(Trad. Luís Costa a partir de Hans Grössel)

sexta-feira, outubro 07, 2011

De livros

Recebido desta menina.

1. Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?

Há três que levo comigo para todo o lado para reler, e de facto já os reli com frequência: a Poesia, Daniel Faria (Quasi), A Origem da Tragédia no Espírito da Música, Friedrich Nietzsche (Edições 70), Mrs. Dalloway, Virginia Woolf (Vintage International).


2. Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?

O Renascer: Diários e Apontamentos 1947 - 1963, Susan Sontag (Quetzal). Pese muito embora o facto de permitir perceber o percurso intelectual de uma pensadora brilhante, dá na mesma medida a sua fragilidade íntima (emocional, psicológica, anímica...) de um modo tão pungente e tão triste que, assumo, de todas as vezes me deixou de rastos.

3. Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?

Não percebi se é um dos lidos, se um dos por ler. De qualquer das formas, a minha bíblia, depois da Bíblia, é o Livro das Horas, Rainer Maria Rilke (Assírio e Alvim).


4. Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?

São muitos. E nunca é uma palavra demasiado definitiva. Os três do topo da pilha que re-organizei, por ordem de urgência, este verão: Ulysses, James Joyce (Vintage International), Rayuela - O Jogo do Mundo, Júlio Cortázar (Cavalo de Ferro), Guerra e Paz, Lev Tolstói (Presença).


5. Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?

Ah, Perto do Coração Selvagem de Clarice Lispector (Relógio d'Água). Leiam, leiam.


6. Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?

O que toda a gente leu: as Anitas, os Tintins, os Tios Patinhas, os Zé Cariocas, as colecções Cinco e Uma Aventura porque estavam lá em casa. A Alice Vieira, a Sophia e a Maria Alberta Menéres, por causa da escola.


7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?

Havendo livros que custam mais do que outros a ler, não há livros chatos. A leitura, a leitura de literatura (de ficção, ensaio científico, etc.) é exigente. É um exercício de nós contra o texto contra nós (e o contrário: de nós com o texto connosco). E é por isso que vale a pena e é por isso que é formativa.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.

Há livros que nos tocam particularmente, porque nos encantam ou nos fustigam e interpelam. Há livros que nos mudam a vida (ou, se calhar, a vida é que nos muda e depois acontece os livros cairem-nos no colo...) e são alguns desses que vou nomear: O Nome das Coisas, Sophia de Mello Breyner Andresen (Moraes Editores), Cartas a Lucílio, Lúcio Aneu Séneca (FCG), A Mãe, Máximo Gorki (Editorial Caminho), Giulietta, Frederico Fellini (Círculo de Leitores), Hunger, Knut Hamsun (Vintage International), Alguns Gostam de Poesia, Czeslaw Miloz e Wislawa Szymborska (Cavalo de Ferro).
9. Que livro estás a ler neste momento?

A Casa Amarela de Martin Gayford (Bertrand) no metro e à noite Vivre Avec Picasso, Françoise Gilot (Carlton Lake).

10. Indica dez amigos para o Meme Literário:

Todos os seguidores, leitores e comentadores estão convidados.

domingo, outubro 02, 2011

Coisas do outro mundo - 2

Há pouco mais de meio ano que vivo neste T1 de duas janelas. Há pouco mais de meio ano que, naturalmente, uso o estendal da roupa. Dei por ele, logo de início: sinistro, sumamente sinistro, qualquer coisa entre o predador e o doente mental com atraso. É velho de uma velhice grosseira e desleixada. De manhã corre o estore em pijama, abre a janela, e coloca sobre o parapeito, e para o dia, um descansa-cotovelos de um florido muito gasto. Antes do almoço, posta-se na sua guarita. Depois do almoço posta-se na sua guarita. Não fala com ninguém. Estranho não falar com ninguém. Das outras janelas as vizinhas falam-se: contam-se das férias, das doenças, dos filhos, dos netos, dos mortos. É o único homem sozinho que vem à janela na minha rua. Um homem quieto e calado, assustadoramente quieto e calado. Passa a tarde dentro de casa. À noite, volta à guarita. Nunca sai. Mora sozinho. Imagino-o a roer côdeas de pão, a beber café fraco, a falar com os móveis, a cortar laranjas aos quartos, a contar os badalos do relógio - vislumbrei há dias um relógio de badalo no fundo da janela - no desespero perigoso, o do silêncio entre quatro paredes. Quando é sábado ou domingo e o meu namorado está cá, não nos demoramos à janela: o meu namorado fuma depressa e eu agradeço. Enigmaticamente, sorri-nos. Sentimo-nos muito sem ar, muito sem paz, da janela dele à nossa três metros de fio de repelência, despudor e susto. Levou mais de meio ano a meter-se comigo no estender mecânico da roupa. Sempre pensei que o fosse fazer usando o pscht, pscht menina. Mas não. Optou por um assobiar doce de passarinho seguido de arenguice em baixo volume. Fui para dentro.