quinta-feira, setembro 30, 2010

A manhã esta manhã

Imagem daqui

"It was the best of times, it was the worst of times, it was the age of wisdom, it was the age of foolishness, it was the epoch of belief, it was the epoch of incredulity (...) it was the spring of hope, it was the winter of despair (...) - in short, the period was so far like the present period, that some of its noisiest authorities insisted on its being received, for good or for evil, in the superlative degree of comparison only."

Charles Dickens, A Tale of Two Cities

quinta-feira, setembro 23, 2010

O Dicionário tem dentro de si o Universo completo.

Quando não me sinto velha, sinto-me distante de muita coisa. Como a Alice que não pode voltar atrás porque já não é a mesma. Começar a manhã a perceber que um dicionário vai estar na ordem do dia e nas bocas do mundo por uns bons tempos e pelas razões mais típicas deste país pequeno é coisa para me por a pensar na vida, pesando e sopesando opções.

Trabalho com dicionários amiúde. Um bom dicionário contém todas as palavras de uma língua. Por um lado, as palavras vivas, que impregnam a oralidade, que dominam a escrita, que surgem por imperativos tecnológicos, políticos, que servem o propósito da comunicação, etc.; por outro lado, as palavras que caíram em desuso mercê de mudanças estruturais, as que constituem testemunho documental e memória da evolução da nossa sociedade e da nossa mentalidade. Tenho uma opinião muito própria acerca dos Dicionários de Língua Portuguesa - faço notar o plural, pluralizei em consciência -; já fui professora, já fui aluna, quero ser mãe. Acredito que os palavrões possam ser um pesadelo para os pais. Acredito que os palavrões possam constituir, na mente de alguns professores, uma acha mais à indisciplina na sala de aula.

Na Primária, os meus pais compraram-me o dicionário que vinha no final da lista dos manuais - o Dicionário da minha mãe era um tomo, definitivamente não-transportável. Que me lembre, nunca abri o dicionário que os meus pais me compraram para a 3a. classe fora do âmbito escolar: nas aulas, quando assim era pedido em determinado exercício; em casa, quando o TPC o exigia. Era a melhor aluna e tinha uma predilecção especial pela área da Língua Portuguesa. Era também uma criança menos extrovertida e dinâmica que a generalidade dos meus colegas, dada aos meus pensamentos, reflexões e curiosidades pessoais - acho que foi só na pré-adolescência, numas férias de Verão, que descobri o valor lúdico do tomo da minha mãe. (Foi quando anunciei que iria decorar dez palavras do dicionário por dia.) Já minha irmã Teresa era o meu reverso: tocava às campainhas vizinhas e deixava-me a braços com a ira dos pais dos meus coleguinhas, subia as prateleiras dos arrumos, fazia da parede do quarto um quadro para desenhar, desaparecia para debaixo da mesa para comer doces à vontade e em sossego..., e, por isso, estou desde esta manhã ansiosa que chegue o final do dia para lhe ligar a saber se alguma vez andou à cata de palavrões no dicionário que, na sua 3a. classe, recebeu de mim.

Mas muito antes disso, por pura maldade, à minha irmã Teresa ensinaram no Infantário, ensinou a ajudante da Educadora, uma série de palavrões, interjeições, aforismos e quase diálogos, dignos de rivalizar com as bancadas por detrás da baliza do Estádio aqui a meia hora de casa. Escusado será dizer que os meus pais entraram em pânico, que os meus avós recusaram a ajuda no transporte de e para o infantário - a minha avó oferecendo-se para ficar com toda a gente, que tinha tempo e ninguém melhor que os avós -, escusado será dizer que se averiguaram responsabilidades, mas a Teresa acabou por ficar mesmo em casa, tal como ficaram os meus dois outros irmãos mais novos. E isso, se foi a melhor solução por um lado - efectivamente, afastada do local de "aprendizagem", acabou por se esquecer do "aprendizado", por outro lado, terá tido uma infância mais pacata do que a sua inteligência e surpreendente desenvoltura mereceriam.

Já dei aulas a turmas mais ou menos boas, mais ou menos más e terríveis. A turma mais terrível com que tive o prazer de trabalhar, orgulhava-se, disseram-me, de ter atirado para a Biblioteca uma professora absolutamente esgotada, a colega que fui substituir e que considero uma profissional a todos os níveis excelente. A verdade é que isso foi há algum tempo, hoje faço investigação e se o Ensino me continua a interessar é tão somente pela impressão de pouco futuro que me parece que legamos progressivamente, e mais ou menos conscientemente, aos vindouros. Em relação ao medo dos vulgarismos, do que vou lendo, das impressões que continuo a trocar com colegas, continuo firme na convicção de que a indisciplina tem uma única raiz: a falta de motivação. Ora, a falta de motivação radica numa série de factores (sócio-económicos, psíquicos, afectivos), porém, nenhum deles é remotamente próximo das entradas constantes num dicionário.

Fazer-se barulho porque consta do dicionário recomendado para o ensino básico, meia-dúzia de palavrões, a que alunos, pais e educadores estão expostos, abrindo uma janela, ligando a televisão ou no interior de um transporte público - na verdade, não é preciso ir a um estádio de futebol - parece-me dos absurdos mais deprimentes da portugalidade.


sábado, setembro 11, 2010

Forget You Not

Ground Zero, imagem daqui

O 9/11 foi há 9 anos.

Da paciência

Se os astros fossem mais que as estrelas que vemos em noites claras de Agosto, se soubessem de nós todos os dias desde o momento em que entramos neste mundo até àquele em que o deixamos, a paciência seria a minha maior virtude. Diz que é preciso muito para espicaçar um Touro e mais ainda para o fazer revoltar-se.

Acabo de duvidar disso precisamente. Há mais paciência para além da taurina: à minha frente, um casal, cujo somatório das idades deve dar a minha exactamente, entra, senta-se, ele aponta-lhe as três situações em que o Benfica foi roubado ontem, porque não há maneira de isto aqui, vês o último defesa, foi roubado muito roubado, sabes?, ela abana a cabeça. Não consigo perceber se está zangada com alguma coisa ou apenas aborrecida – estes miúdos de agora são tão inexpressivos, cansados... – ele acaba de explicar a teoria da conspiração e, não me apercebi da transição, prossegue com a leitura do jornal desportivo, ela olha para mim, olha para a mesa, mexe na mala, mexe no telemóvel, olha novamente para mim, para a mesa, para o fundo da sala, para as outras mesas, do fundo até cá acima – não tuge, nem muge, e não fosse aquele olhar pequenino varrer o espaço onde nos encontramos tanta vez, ser-me-ia fácil, imediato, pensá-la etérea.

Trinta minutos depois finda a leitura do jornal. É a minha vez de olhar para a mesa deles, a minha paciência humilhada, os astros todos malditos, a minha curiosidade à espera que eles vão pedir. Não vão: o rapaz fecha o jornal, dobra o jornal, guarda o jornal, muda de sítio, senta-se do outro lado, senta-se com ela, dá-lhe um beijo, um abraço, e o dinheiro – ela vai pedir.

Quem pensa que nos EUA a questão racial ficou resolvida com o Nobel ao I have a dream do Martin Luther King, nunca esteve nos EUA. Quem diz que Auschwitz nunca existiu, nunca contou as cadeiras do bairro judeu em Cracóvia. Quem pensa que a emancipação da mulher coincidiu com direito ao voto, não é mulher.

Há uma paciência, uma resignação, um permanecer silencioso, uma abnegação, na mulher de agora que não é de sempre – foi de outrora e é de agora. Como se nos estivesse inscrita nos genes, adormecida mas à espera de entrar numa combinação específica – agora. A minha mãe contava-me há dias de como a assusta que à maior liberdade relacional de agora corresponda, paradoxalmente, uma entrega mais intensa, menos ligeira, de homens e mulheres. Nunca tinha pensado nisso. As mães têm sempre uma maneira profunda e simples de ver as coisas. A mim assustam-me mais os retrocessos civilizacionais e as tropelias da genética, coisas pesadas, mas abstractas, longe. Ainda assim, a mim, assusta-me quase tudo, estes dias. Paciência.

quinta-feira, setembro 09, 2010

Setembro

Vieira, 8 de Setembro de 2010 Fotografia: A. G.