quarta-feira, dezembro 30, 2009

Para 2010

Há tempos andei a fazer contas ao blog. (Há tempos em que o blog não faz sentido nenhum, outros em que faz algum. Mas mais, tenho vindo a aperceber-me, mais são os tempos em que faz pouco: da escrita, de mim, da vida que gosto de chamar, e crer, minha. E é assim que vamos dançando, eu e o blog, na corda de histórias mais ou menos bambas de vida por isto a que alguns outros chamam escrita.)

Já não me lembro dos pormenores - tenho andado a empregar a memória noutras coisas muito fora do âmbito da estatítica blogosférica - mas a indicação numérica de cada ano aqui à minha direita auxilia-me: em anos maus escreve-se assim-assim; em anos bons, igual.

Parece Woody Allenesco, mas não é. É a vida. E é bom assim. Que nada seja nunca tão mau que. Que nada seja nunca tão bom que. Não é a apologia da mediania, do estóicismo, do epicurismo, da racionalidade, da segurança, do pragmatismo, não. É a vida. O equilíbrio na vida. E é bom assim. É boa assim. (O Woody Allen é um guru.)

Não sei que vai ser de mim, da minha vida, deste blog para o ano. Mas sei o que quero. Para mim, para a minha vida, até para o blog. Sei como o quero. E sei que tenho comigo o mais importante para o construir e alcançar.

Para 2010.

Este saber, o sabor doce da certeza de ter promessas felizes à espera, é o que desejo a todos, também.

quarta-feira, dezembro 16, 2009

Que seja simples e maravilhoso e permaneça.



Podia desejar-vos um Natal santo, Um Santo Natal como nos postais da minha mãe, mas sei que isso não chegaria a todos por cá - há palavras impermeáveis, santo é uma.

Podia desejar-vos umas Boas Festas, como em postais outros, como no comércio, como nos transportes públicos, e com isso rematava desejos de Natal e votos de Ano Novo, mas sei, sei bem... por muito que se queira assim, por muito que os amigos assim o desejem, muitas vezes, as Festas são-no sem mais, sem serem Boas realmente boas.

Resta-me então desejar-vos um Feliz Natal, daquele feliz que não é tanto de felicidade - coisa que não se oferece ou deseja: se ganha - mas que é o da sorte de um acontecer.

Nestes últimos tempos de distância e trabalho, tem-me acompanhado uma imagem, uma espécie de flash-back, a nascer vezes sem conta na minha cabeça. É uma imagem simples - duas mãos entrelaçadas, uma mão grande e forte, uma mão pequena dentro dela, dois pulsos de dois braços a serem muito, a serem mais, juntos: o mundo a começar ali -, uma imagem simples e forte, quieta e viva. Pela frequência com que a revejo. Pela intensidade com que me toma quando fecho os olhos. Pela certeza.

Com mais ou menos crise, com mais ou menos frio, em família ou sozinhos, entre amigos ou com estranhos, perto ou longe de onde têm o coração..., o Natal feliz que vos desejo a todos é o desta certeza de uma mão entrelaçada. Que se sintam acompanhados, verdadeiramente acompanhados, nas vossas aspirações e nas vossas angústias, em tudo o que são e no que põem de próprio no que fazem.
Uma certeza destas no coração é o verdadeiro Natal, a melhor das prendas.

Que o vosso Natal seja simples - a maior beleza é simples -, maravilhoso, "cheio de graça e de verdade", e assim permaneça convosco tempo fora.

domingo, dezembro 13, 2009

De um Natal de natais


Há natais dentro do Natal. Natais pequeninos dentro do Natal. Natais pequeninos a acontecerem todos os dias do ano - quando, de novo no quotidiano, se espera muito pouco, e, talvez por isso, se tende a receber quase tudo de olhos e mãos dormentes; natais pequeninos a acontecerem também nesta altura de Natal e a serem diferentes, a serem mais: a surpreenderem-nos o coração, a acordarem-nos os olhos e as mãos, a redefinirem-nos a quadra.

Um dia, já estaria no segundo ou no terceiro ano do curso, cruzaram-se nos corredores da escola o meu professor de Grego e a minha irmã Teresa. Seguimos áreas diferentes, o meu professor tê-la-ia visto comigo uma ou duas vezes, mas terá sido o suficiente para. Perguntou-lhe por mim - nessa altura, ao contrário dos meus colegas de liceu, eu ia pouquíssmas vezes à Madeira, suponho que terá de alguma forma estranhado essa minha condição diferenciada -, disse à minha irmã que gostaria muito de não perder o contacto, deu-lhe o número de telefone de casa, obrigou-a a prometer que eu lhe ligaria nas férias do Natal.

Sem jeito, mas obediente, nesse Natal liguei. Tenho o meu professor de Grego cativo de uma estima e de uma admiração sem paralelo na minha vida escolar. Além de profissionalíssimo, antes e depois de o ser, humaníssimo. E o quanto estas coisas de decidem carácteres e futuros aos dezassete anos... No entanto, a ligação custou-me: eu a pensar no quanto há barreiras que são confortáveis, seguras, eu a pensar que a admiração é uma coisa que me apouca sempre - tendo a ser muito, muito lacónica quando; eu a pensar que o quanto preferia não ter de ligar era o mesmo quanto que o professor me merecia que ligasse.

Falámos. Recordo-me bem do regozijo na voz. (Anos depois viria a ter a impressão de não conseguir disfarçar o mesmo - coisas que só sentem totalmente, só se percebem, com anos de permeio, quando nos calha a vez de sentir um bocadinho nosso também o percurso de um aluno singular.) Antes de me despedir, acabei por me esquecer das barreiras e perguntei-lhe do Natal. "Foi à séria. Nasceu-nos um menino." À séria. Nunca mais me esqueci.

E hoje, hoje em particular, esta lembrança pulsou-me forte dentro. Um Natal à séria. Um que é de alegria, de paz, de esperança renovada, de fé, de futuro, muito para além das palavras 'alegria', 'paz', 'esperança renovada', 'fé', 'futuro', as palavras todas a caberem-nos no regaço, as palavras todas em doce soninho a sossegarem-nos a carga de mundo que, às vezes quase sem querer, levamos às costas.

Uma amiga vai ser tia. Não conheço natal mais Natal que esse.

sexta-feira, dezembro 11, 2009

uma sombra que se ilumina

Um cair de cabelos nos teus ombros,
um suspiro preso à lembrança que
ficou, um brilho que se demora nos
olhos à janela, um eco que não passa

na memória de um murmúrio, o
abraço em que o tempo se suspende,
a voz que dança por entre ruídos e
silêncio, as mãos que não se libertam

num gesto de despedida, lábios que
outros lábios procuram, uma luz
que alastra na sombra que desce,

e uma sombra que se ilumina quando
a noite já cresce: tu, sonho que
faz real a realidade com que te sonho.

Nuno Júdice

quinta-feira, dezembro 03, 2009

J'ai plus de souvenirs que si j'avais mille ans*

São Pedro de Moel

Dá-me saudades. Como quem dá um livro, música, um abraço, ou um elogio... - coisas que repousam sobre o mundo à espera daquele momento único de partilha para se nos aninharem no regaço e se cumprirem. Dá-me saudades. E eu sei que são daquelas que se dão, que me dá, que lhe dou talvez, daquelas que nos vamos dando nas distâncias que tentamos apagar cada dia, nas que não tentamos apagar e conservamos muito dentro, muito nossas, no caminho do caminho que vai de um ao outro, o coração uma borboleta a bater asas no espaço de uma mão aberta a duas mãos fechadas, o nosso mundo todo lá dentro, sei, porque quando lhe disse, me disse, anda! E eu.

Perdi a boleia, perdi o comboio, perdi o tempo, o espaço, a chuva a cair muito sem nunca me molhar, o guarda-chuva a sucumbir ao vento, Braga tão bonita! Um milhão de passos em volta, à volta do imperativo de andar, todas as poças de água a fecharem-se para eu passar, as pessoas longe. Um sorriso novo a tomar tudo, a tomar conta de mim, eu a revê-lo chegar - coisa memorável, a chegada de um sorriso - desde que saí da Biblioteca: eu a entregar-lhe automaticamente os meus dias, a rotina que me impus, o balão de planos por onde vou respirando, ele a ficar com as minhas coisas, ele permanecendo ali, naquele ali que sou eu e é em mim: eu aquele sorriso, a vista turva para o resto - todos os condutores cavalheiros, e atentos - sobretudo atentos -, nas passadeiras do meu caminho até à estação.

Dá-me saudades. Como quem dança. Como se dançassemos, e eu não danço - eu sempre quieta muito quieta, eu com medo de tudo o que, como eu, não dança, de tudo o que troca a dança pela espera - eu com medo do tempo - eu encostada à música, de olhos fechados, com força. A música a ser sorriso, a tomar-me toda, a dançar comigo, eu a dançar, incrivelmente: eu a dançar!, um bocadinho, à revelia do tempo, devagarinho, em segredo. Entre uma coisa e outra na preparação do jantar mais atrasado da semana.

Há uma coragem muito grande no imperativo de certos verbos: um fogo a arder no peito das pessoas bonitas mesmo bonitas a darem-se, uma vertigem de inefável, do mais profundo e misterioso da alma, a viver, independente, num presente para além do presente de ir e voltar.

Dá-me saudades. Como quem conta uma história, eu a ouvir cada palavra, a compor cada imagem, eu toda encostada ao dentro mais dentro do seu lado esquerdo, eu olhos fechados a fixá-las, palavras e imagens, uma por uma, na memória, as palavras.imagens a tomarem conta de mim, uma após outra, após outra, após outra. Até não haver mais palavras nem imagens, e a memória persistir nas vagas de um mar imenso de ternura.

* Charles Baudelaire, Les Fleurs du Mal

terça-feira, dezembro 01, 2009

Faltam 24 dias para o Natal!


É feriado, a casa dorme. Abro as janelas a pensar no quanto são bonitos os dias quietos. Como nos aconchegam na espera de um fruto que deles se desprenda inteiro e nos ilumine os passos ao ritmo do coração. É, por isso, por esse fruto, que me movo leve, pequenina como a chuva lá fora - a chuva que quase não se ouve bater nas janelas, a quase não se sente fora da humidade, embaciada nos vidros, solta na rua, a fustigar-me o nariz.

Tinha o dia mais ou menos bem organizado: agenda simples de árvore e presépio a compor na manhã, que de tarde devia ir a lanchar à cidade dos amigos - uma cidade minha de todos os dias, mas incrivelmente definida, e bonita, quando é dos amigos e no Natal -, Braga, que faltam vinte e quatro dias para, e menos, muito menos que isso, na realidade, para mim, para esta casa que dorme, para toda a gente que vai pelo Natal a casa, àquela casa que não sendo a nossa, é-o, sê-lo-á sempre, antes e depois de tudo.

Rabisco árvores e estrelas de Belém sobre os planos. A manhã está quase no fim, o fruto em caixotes vários no sotão, a casa a demorar-se no quentinho, eu aqui. Agenda da manhã a escorrer mansas agulhas e brilhos de estrela para a tarde, lanche da tarde procrastinado para as kalendas gregas... (Procrastinar é uma coisa tão difícil de fazer quanto de dizer.)

Ainda assim, o primeiro dia do último mês do ano, hoje, é um dia cheio. O Natal franqueando-nos a entrada, serenamente, confiadamente, ou aos saltinhos, passam hoje 75 anos desde a publicação da Mensagem, e 11 desde o primeiro Dia Mundial de Luta contra a SIDA, "morrer é só não ser visto" escreveu Fernando Pessoa.

sábado, novembro 28, 2009

'Boomerang' de Pedro Eiras hoje no Gato Vadio



Boomerang. 27 postais. Sobre a Europa ou os seus fantasmas. Poderia ter sido um livro mas afinal é um trânsito. Ir e vir. Escrita sobre a escrita sobre a escrita. Recuo histórico. E depois sobre o presente: desafiar a miopia. Aceleração do tempo. 27 vezes, menos uma, porque há sempre o imponderável. Ensaios postais crónicas relatórios de leitura. Acordos e desacordos. Para desmontar perder dispersar.
apresentado por João Miguel Teixeira Lopes com Pedro Eiras e António Preto colecção O Rato da Europa edição Pé de Mosca na Livraria Gato Vadio Rua do Rosário, 281 – Porto HOJE, 28 de Novembro 2009 às 22 horas

Apareçam!, que eu também.

sexta-feira, novembro 27, 2009

Vocês têm?


Para facilitar o troco:

- Vocês têm vinte e cinco cêntimos?

Nós tínhamos. Do fundo da carteira, uma moeda de vinte, uma moeda de cinco, os cêntimos pedidos, coisa fácil de se ter ao fim do dia, entregues naturalmente rápido. Cataclismo universal ao balcão da pergunta: muito barulho de plástico desmoronando-se, todos os polímeros anunciando combinados e promoções, preços de take-away e bolos de aniversário, de borco.

Nós termos é uma coisa poderosíssima.

quarta-feira, novembro 25, 2009

Tempus longum vitiat lapidem

Fugir de alguém, ou de alguma coisa, deve ser uma luta muito grande. Uma tarefa que se assume, sabendo, se não de início, em algum momento, a muita força que requer. Não fortaleza, força. A que é necessária ao acelerar de passo, ou ao encolher-se, ao assobiar para cima, ou - alternativa - virar a cara para o lado mais próximo mais distante, ao pretender passar despercebido, ao intentar não ver, ao ver e puxar da algibeira da camisa por dentro da camisola o trabalho antes de mais, a metereologia de fundo de bolso, roto, se houver um depois.

Passarei a admirar um bocadinho a partir de hoje todas as pessoas que andarem a fugir de alguma coisa. Fortes, na hora da sopa.

Tudo encontrado no desencontro: premissa maior, premissa menor, conclusão - continuei a comer. Há dias muito felizes na vida de uma pessoa. Dia de sopa de feijão é dos poucos que nisso é certo. Até me esqueci do que tinha trazido da rua - a chuva portátil, ping, ping, ping, do guarda-chuva sempre no meu encalço, as botas encharcadas, as calças quase, o frio, o quanto me arrasto, pedindo licença às mãos e aos pés, e gemo, para chegar ao que quer que seja, estes dias.

Mas ontem devia parecer pior. Ontem era hora de ponta e deram-me o lugar no metro. Deu-me um miúdo, para gáudio sorrido da avó, eu a dizer que não obrigada, senta-te tu, e ele a dizer mas a senhora, eu a pensar que aquele 'a senhora' tinha um sotaque bonito, antes de pensar naquele 'a senhora' em abstracto e sentar-me obediente, uma amostra de sorriso, baratinha baratinha, à sombra dos dentes. Não sei sorrir gáudios que não sinto.

Um dia vou ser avó e os meus netos cederão, civis, os seus lugares a meninas que pareçam doentes, ou cansadas apenas..., dizendo mas a menina, com um sotaque bonito. Mais tarde, esses mesmos netos meus encontrarão, em hora de almoço e por acaso, velhas professoras no shopping e cumprimentá-las-ão com naturalidade.

O tempo longo gasta a pedra. Mas o silêncio apressado, em pé, ainda mais.

quinta-feira, novembro 19, 2009

Toponímia meridional

Existe mesmo, escondido ou nao, ele existe! on Twitpic

A foto diz que é pic e do twitter, twitpic portanto, e do David Fonseca.

terça-feira, novembro 17, 2009

Back on track


Nunca dês um nome a um rio:
Sempre é outro rio a passar.

Mário Quintana

No metro das sete já não vai o rapazinho da poupa cor-de-abóbora. Nem o senhor que lê O Jogo encostando empates e derrotas à mochila que encosta à parede. Nem eu - mas vai o meu telemóvel e, com ele, uma miúda que flutua a pensar na sorte que é as coisas serem o que são. Em São Bento já não me cruzo com a senhora que sai ao mesmo tempo que eu da outra linha, parece-me - mas o telemóvel e a miúda que flutua devem saber melhor que eu. De resto, tudo igual.

O meu lugar de janela à espera - os outros à espera das pessoas de sempre -; a confusão barulhenta, adolescente, na Trofa; a chegada indolente a Braga; a subida vertiginosa, de rápida, até ao café; a senhora do café diligente na discussão, seríssima, de figurinos - depois de admirar o meu, de soslaio, enquanto ajeita os guardanapos -, do seu estacionamento forçado em segunda fila, do tempo, da economia; a chegada à porta da Biblioteca com os bons-dias mais esquisitos do universo - estamos num dia bom: há bons-dias de fugida ao acelerar do passo; a chamada matutina, enquanto não dá a hora, que a minha mãe, como sempre, não ouviu; a senhora mais serena que conheço daqui a colher, olhos fechados, coração aberto, os primeiros raios de sol antes de entrarmos; o costume.

Às vezes precipitamo-nos na vida a fazer planos. Emparedamo-la com planos bês - depois dos depois, os que cremos nossos de alcance. Cada plano bê, um círculo; cada círculo, um nome, uma definição; um espaço, um tempo; uma causa, uma consequência; uma pergunta, uma resposta - a segurança na nossa cabeça; a segurança, um círculo que se vai apertando, que nos vai apertando, progressivamente, no sufoco de já não sermos; um círculo à volta da nossa casa, do nosso quarto, da nossa cama, do nosso corpo, do mundo que a vida nos fez pensar um dia que era o nosso-mesmo-nosso; fora daí, monstros, fora daí, nada. Os nossos pés à procura de caminho, as nossas mãos perdidas, aquela coisa de no princípio e no fim de tudo estarmos sozinhos a guilhotinar-nos o espírito, a cabeça que pesa, encolhida entre os ombros, dentro do círculo.

Vinha a pensar nisto esta manhã no comboio. Vinha a pensar nisto porque definitivamente a Primavera desconhece o nome das coisas. O nome das coisas, o espaço dos meses, as causas da beleza. Recomeçou. Depois de cinco dias de chuva contínua, os passarinhos de pouco depois das seis à minha janela não se enganavam. Primavera. Há manhãs de Primavera em Novembro. Como se nada continuasse, como se tudo recomeçasse no mundo. Por entre as rotinas, pessoas, dias, vida - a vida. Nada continua, tudo recomeça: abra-se a janela ao amanhecer.

Nada continua. Tudo recomeça. A minha mãe diz muitas vezes que parar é morrer. A minha mãe é de uma geração que, felizmente, desconhece o morrer que é continuar. Já eu que sou de uma outra... Gosto de janelas e Primaveras inusitadas de passarinhos às seis da manhã. E às sete. A música que se lê na palma da mão que o telemóvel incendeia. O comboio que é outro comboio. O ruído dos carris, outro, sobre o pensamento. Nada continua, tudo recomeça - a Primavera, uma verdade de janela, a dar saúde e a fazer crescer, aos pulinhos, para fora do círculo. Há mais terra para além da pouca-terra.*

* Eu sabia que isto era de algum lado: daqui.

quinta-feira, novembro 12, 2009

De ironias e mimos

Já não saía de casa há muito tempo. Sair de casa é bom, quase tão bom quanto ficar em casa, ainda que por estas razões, enfim. Quando não saio de casa, faço aquelas coisas que uma pessoa, como eu, gosta sempre de fazer, especialmente porque sabe que em princípio não deverá fazer disso vida na vida que é a sua, a vida que é a sua, toda, a ser vivida mais ou menos à margem disso. Limpar, lavar roupa, loiça, cozinhar, passar a ferro, dar uns pontinhos, limpar, lavar roupa, loiça, cozinhar, passar a ferro. Coisas boas, coisas que deixam a cabeça livre para aquela musiquinha, os pensamentos todos no ar, dourados, a misturarem-se com o pó, a cairem sobre os móveis, o meu dedo a desenhar formas tontas na superfície de cada móvel, eu contente.

O meu irmão, andas contente, não andas?, tens um bebé para cuidar, refeições com horas, antibióticos com horas, casa arejada, pós longe, tudo controladinho, estás no céu, por isso andas assim contentinha, não é?, vê lá se arranjas um avental! Eu, uma pessoa doente não é um bebé, a mania do controlo já era, não ando contentinha, nem de avental, mas, pulga atrás de orelha contente, não contentinha, contente, não resisto - para a minha irmã: achas que eu vou ser uma boa mãe?, tu? péssima!, só sabes dar mimo!, só?, só!, pobres miúdos!, insuportáveis e obesos, mas..., mas eu, mas nada.

Não sei se destes diálogos elogiosos, se da incrível agilidade mental e intelectual que é necessária à confecção de refeições e demais actividades de manutenção de uma casa, depois de uma compra rápida na farmácia, dei comigo na reprografia cá do sítio, muito inteligente, a responder com risinho irónico ao senhor que especificava ... cêntimos, menina, dez cêntimos. Evidentemente, eu a pensar uma fotocópia e um envelope nem em Portugal a inflação sobe assim numa semana - mas não isso chegou para o senhor, um sorrisinho irónico é um perigo, às vezes magoa, e eu sem querer, o senhor achou que devia explicar-se, sabe porque é que lhe digo isto, menina?, eu, sorriso polido, não sei, diga por favor, porque se digo dez, como lhe disse primeiro, tenho sempre um ou outro cliente que me pergunta mas dez quê?, eu sorriso reluzente de polido, pois, de facto..., adeus, obrigada sorrido, boa tarde.

Gosto do meu sorriso quando digo obrigada, tenho para mim que o senhor também. E agora regresso aos tachos que é hora de jantar e o mimo que não vai dentro de um envelope, serve-se sempre, mas sempre, quentinho.

domingo, novembro 08, 2009

Eyes shut


A minha irmã mais nova está doente. Fomos ao médico na quinta-feira, voltámos na sexta, devemos fazer o mesmo amanhã. O corpo dos outros, o nosso, o que fazemos ao nosso, o que este tempo de américa e televisão faz ao nosso; o corpo, um mundo imperscrutável, eu a pensar enquanto olho, na sala de espera, as fotografias de nus do pior gosto que já alguma vez vi.

Entrámos. Auscultação a medo, ao de leve do medo, diagnóstico à distância, e verde, inacreditavelmente atirado ao tecto com um sorriso - a ver se cola com um sorriso -, rabiscos de um antibiótico, o primeiro que lhe veio à ponta dos dedos, se tiver febre, já sabe, então, as melhoras; nós a olharmo-nos incrédulas, eu a pensar nestes médicos de centro de saúde, meninos pequenos aterrorizados com o escuro da gripe; a minha irmã, mais prática, a pensar que tinha que ligar ao meu pai, demasiado velho, e/ou - e - à minha outra irmã, demasiado nova, para terem medo à gripe.

Quando preciso de ir a casa - às vezes fora do Verão e do Natal vou a casa porque é preciso - apanho um avião. A minha casa, que a é dos meus pais, é longe e a única ponte que há para lá é a aérea. A viagem costuma demorar uma hora e trinta minutos e quando a fazia ao fim do dia de sexta-feira, e tinha a sorte de não encontrar turbulência - ou de encontrar pilotos experientes o suficiente para a contornarem -, dormia a duração da viagem. Um dia, claro, cresci e os pilotos deixaram de ser aqueles senhores de meia-idade, garbosos e profissionalíssimos a sobrevoar toda a metereologia; foi quando uma turbulência fez desfilar-me, muito depressa dentro da cabeça, a vida, pequena e oca aos vinte anos, uma idade estúpida para morrer.

Tudo o que é muito fora de nós, muito dentro do outro, é bruma e sombras, mistério e dúvida. Sempre. Pilotar a saúde dos outros, sem um fio colado ao tecto do mundo para não se cair, sem o mesmo fio para se sair de labirintos, não deve ser fácil. Mas pensar demasiado, medir distâncias, enviesar com isso avaliações e diagnósticos, pensar tanto que o pensamento tolde as respostas, prenda os movimentos, atravanque a simplicidade das soluções, é trabalhar ao contrário.

Entregar-se a vida nas mãos de alguém é uma coisa muito importante, demasiado importante para ser obliterada pelo escuro - da dúvida, do pensamento, do medo, coisas que apoucam a nobreza, às vezes a saúde, de quem se entrega. Quando não estou a limpar pós ou a aspirar, nem a mudar roupas de cama e pijamas, nem a fazer canjas ou sopas, chás ou gemadas, nebulizações ou emplastros, e tenho tempo para encostar as costas um bocadinho à primeira cadeira que me aparecer à frente do cansaço, e sinto telemóvel no bolso do casaco, pego-lhe como se fosse um tesouro, é um tesouro - toda a gente devia ter um telemóvel assim, leio e respondo, às vezes só leio, sorrio e adormeço. Dois, cinco minutos, às vezes mais, de todas as vezes: um bocadinho de céu. Um bocadinho de céu, uma entrega que é mútua, a adormecer-me a sorrir. É sempre assim quando ando segura. Em sossego. O sossego é o único preâmbulo que o meu corpo conhece para uma verdade maior.

Entregar-se a vida nas mãos de alguém, assim, eyes shut para o escuro, tão bom.

quarta-feira, novembro 04, 2009

Busy being happy


Ando, desde Lisboa, com um livro na estante à espera de tempo para lhe ler o final. Ando à espera de disponibilidade de coração, que todo o tempo é isso, para lhe ler o final. Mas não tenho disso agora e por essa única razão não me ocorre nunca ir buscá-lo. Lembro-me ocasionalmente, no comboio, na biblioteca, mas em casa, em frente à estante, nunca! - e é por andar sem tempo, sei. Andar sem tempo é uma coisa muito avassaladora.

Fugiu-me. O tempo fugiu-me, não quer nada comigo, prefere ver a banda que eu sou passar - o tempo anda ocupado a ver-me passar, inacreditável. Mas eu banda, ora essa, com todo o gosto. E é assim que trepo paredes - passo o dia a trepar paredes, e janelas; acomodo a cabeça às esquinas - não há como as lá de casa, mas não sou esquisita; deixo-me descair, suspensa, de toda a esquina, de todo candeeiro de tecto, dos tectos - pendo muito, cabeça para baixo, do tecto do meu quarto, à noite, - antes da gravidade da brincadeira me descer toda adrenalina para as bochechas, num beliscão de realidade. E resulta. Volto a mim: começo a pensar - o costume... Primeiro, na minha triste figura - eu a imaginar o meu peso, pouco amigo de malabarices, dividido por dois pés, dez dedos que se agarram não sei como ao rebordo do candeeiro, o meu peso no rebordo do candeeiro grego, num dos rebordos do, eu a pensar que não é candeeiro que se diz - que a minha mãe diria lustre, que candeeiros são os das mesinhas, que eu diria que não, que lustre é a cristalice bomba-relógio que lhe faz pontaria aos órgãos vitais todas as noites e aquilo, muito diferente, é um candeeiro de tecto - eu a olhar depois para o relógio e a perceber que ao contrário de mim, a minha sanidade comporta-se, já dorme, é tarde..., devo portanto apressar-me a fazer o mesmo que daí a nada começa a ser cedo, aquele cedo muito cedo de quando a irmã mais nova mais velha do mundo entra no quarto a apontar isso vai cair, isso vai cair, ora por isso é que está todo inclinado para esse lado, então és tu, para o que te havia de dar agora, olha que isso um dia, pior que o lustre da mamã.

O bom de ser a irmã mais velha mais velha do mundo é a naturalidade com que intuitivamente uma pessoa faz do edredão burka, e se antecipa, embora no fio da navalha, à luz que se desliga, aos passos arrastados no corredor, à porta que se abre e fecha devagarinho - há irmãos mais novos que crescem para rivalizar connosco em intuições e dar trabalho, muito trabalho: não se pode sorrir como se não houvesse amanhã - não há tempo, não há amanhã, boa!, mas não se pode; não se pode ir ao cinema só porque sim; não se pode vestir saias todos os dias, nem deixar de por os anéis - mesmo que tenham começado apertar muito - não podem, é Inverno!, no Inverno isso não acontece, eu não digo!?, não andas bem...-, não se pode tardar mais um bocadinho ao espelho, nem perder o metro - mesmo que se peça calma, que não se perde coisa nenhuma... -, nem perder o lugar no comboio e a mesinha de sempre no café - ainda que se afiance que não há por que desesperar, que dá tempo... -, não se pode; não se pode porque não se é, nunca se foi, assim. E ela sabe, vê tudo, e preocupa-se. (Numa outra vida, eu faria exactamente o mesmo.)

A funcionária desta sala acaba de me dar uma maçã, a sua de sobremesa que trocou pelo bolinho de aniversário da colega, que a menina está aí a trabalhar tanto e sem nada no estômago, ora tome, e eu, desistindo de perceber, cabeça para baixo, obrigada!, recebendo o pomo como se fosse um tesouro, sorrio-lhe, um sorriso muito anterior ao tempo a descer inteiro do tecto. A minha vida estes dias é isto.

Ah, mundo perfeito!

domingo, novembro 01, 2009

Bom dia de Pão-por-Deus!


Coisas que a minha mãe manda pelo correio todos os anos, não falha, que vocês hão-de fazer o mesmo quando tiverem filhos não importa a idade, não vão?, vamos.

sexta-feira, outubro 30, 2009

Inevitabilidades

Eu já sabia que ia ser assim. A água do rio nunca é a mesma, os dias também não. Eu já sabia, mas como ontem deu tempo, e saí de casa mais ou menos à mesma hora, como ontem deu tempo, e nem fiz muito por isso, só corri, corri, corri, a rua toda a encolher, os minutos a alargarem, alargarem, aquele tempinho suficiente para eu carregar o título, descer as escadas, apanhar o metro, sentar e encostar as costas à certeza boa daquele anjo e de estar viva, achei que hoje também.

Mas hoje não. Hoje o anjo meteu férias que estes são dias de bruxices e, para mais, não foi o trânsito na casa-de-banho a atrasar-me; hoje foi a minha preguiça a vencer o sono que nem tinha, o calorzinho da cama a cortejar minhas prioridades, as minhas responsabilidades, eu a tentar equilibrar tudo, só mais um bocadinho, só mais um bocadinho, eu acrobata, eu malabarista, eu, aquele torpor, eu quase quase a cair para nenhuma rede, eu a levantar-me e a fazer tudo muito rápido.

Eu a chegar ao semáforo, a virar para a Costa Cabral, eu a começar a correr, a ver-me correr, correr, correr, como ontem, quando Lena, oh Lena, ouve, não tens um lenço? Primeiro que a Lena, um quilómetro à frente de tudo, ouvisse um lenço?, costas surdas para o marido, costas cegas para o filho, já eu lhes tinha dado o meu pacote - o miúdo estava aflito, o pai em cuidados - deixe estar, tenho outro, fique com ele, só tem três, bom dia! Eu a recomeçar a correr, a pensar calhou bem, a Lena não tinha; a contar os minutos no relógio da Farmácia, faltam quatro, consigo descer as escadas e carregar o título se não estiver ninguém, como ontem, consigo, consigo.

Eu moeda na mão, eu título na mão, eu pressa na mão, eu isso tudo e duas pessoas antes de mim na máquina, olhe, desculpe, sabe como é que se pode, sei - sei que o metro já era, o comboio igual, a Biblioteca longe, o meu trabalho pior, o meu trabalho a esvanecer-se, Braga por um canudo muito canudo -, então para onde quer ir? ok, e de quantos títulos precisa? e viagens?, ora bem, mas já tem um, não é?, então vamos comprar um título - eu professora, eu a pensar há quanto tempo não conjugo verbos na primeira pessoa do plural... - e carregá-lo com duas viagens, dois e quarenta, sim dá troco, tome lá o recibo que isto às vezes..., ok para a sua mulher, muito bem, e agora o seu, o seu é só carregar, é mais fácil e rápido - o meu metro, o das sete, lá em baixo, a chegar e a partir - assim, tome lá o seu recibo também, e agora, menina?, agora é por ali, é só descer as escadas, obrigada menina, de nada, então.

Pelo menos agradeceu. E chamou-me 'menina'. Às vezes as palavras, mesmo as quase vazias, saem dos gestos em boa hora. E acalmam um bocadinho as inevitabilidades que nos teimam em cumprimentar, minha senhora, como tem passado?, algumas manhãs. Lá fiz o meu carregamento nas calmas, e, devagarinho, entregue à sorte do dia, desci as escadas, sabendo que ninguém lá em baixo, sabendo que só eles, o meu sorriso polido, porventura o meu mais vazio, abandonado, e a réplica: não está ninguém, sabe se temos de esperar muito?, dez minutos, ah, tudo bem, sorri daqui a dez minutos passa outro e em menos disso põem-se lá, sorriram. Temos tido sorte com o tempo, não acha?, sim, por acaso, daqui a nada é Novembro e. E chegou o metro e entrei e eles entraram, e sentei e eles sentaram.

Não somos daqui, estivémos cá a visitar, somos de Leiria mas vivemos na Suíça, a minha mulher é colombiana - ela sorri, um sorriso lindo ilumina-nos aos três - casámos na Igreja de Fátima e prometemos que sempre, então vamos lá abaixo ao Santuário..., que bonito!, acho que fazem muito bem, aquilo agora está diferente, houve obras e, ah mas nós, não é coisa para muito tempo, uma avé-maria e um pai-nosso, só. Não resisto, dou-lhe o meu melhor sorriso, aquele que nasce, cresce, e vai para o mundo, antes que eu, o da covinha única do lado direito..., a mulher meneia com a cabeça, sorri igual, mas sem covinha - não há disso na Colômbia, falha resolvida com encolher de ombro pequenino -, entendemo-nos.

Saí em Campanhã, adeus menina, adeus, façam uma óptima viagem, aproveitem o dia!, e apanhei a vida de sempre, o comboio-cafézinho-Biblioteca-Braga - canudos hoje só no cabelo... Eu não percebo muitas vezes, mas o meu anjo. Nunca falha.

quarta-feira, outubro 28, 2009

De Agradecer



Coisas que se trazem de quinta-feiras de Novembro nos EUA e que ficam na bagagem.

Be thankful that you don't already have everything you desire.
If you did, what would there be to look forward to?

Be thankful when you don't know something,
for it gives you the opportunity to learn.

Be thankful for the difficult times.
During those times you grow.

Be thankful for your limitations,
because they give you opportunities for improvement.

Be thankful for each new challenge,
because it will build your strength and character.

Be thankful for your mistakes.
They will teach you valuable lessons.

Be thankful when you're tired and weary,
because it means you've made a difference.

It's easy to be thankful for the good things.
A life of rich fulfilment comes to those who
are also thankful for the setbacks.

Gratitude can turn a negative into a positive.
Find a way to be thankful for your troubles,
and they can become your blessings.

Não sei se agradecer será a melhor maneira de mostrar que se está agradecido. Não sei se diz da comoção, da surpresa da benção, do encantamento, da comunhão. Provavelmente não diz, disse-o eu, escrevi, agora mesmo, aqui, esmiuçadamente. Mas agradecer é uma maneira, a minha primeira, reflexo inusitado, gesto automático, de dizer o quanto as boas pessoas que conheço por cá fazem brotar dos seus gestos para os meus dias o que de melhor a vida tem.

terça-feira, outubro 27, 2009

O que levamos daqui afinal


Quando na minha cozinha daqui cheira a bolo de maçã com canela, é porque é Domingo à tarde e alguém fez chá e me apeteceu só por isso - algumas vezes pior, algumas vezes só porque sim... - o bolinho. Quando o despertador toca às sete, às sete e vinte, às oito menos vinte, às oito, e lhe bato para, shiu!, só mais um bocadinho, só mais um, só, é porque é segunda-feira e não vou à Braga, porque segunda-feira é o dia de resolver burocracias de CTTs, CGDs, Seguranças Sociais, Finanças e de cuidar da casa, da roupa, das plantas, e de mim. Quando se ouve passos de passarinho na coxia à minha esquerda, ou então Mamã! e toda uma conversa numa língua passarinho, ou então Papá! e nova conversa na mesma língua, é porque a tarde vai a mais de meio e as mães e os pais que foram buscar os filhos à escola, vêm buscar os livros de que precisam, filhos numa mão, a lista bibliográfica na outra. Se o soalho na Madeira faz deslizar o tapete sobre a cera, é porque é Natal, a minha mãe anda impaciente e desorientada e num corrupio alucinante do serviço que tem que se colocar na máquina, mas não todo, que há peças que não podem ir porque, da toalha que já não presta porque os guardanapos desapareceram-lhe das proximidades, da gaveta que não se abre, das caixas de enfeites que não encontra, do absurdo que é faltar tão pouco tempo e haver tanta coisa para fazer, que vocês, nós pois..., chegam sempre em cima da hora, é sempre a mesma coisa.

Há coisas pequeninas que fazem parte de coisas de tamanho variável que fazem parte do nosso mundo e que lhes dão sentido. Um sentido que vamos assimilando às partes, bocadinhos de sentir de que nos apropriamos, bocadinhos que se vão entranhando em nós até viverem connosco pela memória - até os levarmos dentro para todo o lado. Cheiros, rotinas, companhias, pequenos prazeres... Há quem lhes chame pormenores e diga que fazem toda a diferença.

Uma diferença que é toda - repeti. Pensava nisto porque já não me lembrava nem do toque, nem do quanto toca, de manhã, o telefone nesta sala de cima. Pensava nisto porque já me tinha quase esquecido do quanto é irritante o pigarrear e a antipatia apaixonada desta funcionária. Pensava nisto porque ainda assim é bom voltar à Biblioteca e voltarem connosco as pessoas do costume, os bons-dias do costume e até as coisas estranhas do costume. Pensava nisto esta manhã porque as pessoas de sempre que divisei dispersas ontem por entre uma multidão de miúdos pouco católicos que vinham de todos os lados para se concentrarem não sei porquê junto a uma única porta - a de maior movimento, voltaram a sentar-se hoje nos sítios em que sempre as vi no comboio. E quase sorriram, e quase sorrimos - o de sempre.

Uma diferença que se quer toda, como qualquer coisa que se queira toda, com sentido, uma diferença com sentido, a carecer de memória, uma diferença a carecer de memória, a requerê-la, a chamá-la para dentro - coisas de quando rodo a chave ao fim do dia, de quando vou dormir, de quando me levanto de manhã, de quando a meio da manhã. Coisas a comporem-se para a memória, coisas a crescerem em trança em volta de uma haste transparente, o que levamos daqui afinal.

segunda-feira, outubro 26, 2009

De bússolas e perspectivas

Há uma coisa no google maps que eu não sei como se chama, uma espécie de bússola com uma mãozinha a meio que se prime conforme a direcção, o ponto cardeal, por que se quer ir - ir não: ver - conforme o ponto cardeal por que se quer ver a rua, o prédio, as janelas, a porta. Às vezes, assim, alguns prédios, macambúzios, de portas e janelas modernas e feias, parecem quase bonitos. É a boa da perspectiva a suavizar-lhes os ângulos e o negrume; é o nascente, amigo, a espelhar-lhes as janelas e as portas, a envolver todo o edíficio nos reflexos e nos brilhos que a nova perspectiva, ao serviço de uma imaginação poderosa - daquelas que criam milagres e mistérios, coisas da nossa cabeça...

Pensava nisto enquanto olhava o quiosque no centro da praceta em frente à Biblioteca. O quiosque daria uma bússola de google map perfeita. Está no centro de um mundo pequeno, o Centro de Saúde, o D. Diogo De Sousa, o Campo da Vinha, o Largo de São Paulo, a Cividade, dentro do mundo que é o centro de Braga. Escusei-me a especificar os pontos cardeais a que correspondem estes lugares, sou desorientada por natureza.

Enfrentando uma lateral do quiosque está o Solar da Torre. Solar da Torre é um nome bonito. Uma pessoa pensa em torres e imagina uma Lady of Shallott, envolta em trevas e nevoeiro, uma Lady of Shallott que vê o mundo que lhe mostra um espelho, que tece o mundo assim segura, que urde uma rede a partir de reflexos de luz, sem ver o mundo, sem vê-lo realmente, até o dia em que perde o medo à maldição antiga e faz o gosto ao olhar. Já o Solar da Torre não não conhece nevoeiros nem trevas, é solar, antes e depois de ser Solar. E bonito. Um nome bonito para um sítio bonito. Uma vez, num Novembro de há muitos anos atrás, passei lá um fim-de-semana num retiro.

Quando estou à espera que a Biblioteca abra todos os dias, olho com muita força para o outro lado da rua, para a muralha do Solar, um outro lado do mundo, a pensar nesse fim-de-semana. A querer lembrar mais do que o frio a sair daquelas paredes de pedra, o frio a entranhar-se-nos nos ossos, eu a pensar se o não sentiriam também algumas delas, aquelas mais velhinhas pelo menos, eu a procurar-lhes o frio nos olhos, elas sempre calorosas, elas a multiplicarem-se em diligências e sorrisos, a chuva na vinha, uma candeia acesa ao fim do primeiro dia e as conversadeiras. As conversadeiras, eu a pensar na inutilidade daquilo ali, vocês sabiam que na Idade Média, eu a pensar tão pequenos, tão frios, namorava-se nestes assentos de pedra, eu a pensar tão pequenos, tão afastados, tão frios, tão individuais, tão descabidos e tão profundamente absurdos ali.

A semana passada em Lisboa, primeiro dia de conferência, encontro junto à Alameda da Universidade, uma pessoa de antes e depois desse fim-de-semana, desse tempo, um pequeno milagre de quem a vida depois do curso me afastou sem consultas nem avisos. Reconheci-a de trás, reconheceu-me apesar de ruiva, reconhecemo-nos como sempre, como dantes, abraçámo-nos nesse enlevo muito tempo, aquele que sem ter passado passou por nós, conversámos esquecidas disso, jantámos no dia seguinte, contámo-nos a vida que fizémos destes quase cinco anos. Quis, como quase todas as melhores minhas amigas agora, dar-me uma bússola, era tão bom! sim?, eu a dizer que não, que sou muito desorientada, mas não podia, com o tempo desenvolvi uma orientação própria, muito obrigada, sabe como sou, moradas todas mapeadas na agenda, vê?, eu e esta minha mania de, mesmo quando entro na linha errada, saio na paragem seguinte e, agora não volto atrás, acredita?, agora arrepio caminho, voltar atrás é uma perda de tempo, sabe? Sabe sempre, estaria certa disso, de o saber, muito antes de me ouvir dizê-lo, no momento exacto em que pensei, tenho a certeza, sabia-o, mas quis arriscar, imagino-te muitas vezes a seguires-me os passos, a sucederes-me, às vezes lutamos contra aquilo que nos é mais próprio, a felicidade é uma coisa simples, sabes?, sei, mas também sei que, e ela também, sabia-o e no entanto atirou para o ar, e o que essa esperança fininha é bonita, sabia-o, é sempre assim. É, somos, uma coisa impressionante.

As coisas más acontecem por uma razão, as boas, sem ter porquê, tenho para mim.

quarta-feira, outubro 21, 2009

O Dia Depois de Amanhã

Lançamento da REVISTA INÚTIL
23 de Outubro
22.00
Livraria Ler Devagar
LX Factory, Lisboa Mais aqui.

Em tempos de crise de muita coisa, além das finanças, é bom saber, ver, que há pessoas que persistem nos sonhos, que teimam na qualidade para realizar projectos, que esquadriam desafios com ar menino, que roubam tempo ao tempo, a si próprios também, para fazer coisas que hão-de ficar para além dos tempos, para além de nós.

Chove muito, está frio, mas isto parece-me dizer muito mais do que eu possa tentar esboçar sequer por cá.

Vou lá estar, muito embora de passagem - antes do bater das onze devo ter uma espécie de abóbora impermeável, bem-fadada e alcochoada, à espera.

Aqui fica o convite. Apareçam!

terça-feira, outubro 20, 2009

Chove chuva, constant is the rain


Acordei às cinco e meia da manhã, antes do despertador que tinha posto para daí a nada que hoje ia a Braga, acordei às cinco e meia da manhã com o dilúvio a bater-me na janela e o fim do mundo prestes, que quem acorda assim, de repente, não tem como pensar com lógica. Cinco e meia é muito boa hora para começar a trabalhar, mesmo não indo a Braga, mesmo ficando por casa, mesmo o escritório sendo mais frio e mais distante, tão longe!, do que o quarto. Cinco e meia é muito boa hora, sim, mas não quando chove. Quando chove o sono, o quentinho vá!, sempre vence toda e qualquer boa iniciativa.

E foi assim que preguicei duas horas e meia. Comecei portanto à hora do costume, e por cá - da maneira de sempre. No Facebook, proliferam músicas de chuva, todas bem bonitas por sinal, algumas, antigas, não ouvia há muito. Todas bonitas e leves, alegres, quase alegres, quase todas. Fico a pensar onde fomos então buscar o nexo entre o Outono, o Inverno, a chuva, e a melancolia. Mas deve ter qualquer coisa a ver com a ausência do sol, claro. Que o sol pode ser muita coisa, menos distante de nós, menos celestial - ou celestial um enquanto, e ter mãos e olhos e uma vida e momentos que foram nossos também, e a ausência, uma forma de perda, a maneira bonita, resolvida, de ver a perda no depois, de sobrevivê-la.

Não gosto de chuva. Encaracola-se-me o cabelo e a compreensão, a tolerância, para os embates de guarda-chuvas alheios, as poças de água imprevistas e os artistas abstraccionistas de carro. Chuva só debaixo de um guarda-chuva transparente que não tenho, que hei-de ter um dia destes, com mecanismo anti-embate, anti-poças, anti-condutores artistas.

Para resolver a ausência de sol:

Bolinhos de Chuva

Ingredientes:

3 chávenas de chá de farinha de trigo
3 ovos (inteiros)
4 ou 5 colheres de sopa de açúcar
1 pitada de sal
1 colher de fermento Royal
1/2 chávena de leite

Preparação:

Bater bem os ovos, por o açúcar, o leite, o sal, misturar muito bem a farinha de trigo e por último colocar o fermento.

Para fritar, faça pequenos bolinhos (o equivalente de 1/2 colher de sopa da respectiva massa, frite no fogo baixo.

Polvilhe com canela e açúcar.

De origem portuguesa, os bolinhos de chuva são feitos tradicionalmente de farinha de trigo, ovos, leite e fermento, fritos em óleo quente, e polvilhados com canela e açúcar. Acompanham no Brasil um cafezinho, por cá o que se quiser. É uma espécie de filhós - de malassada se se for madeirense. O bolinho nem sempre foi de chuva. Quem realmente acrescentou a chuva aos bolinhos foi Monteiro Lobato, quando descreveu as habilidades de Tia Anastácia - quem comia uma vez os seus bolinhos de polvilho não podia nem sequer sentir o cheiro de bolos feitos por outras cozinheiras - na confecção destes bolinhos, que transformou no seu passaporte de fuga do Labirinto.

Cause we're never gonna stop the rain by complaining... Enjoy!

segunda-feira, outubro 19, 2009

Prendre possession des lieux


Só me acontece quando chego a casa, àquela que é dos meus pais sempre e minha duas vezes no ano, às vezes três, houve, há muito tempo, um ano que dez. Só me acontece quando chego a casa e me instalo, tiro a roupa da mala, escondo a mala, e cheiro tudo, remexo tudo, abro todas as portas e as janelas e as gavetas, e afasto móveis, alguns móveis, e vasos de plantas, e cheiro o velho e fecho os olhos para tactear o novo e por fim me sento à varanda, porque terminei o reconhecimento e é bom finalmente estar de volta, e estar assim, em casa, depois de tudo o mais, em sossego, ao fim do dia, a cada fim de dia.

Os franceses dizem 'tomar posse dos lugares', depois das férias, para explicar o regresso à rotina; eu, eu tomo posse dos lugares no primeiro dia de férias, lá, só lá, em casa dos meus pais, para vestir uma rotina nova, a rotina deles... - a do cafézinho de todas as manhãs às 8.45 e no sítio, e mesa, do costume, a do cafézinho com o jornal à espera na mesa da frente, os dois à espera de nos passarem o jornal, os meus bons-dias, sorriso ensonado de sempre, de todos os dias, o jornal em troca de um sorriso em saldos. A minha mãe a ir para o trabalho às 8.55, eu a ficar com o meu pai, e o jornal, mais meia hora; nós à espera do pão quentinho, nós a comprarmos para levar, o meu pai a ir à sua vida, compras para o almoço e afins, eu a ir à minha, net e trabalho e net e afins, eu a acabar com tudo à hora do almoço - que é quando a minha mãe regressa do trabalho e estamos novamente os três, eu a voltar, a querer voltar a tarde toda, a acabar para jantar, a esquecer tudo ao serão para novamente ficarmos os três, assim muito assim, três, até o cansaço me mandar para a cama - a mim primeiro que a toda a gente, como sempre, e no caso ainda bem.

Quando chego cá, a esta casa que é minha, nossa, todos os dias do ano, quando chego ao Porto, meu a vida inteira, antes e depois de agora, não tomo posse de nada. Abandono-me. A rotina é a minha de sempre. Se é Domingo, sofá; se não é, cadeira laranja a rodar para cá e para lá, se há preguiça, se não há, cadeira quieta frente à secretária, soneca depois de almoço, às vezes - se é segunda-feira, vá!...

Anteontem, nas últimas compras antes de vir para cá, a minha mãe apontava-me qualquer coisa na Marina do Funchal, qualquer coisa que não ouvi, surpreendida com a reprodução duvidosa, e feia - muito feia, de uns bancos de pedra que ondulam, uma coisa pavorosa que lembra os do Parc Guell, que é para lembrar os do Parc Guell, mas, não, não assim, não aquilo, não na nossa frente-mar. Tomar posse de alguma coisa não é adquiri-la, não é roubá-la, reproduzi-la, copiá-la para nós, não; tomar posse de alguma coisa é deixá-la entrar, aceitá-la, deixá-la contaminar-nos devagarinho, misturarmo-nos ambos, abandonarmo-nos sem mais. Aceitar, a única forma pura de tomar posse de.

Não é nosso, nunca será, aquilo que nos esforçamos por marcar. Daqui para a frente só há dragões. Daqui para a frente. Só são nossas, de coração, verdadeiramente nossas, as coisas que nos permitem um abandono sem alardes, natural, total, de quando se chega a casa com dores nas costas e com sono, e está frio lá fora e um gelo na sala, e só apetece largar a mala à entrada e ter quem nos faça um chá, e buscar a mantinha e encontrá-la dobrada perto do sofá, e pedir um chá e tê-lo em menos de nada em cima da mesa, e ser tão difícil chegar lá, o braço chegar lá, de tão bem que entretanto se está, da música que se ouve, das coisas tão bonitas que entretanto passaram por nós em sonhos, do bom que é este sofá, do bom que é estar aqui.

terça-feira, outubro 13, 2009

I Garibaldi dopo Garibaldi

Quando há um terramoto, um tsunami ou uma catástrofe afim no Pacífico, a minha mãe diz sempre mas porque é que as pessoas vão para lá viver?, e eu digo as pessoas não vão para lá viver, as pessoas vivem lá, porque nasceram lá, porque os pais já lá viviam, porque é a terra delas, porque não querem, não concebem sequer, sair, conhecer, ver diferente. Digo eu, que sou a pessoa mais 'sem-terra' que conheço... Digo sempre as minhas casas, quando me perguntam, respondo naturalmente o meu país, a minha terra - até digo a minha terra, realmente! - mas não no sentido de lhe pertencer, nunca no sentido de lhe pertencer, mas mais no sentido em que as minhas raízes estão lá, quem importa está lá, no obscuro sentido de a ter inscrita em mim, de a possuir como predisposição de existência, como se possui um braço ou uma fome, uma condição de antes de tudo, uma natureza, uma coisa sem perguntas nem diligências, uma ontologia.

Nos EUA é mais fácil ser da Madeira do que de Portugal. Toda a gente sabe onde fica a Madeira, conhecem o vinho, coisas que vêm desde o Dia da Independência - pelo menos!..., sabem de quem já a visitou em cruzeiro, de quem lá passou a lua-de-mel, a conversa flui, Madeira, a marca, de boa saúde e recomendável para o fluir da comunicação. Estabelecer um nexo entre a Madeira e Portugal, falar de Portugal, é uma aventura - no sul da Europa o mundo conhecido é a Península Ibérica, um sinónimo, the pompous name for Spain, right? Pois... Nem por isso.

Mas o desconhecimento não me ofende, nunca me ofende, ofenderá a minha mãe, o meu pai, algumas pessoas que conheço, todas as pessoas que têm uma terra uma terra no coração; eu, que tenho tantas, relativizo, faço por relativizar. Sou a rapariga vitruviana, o senhor da Vinci não há maneira de passar de moda - o Homem sempre no centro parece-me garante de uma sociedade mais igual, mesmo na diferença, porventura sobretudo nas diferenças, e portanto mais justa. Sou a rapariga das sinergias, sê-lo-ei sempre, do cosmopolitismo, da meritocracia, da heretogeneidade na homogeneidade, coisas maiores, mais sãs, que o que conheço, de tanto passar os dias a olhar, da minha janela que dá para a rua. (Tenho uma vizinha assim, à janela, desde há trinta anos pelo menos.)

Janelas. Um dia abro uma porta antiga e escrevo um livro sobre janelas. Nada há de mais importante na vida do que a janela que se abre. A vida da janela, a vida pela janela. Sempre que chego é de avião e ao início da noite. Sempre que penso nisso sobressaltam-me imagens vivas, mas sempre iguais, dessas chegadas. Chego, muito colada ao assento, muito costas pregadas às costas da cadeira, muito solícita, muito solidária - solitária em ambas as bem-aventuranças -, que aos meus companheiros de viagem nunca calham janelas, e eles que são novos e curiosos, forasteiros, eles que esticam olhos e pescoços até à escoliose pela nesga de janela que lhes facilito. Eles, pasmos - todas as interjeições da língua a suarem a janela; eu, cansada, com sono, a ilha iluminada a entrar-me no olhar velho, eu a pensar se esta é uma das vezes em que tenho os pais à espera, ou se é o costume - espero pelos meus pais -, a ilha toda brilho, toda luz, muitas luzinhas fixas, certas, a desenharem-lhe o recorte, a preencherem-lhe a superfície, eu a levantar-me, a querer empurrar gente, a querer chegar a casa, eu a empurrar gente com os olhos, a pensar no computador que tenho de tirar de cima, e o que pesa na mala!, não esquecer o casaco e o sorriso à chefe de cabine antes de descer as escadas, eu a descer as escadas e a entregar-me toda, eu a desistir de toda pressa, toda a saudade, todo o cansaço.

Eu a render-me à ilha. À humidade, ao calor, à indolência, e a outra coisa qualquer, poderosa e subjugante, que não sei nomear, só sinto - cola-se ao corpo... -, que é ser aqui, estar aqui, viver aqui. E estranho as coisas, as pessoas - a maneira como funcionam as pessoas, o que intentam para para as coisas. Volto a andar de autocarro, os olhos do motorista em mim, na estrada, em mim, eu a pensar no metro do Porto e nos comboios para Lisboa, transportes públicos sem motoristas à vista, eu a tocar à campainha, plim-plim, o motorista a querer não ouvir, o motorista a conseguir não ouvir, a prosseguir, a deixar-me na paragem seguinte; vou às compras, sabendo bem o que quero, sabendo bem onde encontrar o que quero, facilitanto a procura, as referências todas, agilizando em condições normais a compra, a menina fica baralhada, a menina paralisada, a menina a ir lá dentro perguntar como procurar com referências, normalmente as pessoas não vão ao catálogo, a menina a perguntar à colega, a menina a demorar, eu a soprar para o lado; ando de teleférico, sento-me ao lado de um adolescente que, sem avisos, pretende um banco só para si, não me querendo encolher, olho-o nos olhos ao sentar-me, olho a perna quase cruzada a ocupar 50% do meu assento, tento ajeitar-me, repito o olhar várias vezes, simplesmente não quer saber. Volto a ver cada chegada - a ilha, perfeita, toda brilho no meio de um negro de mar sem fim, começo a ter medo ao pensar no quanto se vive por cá a perfeição única deste mundo de brilhos sobre um azul imenso - quanto mais pequena a janela, mais ilusória a óptica.

Aqui é assim. Acontecimentos naturais, se forem inesperados, se forem extraordinários, galvanizam-se - um maremoto de reacções, a crescer, a crescer, a crescer, em proporções absolutamente desajustadas da realidade, um tsunami a não querer desmaiar na areia do quotidiano pacífico da ilha. Eu a perguntar à minha mãe então porque vive aqui?, a minha mãe a dizer que esta é a sua terra, que já os seus pais, que os tsunamis daqui são os tsunamis daqui, nada a ver, que a falha do Pacífico sul fica no Pacífico sul. Eu a rir-me até não poder mais por me doer tudo. Gosto de terramotos e tsunamis tanto quanto gosto de tempestades e trovões. A redenção e aquela certeza confirmada, rara, de nos sobressaltarmos, de nos sabermos vivos num raio de luz.

E foi assim que andei na net à procura de heróis, de um herói que não jogasse futebol, nem tivesse uma estrela no passeio da fama, nem mergulhasse em discos de platina. A net atirou-me para o colo uma série deles, antigos, fiquei com o Aquiles e o Viriato, figuras arquetípicas,até eu perceber que o que queria era conhecer o rosto do Garibaldi. Um herói à séria, um de veias e coração e sangue, um de mar e de luta. As pessoas que conhecem poucas pessoas acham que cada um tem cara de ser da sua terra. Como se houvesse um fenótipo de Lisboa, um da Madeira, um do Minho, outro do Algarve... As pessoas que conhecem poucas pessoas, conhecem muito pouco da vida e do mundo. As pessoas, as sãs pelo menos, têm cara daquilo que são, dos lugares de alegria e dor por que vão passando mais, muito mais, do que do sítio que as viu nascer um dia.

A sorte, que hoje nos traiu, sorrirá para nós amanhã. Estou saindo de Roma. Aqueles que quiserem continuar a guerra contra o estrangeiro, venham comigo. Não ofereço pagamento, quartel ou comida. Ofereço somente fome, sede, marchas forçadas, batalhas e morte. Os que amam este país com seu coração, e não com seus lábios apenas, sigam-me. - Giuseppe Garibaldi.

E no entanto, volto, voltarei sempre, enquanto houver por que voltar, pelo menos.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Lugares.tempos onde a vida se esvai

Ando a enterrar muita gente nestas últimas vezes em que tenho vindo a casa. As pessoas - os professores, as directoras, os tios, as tias, os tios-avós - que tinham quarenta, cinquenta, sessenta anos quando eu tinha dez, morrem-me agora.

Eu nos vinte e oito, quase trinta, eu aqui, tão pequenina como se é sempre quando chega a casa para ficar por uns tempos, não importa a idade - a idade, mede-a a vida -, quando se chega a casa para ficar por uns tempos - dizia - e se é filho, de e de, quase exclusivamente, e está na mesma, tão bonita!, como sempre, claro!, e se é verde, parece a mais novinha das três, acredita, Joaninha?, e se é Joaninha - o diminutivo que se colou ao corpo no seu ponto mais biologicamente activo, e à chegada -, antes de sermos nós próprios e as circunstâncias que criamos todos os dias do ano - e até ao fim.

Eu nos vinte e oito, quase trinta, eu pequenina a segurar a mão do meu pai, nós a olharmos janela fora, um céu quase de chuva sobre nós, o sol todo no Funchal lá ao fundo, eu a dizer ele parece-me bem, ainda não é desta, mais uns dias e tem alta, eu a falar como gente grande - não ouvindo, vendo pouco, percebendo ainda menos - eu a tentar consolar o meu pai pequenino. Eu a levá-lo a passear, nós a pararmos no miradouro, a bela vista bela lá em baixo, nós a continuarmos o passeio, nós a entrarmos no Verão fora de tempo do centro da cidade, nós a comermos gelados, eu a pensar no arraial do Monte de quando tinha quatro anos.

Eu a pensar no arraial do Monte em que me deixei ficar a olhar uma montra de relógios: eu a inclinar-me a querer ver melhor, eu a colar o nariz ao vidro, as duas mãos nas têmporas a apagar os reflexos da tarde, eu a querer ver mais, o meu pai a pegar-me numa mão para arrepiar caminho, eu pela mão do meu pai, o meu pai a puxar-me pela mão, eu a deixar ficar o nariz lá atrás, o nariz a passar pelo crespo da parede, a testa também, o nariz a ficar na parede, a testa também um pouco. Os gelados do depois - um para o nariz, outro para mim - a testa escapou quase ilesa. O passeio do depois pelo arraial, as distracções do passeio.

Conheço lugares, vivo tempos, mais crespos que todas as paredes de crespo onde a infância deixou a pele; lugares por onde a vida se esvai e a esperança cedeu o lugar à espera. Se calhar, crescer é isso. Se calhar, viver não é mais que sobreviver, um céu pesado de negro olhando uma cratera de luz ao fundo, o dia, janela fora.