quarta-feira, dezembro 14, 2011

sábado, dezembro 10, 2011

HOJE



Leitura de histórias de Robert Walser, por Cristina Fernandes e Rui Manuel Amaral, no Gato Vadio, hoje, dia 10 de Dezembro de 2011, pelas 17h00.

Mais sobre Robert Walser aqui.
Robert Walser em Português.

Mais sobre Rui Manuel Amaral aqui.
Mais sobre Cristina Fernandes aqui.

Vão que vai valer muito a pena!

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Do dia - 12


Imaculada Conceição (cc.1780), Anónimo (Escola Cuzco)
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quarta-feira, dezembro 07, 2011

Fractura exposta

Da necessidade de sublinhar um sublinhado - 4

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"A Grécia foi mudando, foi crescendo com a minha fome de aprendizagem. Sou sempre uma aluna das coisas gregas. A minha Grécia de hoje não tem nada a ver com a Grécia da minha adolescência ou a da Sophia" (...) "A Grécia está em todo o lado na minha escrita, porque estar na minha escrita é estar em mim."

Hélia Correia

Colóquio Internacional, FLUL, 5-7 de Dezembro 2011

Há que dizer-se das coisas o somenos que elas são

terça-feira, dezembro 06, 2011

Da navegação - 6

Escrevi um mail geral, genérico, de trabalho, para colegas e superiores. Escrevi num sopro e, soprando para o lado, quase assobiando, enviei o esperado memorando a toda a gente. Depois, por curiosidade mais cognitiva do que linguística - doença profissional -, fui aos mails enviados ler o que escrevera com os olhos dos meus receptores. Foi quando me lembrei da Lauren Bacall, de todos os sapatos da vida da Lauren Bacall.







sexta-feira, dezembro 02, 2011

quarta-feira, novembro 30, 2011

Do dia - 8

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"I came in with Halley's Comet in 1835. It is coming again next year (1910), and I expect to go out with it. It will be the greatest disappointment of my life if I don't go out with Halley's Comet. The Almighty has said, no doubt: "Now here are these two unaccountable freaks; they came in together, they must go out together."



Mark Twain
A Biography

terça-feira, novembro 29, 2011

Coisas do outro mundo - 3


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As Borboletas

Brancas
Azuis
Amarelas
E pretas
Brincam
Na luz
As belas
Borboletas

Borboletas brancas
São alegres e francas.

Borboletas azuis
Gostam muito de luz.

E as pretas então...
Que escuridão!

Vinicius de Moraes

sábado, novembro 26, 2011

O Mundo no Chão

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O Mundo no Chão, de Nuno Casimiro e João Vaz de Carvalho (Bags of Books), é lançado daqui a poucas horas na livraria Pó dos Livros, em Lisboa. Andreia Brites fará a apresentação, com a presença dos autores do livro. O encontro é às 11h00 da manhã. Vemo-nos lá.

quinta-feira, novembro 24, 2011

Em dia de protesto, um adeus singular

Da navegação - 5


“___________a primeira imagem do Diário não é, para mim, o repouso na vida quotidiana, mas uma constelação de imagens, caminhando todas as constelações umas sobre as outras. Qualquer aprendiz imagético, quando sobe ao meu quarto e atravessa o meu escritório, tem o sentimento de que «um belo lixo de imagens se criou aqui». Se for menos inocente dirá: «que belo luxo de imagens». Eu diria: aqui está a raiz de qualquer livro.”


Maria Gabriela Llansol
"A Raiz de Qualquer Livro"
in Uma data em cada mão - Livro de Horas I
Assírio e Alvim
2009

quarta-feira, novembro 23, 2011

O Amor em Visita

(...)

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura,
não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe
a força maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.

Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz sobre
as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.

Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento
na cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

(...)


Herberto Helder

De outras Joanas - 11

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"Keepers of private notebooks are a different breed altogether, lonely and resistant rearrangers of things, anxious malcontents, children afflicted apparently at birth with some presentiment of loss."



Joan Didion
"On Keeping a Notebook" (1966)
in Slouching Towards Bethlehem
1969
Andre Deutch

segunda-feira, novembro 21, 2011

De um dever

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É o actual dono da minha livraria predilecta, onde me perco de cada vez que vou a casa dos meus pais, faz hoje 80 anos mas conta com 165 anos de prática de livraria - 50 do avô, 50 do pai e 65 seus.

Pelo seu justo reconhecimento, está a aberta uma subscrição aqui até às 24.00 de hoje.

Participem!

domingo, novembro 20, 2011

Do infinito

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"There are two ways through life: the way of nature and the way of grace. You have to choose which one you'll follow. Grace doesn't try to please itself. Accepts being slighted, forgotten, disliked. Accepts insults and injuries. Nature only wants to please itself. Get others to please it too. Likes to lord it over them. To have its own way. It finds reasons to be unhappy when all the world is shining around it. And love is smiling through all things. The nuns taught us that no one who loves the way of grace ever comes to a bad end."

The Tree of Life (2011)

sábado, novembro 19, 2011

quinta-feira, novembro 17, 2011

quarta-feira, novembro 16, 2011

Saudades do futuro




"Há dentro de nós uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."


José Saramago
Todos Os Nomes
Caminho
2007

terça-feira, novembro 15, 2011

domingo, novembro 13, 2011

Dedication

Czeslaw Milosz (1911 - 2004)
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You whom I could not save
Listen to me.
Try to understand this simple speech as I would be ashamed of another.
I swear, there is in me no wizardry of words.
I speak to you with silence like a cloud or a tree.

What strengthened me, for you was lethal.
You mixed up farewell to an epoch with the beginning of a new one,
Inspiration of hatred with lyrical beauty;
Blind force with accomplished shape.

Here is a valley of shallow Polish rivers. And an immense bridge
Going into white fog. Here is a broken city;
And the wind throws the screams of gulls on your grave
When I am talking with you.

What is poetry which does not save
Nations or people?
A connivance with official lies,
A song of drunkards whose throats will be cut in a moment,
Readings for sophomore girls.
That I wanted good poetry without knowing it,
That I discovered, late, its salutary aim,
In this and only this I find salvation.

They used to pour millet on graves or poppy seeds
To feed the dead who would come disguised as birds.
I put this book here for you, who once lived
So that you should visit us no more.


Warsaw, 1945

Czeslaw Milosz
The Collected Poems: 1931-1987

sexta-feira, novembro 11, 2011

This Living Hand

São Martinho corta o manto - Cenas da Vida de São Martinho, Assis
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“This living hand, now warm and capable
Of earnest grasping, would, if it were cold
And in the icy silence of the tomb,
So haunt thy days and chill thy dreaming nights
That thou wouldst wish thine own heart dry of blood
So in my veins red life might stream again,
And thou be conscience-calmed — see here it is —
I hold it towards you.”



John Keats

quinta-feira, novembro 10, 2011

Play for today

A qualquer hora, a meio do que dispõe
um sedimento, uma impressão
distanciava-se, cambaleante e aflito
inseparável de alguma coisa que não se via
mas talvez exista
nos desertos que se prolongam
nos nomes que nos pertencem demasiado e esquecemos
em certas deflagrações
que por muitos dias
nos afugentam de casa, do trabalho ou do sono

Quando depois voltava
prendia o barco no pequeno ancoradouro
ainda despenhado das varas de um relâmpago
quase sem palavras
apenas um ser vivo sobre a terra


José Tolentino de Mendonça


A Assírio e Alvim faz hoje 39 anos e, com ela,
nomes que nos pertencem demasiado.

quarta-feira, novembro 09, 2011

There is simply the rose.


Caisses de roses (s/d), Louis Tessier (1719 - 1786)
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"These roses under my window make no reference to former roses or to better ones; they are for what they are; they exist with God today. There is no time for them. There is simply the rose; it is perfect in every moment of its existence. But man postpones and remembers; he does not live in the present, but with reverted eye laments the past, or heedless of the riches that surround him, stands on tiptoe to forsee the future. He cannot be happy and strong until he too lives with nature in the present, above time."


Ralph Waldo Emerson
Essays and Lectures
Penguin
1983

terça-feira, novembro 08, 2011

O que realmente importa

Ontem fui à Fnac do Chiado ouvir o Peter Handke.
O Peter Handke não gosta de perguntas com elogios dentro. O Peter Handke não se comenta. O Peter Handke também não gosta de falar de política e se lhe falarem da Aústria, o Peter Handke coloca o problema da língua à frente da história. O Peter Handke pede desculpa por ter de estar ali e ter de se exprimir em Inglês, uma língua que não é a sua e que por isso, tristemente, não o espelha. O Peter Handke não aceita créditos de filmes que não são seus, e mesmo dos seus filmes fala pouco. O Peter Handke gosta de ler teatro desde a juventude. O Peter Handke escreve desolhando a sua excessiva exigência, a sua excessiva auto-consciência. O Peter Handke resiste a explicar imagens. O Peter Handke diz cada vez mais preservar o seu silêncio interior. Dei por mim a gostar muito do Peter Handke.

Logo à noite

segunda-feira, novembro 07, 2011

Claridade dada pelo tempo - 2

Marie Curie (1867 - 1934)
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No dia do seu nascimento, o google presta justa homenagem a Marie Curie, uma figura extraordinária do conhecimento e da academia. Uma mulher das ciências, prémio Nobel da Física em 1903, prémio Nobel da Química em 1911, mãe da prémio Nobel da Química em 1935, Marie Curie foi a primeira mulher a dar aulas e reger uma cátedra e um laboratório na Sorbonne, cumes de um percurso que foi brilhante mas também muito muito difícil. Fica o exemplo intemporal de valor, mérito e dignidade.

domingo, novembro 06, 2011

Dia de Sophia, dia da Poesia

Desta manhã bonita em que repouso - 3

Sam Shepard (1943 - ) Imagem daqui

I feel like I've never had a home. You know? I feel related to the country, to this country, and yet I don't know exactly where I fit in. And the same thing applies to the theater. I don't know exactly how well I fit into the scheme of things. Maybe that's good, you know, that I'm not in a niche. But there's always this kind of nostalgia for a place, a place where you can reckon with yourself. Now I've found that what's most valuable about that place is not the place itself but the other people; that through other people you can find a recognition of each other. I think that's where the real home is.


Sam Shepard

Don Shewey's Sam Shepard

sexta-feira, novembro 04, 2011

Este país não é para jovens

Ontem fui assistir a um concerto à Gulbenkian. No final, entre ir buscar o guarda-chuva ao bengaleiro, passar na casa de banho e reencontrar-me à porta com as pessoas que me acompanhavam, não devo ter demorado mais de cinco minutos. O concerto começou às 21h e acabou antes das 23h. Saímos da Fundação por volta dessa hora e chegámos ao metro apenas cinco ou seis minutos depois. Perdemos o metro que lá estava, quase perdíamos o seguinte, porque os senhores condutores a partir de determinada hora - uns com mais razão, outros com menos - têm todos muita pressa... Mas nem é sobre isso que me quero debruçar. Pese muito embora o facto de a insónia ser má conselheira, o caso é grave. Sonhei toda a noite com comboios e metros, toda a nacional transportação pública, e táxis. Se a redução horária dos transportes públicos já tivesse entrado em funcionamento não teríamos tido metro para casa. Não sonhei naturalmente com o tele-transporte, coisa prática, produtiva, possível. O tele-transporte é coisa a que uma pessoa se candidata confiante no mérito, mais ou menos (des)esperançada no futuro, é coisa que uma pessoa contratualiza com ponderação e seriedade. Este país não é para jovens.

segunda-feira, outubro 31, 2011

Do Halloween

Ainda do dia.

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Hoje também é dia de outra poeta, Leonor de Almeida Portugal de Lorena e Lencastre, a Marquesa de Alorna, avó em quinto grau de Maria Teresa Horta que a biografou recentemente. "As Luzes de Leonor - A marquesa de Alorna, uma sedutora de anjos, poetas e heróis" é um livro belíssimo que ando a ler aos bocadinhos nas livrarias e que há-de me chegar às mãos, se não antes, no Natal.

Dia de Drummond, esqueçam as bruxas

domingo, outubro 30, 2011

Grandes revelações

Dinis Machado (1930 - 2008)
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Uma das primeiras grandes revelações da minha infância, ao surpreender as coisas, foi verificar que me interrogava, invariavelmente, assim: qual é o lado mais cómico disto? Os desfiles militares, as cerimónias religiosas, os cumprimentos obsequiosos e constrangedores, os adereços excessivos da autoridade, as exigências rígidas da hierarquia, os compromissos artificiosos. E eu: qual é o lado mais cómico disto? Daí a fazer essa pergunta interior em qualquer situação dramática, foi um passo. A doença, a brutalidade, a estupidez, a intolerância, a maldade pura, a alucinação despótica – até o leito do sofrimento, o leito da morte. E eu: qual é o lado mais cómico disto?

Andava nessa altura a rir-me muito com as caras burlescas do cinema, não sabia que Shakespeare e Bergman existiam, ainda não tinha lido alguns livros trágicos e patéticos – e se soubesse que devia ter a faculdade de me rir de mim próprio, sabia-o sem o saber. Quando uma vez caí, a patinar no passeio com botas cardadas, e parti o dente da frente, fiz a pergunta calada e sacramental, enquanto as pessoas olhavam para mim: – Qual é o lado mais cómico disto?Quando a infância começou a ser perturbada por desentendimentos mais amplos com o real, insisti na defesa da minha alegria, do meu prazer de viver. E até na dor que retirava dos que amava (dos meus avós, das minhas velhas tias, por exemplo), e até na mor-te, que sempre me surpreendia, protegia-me com essa frase defensiva, essa armadura de sol, de chuva e de subir a escada a quatro e quatro.Creio que os cómicos do cinema me compreendiam melhor do que ninguém. Habitavam o coração do desastre com a desenvoltura, o corpo de borracha e a paciência evangélica dos grandes missionários da naturalidade.



Dinis Machado
Reduto Quase Final

sexta-feira, outubro 21, 2011

Do que fica - 2

A vós, aspirações vagas, entusiasmos;

cismas depois do almoço; impulsos do coração;

enternecimento que vem com a satisfação

das necessidades naturais; clarões de génio; apaziguamento

da digestão bem feita; alegrias sem causa;

distúrbios da circulação do sangue; recordações do amor;

perfume de benjoim do banho matinal; sonhos de amor;

minha enorme molecagem castelhana; minha imensa

tristeza puritana, meus gostos especiais:

chocolate, bonbons, doces de derreter, bebidas geladas;

charutos entorpecedores e vós, acalentadores cigarros;

alergrias da velocidade; doçura de ficar sentado; delícia

do sono na completa escuridão;

grande poesia das coisas; noticiário de polícia; viagens;

tziganos, passeios de trenó; chuva no mar;

loucura da noite febril, sozinho com alguns livros;

oscilações do temperamento e do tempo;

instantes de outra vida, reaparecidos; recordações, profecias;

ó esplendor da vida comum e do ramerrão quotidiano,

a vós esta alma perdida.


Valéry Larbaud

(trad. Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, outubro 20, 2011

Ma Bohème

La Muse Verte, Albert Maignan
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Je m'en allais, les poings dans mes poches crevées;
Mon paletot aussi devenait idéal;
J'allais sous le ciel, Muse ! et j'étais ton féal;
Oh! là là! que d'amours splendides j'ai rêvées!

Mon unique culotte avait un large trou.
- Petit-Poucet rêveur, j'égrenais dans ma course
Des rimes. Mon auberge était à la Grande Ourse.
- Mes étoiles au ciel avaient un doux frou-frou

Et je les écoutais, assis au bord des routes,
Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes
De rosée à mon front, comme un vin de vigueur ;

Où, rimant au milieu des ombres fantastiques,
Comme des lyres, je tirais les élastiques
De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur!



Arthur Rimbaud

terça-feira, outubro 18, 2011

Veritatis splendor: TORSO ARCAICO DE APOLO

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Não sabemos como era a cabeça, que falta,

de pupilas amadurecidas. Porém

o torso arde ainda como um candelabro e tem,


só que meio apagada, a luz do olhar, que salta


e brilha. Se não fosse assim, a curva rara

do peito não deslumbraria, nem achar

caminho poderia um sorriso e baixar

da anca suave ao centro onde o sexo se alteara.


Não fosse assim, seria essa estátua uma mera

pedra, um desfigurado mármore, e nem já

resplandecera mais como pele de fera.


Seus limites não transporia desmedida

como uma estrela; pois ali ponto não há

que não te mire. Força é mudares de vida.


Rainer Maria Rilke

(Trad. de Manuel Bandeira)

Desapontado desabafo - 4



"Oh, baby, baby, it's a wild world
It's hard to get by just upon a smile."








solavancava o Cat Stevens, esta manhã, no meu 28. Parece cena de filme.

segunda-feira, outubro 17, 2011

Poema dum Funcionário Cansado


António Ramos Rosa (1924 - )
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A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só

António Ramos Rosa
Viagem através de uma Nebulosa
D.Quixote
1960

sexta-feira, outubro 14, 2011

Vampiros

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas Pela noite calada
Vêm em bandos Com pés veludo
Chupar o sangue Fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada [Bis]

A toda a parte Chegam os vampiros
Poisam nos prédios Poisam nas calçadas
Trazem no ventre Despojos antigos
Mas nada os prende Às vidas acabadas

São os mordomos Do universo todo
Senhores à força Mandadores sem lei
Enchem as tulhas Bebem vinho novo
Dançam a ronda No pinhal do rei

Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada

No chão do medo Tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos Na noite abafada
Jazem nos fossos Vítimas dum credo
E não se esgota O sangue da manada

Se alguém se engana Com seu ar sisudo
E lhe franqueia As portas à chegada
Eles comem tudo Eles comem tudo
Eles comem tudo E não deixam nada


terça-feira, outubro 11, 2011

Funchal

Tomas Tranströmer (1931 - )
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O restaurante do peixe na praia, uma simples barraca,
construída por náufragos.

Muitos, chegados à porta, voltam para trás, mas não assim as
rajadas de vento do mar. Uma sombra encontra-se num
cubículo fumarento e assa dois peixes, segundo uma antiga
receita da Atlântida, pequenas explosões de alho.

O óleo flui sobre as rodelas do tomate. Cada dentada diz que o
oceano nos quer bem, um zunido das profundezas.

Ela e eu: olhamos um para o outro. Assim como se trepássemos
as agrestes colinas floridas, sem qualquer cansaço.
Encontramo-nos do lado dos animais, bem-vindos, não
envelhecemos. Mas já suportámos tantas coisas juntos,
lembramo-nos disso, horas em que também de pouco ou nada
servíamos ( por exemplo, quando esperávamos na bicha para
doar o sangue saudável – ele tinha prescrito uma transfusão).
Acontecimentos, que nos podiam ter separado, se não nos
tivéssemos unido, e acontecimentos que, lado a lado,
esquecemos – mas eles não nos esqueceram!

Eles tornaram-se pedras, pedras claras e escuras, pedras de um
mosaico desordenado.

E agora aconteceu: os cacos voam todos na mesma direcção, o
mosaico nasce.

Ele espera por nós. Do cimo da parede, ele ilumina o quarto de
hotel, um design, violento e doce, talvez um rosto, não nos é
possível compreender tudo, mesmo quando tiramos as roupas.

Ao entardecer, saímos. A poderosa pata, azul escura, da meia
ilha jaz, expelida sobre o mar. Embrenhamo-nos na multidão,
somos empurrados amigavelmente, suaves controlos, todos
falam, fervorosos, na língua estranha. “ um homem não é uma
ilha.“ Por meio deles fortalecemo-nos, mas também por meio de
nós mesmos. Por meio daquilo que existe em nós e que os outros
não conseguem ver. Aquela coisa que só se consegue encontrar
a ela própria. O paradoxo interior, a flor da garagem, a válvula
contra a boa escuridão.
Uma bebida que borbulha nos copos vazios. Um altifalante que
propaga o silêncio.

Um atalho que, por detrás de cada passo, cresce e cresce. Um
livro que só no escuro se consegue ler.

Tomas Tranströmer
(Trad. Luís Costa a partir de Hans Grössel)