segunda-feira, fevereiro 25, 2008


"Amamos sempre o que amámos."

Pascal Quignard, As sombras errantes

domingo, fevereiro 24, 2008

Da imensa dificuldade de um gesto natural

Lêem-nos isto, cedo, na escola, para praticar, sempre, mesmo que custe. Será que aos miúdos de hoje ainda também? Será que hoje, miúdos e adultos, ainda percebem?

A fita vermelha

Eu tinha começado a ensinar. Era muito nova então. Quase tão nova como as meninas que eu ensinava. E tive um grande desgosto. Se recordar tudo quanto tenho vivido (já há mais de vinte anos que ensino), sei que foi o maior desgosto da minha vida de professora. Vida que muitas alegrias me tem dado. Mais alegrias que tristezas.
Se vos conto este desgosto tão grande, não é para vos entristecer. Mas para vos ajudar a compreender, como só então eu pude compreender, o valor da vida. O amor da vida. O valor de um gesto de amor. O seu preço, que dinheiro algum consegue comprar.
Eu ensinava numa escola velha, escura. Cheia do barulho da rua, dos eléctricos que passavam pelas calhas metálicas. Dos carros que continuamente subiam e desciam a calçada. Até das carroças com os seus pacientes cavalos.
A escola era muito triste. Feia. Mas eu entrava nela, ou digo antes, em cada aula, e todo o sol estava lá dentro. Porque via aqueles rostos, trinta meninas, olhando para mim, esperando que as ensinasse.
O Quê? Português, francês. Hoje sei, acima de Tudo, o amor da vida.
Com toda a minha inexperiência. Com todos os meus erros. Porque um professor tem de aprender todos os dias. Tanto, quase tanto ou até muito mais que os alunos.
Mas, desde o primeiro dia, compreendi que teria nas alunas a maior ajuda. O sol, a claridade que faltava àquela escola de paredes tristes. A música estranha e bela que ia contrastar com os ruídos dos eléctricos, dos automóveis da calçada onde ficava a escola. Até com o bater das patas dos cavalos que passavam de vez cm quando.
Porque, mais que português e francês, havia uma bela matéria a ensinar e a aprender. Foi nessa altura que comecei mesmo a aprender essa tal matéria ou disciplina ou antes, a ter a consciência de que a aprendia.
Eu convivia com jovens (seis turmas de trinta alunas são perto de duzentas) que no princípio de Outubro me eram desconhecidas. Cada uma delas representava a folha de um longo livro que no princípio de Outubro me era desconhecido. Todas eram folhas de um longo livro por mim começado a conhecer. Não há ser humano que seja desconhecido de outro ser humano. Só é precisa a leitura.
Eu tinha agora ali perto de duzentas amigas. Todas aquelas meninas confiando em mim, esperando que as ensinasse; sorrindo, quando eu entrava, assim me ensinavam quanto lhes devia.
Mas um dia. Eu conto como aconteceu o pior. E conto-o hoje, a vós, jovens, que me podem julgar. Julgar-me sabendo este meu erro. E evitarem, assim, um erro semelhante para vós mesmos.
Já era quase Primavera. Na rua não havia árvores nem flores. Só os mesmos carros com o seu peso e a violência da sua velocidade. Gritos de vez em quando. Uma Primavera só no ar adivinhada.
Numa turma uma aluna faltava há dias. Era a Aurora.
Morena, de grandes olhos cheios de doçura. Talvez triste.
A Aurora estava doente. Num hospital da cidade, numa enfermaria. Num imenso hospital.
Olhei o retratinho dela na caderneta.
Retratinho de passe, num sorriso de nevoeiro de uma modesta fotografia. Tão cheia de doçura a Aurora! Doente, do hospital tinha-me mandado saudades.
“Vou vê-la no próximo domingo” anunciei às companheiras.
E tencionava ir vê-la mesmo no próximo domingo.
Mas o próximo domingo foi cheio de sol. Sol do próprio astro, quente, luminoso. Igual e diferente, ao mesmo tempo, do sol-sorriso das meninas.
E eu, a professora, ainda jovem, que gostava do sol, fui passear. Ver mar? Campos verdes? Flores?
Já nem me lembro. E da Aurora me lembraria se a tivesse ido visitar.
Começava a Primavera.
Adiei a visita naquele próximo domingo, para outro dia, para outro próximo domingo.
Hoje sei que o amor dos outros se não adia.
Aurora esperou-me toda a tarde de domingo, na sua cama branca, de ferro.
Tinha posto uma fita vermelha a segurar os cabelos escuros. Esperava-me, esperava a minha visita, cuja promessa as companheiras lhe haviam transmitido.
Veio a família: mãe, pai, irmãos, amigos, as colegas.
- Estou à espera da professora...
No dia seguinte a doença foi mais poderosa que a sua juventude, a sua doçura, a sua esperança.
A cabeça escura, sem a fita vermelha, adormeceu-lhe profundamente na almofada, talvez incómoda, do hospital.
Sabemos todos já, amigos, que há vida e morte. Também isso temos de aprender.
Não fiquem tristes por isso. Vejam como as flores nascem quase transparentes da terra, como as podemos olhar à luz do Sol, e morrem, para de novo nascerem.
Lembrem-se como de um ovo de um pássaro podem sair asas que voem tão alto em dias de Primavera. Morrem, também, e todas as primaveras nascem de novo. E, sobretudo, lembrem-se do coração de cada um de nós, desta força imensa.
E não adiem os vossos gestos. Procurar alguém que sofra, que precise de nós, nem sequer é um gesto generoso, deve ser um gesto natural que se não adia.
Às vezes até precisamos uns dos outros para dizermos que estamos felizes, contentes. Só para isso. Mesmo felizes precisamos dos outros.
Aurora ensinou-me para sempre esta verdade.
As lágrimas que por ela chorei já não lhe deram aquela visita do próximo domingo.
Nem a mim a alegria de a encontrar sorrindo, cheia de doçura, com uma fita vermelha a prender os cabelos escuros. Vermelha de sangue, como a vida. O Sol. Flores vermelhas.
Aurora era o seu nome. E a sua vida uma manhã apenas que, na minha distracção ou egoísmo, não tive tempo de olhar. Uma manhã com uma fita vermelha. Que lágrima nenhuma pode reflectir.

Matilde Rosa Araújo

sábado, fevereiro 23, 2008

quarta-feira, fevereiro 20, 2008

É por termos amigos especiais que somos especiais



O filme do livro The Notebook começa assim: “I am nothing special; of this I’m sure. I am a common man with common thoughts, and I’ve led a common life. There are no monuments dedicated to me and my name will soon be forgotten…”

Não é nenhuma pérola da literatura universal, o Notebook, mas é um livro bonito: um livro de vida, vivida, verídica, não-ficcionada, de um casal americano comum que consegue manter, vida fora, um amor incomum, enfim, um livro que me encanta porque me fala de coisas que me dizem muito.

O meu pai declarou-se à minha mãe com um postal. Um postal de época. Banal. Pequeno. Pequenino demais para tudo o que estava dentro, lá dentro, escrito, sentido, eternizado. Descobri-o no fundo de uma gaveta, na flor da adolescência, quando tudo é sumamente importante e grandioso, total e absoluto. A minha mãe era especial. Aquele era o monumento dedicado à minha mãe. Erigido por Manuel de Nóbrega J. para Maria Teresa T. G., não para a Maria Teresa, não para a Teresa, a Teresinha, a Té, não: para Maria Teresa T. G., a única Maria Teresa T. G. (o J. veio depois). A minha mãe. Devo ter ficado a digeri-lo longamente, palavras nos olhos, postal na mão, porque era adolescente e obviamente nada via de monumental na minha mãe que me chamava há séculos, ao longe, tão longe, que só respondi, e atordoada, quando me surpreendeu a centímetros do meu nariz com uma chamada de atenção uns décibeis acima do normal, que as limpezas de verão não podiam parar e que era sempre a mesma coisa... Depois... depois, reconheceu o envelope, e, nunca mais me esqueço, foi com notório esforço que o sorriso da mãe se sobrepôs ao embaraço da mulher, que estas miúdas mexem e remexem tudo em vez de limpar e arrumar, vá, vá!

Os dias passaram, os anos, a adolescência e o desejo de um monumento assim, postal, canção, poema, também. Ou talvez não, mas ficou tão bem arrumado, dobradinho, numa gaveta qualquer do inconsciente, que, muito mais tarde, quando surgiu de facto, o monumento passou-me ao lado: Joanas há muitas, mas só uma sofre desta espécie de miopia emocional (me).

Por isso é que acho que não me vem à memória quando escrevo, um postal sequer, muito embora só escreva postais a quem gosto muito, muito, muito. Porque a um postal subjaz um rito: a escolha, a compra, a procura das palavras certas, o desfilar de memórias e projectos, a escrita, o beijo final com os olhos, o selar, o envio. Um postal nunca é só um postal. É uma dádiva de um bocadinho de nós, aquele mais especial, aquele que não vai mudar nunca, verba volant, scripta manent*, para alguém que estimamos. (Um psicanalista explicaria bem, estão a pensar, possivelmente, possivelmente.)

Guardo os postais que recebo numa caixa de fotografias. Só postais, nada de fotografias. Sei-lhes a ordem, as imagens, as mensagens, os remetentes... Não são todos monumentos, mas são invariavelmente especiais. O que está mais à mão, o do topo, por exemplo, mandou-mo a Susana, no verão de 2004, de Cuba, com algo como: “Jo, tinhas razão, era mesmo conjuntivite, não estou a aproveitar nada, que lua-de-mel, lua de remel-as! Heeeeeellllllllpppppp!!!!!” E deste lado de cá do mundo, numa ilha perdida no Atlântico, a Jo chorou de tanto rir. Coisas admiráveis acontecem quando se manda um bocadinho de nós, em palavras, dentro de um envelope.

E tudo isto a propósito destes dias de chuva e mimo, muito mimo, numa Lisboa que cada vez mais me cheira a casa, tanto, tanto que não há "obrigado" grande o bastante; tudo isto por causa do postal que vou pedir em troca de uma certa fotografia; tudo isto por causa das gargalhadas e das histórias e do trabalho e do descanso e deste pequeno monumento (imagem) que o meu défice de inteligência social me impediu de ver na hora e agradecer em conformidade. Estas minhas amigas... monumentos erguer-se-ão em honra... proximamente.


*Aforismo latino: "As palavras ditas voam, escritas permanecem."

sexta-feira, fevereiro 15, 2008

A Pedra


Não quero a pedra
quero a flor
dentro dela.

Y. K. Centeno

Caiu-me literalmente no colo, o poema, como a querer saltar da página, esta manhã na Biblioteca.

Acontece tanta coisa naquela biblioteca! Aconteceu-me tanta coisa hoje! Esquecer-me-ia facilmente dele, não o tivesse surpreendido (-me?) há pouco nos Barcos de Flores. Ele há coisas!

terça-feira, fevereiro 05, 2008

Carnaval


Malassadas


Acho que é isto. Cá em casa não somos adeptos de disfarces, nem de fatiotas, nem de cortejos, nem de máscaras, (muito menos de más-caras), nem de caras pintadas, encapuzadas, ocultas.
Não somos de excessos e eu pessoalmente nem de carne sou adepta. Portanto, a carne-não-vale para mim o ano todo. Vale, para todos por cá, o descanso de agora, mais que bem-vindo – necessário –; vale para mim o reencontro de ontem com os amigos, mesmo meio, mesmo limitado no tempo, mesmo confuso na alegria, todavia certo, sempre certo, como o destino que escolhemos.
E o que se tira do Carnaval é isto. O doce. O doce reencontro com os amigos. O doce do dia na companhia da família – (ainda que não toda) – a comer malassadas (melaçadas?!) para além da conta, especialmente agora que estão quentinhas.

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Estamos velhos quando...

Não estamos velhos quando a nossa idade no BI já não dá para o cartão jovem e os descontos de estudante ficaram lá atrás.

Não estamos velhos quando temos rugas e varizes e celulite.

Não estamos velhos quando vemos completar 25 anos a miúda que, no caminho para a catequese, tocava às campainhas de todas as portas e deixava-nos, solitariamente primogénitos, crescidos – porém, inseguros do poder imunizador da honestidade – à mercê da ira dos importunados.

Não estamos velhos quando os pais nos adoecem e se revê a vida toda num minuto.

Não estamos velhos quando encontramos os amigos, eternos adolescentes, casados, com filhos.

Não estamos velhos quando ir ao médico nunca é só ir ao médico.

Não estamos velhos quando abdicamos de certas coisas, abrimos mão de certas pessoas e relativizamos certos valores.

Não estamos velhos quando os nossos ídolos se aposentam.

Não estamos velhos quando temos histórias e meia dúzia de amores e desamores para contar.

Não estamos velhos quando nos compramos uma cadeira de baloiço para a manta da avó em sábados e domingos de leituras e evasão.

Não estamos velhos quando tomamos chá ao sabor da novela da noite.

Não estamos velhos quando ouvimos o silêncio.

Não estamos velhos quando fazemos por escolher os amigos e manter perto, pertíssimo, os inimigos.

Não estamos velhos quando cedemos às opiniões do vulgo.

Não estamos velhos quando somos os terceiros mais velhos num jantar de quinze pessoas.

Não estamos velhos quando acordamos cansados.

Não estamos velhos quando os Celsos, os Ricardos e todos os outros galãs do Liceu nos arrastam, desacaradamente e fora de tempo, a asa.

Não estamos velhos quando pensar é automático e realizar custa.

Não estamos velhos quando nos lembramos que o primeiro filme que vimos no cinema foi o Roger Rabbit.

Não estamos velhos quando tememos a novidade.

Não estamos velhos quando elaboramos uma tabela de tarefas domésticas e uma ementa para cada semana.

Não estamos velhos quando temos insónias.

Não estamos velhos quando preferimos passar o serão, em casa, com os amigos, em redor de uma boa tábua de queijos, muito mais do que sair.

Não estamos velhos quando fazemos poupanças.

Não estamos velhos quando pesamos opções, analisamos riscos e optamos pela segurança.

Estamos velhos quando começamos a dar valor a cada instante, a aproveitar a brisa da manhã e a só trabalhar frente a uma janela ao sol.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Dos dias em que se morre mais

“Ah, não fiz a cama! Esqueci-me. Saí de manhã e nunca mais voltei aqui ao quarto.” Constatou, ficou triste, quis desculpar-se.Quis desculpar-se quando não tinha que o fazer. Não comigo. Nunca comigo. “Oh, é natural, quantas vezes saio e também deixo a minha por fazer.” Disse eu, para amainar o turbilhão de vergonha, ansiedade, angústia e mais vergonha, que, sabia, se ia seguir. Na realidade, sabíamos bem as duas que mesmo que nunca mais tivesse voltado ao quarto, não saíra dali de casa, e portanto deixamos a cama por fazer por razões infelizmente, tristemente, distintas.

Eram quatro da tarde e tinha-se esquecido de fazer a cama. Aquela coisa básica que se fartava de nos obrigar a não esquecer nunca a cada verão e a sermos rápidos a por em prática de manhã, logo após o banho“... que se abrirem a cama ao levantar, tem tempo suficiente para arejar...” – tinha-se apagado da sua memória, das prioridades do dia, pelo menos.

Ao resto já me habituei, ao resto, à sequência das mesmas perguntas sobre os assuntos de sempre: eu, a minha mãe, os meus irmãos, o meu pai, o meu tio, o sobrinho-neto, ao resto, ao ter de responder eu sempre de maneira diferente para não ficar triste ao perceber que acabou de me fazer a mesmíssima pergunta, ao resto, às advertências sempre sentidas, importantes, sinceras, mas despropositadas, acerca do nosso clã, ao resto, aos reparos sucessivos sobre um qualquer pormenor da minha roupa ou do cabelo, ao resto, ao atafulhar-me a pasta, a mala, os bolsos, de coisas absolutamente sem valor, estranhas e supérfluas, a isso tudo já me habituei, obrigou-me de certo modo a isso, também. Ao ter-se esquecido de fazer a cama, não. Ainda não.

Todos os dias morremos um pouco, morrem-nos não sei quantas células, mas há dias em que, morrendo-nos o mesmo número de células do dia anterior, morremos mais. Dias bonitos, como ontem, como hoje, dias de sol, dias frios, dias claros, dias de Inverno; dias tornados noite, dentro, onde não chega o frio, nem o sol descobre uma certeza pequenina, a de que vamos ser eternos na memória dos que amamos.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Voltei!



A todos um Bom Ano!

terça-feira, janeiro 08, 2008

Eu, aqui, ainda de férias, longe da net, a ler...


... uma pilha de livros que a minha Mãe não me deixa comprar deles tão cedo...


Um pé de Alegra-Campo

O alegra-campo enroscava-se preguiçosamente nas estacas da latada, encobrindo alguns ramos da videira de americano.
Ao aproximar-se da Festa, o arbusto sabia que a podoa lhe seria apontada sem piedade. Ia para a lapinha, deixando campo aberto para as cepas que, depois de acordadas pelo podão, voltariam a se estender sobre as varas do pinheiro.
A casa era grande, mas nela vivia apenas uma mulher com mais de oitenta anos. O filho estava na África do Sul, desde os dezasseis anos de idade. O marido morrera, há mais de vinte, depois de tantos anos emigrado naquele Cabo da sua desventura. Quase toda a vida estivera só.
Governava a fazenda com mão de ferro. Desconfiada, deitava-se e levantava-se a fazer contas, com receio de vir a ser enganada, por não saber ler. MAS o seu nome, os meses do ano e alguns números conseguia por no papel. Costumava ter o modelo, no verso de uma gravura de calendário, sempre à mão, na gaveta do armário da cozinha. Quando precisava de passar o recibo da renda, fazia uma cópia demorada.
No ano em que lhe morreu o marido, não deixou de armar a lapinha. Dizia que dava azar não fazê-la. Só que não a construiu na sala, mas na arrecadação do rés-do-chão. Dessa vez, parece que foi maior que nos anos anteriores. A rochinha enchia por completo o quarto. Abria-se a porta que dava para o terreiro e de fora admirava-se o seu presépio. Eram montanhas altas cheias de musgo e algodão branco, deslizando pelas encostas abruptas. Na planície, dezenas de pastores, rebanhos de ovelhas e lagos de fragmentos de espelhos com muitos patos. Na gruta, a cena de Belém, rodeada de passarinhos na lapinha e jarras de vidro com junquilhos e sapatinhos do seu jardim.
No ano seguinte, o presépio voltou à sala de visitas que quase sempre permanecia fechada. Era grande, com uma mesa ao centro, sobre um tapete bastante colorido, e uma dúzia de cadeiras desconfortáveis a toda a volta. Nas paredes, a Ceia do Senhor e o Imaculado Coração de Maria em molduras douradas.
Preferia receber amigos e familiares na cozinha, à volta da mesa com toalha aos quadrados vermelhos e sentados em bancos pintados de azul. Lembro-me do seu sorriso, ao retirar do cântaro de avenca do centro da mesa, dobrar a toalha, abrir a gaveta e atirar as cartas para o jogo da bisca. Eram horas de partidas renhidas.
Depois começou a perder a paciência, deixou de sair, incompatibilizou-se com velhos conhecidos e cada vez estava mais só.
A erva crescia com abundância entre as bananeiras. Algumas latadas haviam caído. O fundo das levadas tinha muitas camadas de terra. O alegra-campo estava maior. No Natal, já não lhe cortava um ramo grande. Minguava a sua presença na lapinha. Ela já não podia subir o escadote, para dependurar a verdura nos pregos da parede, sobre as montanhas de papel pintado.
Há cinco anos, depois de Santo Amaro, não desarmou o presépio. Retirou as searas, o alegra-campo e as cabrinhas e depois estendei um plástico sobre a rochinha. “para a Festa, já não tenho trabalho”, disse-me.
Nos últimos quatro natais, plantou o milho e o trigo em pequenos vasos, mandou cortar um ramo do seu alegra-campo e acendeu a lamparina ao Menino Jesus. MAS já não rezava o terço junto da lapinha, como era seu hábito. Sentia muito frio e o sono abeirava-se dela, a meio do segundo mistério. Metia-se cedo na cama e pedia perdão a Deus, Nosso Senhor, por já não conseguir desfiar as contas do seu rosário.
Morreu só, há alguns meses.
O filho voltou depois do enterro. Desmanchou a lapinha, vendeu os móveis. Fez obras e pintou a casa. Comprou outras mobílias e cortinados, decorou tudo ao gosto da mulher. E cortou o alegra-campo pela raiz, porque dizia que aquele matagal matava a vinha.

Nelson Veríssimo, Passos na Calçada

sábado, dezembro 22, 2007

Festas Felizes!

Noite Feliz...




Não devo cá vir antes do fim do ano. Que possam todos viver esta noite com este espírito...

Natal Internacional



Todos os Natais que passei fora, de Paris a Houston, ficaram marcados por esta canção... É de certa forma a canção da distância, muito embora estas crianças consigam pintá-la de um calor... que aproxima.

Deve passar este natal num canal qualquer...




Enquanto passa e não passa, fica-se com a voz angelical no ouvido e com fragmentos de um filme que tem muito que se lhe diga. Ou talvez não.

domingo, dezembro 16, 2007

Estrela do Ocidente

Por teus olhos acesos de inocência
Me vou guiando agora, que anoitece.
Rei Mago que procura e desconhece
O caminho,
Sigo aquele que adivinho
Anunciado
Nessa luz só de luz adivinhada,
Infância humana, humana madrugada.


Presépio é qualquer berço
Onde a nudez do mundo tem calor
E o amor
Recomeça.
Leva-me, pois, depressa,
Através do deserto desta vida,
À Belém prometida…
Ou és tu a promessa?






Miguel Torga


Corais

Opções de mensagens
Ando a ter uns fins de semana culturais... Ontem em Braga teve lugar o XII Puer Natus est, o Concerto de Natal do Coro Académico da Universidade do Minho. Muito bonito, com cheiro a Natal e um sabor especial: duas orquestrações do meu irmão. Orgulho familiar à parte, registo, a bem da verdade, o facto de haver muita gente nova a escrever muito boa música em Portugal. A ter em conta.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

O rapaz dos amarílis


Pink_Amaryllis

Não estava lá quando me cheguei à frente. Veio escassos segundos depois. Não consegui disfarçar. Ganhou-me naquele preciso momento, os meus olhos já não eram meus, a atenção toda nele, toda deles. Atrasei o passo, deixei-o avançar, sempre com eles, tão singelos, deixei, deliberadamente, para os poder observar melhor. Esqueci o frio, tanto calor e tanta gente na estação da Casa da Música, iam murchar. Não obstante, quis ver. Não vê-los estragarem-se, não, quis ver a cara, os olhos, a alma de uma pessoa assim. Bonita.
Porque é bonita, de um bonito que as palavras não conseguem dizer, de um bonito que prende o olhar, de um bonito que é sentir só e sentir diferente, qualquer pessoa que desafie as leis das seis e meia da tarde de uma sexta-feira de Dezembro para entrar no metro com um ramo de amarílis. Vermelhos, não, laranja, não, vermelhos e laranja, que também havia fogo neles. Duas hastes, três flores, seis amarílis ao todo. Sob um verde que desconheço, seis amarílis cor-de-fogo atravessados por uma única rosa branca, em botão. Atravessados por uma única rosa branca. Em botão. Eu, trespassada pela imagem.
As pessoas a entrar e a sair e eu com os amarílis nos olhos. E na cabeça. E, algures, no lado esquerdo. Crescemos a ouvir histórias de príncipes que se encantam por princesas e que, em nome de um amor maior que a vida, oferecem rosas e amarílis, e, crescidos, nunca, por um momento, pensamos que a razão por que os príncipes encantados não existem é porque padecemos de um mal muito grande que é a cegueira de querer ainda fazer isto, sem esquecer aquilo, de por isso não ter tempo para, nem querer assim, que assado é que se está bem.
Este príncipe, como todos os príncipes, era banal. A todos os níveis. Encantadoramente banal. Mais banal que a mais banal das pessoas. Não havendo nele um único símbolo, um único sinal, uma marca, um estilo, nada. Absolutamente nada que o pudesse inserir em qualquer tipo de taxonomia. A-étnico, a-religioso, a-social, a-cultural, a-político, a-económico. Daí, a certeza. Príncipe. De amarílis ígneos e pura rosa junto ao peito, um castelo nos olhos, chamas no coração. Príncipe. Tal como é princesa toda a menina a quem se destina uma prenda assim.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

Porque aos 12 de hoje faltam 12 dias...

Porque é de longe a minha canção de Natal favorita. Porque falta pouco. Porque...



Religious symbolism of The Twelve Days of Christmas (The 12 Days of Christmas)

1 True Love refers to God
2 Turtle Doves refers to the Old and New Testaments
3 French Hens refers to Faith, Hope and Charity, the Theological Virtues
4 Calling Birds refers to the Four Gospels and/or the Four Evangelists
5 Golden Rings refers to the first Five Books of the Old Testament, the "Pentateuch", which gives the history of man's fall from grace.
6 Geese A-laying refers to the six days of creation
7 Swans A-swimming refers to the seven gifts of the Holy Spirit, the seven sacraments
8 Maids A-milking refers to the eight beatitudes
9 Ladies Dancing refers to the nine Fruits of the Holy Spirit
10 Lords A-leaping refers to the ten commandments
11 Pipers Piping refers to the eleven faithful apostles
12 Drummers Drumming refers to the twelve points of doctrine in the Apostle's Creed

http://www.carols.org.uk/

terça-feira, dezembro 11, 2007

O cigano

Ouvi, calei dentro, nunca mais me lembrei.
Até esta tarde. O Porto acabou de jogar há pouco para a Liga dos Campeões e portanto tudo o que é serviço noticioso de tudo o que é canal não se calou com isso o dia todo. Uns falavam nos quinze mil que iam engarrafar o metro, outros nas tricas do campeonato nacional, outros ainda na mística dos balneários do Porto. Estaquei nesses, não pela notícia, não pelas instalações, nem sequer pelo clube que é o meu, mas pelo espectáculo. Há um canal que anda a apostar muito nisso agora... o espectáculo era o Miguel Guedes dos Blind Zero a ser guiado por ali dentro, balneários do FCP bem entendido, pelo Quaresma. Gosto do Quaresma. E gosto do Miguel Guedes. Mas gosto mais do Quaresma. Sigo-lhe mais de perto o trabalho, não sou rapariga de crónicas em jornais desportivos. Então, trocavam galhardetes os dois, o Guedes com a inteligência e simpatia que o caracterizam, o Quaresma com o pouco à-vontade e laconismo que o caracterizam também, mais ou menos. E os painéis com fotografias dos adeptos que pedem mais uma vitória isto, e o peso da camisola ou do emblema aquilo, e o cantinho de cada um, mais cheio ou mais vazio, dependendo da pessoa em questão. Que o nosso Quaresma tem o cubículo cheio de cremes e perfumes, ...para que as pessoas não pensem que os ciganos são sujos..., nas palavras do próprio. E riram-se ambos da piada e a peça prosseguiu e eu lembrei-me. Porque não encontrei a graça. E tenho a mania que a boca fala do que transborda do coração. Lembrei-me. Lembrei-me daquele dia no metro, em Matosinhos, quando meia dúzia de miúdas estacaram, cara colada ao vidro primeiro, longas gargalhadas depois. Olha, olha, olha, um pica cigano. Não sabia que aceitavam ciganos pra picas, vês? Ali!...
É muito difícil viver com um estigma, qualquer que ele seja: etnia, raça, sexo, religião, deficiência, opção sexual, profissão, regime alimentar... Aqui ou no Kosovo, cigano é sujo, malcheiroso, renegável e renegado, não é preciso muito para senti-lo. O pior é que tenho a certeza que avós ou tios dessas adolescentes foram e/ou são emigrantes em França, por exemplo. E, assim sendo, são os ciganos de Paris. Sei. Já vivi lá, há não muito tempo, quando estudava na Sorbonne, e por muito que queira não consigo apagar de dentro a estupefacção da minha professora de Latim quando viu na minha ficha que era Portuguesa, porque, segundo a própria, algo não estava (?!) certo: morava em Montparnasse,a dois minutos dos Jardins do Luxemburgo, era bonita, e imagine-se: tinha telemóvel! Pas possible! Sei também que, paradoxalmente, estas meninas idolatrarão o Quaresma, mas ouvem os pais chamá-lo de cigano, e chamar é muito diferente de designar, tem conotações, maledicências, preconceitos e medos pendurados em cada uma das letrinhas que compõem a palavra.
Não acompanhei o jogo, mas julgo que lhe correu bem, falaram com ele no fim. O que quer dizer que amanhã virá nos jornais e toda a gente falará no cigano. Não no miúdo que sonha e faz arte com os pés, no Quaresma que tantas vezes joga por toda uma equipa, no Ricardo que é juvenilmente caloroso nas celebrações de golo e que é nosso e que é bom. Não. O cigano é que andará em todas as bocas grandes deste país pequeno. O cigano.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Bilhetinho de Natal - the american way


JJ's last X-Mas surprise, Rice Univeristy, Houston, 10/12/2006

Sabia que tinha guardado esta fotografia algures. Faz hoje um ano, curiosamente. Poucas coisas me surpreendem, mas esta além de conseguir a proeza de o fazer, encantou-me. O meu colega de gabinete, que me cedeu a sua secretária o ano todo, foi entregar uns livros à biblioteca e ao passar pelo "nosso" cantinho colou-me no portátil esta surpresa.
Inusitado para um europeu. Para mim. Regular. To americans. Acreditem.