quinta-feira, janeiro 31, 2008

Estamos velhos quando...

Não estamos velhos quando a nossa idade no BI já não dá para o cartão jovem e os descontos de estudante ficaram lá atrás.

Não estamos velhos quando temos rugas e varizes e celulite.

Não estamos velhos quando vemos completar 25 anos a miúda que, no caminho para a catequese, tocava às campainhas de todas as portas e deixava-nos, solitariamente primogénitos, crescidos – porém, inseguros do poder imunizador da honestidade – à mercê da ira dos importunados.

Não estamos velhos quando os pais nos adoecem e se revê a vida toda num minuto.

Não estamos velhos quando encontramos os amigos, eternos adolescentes, casados, com filhos.

Não estamos velhos quando ir ao médico nunca é só ir ao médico.

Não estamos velhos quando abdicamos de certas coisas, abrimos mão de certas pessoas e relativizamos certos valores.

Não estamos velhos quando os nossos ídolos se aposentam.

Não estamos velhos quando temos histórias e meia dúzia de amores e desamores para contar.

Não estamos velhos quando nos compramos uma cadeira de baloiço para a manta da avó em sábados e domingos de leituras e evasão.

Não estamos velhos quando tomamos chá ao sabor da novela da noite.

Não estamos velhos quando ouvimos o silêncio.

Não estamos velhos quando fazemos por escolher os amigos e manter perto, pertíssimo, os inimigos.

Não estamos velhos quando cedemos às opiniões do vulgo.

Não estamos velhos quando somos os terceiros mais velhos num jantar de quinze pessoas.

Não estamos velhos quando acordamos cansados.

Não estamos velhos quando os Celsos, os Ricardos e todos os outros galãs do Liceu nos arrastam, desacaradamente e fora de tempo, a asa.

Não estamos velhos quando pensar é automático e realizar custa.

Não estamos velhos quando nos lembramos que o primeiro filme que vimos no cinema foi o Roger Rabbit.

Não estamos velhos quando tememos a novidade.

Não estamos velhos quando elaboramos uma tabela de tarefas domésticas e uma ementa para cada semana.

Não estamos velhos quando temos insónias.

Não estamos velhos quando preferimos passar o serão, em casa, com os amigos, em redor de uma boa tábua de queijos, muito mais do que sair.

Não estamos velhos quando fazemos poupanças.

Não estamos velhos quando pesamos opções, analisamos riscos e optamos pela segurança.

Estamos velhos quando começamos a dar valor a cada instante, a aproveitar a brisa da manhã e a só trabalhar frente a uma janela ao sol.

terça-feira, janeiro 22, 2008

Dos dias em que se morre mais

“Ah, não fiz a cama! Esqueci-me. Saí de manhã e nunca mais voltei aqui ao quarto.” Constatou, ficou triste, quis desculpar-se.Quis desculpar-se quando não tinha que o fazer. Não comigo. Nunca comigo. “Oh, é natural, quantas vezes saio e também deixo a minha por fazer.” Disse eu, para amainar o turbilhão de vergonha, ansiedade, angústia e mais vergonha, que, sabia, se ia seguir. Na realidade, sabíamos bem as duas que mesmo que nunca mais tivesse voltado ao quarto, não saíra dali de casa, e portanto deixamos a cama por fazer por razões infelizmente, tristemente, distintas.

Eram quatro da tarde e tinha-se esquecido de fazer a cama. Aquela coisa básica que se fartava de nos obrigar a não esquecer nunca a cada verão e a sermos rápidos a por em prática de manhã, logo após o banho“... que se abrirem a cama ao levantar, tem tempo suficiente para arejar...” – tinha-se apagado da sua memória, das prioridades do dia, pelo menos.

Ao resto já me habituei, ao resto, à sequência das mesmas perguntas sobre os assuntos de sempre: eu, a minha mãe, os meus irmãos, o meu pai, o meu tio, o sobrinho-neto, ao resto, ao ter de responder eu sempre de maneira diferente para não ficar triste ao perceber que acabou de me fazer a mesmíssima pergunta, ao resto, às advertências sempre sentidas, importantes, sinceras, mas despropositadas, acerca do nosso clã, ao resto, aos reparos sucessivos sobre um qualquer pormenor da minha roupa ou do cabelo, ao resto, ao atafulhar-me a pasta, a mala, os bolsos, de coisas absolutamente sem valor, estranhas e supérfluas, a isso tudo já me habituei, obrigou-me de certo modo a isso, também. Ao ter-se esquecido de fazer a cama, não. Ainda não.

Todos os dias morremos um pouco, morrem-nos não sei quantas células, mas há dias em que, morrendo-nos o mesmo número de células do dia anterior, morremos mais. Dias bonitos, como ontem, como hoje, dias de sol, dias frios, dias claros, dias de Inverno; dias tornados noite, dentro, onde não chega o frio, nem o sol descobre uma certeza pequenina, a de que vamos ser eternos na memória dos que amamos.

quinta-feira, janeiro 10, 2008

terça-feira, janeiro 08, 2008

Eu, aqui, ainda de férias, longe da net, a ler...


... uma pilha de livros que a minha Mãe não me deixa comprar deles tão cedo...


Um pé de Alegra-Campo

O alegra-campo enroscava-se preguiçosamente nas estacas da latada, encobrindo alguns ramos da videira de americano.
Ao aproximar-se da Festa, o arbusto sabia que a podoa lhe seria apontada sem piedade. Ia para a lapinha, deixando campo aberto para as cepas que, depois de acordadas pelo podão, voltariam a se estender sobre as varas do pinheiro.
A casa era grande, mas nela vivia apenas uma mulher com mais de oitenta anos. O filho estava na África do Sul, desde os dezasseis anos de idade. O marido morrera, há mais de vinte, depois de tantos anos emigrado naquele Cabo da sua desventura. Quase toda a vida estivera só.
Governava a fazenda com mão de ferro. Desconfiada, deitava-se e levantava-se a fazer contas, com receio de vir a ser enganada, por não saber ler. MAS o seu nome, os meses do ano e alguns números conseguia por no papel. Costumava ter o modelo, no verso de uma gravura de calendário, sempre à mão, na gaveta do armário da cozinha. Quando precisava de passar o recibo da renda, fazia uma cópia demorada.
No ano em que lhe morreu o marido, não deixou de armar a lapinha. Dizia que dava azar não fazê-la. Só que não a construiu na sala, mas na arrecadação do rés-do-chão. Dessa vez, parece que foi maior que nos anos anteriores. A rochinha enchia por completo o quarto. Abria-se a porta que dava para o terreiro e de fora admirava-se o seu presépio. Eram montanhas altas cheias de musgo e algodão branco, deslizando pelas encostas abruptas. Na planície, dezenas de pastores, rebanhos de ovelhas e lagos de fragmentos de espelhos com muitos patos. Na gruta, a cena de Belém, rodeada de passarinhos na lapinha e jarras de vidro com junquilhos e sapatinhos do seu jardim.
No ano seguinte, o presépio voltou à sala de visitas que quase sempre permanecia fechada. Era grande, com uma mesa ao centro, sobre um tapete bastante colorido, e uma dúzia de cadeiras desconfortáveis a toda a volta. Nas paredes, a Ceia do Senhor e o Imaculado Coração de Maria em molduras douradas.
Preferia receber amigos e familiares na cozinha, à volta da mesa com toalha aos quadrados vermelhos e sentados em bancos pintados de azul. Lembro-me do seu sorriso, ao retirar do cântaro de avenca do centro da mesa, dobrar a toalha, abrir a gaveta e atirar as cartas para o jogo da bisca. Eram horas de partidas renhidas.
Depois começou a perder a paciência, deixou de sair, incompatibilizou-se com velhos conhecidos e cada vez estava mais só.
A erva crescia com abundância entre as bananeiras. Algumas latadas haviam caído. O fundo das levadas tinha muitas camadas de terra. O alegra-campo estava maior. No Natal, já não lhe cortava um ramo grande. Minguava a sua presença na lapinha. Ela já não podia subir o escadote, para dependurar a verdura nos pregos da parede, sobre as montanhas de papel pintado.
Há cinco anos, depois de Santo Amaro, não desarmou o presépio. Retirou as searas, o alegra-campo e as cabrinhas e depois estendei um plástico sobre a rochinha. “para a Festa, já não tenho trabalho”, disse-me.
Nos últimos quatro natais, plantou o milho e o trigo em pequenos vasos, mandou cortar um ramo do seu alegra-campo e acendeu a lamparina ao Menino Jesus. MAS já não rezava o terço junto da lapinha, como era seu hábito. Sentia muito frio e o sono abeirava-se dela, a meio do segundo mistério. Metia-se cedo na cama e pedia perdão a Deus, Nosso Senhor, por já não conseguir desfiar as contas do seu rosário.
Morreu só, há alguns meses.
O filho voltou depois do enterro. Desmanchou a lapinha, vendeu os móveis. Fez obras e pintou a casa. Comprou outras mobílias e cortinados, decorou tudo ao gosto da mulher. E cortou o alegra-campo pela raiz, porque dizia que aquele matagal matava a vinha.

Nelson Veríssimo, Passos na Calçada