sexta-feira, setembro 15, 2006

A anedota do dia

Dizem que, nos seus primeiros dias de vida, Adão chegou junto de Deus e perguntou:
- Senhor, o que é uma dor de cabeça?
E Ele respondeu:
- Dá-me uma costela tua e eu mostro-te!


Ehehehehehehehe....

Os meus sinceros agradecimentos ao Moisés por ter contado esta anedota à minha irmã e esta ma ter contado. It made my day!...

Desfazer a mala

Foto.net
Ir de férias é uma ideia muito feliz. Sejam férias grandes, pequenas ou assim-assim, o que importa é poder ir.
Embora a partida esteja sempre associada a alguns gestos que só repetimos nestas ocasiões, há um verdadeiramente simbólico: fazer as malas. O momento em que abrimos uma mala vazia e começamos a enchê-la de roupa, acessórios e objectos pessoais é fantástico.
Entre aquilo que sabemos que queremos levar e aquilo que apenas nos ocorre quando abrimos gavetas e armários, multiplicam-se as possibilidades de escolha. Levar mais do que precisamos é um clássico eterno. Pôr as malas no chão e sentarmo-nos vigorosamente em cima delas até conseguirmos fechá-las, apesar de estarem a abarrotar de roupa, é outro filme muito conhecido. A tentação de levar coisas a mais é universal, aliás. Não conheço ninguém imune a este vício. E, no entanto, todos reconhecemos as vantagens de um certo despojamento.
Neste sentido, a partida para férias e o gesto de fazer as malas, escolhendo o que vai e o que fica, também podem ser usados como boleia para outra viagem: a do despojamento interior. Aproveitar este tempo de descanso para olhar para nós e ver o que trazemos connosco parece oportuno e, até, razoavelmente evidente, mas a realidade prova muitas vezes o contrário. Ir ao fundo das gavetas mais fundas, escancarar todos os armários e desfazer esta espécie de mala interior, que carregamos todos os dias, pode revelar-se um exercício delicado e exaustivo, mas profundamente catártico. Isto, claro, se o conseguirmos fazer sem defesas nem poses.
O medo de desfazer e voltar a fazer a nossa mala interior tem a ver com a quantidade de coisas que temos cá dentro. São tantas, tão variadas e tão caóticas, que é difícil perceber por onde começar. Andamos quase sempre sobrecarregados de coisas (muitas delas muito contraditórias); e, por isso mesmo, é importante tomar consciência daquilo que trazemos connosco. Como? Olhando com olhos de ver, não nos julgando e assumindo que não há nenhum canto de armário ou fundo de gaveta que sejam intocáveis. Ou seja, resistindo à tentação de esconder isto ou aquilo com o argumento de que “isto não porque já é muito antigo e aquilo também não porque vem defamília”. E quem diz estes argumentos, diz outros parecidos com estes, que servem apenas para distorcer o olhar perante a nossa realidade mais íntima e profunda.
Alguém disse que toda a viagem começa em casa, no momento em que nos dispomos a partir. No momento em que fazemos as malas, talvez.
Também a viagem interior começa no momento em que abrimos a mala. Não para a fazer mas para a desfazer. Para ver o que temos guardado e o que precisamos de deitar fora.
Criar esta predisposição para o despojamento passa por querer muito arrumar a casa interior, por assim dizer, e por identificar aquilo que mais organiza ou desorganiza a nossa vida. Como só é possível ordenar a vida se ordenarmos primeiro os afectos, importa perceber que os problemas, os tesouros e as riquezas estão menos nas ideias e mais nos sentimentos. O coração é sempre mais importante que a razão, portanto.
O caos que temos cá dentro tem a ver com impulsos, desejos, inquietações, dúvidas, amores e desamores, que precisam de ser interpretados e organizados. Despojar a razão e o coração é, por tudo isto, uma atitude exigente, mas extraordinariamente regeneradora. Revela abertura de espírito e mostra que estamos sempre a tempo de renascer. De certa forma, põe-nos a “zeros” com a vida e isso é muito bom. Seja à partida ou à chegada de férias.

LAURINDA ALVES (in Correio do Vouga)

quinta-feira, setembro 14, 2006

Maus pensamentos...


Porque a insegurança ataca de mansinho e sem aviso prévio...
Será que alguém conhece boas pessoas no meio académico (em geral e muito especialmente em Portugal)?
Será que alguém conhece, boas pessoas, verdadeiramente humanas, no meio académico (em geral e muito especialmente em Portugal)?
Será que alguém conhece boas pessoas, verdadeiramente humanas, com vida própria no meio académico (em geral e muito especialmente em Portugal)?
Será que alguém conhece boas pessoas, verdadeiramente humanas, com vida própria, livres de espírito e pensamento no meio académico (em geral e muito especialmente em Portugal)?
Será que alguém conhece boas pessoas, verdadeiramente humanas, com vida própria, livres de espírito e pensamento, solidárias no meio académico (em geral e muito especialmente em Portugal)?
Será que alguém conhece boas pessoas, verdadeiramente humanas, com vida própria, livres de espírito e pensamento, solidárias e REALMENTE felizes no meio académico (em geral e muito especialmente em Portugal)?



Estamos a falar de Professores, bem entendido, que é aquilo que eu quero ser e em nome do que estou a sacrificar mais do que devia...

HELP ME!!!

quarta-feira, setembro 13, 2006

Cantar Maio é preciso ...


Canção com Lágrimas e Sol

Para Adriano Correia de Oliveira


Eu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem em dera em Lisboa
Quem me dera em Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa a tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...

Manuel Alegre"Praça da Canção", 1965

terça-feira, setembro 12, 2006

Confissões


O que restará de tudo isto? Rolados séculos e milénios sobre as coisas de aspecto imperecível, o que fica da vaga dos tempos e das fúrias dos ventos? Modos e modas, escolas, estilos, épocas, tudo roda e se muda. Muitas imagens e factos do passado, sabem a absurdo ou ridículo. O jovem sorri da sua imagem em criança. Todos os passados têm um sabor a afecto e repulsa, porque nenhum tempo regressa à realidade no seu tom certo. O sépia dos anos cria luzes e neblinas de tal forma que nada é repetível na sua realidade perfeita. A que vem tudo isto? A este tempo e a todos os tempos que rodam e deixam rastos, caminhos abertos de luz com o seu aspecto de evidência e obscuridade. A face real e simbólica de todas as coisas como que se revolve no nosso jogo quotidiano de referência ao todo, no espaço e temporalidade que nos cabe viver. Felizes as gerações que se revêem em espelhos e modelos, com protótipos que mereçam registo de memória e impulso para acreditar no passado e no futuro. Por isso as sendas luminosas que nos precedem de sábios, artistas, místicos e profetas, nos abrem caminhos para o que temos a criar e percorrer. Como poderia a humanidade sobreviver sem essas referências nos campo do pensamento, da ciência, do belo, e nessa arte indescritível de se relançar no imperecível, infinito e eterno que dá sentido a todo o transitório e efémero? S. Agostinho, ainda no início do cristianismo soube expressar quase todas as perguntas que há no coração do ser humano, dando consistência e sentido à edificação do tempo e do templo que constitui cada ser humano. É bom, numa época de aspecto fútil e imediatista, repousar o coração onde o convertido de Tagaste encontrou repouso: “Tarde Vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim vos procurava… Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós… Tocastes-me e agora desejo ardentemente a vossa paz”. (Das Confissões de S. Agostinho, Lib. 7)
ANTÓNIO REGO (in Ecclesia)

domingo, setembro 10, 2006

Da admirável capacidade de fazer falar uma pedra

Há pessoas assim. Tantas, e no entanto tão poucas, com o dom da comunicação instantânea, verdadeira, interessante.
Há pessoas assim. Como eu, que me considero uma rocha geralmente intransponível em termos de sociabilidade.
Ainda não percebi como, nem sequer porquê, mas o facto é que, socialmente, não há timidez que resista a determinadas pessoas. Normalmente não são bonitas, nem feias, gordas ou magras, pretas, brancas, azuis ou amarelas, são pessoas, apenas. Mas com elas algo de mágico acontece: os assuntos fluem, as barreiras anulam-se, as horas, os minutos e os segundos passam e tudo é agradável, faz bem, faz sentido.
Comigo, que me considero tímida e me furto vezes sem conta ao social – ao contrário do que apregoa (quase) toda a gente que me conhece, isto acontece muitas vezes. Muitas. Mesmo. E se em algumas situações isso já me trouxe alguns dissabores (Porque é que quando se fala três horas seguidas com uma pessoa do sexo oposto, manda a sociedade – o ou a mente do interlocutor, nomeadamente se for do sexo masculino, – que haja obrigatoriamente um interesse emocional por detrás da curiosidade que alimenta a conversa? Comigo pelo menos é o contrário: quanto mais interesse, menos assunto/conversa!). Na maior parte das vezes fazem-se amizades, ou pelo menos conhecimentos que, além de humanamente enriquecedores, costumam perdurar algum tempo, se não vida fora.
Considero que, actualmente (e sinto isso muitíssimo em Portugal!), conversar está fora de moda. Não há tempo. Nem vontade, nem interesse, nem paciência. Para acolhermos o outro no nosso cantinho, para lhe perguntarmos acerca do seu mundo, para fazermos pontes de conhecimentos no dia-a-dia. No dia-a-dia. No quotidiano. Durante o dia. Ao longo do dia. Sem deixarmos de fazer o nosso trabalho com eficiência e profissionalismo e cumprirmos as nossas obrigações com o brio que todos devemos cultivar. Obviamente. Tenho muito enraízada a ideia de que, nomeadamente em Portugal, alguém só fica na disposição para conversar com outra pessoa, devidamente seleccionada de acordo com padrões estéticos mais ou menos estandardizados, à sexta-feira à noite… E convenhamos, seja porque se passou a semana toda enclausurado a trabalhar, seja porque não se tem mesmo interesse em conhecer ninguém profundamente, essas conversas, na maior parte das vezes, deixam muito a desejar …
Parece que ninguém quer sair da bolha que criou, até porque isso além de incómodo, seria uma ousadia, olhada de soslaio por alguns, reprovada por muitos, e (claro!) para ousar temos de ser, nem que seja um bocadinho, loucos. (Ninguém quer ser tido como louco nos dias que correm, por isso é que ninguém anda descalço ou à chuva, ninguém sobe às árvores, dá uns quantos berros quando lhe apetece ou faz o pino!) Isso significaria revelar-se ao outro e deixar a nu todo um leque de falhas, defeitos e inseguranças que aparentemente não temos se não as mostrarmos.
Pergunto-me muitas vezes acerca do futuro de uma sociedade assim, um futuro que, para o bem e para o mal, é nosso. E os augúrios não são muito auspiciosos.
Nos EUA, há uma obsessão que domina as pessoas: toda a gente quer ser rica. E então, trabalha-se muitíssimo. (Quem me dera que se passasse o mesmo em Portugal!) Não obstante, as pessoas já se aperceberam que precisam do convívio e então, pelo menos no contexto da Academia, por da cá aquela palha temos pique-niques e churrascos e festas e … E as pessoas conversam. Mesmo. É possível que seja cultural também. Efectivamente, não há americano que resista a estar ao lado de quem quer que seja, onde quer que seja, sem fazer small-talk. Começa pelo tempo, depois passa para os estudos, depois para o local de origem, desporto, viagens, política, livros, filmes, religião… é uma torrente!
No início estranhei, confesso. Mas agora dou por mim a fazer small-talk onde quer que seja também e a desejar que chegue o churrasco deste mês (é sexta!) para falar com aquela pessoa que encontrei no outro dia, que era conterrânea do Gabriel García-Marquez e tinha imensa coisa para contar acerca do quotidiano dos rebeldes na Colômbia.
Também não me posso esquecer dos meus colegas de casa (qual é a designação correcta para uma pessoa que partilha a casa connosco?), um em especial, que espera por mim, às vezes até às onze, in his words “só para me dar as boas noites”, sabendo perfeitamente que havemos de ficar a conversar até muito para lá da meia-noite sobre a Universidade, o dia, estes dias, nós, os outros, opções, trabalhos e sonhos.
Se calhar, ainda há esperança…
Obrigada M.!


"Autopsicografia"

Ana.Marta

quinta-feira, setembro 07, 2006

Sentimentos do fundo da mala (II)

Da Escolha
“Não gosto de escolher, perde-se sempre alguma coisa com a escolha.” – ouvi há dias. Nunca tinha pensado assim. Mas agora, vendo a coisa por esse prisma, choca-me a profundidade do desabafo.
Fazemos tantas escolhas todos os dias, umas grandes outras mais pequenas, todas significativas… e perdemos sempre algo, muito, pouco, não sei, nunca pensei, mas privamo-nos voluntariamente, consciente ou inconscientemente, em nome de um mal, que cremos, menor. Não há volta a dar-lhe, o facto é mesmo esse: perdemos.
Dizem-me desde sempre que sou incrivelmente inflexível, e essa será porventura a razão por que nunca, até presente, me tinha apercebido da inevitabilidade da perda inerente à escolha. Essa será porventura também a razão por que não mudo. Cheguei há precisamente duas semanas e claro que ainda não tive a oportunidade de estar com todas as pessoas que queria, mas uma coisa é unânime entre os meus amigos, saindo-lhes mesmo antes do “Olá!”, como se a estupefacção atropelasse a polidez na ponta da língua: “Estás igualzinha, incrível, não mudaste nada!” E então replico, mutatis mutandis, os argumentos que já tinha esgrimido quando regressei de Paris: “Estavam à espera de quê? Até parece que não me conhecem? Não achavam que vinha de texanas, chapéu, estrelinha e colete?” E abraçamo-nos, rimos e passamos logo à fase seguinte, a actualização das últimas “do país e do mundo”, vulgo intensivas sessões de cusquice e porventura até de alguma maledicência. Essa será possivelmente também a razão por que tenho dois (melhores) Amigos e uma lista infindável de colegas e conhecidos que a convenção oral, as máximas conversacionais e a implicatura discursiva tornaram “amigos”. Essa será porventura a razão por que a generalidade das pessoas ou me adora, ou me detesta. Essa será porventura a razão por que sou de extremos em quase tudo.

Inflexibilidade? Inflexibilidade.
(O que os meus amigos não sabem é a quantidade de situações (leia-se "apuros") de que o cultivo da dita - Inflexibilidade -, felizmente, já me retirou e nem sequer calculam o quanto me custa ser inflexível, tantas vezes, em certas e determinadas situações, quando é muito mais cómodo e até porventura benéfico para mim no imediato não o ser.)
Há quem lhe chame Coerência, Princípios, Constância, Valores, Personalidade, até Medo!... Os meus amigos ficam-se pela Inflexibilidade. Dizem que me assenta bem. (!?)
No entanto, dadas as circunstâncias, e apesar da Inflexibilidade que, admito, me caracterizará, considero absolutamente impossível ter escapado a alguma mudança, o que quer dizer que, à excepção de um, até agora, os meus amigos são muito pouco observadores. As maiores e mais importantes mudanças não se vêem a olho nu, operam-se no interior de nós mesmos.
Eu própria não sei ainda bem o quê, mas alguma coisa mudou… e bastante.
O "amigo observador" acha que nos meus olhos há um brilho diferente...
Porto, 8 de Junho de 2006

quarta-feira, setembro 06, 2006

Drowsiness

Ofelia.Dali

Ele e Ela


- Então e há quanto tempo és vegetariana? – atira Ele.
Ela não sabe se o que Ele diz, diz sorrindo, se sorri dizendo... Mas diz muito e sorri ainda mais. Ela de saber o muito, já não sabe nada. E não sabendo nada, sabe que o muito é demasiado, tanto de não o ser.
- …
Ela tenta ganhar tempo.
As compatibilidades, os gostos e os interesses sucedem-se a uma velocidade vertiginosa, a cumplicidade cresce exactamente ao mesmo tempo e na mesma proporção que os sorrisos, os olhares e até a conversa… que definitivamente está a ficar por demais perigosa. Para Ele. Para Ela. Para todos.
Daí que, num gesto universalmente infantil, desajeitado e por isso quase terno, Ela indicou “Quatro!” Gestualmente. Não porque estivesse de boca cheia – apesar de o estar – mas porque era imperativo furtar-se à comunicação. Por Ele. Por Ela. Por todos.
Já lhe bastara o embaraço de ter passado o serão todo a arrumar livros com Ele, sob a supervisão da namorada, de lhe saber a vida toda, sob a supervisão da namorada, o serão todo a tentar responder ao que Ele perguntava da forma mais sobranceira possível, sob a supervisão da namorada, o serão todo a tentar conter-se perante as piadas, os risos e as gargalhadas que Ele soltava de cada vez que um deles dizia “Really, me too!”, sob a supervisão da namorada, o serão todo a tentar fugir-lhe do caminho e do toque, sob a supervisão da namorada, o serão todo a dizer de si para si que as coincidências entre os dois não são milagres, apenas partidas que o destino prega para testar os incautos.
Doi-lhe a cabeça, os olhos e os maxilares de tanto cerrar os dentes. Fervem-lhe as maçãs do rosto de tanto o tentar tornar sério… Há umas boas sete horas que se encontra nesse limbo e teme que o momento em que vai inevitavelmente soçobrar ao cansaço esteja próximo, até porque a luta consigo própria tinha sido árdua e não cessara nem por um momento. Ela reza para o tempo passar rápido e o regresso a casa estar por minutos… Até lá, para se enganar a si e ao tempo, e para evitar maiores embaraços, o melhor que consegue é ir ocasionalmente desviando o olhar sob um falso pretexto de um interesse absolutamente científico na observação do ambiente envolvente, até então invariavelmente irresistível para Ela, e, observando, dissecar a atmosfera do Ihop às duas da manhã.
Na verdade, estava perante um ambiente humano absolutamente inesperado, surpreendente até! A um canto, três casais árabes, jovens, faziam-se notar porque discutiam, em tom mais elevado que o normal, se uma das raparigas do grupo estaria ou não drogada; à direita, três pré-adolescentes afro-americanos jantavam calmamente; Ela percebeu de imediato que nessa mesa a média de idade não rondaria mais que os catorze anos e essa constatação sobressaltou-a um pouco; olhou mais em frente, na direcção do único casal americano que estava na sala, e novo baque, mas curiosamente pelas razões opostas, deveriam ter sessenta e muitos anos…
Ela volta-se para o seu prato, vegetariano como o d' Ele, para a comida que Ele está a acabar e que Ela não consegue engolir. Olha em frente, para a namorada, que lhe parece, lhe pareceu o serão todo, pela primeira vez desde que a conhece, insegura. A namorada que considera genial, encantadora, simples e única, a namorada que é uma das pessoas mais interessantes que Ela conhece, que tem habitualmente uma alegria contagiante e sempre um coração do tamanho do mundo, tão grande e tão bom que abrange tudo… A namorada que hoje está diferente.
- Mas comes peixe, certo? – perguntou-lhe o T.
Finalmente alguém que não o dito lhe fazia uma pergunta. Agradeceu a Deus e ao mundo aquela brecha em que pode finalmente desviar o olhar d’Ele sem ter que passar os olhos pela sala, pela enésima vez.
- Nop. No fish at all, for a long time now.
- Eu também não. – disse Ele franzindo o sobrolho num trejeito divertido.
- Ai não? – inquiriu, impondo-se, a namorada.
- Ok, às vezes… - anuiu embraçado, mas logo se volta para Ela e conclui:
- Portanto, és uma vegetariana inclinada para o vegan. – disse Ele com um olhar interessado e exigente, aquele olhar típico de quem está à espera da explicação detalhada das razões da opção.
- Sim. – disse Ela ao mesmo tempo que tenta, em vão, acompanhar a resposta lacónica com um sorriso que pretendia compensatoriamente sincero. (...)
Ela voltou à comida, pensando para consigo: Se não tivesses namorada e eu não tivesse escrúpulos…

segunda-feira, setembro 04, 2006

Anecdotic!


What Your Bathroom Habits Say About You


"You are a giving soul. Way too giving in fact. You often get stuck doing the dirty work that no one else will do.

You spend a lot on clothes, and you tend to be a very dresser. However, it's hard for you to throw away trendy clothes when they go out of style.

You are a little shy and easily embarrassed. You often wonder if you are normal.

In relationships, you tend to take care of your needs first. You can only be with someone who's as independent as you are."

domingo, setembro 03, 2006

O derby cá do sítio








Rice University vs. University of Houston.
Foi ontem. Francamente ainda não percebi a piada. Mas enfim... os americanos divertem-se. E eu também... a observar!

sexta-feira, setembro 01, 2006

De dar a volta à cabeça

ter.*
ter.* de [vr*]
ter.* que [vr*]
ter.* que [vk*]
ter.* [vk*]
haver.* que [vr*]

e muito, muito especialmente

haver.*
haver.* [vk*]
haver.* que [vk*]
haver.* de [vr*]

Alguém me ajuda?

Pérolas...

MAN= 'featherless biped'

Aristotle, Organon

quinta-feira, agosto 31, 2006

Sentimentos do fundo da mala

Aeroporto de Frankfurt, 16 de Maio de 2006 10:05 hora local

Houston fica por enquanto na bruma opaca da memória. Até Agosto.
É verdade que passei o tempo todo com saudades do Porto, manifestei-o abertamente, preocupei muitos, surpreendi todos (até o meu ego!). Custou-me. Mas nos últimos dias no Lone Star State (vulgo, Texas), na minha “casa”, no departamento, nos trajectos matutino e vespertino diários, o meu olhar autonomizou-se para se demorar nos pormenores, numa derradeira e sempre renovada tentativa de fixar momentos e emoções, as saudades de Houston – isso mesmo, leram bem: dos chapéus, das botas, dos coletes, das estrelas, dos cowboys, da comida mexicana, indiana, tailandesa, das saladas, dos Frapuccinos Green Tea da Starbucks, das Bookstores, dos meus colegas e amigos, dos meus vizinhos – começavam a apertar-me o peito…
Adapto-me muito facilmente a qualquer situação, quem me conhece diz que não parece, mas, chegado o momento, surpreende-se. Sempre. É verdade. Não sou esquisita. Mas, francamente, abomino pessoas que tornam a vida difícil ao próximo. (O próximo sou sempre EU, nomeadamente em diáspora.) Não sei como e nem percebo bem porquê, o facto é que a minha cicerone, whoever-wherever-whenever, é sempre universalmente considerada óptima pessoa, a mais altruísta, a mais aberta, a mais divertida, a melhor profissionalmente, a mais indicada para a integração mais fácil e rápida, a melhor pessoa – “O que é que eu disse?” – todavia, por razões que ultrapassam a própria Razão, creio, surge sempre um antagonismo qualquer que a contagia e então incompatibiliza-se comigo, sem nunca mo dizer, mas pregando, aos quatro ventos, mundos e fundos acerca da minha pessoa, em vez de ir à sua vidinha, pequena e cinza, e me deixar sossegada. Complicam-me terrivelmente a vida, estas cicerones. Sempre! Começo a ficar saturada. Enfim… “As respostas que os outros nos dão dizem muito mais sobre eles próprios do que sobre nós”, repito constantemente para mim mesma. Pode ser que um dia acredite… Creio que as saudades de Portugal se ficaram a dever em grande parte a essas desventuras. Claro que também se deveram ao facto de ter travado conhecimento (e amizade) com outros portugueses e o poder mágico da língua, a partir de então usada todas as sextas ao almoço por entre gargalhadas e suspiros, me ter recordado o sentir português e lembrado que um oceano é uma manta de muitos quilómetros sem nenhuma esquina que se possa dobrar facilmente (ou não), como dobrámos o Bojador.
Há um aforismo latino que diz algo como: “Não merece o doce quem não provou o amargo.” Pois, por isso mesmo é que temo que agora os posts sejam menos regulares. Vou embrenhar-me no doce, edredão-sofá-manos-amigos-esplanadas-jardins-livros, e não saio de lá tão cedo. Vou voar, agarrar o azul, beber luz, tocar o céu, apanhar sol, tornar-me mar. Vou aproveitar estes dias mornos para dar um pontapé à chuva e ao frio, sair com os meus amigos, divertir-me, rir até me doerem os abdominais, trabalhar também, é certo, mas menos. Vou reconstruir-me por dentro que é para isso que servem os regressos aos sítios onde somos realmente felizes.
O lugar a que chamamos casa é na verdade onde está o nosso coração.
Muito boas intenções, como sempre!
Depois, o trabalho fala mais alto e os amigos... passam para o plano em que têm razão para se queixar...

segunda-feira, agosto 28, 2006

A Poesia do Dicionário

O Livro da Solidão

Cecília Meireles

Os senhores todos conhecem a pergunta famosa universalmente repetida: "Que livro escolheria para levar consigo, se tivesse de partir para uma ilha deserta...? "Vêm os que acreditam em exemplos célebres e dizem naturalmente: "Uma história de Napoleão." Mas uma ilha deserta nem sempre é um exílio... Pode ser um passatempo... Os que nunca tiveram tempo para fazer leituras grandes, pensam em obras de muitos volumes. É certo que numa ilha deserta é preciso encher o tempo... E lembram-se das Vidas de Plutarco, dos Ensaios de Montaigne, ou, se são mais cientistas que filósofos, da obra completa de Pasteur. Se são uma boa mescla de vida e sonho, pensam em toda a produção de Goethe, de Dostoievski, de Ibsen. Ou na Bíblia. Ou nas Mil e uma noites. Pois eu creio que todos esses livros, embora esplêndidos, acabariam fatigando; e, se Deus me concedesse a mercê de morar numa ilha deserta (deserta, mas com relativo conforto, está claro — poltronas, chá, luz elétrica, ar condicionado) o que levava comigo era um Dicionário. Dicionário de qualquer língua, até com algumas folhas soltas; mas um Dicionário. Não sei se muita gente haverá reparado nisso — mas o Dicionário é um dos livros mais poéticos, se não mesmo o mais poético dos livros. O Dicionário tem dentro de si o Universo completo. Logo que uma noção humana toma forma de palavra — que é o que dá existência ás noções — vai habitar o Dicionário. As noções velhas vão ficando, com seus sestros de gente antiga, suas rugas, seus vestidos fora de moda; as noções novas vão chegando, com suas petulâncias, seus arrebiques, às vezes, sua rusticidade, sua grosseria. E tudo se vai arrumando direitinho, não pela ordem de chegada, como os candidatos a lugares nos ônibus, mas pela ordem alfabética, como nas listas de pessoas importantes, quando não se quer magoar ninguém...O Dicionário é o mais democrático dos livros. Muito recomendável, portanto, na atualidade. Ali, o que governa é a disciplina das letras. Barão vem antes de conde, conde antes de duque, duque antes de rei. Sem falar que antes do rei também está o presidente. O Dicionário responde a todas as curiosidades, e tem caminhos para todas as filosofias. Vemos as famílias de palavras, longas, acomodadas na sua semelhança, — e de repente os vizinhos tão diversos! Nem sempre elegantes, nem sempre decentes, — mas obedecendo á lei das letras, cabalística como a dos números... O Dicionário explica a alma dos vocábulos: a sua hereditariedade e as suas mutações. E as surpresas de palavras que nunca se tinham visto nem ouvido! Raridades, horrores, maravilhas...Tudo isto num dicionário barato — porque os outros têm exemplos, frases que se podem decorar, para empregar nos artigos ou nas conversas eruditas, e assombrar os ouvintes e os leitores... A minha pena é que não ensinem as crianças a amar o Dicionário. Ele contém todos os gêneros literários, pois cada palavra tem seu halo e seu destino — umas vão para aventuras, outras para viagens, outras para novelas, outras para poesia, umas para a história, outras para o teatro. E como o bom uso das palavras e o bom uso do pensamento são uma coisa só e a mesma coisa, conhecer o sentido de cada uma é conduzir-se entre claridades, é construir mundos tendo como laboratório o Dicionário, onde jazem, catalogados, todos os necessários elementos. Eu levaria o Dicionário para a ilha deserta. O tempo passaria docemente, enquanto eu passeasse por entre nomes conhecidos e desconhecidos, nomes, sementes e pensamentos e sementes das flores de retórica. Poderia louvar melhor os amigos, e melhor perdoar os inimigos, porque o mecanismo da minha linguagem estaria mais ajustado nas suas molas complicadíssimas. E sobretudo, sabendo que germes pode conter uma palavra, cultivaria o silêncio, privilégio dos deuses, e ventura suprema dos homens.

domingo, agosto 27, 2006

Porque de quando em vez me apetece saltar para aqui

Pessimismos


- Sou-te muito sincera: às vezes parece que sinto falta de uma companhia...
- Entendo e acho perfeitamente normal, o contrário é que seria estranho!
- ...
- O problema é que nesses momentos (de falta) estamos a idealizar e a esquecermo-nos de que ninguém é perfeito e que a outra pessoa tem tantos defeitos quanto nós próprios e que conviver com uma pessoa significa a toda a hora uma luta connosco próprios para aceitar o outro naquilo que ele é e não naquilo que nós queremos que ele seja.
- (Docemente, ingenuamente chocada para meu deleite!) Mas que pessimista!
- Se calhar... ou talvez não ...

sábado, agosto 26, 2006

La Cogida y la Muerte

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte
y sólo muerte a las cinco de la tarde.

El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde:
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.


Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde.
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡ Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes!
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!


Federico García Lorca (1898 - 1936)
in "Llanto por Ignacio Sánchez Mejías" (1935)

quinta-feira, agosto 24, 2006