quinta-feira, julho 10, 2008

She writes down my heart ...


Em cada hora que passa há horas que se esgotam sem corda a dar corda ao tempo. Cada hora cada inferno a abrir a porta de casa para as labaredas de uma saudade quase inexplicável. Dentro da casa não há cama de ferro mas a ela ato-me com os pulsos tensos da tua partida. Nunca dobrámos lençóis de mar, mas escrevemos muitas vezes mar na cabeceira junto ao espelho da manhã. Cada hora eu rodo num ou noutro dos teus dois ombros num desequilíbrio de filme russo. Sento-me no teu colo, peço que me contes do que sabes e do que virás a saber, que sublinhes as linhas dos pés só para começarmos por algum lado um pouco lógico. E vais ficar aqui assim? Há um lugar escavado nas horas. Um lugar que remonta a outros séculos ainda que o calendário cá de casa avance para a frente. É o que dizem, pelo menos é o que dizem. Eu socorro-me da tesoura e faço a janela no rodapé. Deito-me no chão com aquele vestido da feira e olho. Olho muito. O meu rosto tem essa tradição. Para lá consigo aperceber-me do caminho dos correios, dos papéis pardos numa correria sangrenta e, de quando em vez, a pararem para verem o sol pôr. Consigo sorrir. Cada hora é também uma janela com muitas janelas. Uma construção infinita que em fantasia apenas argumento. É hora de me entender no chão com a janela à superfície do poema. Tenho um corpo irregular e é dele que nasce a certeza da flor que seguro na mão como um tempo de fábula. De novo estou no teu colo a pensar sobre como te hei-de dizer o amor.

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