quarta-feira, agosto 27, 2008

Onde queremos estar

- Então, está onde quer!... Que bom!
- Não, não estou.
- Não?! Então, onde queria estar?
- ...

Tenho muito a mania de olhar as pessoas nos olhos quando falo. Tenho muito a mania de achar que isso conforta. Tenho muito a mania de perguntar. Tenho muito a mania de achar fácil fazer perguntas nunca pensando que podem ser difíceis as perguntas que faço tão facilmente. Como se isso garantisse ao outro que a resposta é fácil. E a resposta é fácil. Todas as respostas são fáceis. Especialmente as (mais) difíceis. Difícil mesmo é ultrapassarmos os nossos medos, as nossas inseguranças, a nossa humanidade, ultrapassarmo-nos, e dizermos fácil aquela palavrinha difícil. Ou aquelas. Conforme. Se calhar, tenho muito a mania.

Quando acaba o meu dia, especialmente ali pelas cinco e meia, seis da tarde, doze horas depois de ter acordado, quinhentas construções possessivas depois de termos tomado o pequeno-almoço, quando por fim saio e ao descer a rua, remexo a mala à procura dos óculos de sol, queria muito estar no teu colo. Ou naquela zona minha entre o teu ombro e o teu peito. Ou dentro da tua mão. Ou de passagem pelo teu pescoço. Ou a meio centímetro da tua cara.

Como se levar comigo uma impressão de ti fosse vital, me assegurasse o ar até ao teu sorriso meu do dia seguinte, de todas as manhãs.

Onde queremos estar pode ser um lugar difícil. Mas, se me perguntasses, dizia-te fácil, fácil, num abraço.

terça-feira, agosto 26, 2008

...

À minha direita, lá fora, estão dois adolescentes. Ela tem o cabelo num apanhado desalinhado encantador, um vestido à medida dos seus dezasseis, dezassete anos e come uma banana. Ele está com a roupa de ontem – tenho uma memória muito visual – e come batatas fritas, como se faz quando passa pouco do meio dia e se tem dezasseis, dezassete anos. Ela está sentada no quadrado interior da fonte de onde nenhuma água sai neste Agosto e ele no quadrado exterior, à sua direita, de frente para ela. Comem despreocupados. E falam para acompanhar. Ainda mais despreocupados. Como se falar fosse tão natural e desimportante quanto comer, quando se tem dezasseis, dezassete anos e se ama assim...

Às vezes, como agora, queria muito ter dezasseis, dezassete anos.

quinta-feira, agosto 21, 2008

Das pequenas maravilhas do quotidiano

Tenho andado a evitar este espaço. Tenho andado a evitar... escrever. Aqui. E não é que o Agosto portugal-de-férias-portugal-deserto-portugal-parado-
portugal-fechado-para-descanso-do-pessoal-até-Setembro se tenha entranhado em mim. Não.
Tenho andado a evitar este espaço. Por causa da escrita de agora que é diferente da daqui. É isso. Já disse, está dito, não digo mais.
Escrita aparte, este é um cantinho de emoções, de surpresas boas, das pequenas maravilhas do meu quotidiano. Apenas.




Hoje, como sempre, passava pouco da hora de abertura, escada acima, rápido, rápido. (Inexplicavelmente, inconscientemente, até há pouco tempo, acelero sempre que subo. A rua. As escadas. Tudo. Sempre. Ao invés, descanso, passeio-me, em todas as descidas. Coisas...)
Noto à minha direita, apenas a meio da escada, uma passada que se esforça por competir com a minha. Olho. Uma cara conhecida. O miúdo que costuma esperar comigo o bater das nove e meia da manhã à porta da Biblioteca. O miúdo que se impacientou há dias. O miúdo que olhou para o lado e soprou para cima porque o telemóvel lhe mostrava as nove e meia e não havia maneira de a porta se abrir. O miúdo que me perguntou as horas para confirmar a certeza do telemóvel. O miúdo que tentei entreter com ridículas justificações adultas que é verão, que a pessoa que abre a porta ter-se-á deixado adormecer, que acontece, que não tarda nada terá os livros todos ao seus dispor, que... O miúdo que me diz que quer lá saber dos livros, vai é para a net e só uma horita que a Lourdes (!) não deixa mais do que isso, é tão chata, o que é muito injusto porque vocês os grandes podem estender-se pela manhã, pela tarde, o dia todo, não é. O miúdo que depois disso, que remédio, vai para o andar debaixo ver filmes. O miúdo que, reflectidamente ou não, queria cortar a meta do topo das escadas antes de mim. Não consegui deixar de lhe sorrir. E atrasar o passo. Retribuiu-me. Um sorriso lindo ilumina-me o dia.

quarta-feira, agosto 13, 2008

As dúvidas dos amigos


- Estás em Braga? (...) é que nunca se sabe onde tu andas !

E eu sempre aqui. Mesmo quando não estou.

quinta-feira, agosto 07, 2008

Os meus poetas - 5



Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito,
[acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais, por muito que a ame,
A colherei.


A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.


"Do ciclo da intempéries 1" , de Dos Líquidos, 1ª ed. Porto, Fundação Manuel de Leão 2000

Tenho-o na mesinha de cabeceira. Para, nesta altura de infindáveis trabalhos, adormecer e acordar. Bem.

terça-feira, agosto 05, 2008

(Do dia) De hoje


Há dias que parecem velhos. Dias vestidos de negro. Cansados, vazios, tristes e sós.


Há dias que parecem domingos. Dias lentos, preguiçosos, de sofá, pijama e apple crumble com gelado.

Há dias que parecem quartas. Intermináveis, esgotantes, longos, longos, longos.

Há dias que parecem regaços. Apegamo-nos a eles, muito, muito, muito; adormecemos neles e adiamos, dia após dia, o acordar.

Há dias que parecem remoinhos. Absorvem-nos até ao âmago e afastam-nos do nosso mundo.

Há dias que parecem verões. São os dias dos amigos, dos almoços, das conversas e dos risos, dos telefonemas à beira-mar, ao fim do dia.

Há dias que lembram um cais. Um adeus grande, até sempre.

Há dias que parecem uma parede. A que segura o edíficio e nos segura a nós ao entrarmos nesse novo mundo.

Há dias quietos. E bons. Todos nossos, para guardar.

Dias como hoje.

segunda-feira, agosto 04, 2008

No Banco, por causa de um sorriso verde-musgo...

Que Banco é Caixa, aprendemos todos há tempos. De Pandora, aprendi eu apenas ultimamente. Tenho andado às voltas na caixa de Pandora que é qualquer banco, estes dias muito mais vezes do que desejaria. Que tudo o que seja máquina e eu somos absoltutamente incompatíveis, não é novo; que me debitem duas vezes compras no cartão de crédito de-que-me-estão-a-debitar-sempre-tudo-duplamente na mesma semana em que, para evitar isso mesmo, faço ao balcão uma transferência bancária internacional, que, claro, não chega ao destino, é que me parece conspiração do Universo, bancário, contra mim.

Vou sempre ao mesmo banco, trato de tudo com o mesmo senhor, sempre. Ele já me conhece. “Olá Menina, é o costume, não é?” A mesma pergunta que me fazem todos os dias ao pequeno-almoço, o costume também, desde há sete anos, com a interrupção dos EUA pelo meio. Gosto quando alguém assim me diz Menina exactamente assim, detecto no tom uma maiusculação de carinho que me consola como se me desse colo... Trato de tudo sempre com ele, dizia. Excepto a semana passada. Que aborrecido o senhor não estar cá! Deve estar de férias, supus. No lugar dele, um rapaz que eu nunca vi por aqueles lados, muito branco, muito novo, muito atarefadamente profissional. A senha mostra-me uma fila de dez pessoas até chegar a minha vez e eu não tive remédio senão esperar. E olhar o rapaz, a única novidade naquele espaço, exíguo, que já conheço de cor.

Parece-me demasiado novo para aquelas cãs, tantas... Parece-me demasiado branco para aquele fato cinzento, para aquele cabelo, loiro escuro, e para aqueles olhos, verde-musgo. Aquelas cãs. Aquele cabelo loiro escuro. Aqueles olhos verde-musgo.

Aquelas cãs. Aquele cabelo loiro escuro. Aqueles olhos verde-musgo.

A maneira como compomos as palavras interiormente é terrível. Pode mesmo ser cruel. Há palavras que juntamos para algumas pessoas apenas e quando as aplicamos a outras há um alarme que soa dentro. E a advertência chega natural, os olhos baços do abarrotar de dias de uma vida de outrora, agora.

Aquelas cãs... Chega a minha vez, sei porque oiço ao longe o meu número, encaminho-me para aquele som automaticamente. “Está a sentir-se bem?” Não oiço. “Perguntei-lhe se se estava a sentir bem?” mais alto, ouço. “Sim, sim, peço desculpa, por momentos estava longe daqui...” “Logo vi.” Sorriu-me, largo, sincero, bonito. E não consegui retribuir-lhe o sorriso, não consegui encontrar dentro o sorriso que aquele sorriso merecia. “Queria cancelar este cartão...” – disse, sorriso pequenino no olhar, o melhor que arranjei, disse, muito viva, muito objectiva, muito apressada, também. Mexe no computador e sempre a olhar para baixo, “Hum... zangou-se com o cartão, foi?...” E aí, não resisti, se há coisa que me derrete é uma boa Metáfora, uma tirada espirituosa, metáfora, metonímia, trocadilho, chalassa, o que for... Ofereci-lhe o melhor sorriso que consegui junto com as desculpas pelo que lhe havia negado injustamente minutos antes. “... Sim... não... talvez... um pouco, sim...” Novo sorriso largo e eu a corar. “A bem da minha conta bancária e da minha sanidade mental e da vossa, este é mesmo melhor cancelar!” Todo o vermelho do mundo a sorrir nas minhas bochechas. “Já está, ... Joana.” Estremeci. Empalideci. O meu nome. Ok, hora de ir embora. Rápido. “Já? Então, muito obrigada. Adeus, até à próxima.” “Adeus.”

E nas próximas vezes que as houve também, ainda há pouco, tratei de tudo com o senhor do “costume”. O rapaz cumprimenta-me com a cabeça e aquele sorriso. E eu procuro, dentro, em vão, o sorriso que umas cãs assim, uns cabelos loiro-escuro assim e uns olhos verde-musgo assim levaram outrora para parte incerta.