sábado, março 31, 2007

Se...

Se podes conservar o bom senso e a calma
Num mundo a delirar para quem o louco és tu...
Se podes crer em ti com toda a força de alma
Quando ninguém te crê... sê faminto e nu,

Trilhando sem revolta um rumo solitário...
Se à torva intolerância, à negra incompreensão,
Tu podes responder subindo o teu calvário
Com lágrimas de amor e bençãos de perdão...

Se podes dizer bem de quem te calunia...
Se dás ternura em troca aos que te dão rancor
(Mas sem a afectação de um santo que oficia
Nem pretensões de sábio a dar lições de amor)...

Se podes esperar sem fatigar a esperança...
Sonhar, mas conservar-te acima do teu sonho...
Fazer de um pensamento uma arca da aliança,
Entre o claraão do inferno e a luz do céu risonho...

Se podes encarar com indiferença igual
O triunfo e a derrota, eternos impostores...
Se podes ver o bem oculto em todo o mal
E resignar sorrindo ao amor dos teus amores...

Se podes resistir à raiva e à vergonha
De ver envenenar as frases que disseste
E que um velhaco emprega eivadas de peçonha
Com falsas intenções que tu jamais lhe deste...

Se podes ver por terra as obras que fizeste,
Vaiadas por malsins, desorientando o povo
E sem dizeres palavra, e sem um termo agreste,
Voltares ao princípio e construires de novo...

Se puderes obrigar o coração e os músculos
A renovar um esforço há muito vacilante,
Quando no teu corpo, já afogado em crepúsculos
Só exista a vontade a comandar avante...

Se vivendo entre o povo és virtuoso e nobre...
Se vivendo entre os reis, conservas a humildade...
Se inimigo ou amigo, poderoso ou pobre
São iguais para ti à luz da eternidade

Se quem conta contigo enco0ntra mais que a conta...
Se podes empregar os sessenta segundos
Do minuto que passa em obra de tal monta
Que o minuto se espraie em séculos fecundos...


Então, a ser sublime, o mundo inteiro é teu!
Já dominaste os reis, os tempos, os espaços!...
Mas, ainda para além, um novo sol rompeu,
Abrindo o infinito ao rumo dos teus passos.

Pairando numa esfera acima deste plano,
Sem receares jamais que os erros te retomem
Quando já nada houver em ti que seja humano,
Alegra-te, meu filho, então serás um homem!...
RUDYARD KIPLING

sexta-feira, março 30, 2007

Chegou-me por mail

Subject: Magnífico artigo na Visão online! - Criancinhas!
A DEVIDA COMÉDIA
Miguel Carvalho

A criancinha quer Playstation. A gente dá.
A criancinha quer estrangular o gato. A gente deixa.
A criancinha berra porque não quer comer a sopa. A gente elimina-a da ementa e acaba tudo em festim de chocolate.
A criancinha quer bife e batatas fritas. Hambúrgueres muitos. Pizzas, umastantas. Coca-Colas, às litradas. A gente olha para o lado e ela incha.
A criancinha quer camisola adidas e ténis nike. A gente dá porque a criancinha tem tanto direito como os colegas da escola e é perigoso serdiferente.
A criancinha quer ficar a ver televisão até tarde. A gente senta-a ao nosso lado no sofá e passa-lhe o comando.
A criancinha desata num berreiro no restaurante. A gente faz de conta e o berreiro continua.
Entretanto, a criancinha cresce. Faz-se projecto de homem ou mulher.
Desperta.
É então que a criancinha, já mais crescida, começa a pedir mesada, semanada, diária. E gasta metade do orçamento familiar em saídas, roupa da moda, jantares e bares.
A criancinha já estuda. Às vezes passa de ano, outras nem por isso. Mas não se pode pressioná-la porque ela já tem uma vida stressante, de convívio em convívio e de noitada em noitada.
A criancinha cresce a ver Morangos com Açúcar, cheia de pinta e tal, e torna-se mais exigente com os papás. Agora, já não lhe basta que eles estejam por perto. Convém que se comecem a chegar à frente na mota, no popó e numas férias à maneira.
A criancinha, entregue aos seus desejos e sem referências, inicia o processo de independência meramente informal. A rebeldia é de trazer por casa. Responde torto aos papás, põe a avó em sentido, suja e não lava, come e não limpa, desarruma e não arruma, as tarefas domésticas são «uma seca».
Um dia, na escola, o professor dá-lhe um berro, tenta em cinco minutos pôr nos eixos a criancinha que os papás abandonaram à sua sorte, mimo e umbiguismo. A criancinha, já crescidinha, fica traumatizada. Sente-se vítima de violência verbal e etc e tal. Em casa, faz queixinhas, lamenta-se, chora. Os papás, arrepiados com a violência sobre as criancinhas de que a televisão fala e na dúvida entre a conta de um eventual psiquiatra e o derreter do ordenado em folias de hipermercado, correm para a escola e espetam duas bofetadas bem dadas no professor «que não tem nada que se armar em paizinho, pois quem sabe do meu filho sou eu».
A criancinha cresce. Cresce e cresce. Aos 30 anos, ainda será criancinha, continuará a viver na casa dos papás, a levar a gorda fatia do salário deles. Provavelmente, não terá um emprego. «Mas ao menos não anda para aí a fazer porcarias».
Não é este um fiel retrato da realidade dos bairros sociais, das escolas em zonas problemáticas, das famílias no fio da navalha? Pois não, bem sei. Estou apenas a antecipar-me. Um dia destes, vão ser os paizinhos a ir parar ao hospital com um pontapé e um murro das criancinhas no olho esquerdo. E então teremos muitos congressos e debates para nos entretermos.

quinta-feira, março 29, 2007

Coisas que me baralham o riso com o choro

Um must, entre muitos certamente.

- O X. é mestrado em Arquitectura e vai responder ao nosso desafio...


Manuel não-sei-quê, repórter de exteriores

de A Bela e o Mestre da TVI


Mas também quem me manda a mim fazer zapping nos intervalos dos jogos de futebol!

terça-feira, março 27, 2007

segunda-feira, março 26, 2007

Por causa de dois raios de sol


Muitas casas cabem no coração. O próprio coração é uma. Casa. Com muitas ou poucas pessoas lá dentro, dependendo de quem é. Meu ou dos outros.

Não tenho muitos amigos. E quando digo que não tenhom muitos, é porque não tenho mesmo,: tenho um, bom, digno da maiúscula, de sempre, para sempre. Um. Só. Depois tenho duas ou três, daquelas de minúscula, mais conhecidas - colegas, companheiras, coetênas, ambas, contrerrânea, uma - que amigas. E isso é um problema. Porque não é normal, dizem-me, não ter uma lista infindável de amigos. Porque nunca se sabe o dia de amanhã, dá jeito, conheces mais gente e vais a mais sítios e fazes outros amigos, porque assim nunca tens com quem sair, vais ao cinema com quem, sozinha?, que horror, e jantar fora? deus me livre! Mas ainda há pior, porque és uma convencida, arrogante, achas que és boa demais para nós, que não precisas de ninguém, que estás acima de toda a gente, que o comum dos mortais te aborrece, que és mais, melhor, que queres mais, melhor.

Não acreditam, mas não se trata de nada disso. O facto é que - custa-me admiti-lo, mas é verdade - gosto muito, muitíssimo, mais do que de mim às vezes, de muito poucas pessoas. A quem gosto dedico uma devoção de intensidade e duração ilimitadas, mas são poucos os que me entram no coração. Verdadeiramente. E eu só funciono com verdadeiramentes.

Quando venho cá, tento sempre encontrar o meu melhor amigo para lhe dar um beijinho e dizer olá. Nem mais, nem menos. Não é preciso, nunca foi. Ele também é uma pessoa ocupadíssima: o ministério que tem a seu cargo não lhe permite muito descanso.

Conheci-o no Secundário, sentava-se atrás de mim. Aliás, a última fila horizontal de mesas da sala era ocupada pelos seminaristas. Uma coisa leva à outra, eu sendo eu, as outras sendo tão outras, acabámos por fazer as traduções de Latim os dois, em grupo, do 10º ao 12º. Não me recordo já de muito, se calhar dizia-lhe uma ou outra palavra etimologicamente derivada nos testes, possivelmente espreitava-lhe a tradução e verificava se estava bem o suficiente para passar, não me lembro, mas lembra-se e diz, porque consta nos cânones cá da Diocese que a Joana era a defesa que lhe permitia ir ao ataque... Coisas do S.

Verdade, verdadinha, não andávamos sempre os dois, nem coisa que se parecesse. Eu era muito profissional; ele, religioso. Dava-lhe os bons dias de manhã, trabalhavamos durante as aulas de Latim e Grego, num ou outro intervalo cruzava-me com ele e era só. Às vezes ao fim do dia lembro-me que subia com os seminaristas, todos, para casa. Mas nada para além disso. Mas revendo agora esses anos, penso que a nossa cumplicidade cresceu e solidificou-se mercê de um episódio banal nas aulas de R.P. (sim, tive Relações Públicas no Secundário!): um debate. Debatia-se não sei o quê, sei que tudo parou, quando o S. disse que ninguém trata melhor dos filhos que a mãe. Tradução para a turma: O lugar da mulher é ao fogão! A confusão instalou-se, o S. ficou para sempre como o ignorante machista que ainda bem que ia ser padre porque mulher nenhuma toleraria partilhar a sua vida com alguém assim, um assassino de carreiras.

Como de costume, não participei na discussão, até porque debates não são o meu forte e a opinião que tinha foi a que lhe dei no caminho para casa. Estava coberto de razão. (E sim, sou machista: adoro que me levem a mala, as compras, que me beijem a mão, me deixem entrar primeiro e me puxem a cadeira!). A partir daí, que me recorde, pouco ou nada mudou, pelo menos para mim. Para ele, aparentemente, passei da melhor aluna da turma à melhor pessoa possível - de onde, nem sei.

Faziam-se apostas, ridículas, daquelas que são muito importante aos dezasseis, dezassete anos. Qual dos oito seminaristas qual chegaria ao fim? A turma era unânime: o S. e o G. Porque os outyros namoravam, aqueles não e até mais certamente o S. porque era machista e claro está, fica sempre bem a um padre sê-lo (?), o G., o G. se calhar ainda se safava, encontrasse ele a mulher certa (!). Palermices de décimo primeiro ano que nunca me cativaram. Nunca perdi tempo com isso. Pensava mais no meu futuro, bem mais complicado, porque menos certo, menos delineado que o deles. Mas a turma tinha razão.

O S. e o G. são padres hoje. Fui à primeira missa de cada um, mas a do S. foi especial. Nunca chorei tanto dentro de uma igreja. Tudo esteve bem até ao fim, mas com o fim vieram os cumprimentos e o absolutamente inesperado "Joana, muito obrigado, não estaria cá se não fosses tu. " Não aguentei. Ainda hoje evito pensar nisso, porque ainda hoje não me consigo conter. Foi sincero. Vi perfeitamente, no olhar, nas mãos que apertavam as minhas, no silêncio que fez depois. Foi sincero. E absolutamente incompatível com o orgulho que tinha sentido ao longo da missa: o quanto aquele rapaz tinha crescido, o quanto estava bem naquele ministério tão nobre, o quanto me honrava ter partilhado com ele 3 anos da minha vida no ambiente mais salutar!... Sempre fomos amigos, sempre o ajudei, lá em casa toda a gente sabe que é o meu seminarista favorito, o único que chamo de amigo, por quem peço todos os dias, mas isso são coisas minhas, as minhas adulações, perdão: adorações privadas, nunca pensei que... Obrigado... Obrigado... Obrigado... a bailar-me na cabeça.

Foi há três anos. Agora, o G. está em Roma a completar uma pós-graduação. O S. está cá, na Madeira, tem quatro paróquias - uma das quais a que frequento -, dá uma ajudinha numa outra e lá de vez em quando vai a Paris e a Perth fazer o mesmo. O tempo escasseia, não estica e a família e os amigos habituaram-se ao contacto quinzenal, breve, mas a cada vez desprendido, autêntico, alegre e sincero.

Portanto, é já com alguma naturalidade que, após a missa, o vou cumprimentar e perguntar-lhe como está. No início, numa das primeiras vezes, só se deu conta de que eu estava lá... a meio do sermão, engasgou-se, e eu achei graça; ri-me e pisquei-lhe o olho: tinha que continuar. Continuou. E bem. Depois, no fim, foi o costume, tens que avisar quando vens, para dizer umas coisas mais bonitas, de pendor clássico, puxar de umas quantas etimologias.... Rimo-nos. Anda cá para te apresentar aos acólitos, podia ser vossa professora se estivesse cá... que exagero, é muito generoso, o S., não liguem, vocês já o conhecem...

Bem, passou o Verão todo e não o vi, a missa esteve sempre a cargo de outros. O mês passado não o vi. E então ontem, finalmente, após pesquisa aturada do meu pai (Obrigada!) lá lhe consegui dar o abraço do costume. Fomos todos tomar café, para deleite (ou não) de tudo quanto é paroquiana - ... mas... S. , tu vê lá; ... há que fazer as pessoas felizes, vão ter com que se entreter a semana toda, Joana. É um favor que lhes fazemos. Rimo-nos. (Estamos sempre a rir.)

Actualidade dos pais, irmãos, amigos e conhecidos devidamente dissecada, passamos ao trabalho, meu, dele, à alegria que era ver-me, ao paraíso que é acabar um fim de semana tão agitado naquela esplanada a relembrar bons tempos e uma amizade que fazia ir à escola valer a pena, ao casamento da irmã do Cristiano Ronaldo, o primeiro a cargo dele, à genuína simpatia do CR contrariamente ao que toda a gente diz, ao meu casamento que não tem data limite porque a Joana é a Joana e tem que se confiar nela (paizinhos, ouviram?) porque ela nunca faz nada errado, nem fora de tempo (!) (caríssimas amigas colegas e demais conhecidos e conhecidas, estão a ouvir/ler?), ao carro que é novo e que só tem um raspãozinho de um dia em que o sol estava tão bonito sobre o mar que não me contive a olhar os dois raiozinhos e depois, depois olha... foi isto!

Foi isto. Não precisei de explicar mais nada aos meus pais. É meu amigo. Daqueles do peito, do coração, que entram para não sair mais, nunca! Porquê? Por causa de dois raios de sol.

quarta-feira, março 21, 2007

No Dia da Poesia...

... umas das minhas de eleição.

Arte poética

o poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema
o poema é esculpido de sentidos e é essa a sua forma
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva,
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança, ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras
que não se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio
lugar que não se diz e significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pelas janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
e comia as torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto os olhos do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se, e a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, e é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e isso não é o poema, não é
a raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torraão de terra a centar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é
a carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palara poema,
a palara poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.

José Luís Peixoto, A criança em ruínas

segunda-feira, março 19, 2007

Há 4000 anos atrás...



... era com plaquinhas de argila. (Na Babilónia).

Nos EUA é com postais. (Um postalinho por dá cá aquela palha, também!)

Na escola primária também era com postalinhos, manufacturados. Depois vieram as prendinhas, depois as prendas, depois a distância e os telefonemas. Nunca mais pararam os telefonemas - agora acompanhados de net. E... e não há prenda melhor!

Já falei com o meu. A todos os que por aqui passam o desejo de que os vossos vos tenham relembrado que as fraldas pesadas e malcheirosas, as doenças súbitas e graves, as contas astronómicas do telefone, a inflação irracional da mesada, as impertinências e as mudanças mais ou menos constantes de humor, valem muito. Cada minuto. Que tenham tido um excelente DIA DO PAI!

sexta-feira, março 16, 2007

Bullseye!


Oh Professora, mas eu sei. É irmã! Até as mãos cheiram igual!
Cheira igual, são irmãs!!!


J.M. (8 anos), esta tarde.

quinta-feira, março 15, 2007

A palavra do dia



Blá, blá, blá, "... o apoio, silente ou manifesto...", blá, blá, blá...


Burburinho no fundo da sala.
Com ares da típica enjoadice crónica, a finalista de Letras:
- Oube lá, "ciente" é com "C"!
- "Ciente"? O que lá está é "silente", com "S", naturalmente.
- Mas afinal o que é "silente"? - diz o engenheiro finalista, uns quantos décibeis acima do normal, do desespero, suponho.
- "Silente" significa "silencioso".
- É engenheiro, não se está logo a ver?! - apressou-se o Coordenador, esperando assim fazer a piada que desanuviasse o ambiente.
- Engenheiro sim senhor, "O" Engenheiro que tem a ousadia de perguntar! Porque perguntei a estes dois Enfermeiros e ambos encolheram os ombros e achavam que eu me ia contentar com o "Não sei" que me deram. (Aqui os dois Enfermeiros coram como se toda a adrenalina do mundo tivesse migrado para aquelas quatro bochechas). O Engenheiro, sim senhor, com muito gosto!

Moral da História:
A malta não lê - Camilo Pessanha, poesia, livros em geral...
A malta não sabe - escrever, falar, comunicar.
A malta tem vergonha de perguntar - os outros, sempre o que pensarão os outros se...
Sou má - podia ter escolhido outros adjectivos, entre os quais o sensabor "silencioso".
As meninas de Letras continuam a ser as tinhosas de sempre - salvo raríssimas excepções.
Alguns Engenheiros ainda se safam!

quarta-feira, março 14, 2007

Há dias em que vale mesmo a pena...

... sair da cama, de casa, de nós.
Há dias em que os olhos, ou o coração, às vezes - com sorte - ambos, aquecem na mesma proporção em que o sol brilha. Mesmo que se esteja em Março, e num qualquer centro urbano.
Nesses dias não há aço, nem cinza, nem betão, nem Inverno, nem Verão, nem sequer Primavera... Não há. É. Tudo. Tudo o que se quiser. Tudo o que se nos é mostrado. Tudo. Só. E chega.
Esses são o reverso dos dias que mais frequentemente se apressam na memória: mais sombrios, frios, longos, vazios... aqueles dias em que se acorda sem água quente, em que o secador avaria, se perde o metro, ou o comboio, ou ambos, em que se sucumbe à tentação de pensar que a culpa é nossa, mea culpa, mea culpa, mea culpa, que o outro tem sempre razão, que isso de... e de... e ... isso então já não existe, porque as pessoas são assim e assado e não sabem ver e não merecem e ainda pensam que estás mas é maluca e se riem de ti pelas costas, mea culpa?... Pensa-se demasiado, o chocolate encrava na máquina, o computador bloqueia, a pen deixa de funcionar, quebra-se um tacão e só não se encontra um gato preto no regresso a casa porque não calhou olharmos muito para além dos senhores de meia idade que deveriam deixar os piropos de quinta para as suas homólogas - que as deve haver por aí também...!
São muitos estes dias de reverso. Ou, por outra, se calhar nem são. Mas pespegam-se ao nosso inconsciente de uma maneira tão ridícula, odiosamente perene, absolutamente impossível de igualar por parte dos dias bons.
A minha rua é pequenina, interior, escusa e escondida algures no centro do Porto. Raros são os taxistas a que não seja preciso indicar outras três ruas e a vizinhança de um certo Instituto... Perpendicular a uma das mais longas, célebres e movimentadas artérias do Porto, a minha rua poderia considerar-se num dos seus extremos uma ruinha de caixotes habitacionais, de gosto duvidoso alguns, com uma pastelaria tradicional de donos artolas aqui, uma outra, moderna, especial, três metros acima; uma frutaria igualmente tradicional (mas com um dono mais honesto que o da primeira padaria) ali, uma florista que, além das flores, vende periquitos e coelhos e hamsters acolá, uma tasquinha especial, uma loja de desporto à beira da falência, uma loja de louças, uma churrascaria e uma tabacaria, em idênticas condições. No outro extremo, o cenário é menos tradicional, pululam os colégios, e supermercados, e tabacarias e pastelarias cheias de vida, adolescentes...
Prefiro o lado mais sossegado da rua. Não pelo sossego, que esse cheira a traças em nafetalina, mas porque esse é o lado dos sorrisos, dos acenos e dos olás bem dispostos. No lado movimentado, não conheço ninguém. Ninguém se dá a conhecer também. Mas no lado sossegado, a história é outra. As pessoas estão à janela quando saimos de manhã e, intuitivamente ou não, quando regressamos ao início da noite também. Se vimos a casa almoçar, às duas da tarde estão à porta e dizem "Até logo" às vezes mesmo sem articularem palavra, com os olhos, ou com o sorriso, ou ambos.
Com o Tiaguinho é assim. O Tiaguinho era um miúdo quando mudámos para cá. Não tínhamos fogão ainda, o meu pai e o meu irmão juntam-se sempre os dois à esquina quando se trata de explorar uma nova tasquinha e, esquina dobrada, lá estávamos nós, os seis, a almoçar alegremente. Podia (vir a) ser meu aluno, o Tiaguinho. Teria aí uns doze anos, que não passaram despercebidos a ninguém, mas que só a mim e ao meu pai impediam a comida de descer. Nem à força de muitos líquidos. Estávamos nas férias da Páscoa de há três anos e o meu pai perguntou-lhe se gostava de ajudar o pai nas férias. "Gosto, mas não é só nas férias, é sempre!" O sorriso triste contradizia a assertividade do discurso, fiquei baralhada. "Então e a escola?" - insistia o meu pai. "Disso é que não gostava." - gargalhada sincera, menos mal. (Pois... pois... pois... Mais um que a Escola não soube... - pensava eu e a comida além de custar a descer já não me estava a saber bem.) Fomos embora, pisquei-lhe o olho e dei-lhe uma gorjeta potencialmente interessante. Dez olhos revirados para cima, risos, "... é sempre a mesma esta rapariga, podia ser teu aluno, já sabemos!", risos. Acho que desde então ficámos secretamente ligados pela fraternidade da piscadela. Fazia isso sempre que eu passava e ele estava à porta. Depois, acabaram-se as férias. Voltei às aulas na Faculdade, pus os ténis e os jeans de lado - pôs a piscadela de lado, conjugava fatos e malas - conjugava olás com mega-sorrisos. E é esta a história do Tiaguinho, meu fã número um - dizem as más línguas lá de casa.
O meu fã número dois quase podia ser pai do Tiaguinho. Quase. Deve ser pouco mais velho que eu e conhece mais de mim que a minha entidade patronal, por exemplo. Foi durante mais de dois anos a primeira pessoa a quem dava os bons dias, viu-me ensonada, pouco penteada, cansada, enfim, o meu fã número dois é o senhor da padaria. Muito simpático, aliás nem sei... até porque é pouco falador, mas sempre me serviu bem e ainda me oferecia pão ralado (de cada vez, sem eu lhe pedir) - é por isto... as más línguas são terríveis! - não tenho portanto qualquer tipo de razão de queixa do senhor. Mais, o dono da padaria, que deve ser pai dele, faz o mesmo e o outro senhor (tio?) também. Por isso, tenho para mim que tudo isto se deve ao seguinte: para eles tenho cara de comilona e vai daí a operação de charme, perdão marketing, para manter o freguês (satisfeito). É verdade que o homenzito, mais novo, me/nos dá as boas tardes e as boas noites, quando, porventura, está à porta da padaria (também), e buzinou e acenou sorrisos há dias à minha irmã mais nova, quando na realidade já não somos fregueses (fui para os EUA e o meu irmão foi acometido por uma súbita, e crónica, economite aguda), mas é simpático da parte dele. E calha bem, passa a ser fã de toda a gente e não meu fã número dois - embora tenha que trabalhar mais nesse sentido, porque isto da fama é um custo para se ver livre!
Bem, como por esta altura já devem estar a pensar nos atributos que tenho e que não tenho e no que sou e que não sou, é chegado o momento de dar o seu a seu dono e explicar que o mérito é da rua. É a rua das coisas bonitas. Na maior parte das ruas do género do Porto passam-se coisas estranhas, nesta passam-se coisas bonitas.
Domingo passei a tarde no Palácio do Freixo. Havia uma exposição de Camélias que eu queria muito ver e, por gosto ou por persistência, consegui que fossemos. Fomos, então. A exposição deixou muito a desejar, a organização/CMP e a educação/civilidade das pessoas também, porém não me arrependi nada de ter ido porque o dia estava maravilhoso, a vista fantástica e a companhia do melhor! Já no regresso, ao descer a rua que dá acesso à nossa, deparámo-nos com uma situação sui generis: no passeio oposto ao nosso, duas meninas, de treze ou catorze anos -nem sei bem, desciam algo apressadas. Por momentos ainda pensei em intervir porque aparentemente o semblante fechado e a anormal rapidez de ambas se devia ao rapaz que descia ao lado delas, de bicicleta, rua abaixo. (Eu e a minha maternidade universal, leia-se: constante desconfiança! Brrrrr!!!!)
"E um beijinho, não?"
Gostava da do lado de dentro do passeio. Pediu-lhe o número de telemóvel, que a amiga, do lado de fora, deu. Pediu-lhe um beijo. Não obteve a resposta que queria, mas os (sor) risos bastavam por hora. "Talvez para a próxima." - disse-nos, com um olhar indeciso entre o maroto e o sonhador e um sorriso do tamanho do universo.

terça-feira, março 13, 2007

Outrora agora


Acontece de vez em quando. Muito de vez em quando.


-Professora, professora, professora...!
-Diz.
-Chuuuuuuaaaaaaaaaacccccccccccc!!!!!!!!!!

segunda-feira, março 12, 2007

Com força?!

Só porque quem me mandou, pode... muito!

7 coisas que faço bem:

-Dar mimo aos meus (tinha que ser em primeiro lugar, foi resposta unânime dos ditos);
-Aborrecer/tirar a paciência/tirar do sério os meus (tinha que ser em segundo lugar ipsis verbis mutatis mutandis);
-Analisar (pessoas: situações e comportamentos);
-Criticar (não se pense que sempre construtivamente);
-Lutar pelo que devia ser e - infelizmente - não é;
-Dar massagens (ah pois é!...);
-Cozinhar (sim, e daqui a nada tenho que fazer o jantar!).

7 coisas que detesto:

-Pessoas que se julgam "monstros sagrados" (curioso: essas nunca o são);
-Que me digam: "És tonta!" (terei cara de cavalgadura do Lucky Luke? Não me parece!);
-Má educação;
-"Lambe-botismo" (professor sofre!)
-Incompetência;
-Telemóveis ligados/que tocam nas conferências, nos concertos e na missa.
-Entrecosto (quando ainda comia carne).

7 coisas que me atraem no sexo oposto:

-Olhar-Sorriso (é tudo uma coisa só, ou pelo menos assimilo-o(s) dessa forma - Um olhar bonito antecipa sempre um sorriso igual!);
-Audácia;
-Determinação;
-Capacidade de criar/manipular uma linguagem (ai, ai... a minha eterna reverência a escritores, músicos, bailarinos e actores, mais ou menos profissionais);
-Capacidade de sonhar;
-Pragmatismo;
-Inteligência.

7 coisas que costumo dizer:

-"Não te preocupes, eu resolvo-te isso. É para quando?"
-"Diesel - Some things never change!" (Tirado do Forrest, com adaptações!);
-"You can't fool me, I can see you... you're in that little basket!" (tirado de uma very brittish joke, mas aplicável a todo o tipo de situações do foro familiar em que pretendem passar-me a perna;
-"De facto...";
-"Que exagero!";
-"... o Vítor Baía, claro!"; "Pois..., já se fosse o Vítor Baía..."; "Há sempre o Vítor Baía...";
-"Manda lá que eu corrijo/traduzo num instantinho."


Seguem-se dois queridos: Cemremos e Guevara!!!

quinta-feira, março 08, 2007

O grande Dia mundial d...



Ela (de fato de treino): Queria requisitar o livro X, por favor...
O funcionário da biblioteca: Só a partir das seis da tarde... são as normas... Mas - olhando-a de cima a baixo, hum... é da Faculdade? ... É que este livro só pode ser requisitado por alunos da Faculdade.
Ela (olhando por si abaixo e para ele): Sou. E vou esperar, afinal já são cinco e meia...

Às seis:
Ela: O livro X...
A funcionária da biblioteca: Peço desculpa pelo meu colega, é novo ...

quinta-feira, março 01, 2007

A velhice, o dinheiro e os males do mundo


Morando no Porto, vou a Braga várias vezes por semana.
Trabalho. Orientador: mais trabalho. Trabalho. Trabalho até mais não. Só trabalho. Trabalho. Aliás, só muito recentemente é que me apercebi de que talvez algum do ex-ciúme tivesse alguma, ainda agora pouca, pouquíssima, razão de ser... porque o Orientador, que eu venero, põe-me a trabalhar, pelo menos uma vez por semana - aquela em que nos encontramos, doze horas. Em média. Crónicas de um PhD...
Mas voltando ao "só muito recentemente", só muito recentemente porque de cada vez que vou a Braga t-r-a-b-a-l-h-a-r, quero ir visitar a minha tia e, por força das circunstâncias, não posso - tendo que me deslocar lá num dia em que não vá a Faculdade. Obviamente.
Já falei cá da minha tia, é religiosa, daquele religioso que se escreve com o "i" maiúsculo anteposto a um nome - que nem é o dela de baptismo... - é a minha tia favorita, tem Alzheimer e está no Sameiro em Braga, um exílio muito duro para todos, muito doloroso e muito forçado para ela, e, quanto a mim, absolutamente nefasto para a pouca sanidade mental que lhe resta. Mas isso são outras histórias...
Dizem que Braga é uma das cidades mais jovens da Europa, será certamente, em especial se se apanhar um dos autocarros que vão para a Universidade do Minho. Porque para os lados do Sameiro a juventude que vai no autocarro, mesmo nos bancos de trás, tem toda para cima de setenta anos.
Um grupo de quatro senhores chamou a minha atenção. De bonés de fazenda todos, bem vestidos - ou pelo menos convenientemente agasalhados, com os casacos de fazenda que oscilvam entre o cinzento e o castanho -, dentes moribundos, dentes que faltam, rugas que se impõem - e sobrepõem, olhos cansados, olhos vivos, alianças, às vezes aos pares, e uma conversa refrescantemente animada. Estavam sentados no lado oposto ao meu e falavam sobre um assunto que aos meus vinte cinco anos interessa. E muito. O dinheiro.
Porque "... No outro dia vi eu, dois aqui, olhe neste banco, sentados assim na pontinha, para deixar o meio do banco a fazer de mesa. Para jogarem às cartas, pois claro! No autocarro!" Depois outro: E, senhor Manuel, e aquele... não conhece aquele senhor que está sempre ali nos bancos da Avenida a jogar às cartas? Riquíssimo, o homem! Só quintas!!! Quem me dera a mim!" Foi aqui. Aqui tive que olhar para o homem, o mais discretamente possível - o que me é impossível na realidade, quem me conhece já sabe: fingir, mentir, inventar desculpas e olhar discretamente... - porque alguém na idade da reforma com ambição é algo, no mínimo, digno de atenção. Logo vieram os outros: "Oh! E você que fazia com o dinheiro?" "Ter dinheiro para quê?" Ele: "Olhe, comprava um carro e ia aqui e ia ali, passeava!" Exactamente! - pensei. Mas não disse, sorri-lhe, até porque já estava a olhar para ele há algum tempo. Tive que lhe sorrir. Mesmo. Num assentimento mais ou menos disfarçado a que ele foi indiferente. Importante, importante era que os outros lhe percebessem a perspectiva. Importante, importante, era que os outros, coetêneos, o compreendessem no seu admirável pragmatismo. Importante, importante era abraçarem os outros a vitalidade, a confiança neles mesmos e a certeza de um futuro melhor, sem idade, ser possível e próximo. Porém, voltando à carga, não se cansam os outros: "Em família pobre, quando se morre, há pouco, não há zangas. Veja os ricos, morrem, é tudo à bulha. Porquê? Por causa do dinheiro." E mais: "Olhe aqueles que ganham os milhões, ganham isso, perdem o sono, olhe perdem tudo o resto! Não dormem, desconfiam de si e de mim, de todos, até do escriturário que de um momento para o outro é capaz de lhes levar tudo." E ainda: " Senhor João, o melhor é ter o contadinho para o dia-a-dia e saúde todos os dias".
"O contadinho para o dia-a-dia." Tão português! (Tão triste! Tão pequeno! Tão desconsolado! Tão abandonado! Tão oco! Tão velho!)
O homem também deve ter pensado isto, li-lhe no sorriso e no gesto de ombros, mais ou menos desconsolado, que fez para sacudir a incompreensão dos pares.
Como eu o entendo! - queria dizer-lhe. Mas eu tenho menos cinquenta e cinco anos que ele: quero dar a volta ao mundo, acho que o Amor é real, acontece mesmo e é para sempre, vejo-me mãe, gosto de sol e de gelados, de livros, de música e de flores... Não era a minha anuência ou a minha compreensão que ele procurava.