segunda-feira, setembro 29, 2008

Um travo doce a laranja com açúcar

Às vezes, como agora, sinto muitas saudades dos meus avós. A maior parte das vezes é de um deles apenas. Mais do meu avô, mais da minha avó, depende. Depende. Não sei bem de quê. Mas depende.

Quando chega o Outono lembro-me da minha avó. Lembro-me das tardes de chuva grossa da Madeira dos meus seis anos, ping, ping, ping a gotejar da vinha para o nosso quintal. Lembro-me da minha avó nas tardes em que, depois de uma manhã inteirinha de copianço descarado de tudo o que fazia o Manuel, tinha que o ouvir queixar-se do meu descaramento aos pais a duração inteira da boleia que sempre me davam, fizesse chuva ou sol. Lembro-me da minha avó nessas tardes a descalçar-me as galochas cor-de-rosa para ir almoçar. Era um custo! Lembro-me da minha avó no Outono por causa dos nossos almoços ao som da chuva e dos meus quadradinhos de laranja com açúcar para a sobremesa. Não há Outono que não me saiba à laranja com açúcar, não há chuva grossa que não me lembre os meus almoços da primária com a minha avó.

Ela perguntava-me, então e o que fizeste hoje na escola, e eu dizia: um ditado, contas e um desenho; e quantos erros tinha o ditado, ela continuava, e eu: oh tinha um; amanhã será melhor, dizia-me, e eu: sim, talvez, não sei, só o Manuel tem zero erros, mas também o Manuel lá na Venezuela andava já na terceira classe, eu nunca andei na terceira classe, eu só fui para a escola o ano passado, e o Manuel tapa muito o trabalho dele para eu não ver, está sempre com o braço por cima da folha e eu assim não...; não te preocupes com isso, fizeste também um desenho, desenhaste o quê, desenhei uma galinha, e a professora colocou todos os desenhos na parede e então pôs o meu desenho exactamente ao lado do desenho do Manuel e assim não dá porque se vê perfeitamente que a minha galinha é igual à dele, as duas, lado a lado, exactamente iguais, não é justo. E a minha avó ria-se. E eu não percebia, mas também me ria. E a comida escorregava melhor assim e o tempo passava rápido, ao contrário da chuva.

O Manuel mudou de escola no final desse ano, quando apenas eu e ele tínhamos zero erros no ditado e os meus desenhos começavam a diferenciar-se dos dele. Acabaram-se os queixumes, as boleias, os acenos agradecidos da minha avó aos pais dele, acabou-se a nossa competição. Não acabou nunca o apoio e o interesse da minha avó por tudo o que sempre fiz na escola. E acho que é isso que está no travo doce de laranja com açúcar de que sinto tanta falta a cada Outono. A minha avó morreu há precisamente dez anos na semana em que entrei na Universidade.

terça-feira, setembro 23, 2008

Ai, o tom!

Não gosto de talheres, pratos e copos de plástico. Não gosto de esferográficas que não sejam bic ou molin. E não gosto de fita-cola.

Não gosto. Se puder, como outra coisa, mais rápida e menos saudável até. Se puder, escrevo a lápis, ou com a caneta bic ou molin – vermelha, verde, preta, que tiver. Se puder, meto a prenda num envelope de papel ou num saco de tecido, esqueço o papel de embrulho.

Tenho muito a impressão de que a minha geração é a dos plásticos de comer e para comer, a da primeira coisa que se apanhar para um rabisco mais importante na palma da mão e muito, muito, muito, a da fita-cola. Para tudo. É certo que não é coisa bonita, mas, transparente, quase nem se dá por ela e faz bem a sua função: cola. Cola até daqui a nada, até à noite, até amanhã, até depois, até o dia em que em que se rasga o papel na busca do conteúdo.

Este fim-de-semana, ao falar ao telemóvel com uma amiga, não passou despercebido a outra, durante a minha breve chamada, o meu tom de voz algo alterado, melífluo. Disse-me. E eu não tive muitas palavras. Pois. Sim. De facto.

Disseram-me um dia que há palavras que juntamos apenas para algumas pessoas. Por acaso junto muitas palavras, porventura iguais, para mais, muito mais, do que algumas pessoas, felizmente. Mas digo-as de maneira diferente, muito diferente, espero, conforme a pessoa a quem me dirijo, especificamente. Era esse o caso.

Há pouco mais de meia hora, na minha hora indecente de almoço, passei pelo centro de Braga e detive-me numa montra de uma loja por que já não passava há muito tempo. Ainda lá estava algo que cobiçava desde essa altura. Sem pensar muito entrei, dei as boas tardes e logo veio um senhor – que me pareceu ser o dono, marido da senhora que estava no outro balcão – que se encaminha para mim, muito profissional. Perguntei o preço, inusitadamente barato, pedi para ver, sorri, disse que ia levar. Muito bem, respondeu-me o senhor, muito profissional, novamente. Abre uma gaveta tira uma caixa, abre outra tira algodão, coloca-o sobre o algodão, fecha a caixa. Distraio-me. Abre o armário, tira papel de embrulho, não é preciso, é para mim, inclinei-me para dizer, não disse. Não quis desconcentrar o senhor que media e dobrava e cortava o papel para embrulhar. Sem pressas. Olho para os lados à procura do fim do processo, da fita-cola. Não há. Abre outro armário, um carro de fita. Eu a olhar para o senhor e para a fita, eu a prever o que se ia seguir e a tentar reter dentro a emoção. Meio metro de fita enfeita, encima e segura a prenda que me ofereci a mim própria esta tarde. Meio metro de fita que não prende, nem cola, nem rasga, segura. Meio metro de fita relembrar-me-á sempre que as pessoas de há duas ou três gerações têm maneiras extraordinariamente bonitas, singulares, de nos darem um bocadinho delas. Seja na nossa fotografia de há quase um ano que nos colocam à cabeceira, seja a embrulhar uma prenda com fita, seja a pensar num sítio que seja mais do nosso agrado e encaminhar toda a gente para lá, seja a dizer então, muito obrigado, Menina. E é por isso que o tom de voz muda.

E não é que é mesmo

isto?

terça-feira, setembro 16, 2008

segunda-feira, setembro 15, 2008

O que fazemos aos outros

Somos capazes das maiores atrocidades para com o outro. Por vezes quase inconscientemente. Por vezes, deliberadamente. Algumas vezes porque nos destruíram a nós e não conseguimos ver nosso, nem próximo nem claro, o caminho da felicidade, continuamos o ciclo, vamos magoando, ferindo, massivamente, automaticamente, ininterruptamente.

Também somos capazes das maiores e melhores coisas. Para o outro. Foi o que pensei no outro dia quando tomámos café. Nunca eu seria capaz de te transformar naquilo que és hoje. Nunca eu seria capaz de te transformar. O pior mesmo é que acho que nunca vou ser capaz de transformar ninguém. E gostava. Gostava muito. Um pouco à semelhança do escultor, possuir a preciosa capacidade de moldar, transformar, tornar belo aquilo a que se dá corpo. Gostava. De querer usar essa capacidade. Mas não. Gosto mais de pessoas. Gosto demasiado de pessoas. Tenho em mim tão total e completamente o fascínio da diferença que é valor, que é beleza, que é unicidade, que não vejo defeitos. O gostar, qualquer gostar, cega-me. Não vejo o que pode ser melhor. Quando vejo, peso, relativizo, subestimo; e nunca, mesmo nunca, penso em mudar. Abraço tudo. Quero fazer parte de tudo, por dentro. Não quero a minha assinatura, numa roupa, num relógio, num corte de cabelo, num regime alimentar, num bordão de linguagem, num estilo de vida. Gosto de ver-me no sorriso, no olhar, no toque, no trejeito da boca ou do nariz que eu sei serem só meus, porque vejo nascerem, sempre da mesma forma, sempre renovados, apenas para mim.

Eu sempre soube. Eu sempre disse. Eu sempre te disse. E tu nunca quiseste acreditar, ainda hoje não acreditas, e pensas que cada palavra minha a cada palavra tua é é uma possibilidade, um regresso, uma janela para o tempo em que só tu compunhas o nós que sonhavas letra a letra, palavra a palavra, dia a dia, projecto a projecto.

Eu nunca seria capaz de transformar-te. Eu nunca seria capaz de transformar-te assim. E por isso, também, eu sempre soube. Eu sempre disse. Eu sempre te disse. Ainda sexta-feira te disse.

quinta-feira, setembro 11, 2008

Acho que...

... ganhei um amigo.

Quando chego, das vezes em que chego sozinha, e portanto mais eu, e portanto séculos antes da hora de abertura, e portanto fora da bolha amada, e portanto mais eu, ele começa a sorrir já do fundo da rua, onde me vê; ele chega e não quer saber da fila que se está a compor, lentamente, naturalmente, ao longo da entrada; ele ultrapassa toda a gente; ele espreme-se no espacinho que houver à minha direita. E sorri. Sorri-me. E eu digo-lhe olá, então tudo bem e ele diz sim entre o princípio e o fim do seu sorriso. E sobe comigo as escadas, e eu atraso o passo, e ele atrasa o dele, e sorri, continua a sorrir.

E eu queria muito hoje contar do frio maior que senti na vida, há cerca de dois anos, quando estive no ground zero mas agora, tenho um calorzinho bom no coração, não pode ser.

quarta-feira, setembro 10, 2008

terça-feira, setembro 09, 2008

O triângulo


Os ingleses não conhecem a expressão “triângulo amoroso”, que eu pessoalmente nunca percebi muito bem, também, por associar desde sempre o triângulo à perfeição, à completude. Em Inglês então, a expressão equivalente é: the square in our triangle, o que me parece a todos os níveis mais adequado, faz muito mais sentido, pelo menos.

O Jorge Luis Borges diz que quatro coisas apenas merecem ser tornadas livro, a saber: “... uma luta pelo poder, uma viagem, uma história de amor entre duas pessoas, uma história de amor entre três pessoas...”

Cá para mim, que não vou escrever nenhum livro – hoje, pelo menos – não consigo deixar de ver as vírgulas entre as quatro transformarem-se em sinais de igualdade, precisamente quando a ordem das quatro se baralha e as torna um todo indivisível, uma só, uma única, a mesma, coisa. Mas isso, isso deve ser de não conseguir deixar de as olhar. Ou da minha cabeça.

Todos os dias no comboio, quando me sento e olho para a frente, sinto um calafrio moer-me dentro. Há um senhor de meia idade, que, depois de colocar a sua pasta nos assentos ao lado esquerdo do seu, cumprimenta com um aceno de cabeça uma senhora de meia idade que se costuma sentar atrás dele. Muito arranjada, muito bonita, muito doce, ela tem os olhos maiores, mais escuros e mais tristes que eu já vi. E quando a outra entra, é vê-los, como eu pelo reflexo do vidro, mergulharem, perdidos, naquela tristeza profunda que vem não sei de onde e tudo mina, sempre. Eu a vê-la chegar, todos os dias e a fazer figas, todos os dias, para que hoje seja o dia em que a senhora dos olhos grandes não suspire, não se encolha, não se importe. Perceba o filme tremendo que está a fazer, só ela, dentro da sua cabeça às madeixas loiras. E eu a olhar para a outra e a pensar como é que o senhor de meia idade não vê que a senhora de meia idade, e onde tem a cabeça para se desdobrar em sorrisos e gentilezas e salamaleques para a outra que está longe de perceber que ele, e é tão hirta, tão seca, tão austera... de tão jovem.

E foi assim que me pus a pensar em como a juventude pode ser o lago negro em que os olhos da senhora de meia idade se afundam todos os dias. E foi assim que me pus a pensar que a sensaborona do comboio sou eu também, aos olhos, ácidos, de uma outra senhora, que já deixei de pretender conquistar há muito.

Mas isso é quadrado para uma outra história.

domingo, setembro 07, 2008



Houve um tempo em que eu era naturalmente menina. Nesse tempo, havia algumas coisas que me faziam rir. Muito. Havia poucas coisas que me faziam chorar. Muito. E havia muitas, muitas, muitas coisas que eu não entendia. Nada, disse-me alguém uma vez. Não entendia mesmo. Não por não ouvir, não por não perceber, não por não compreender. O significado de cada palavra, frase, enunciado, acto de fala, era muito claro, mas simplesmente não me dizia nada... Tudo coisas que me passavam ao lado. Sem significarem. Sem me magoarem.

E eu era feliz e menina assim.

Há pouco, com o objectivo de armazenar os ficheiros do computador em discos que não *O* disco, embati de frente com uma data de documentos de texto, a saber, conversas que tive no msn a partir dos EUA, imagine-se! (Sim, que eu, além de passar os dias a pensar no dia de Natal e no 24 de Abril, além de me sentar sempre no mesmo sítio no comboio e no metro, e na Biblioteca, além de comer sempre a horas e quando possível, bacalhau, guardo algumas conversas de msn – as bonitas para além do tempo...) Li uma ao calhas. Começava doce. Eu descrevia o sucesso que o meu arroz-doce tinha feito numa Culture Fair da Universidade. Falei de avós, de "complicómetros", dos meus planos para ir a NY, dei mimo, e – palermice – reclamei um postal...

“Não sei onde encontrar selos.”

Houve um tempo em que eu era naturamente menina. E havia muitas, muitas, muitas coisas que eu não entendia. Nada, disse-me alguém uma vez. Hoje, se não entendo é deliberadamente, esforço-me para evitar que a clarividência me cegue os movimentos. Hoje, se não sei como deixar de ser menina é por não querer largar aquela réstiazinha de esperança no cumprimento das promessas dos outros.

quarta-feira, setembro 03, 2008

O que está escrito na cara


Ele perguntou de uma maneira estranha. Como se soubesse. Como se fosse óbvio. Como se não pudesse ser de outra maneira. Foi desconcertante, declarativo. E isso caiu-me mal. “Não és fumadora, pois não?” E, quase sem tempo para respostas, já me puxava a cadeira e nos estávamos a sentar na parte dos não-fumadores. “Não, não sou.” Sorri, ainda lutei contra mim para a coisa se ficar por ali, mas não resisti. Irónica, o não, não se nota que não sou, a que acrescentei o meu sorriso foi automático. E eu ainda assim a ferver por dentro, aquela assertividade imensa, sonora, que não me deixava. “Não tenho cara disso, pois não?”

“Não. Nada. Tens cara de mamã.”

Cara de mamã. Eu. Eu que, após anos e anos, décadas, de audição atenta de perfis traçados por amigos e menos amigos, acho que tenho um sorriso de dezassete anos, uma covinha na bochecha direita de dezasseis e a doçura natural de quem tem... quinze, vá.

Eu, mamã. Esqueçam o estranho, esqueçam o desconcertante; isto é verdadeiramente avassalador.

Oh. É do vestido. Será? Do vestido? O vestido é daqueles de cintura subida. É azul, pelo joelho, é lindo, lindo, lindo, as sabrinas são azuis escuras, também, e têm uma fitinha bordeaux em toda a volta. Não. Não pode ser. Eles nunca reparam nessas coisas.

É porque o ando a ajudar. O Freud explicaria isso muito bem. Na volta, uma terapiazita vinha-me mesmo a calhar. Eu que pensava que estava a ser muito profissional!... Ao emprestar os livros, até pedi para ele tirar cópias. (Porque os preciso de volta o quanto antes.) Ao fazer a listinha dos artigos, nem os elenquei por ordem de imprtância. (Não que não me ocorresse, mas não tive tempo.) Ao aceder a tirar-lhe algumas dúvidas, marquei sempre à hora de almoço. (Para não perder muito do meu tempo, novamente.) Porque é que eu nunca consigo ajudar de uma maneira profissional? Se calhar porque eu não sou o Freud. Mas porque é que eu quando ajudo, mesmo que seja em termos de trabalho, sou maternal? Que coisa!

“Joana, estás a ouvir? Dizia-te que vais ser uma mamã fofinha.” Não estava. Mas “fofinha”, isso sim já era um adjectivo digno; um condiz, pelo menos, com o meu sorriso e a minha covinha e a doçura que dizem que eu tenho.

Estava agora a pensar neste meu almoço de ontem porque ao vir para cá dei de caras com uma série de revistas que davam conta da nova cara da princesa Leti. Nunca gostei muito da princesa Leti. Não consigo ultrapassar aquele “Cala-te, deixa-me falar.” que não concebo de ninguém, nunca, na minha esfera muito pessoal, e, portanto, estranho na boca da então futura esposa do soberano de uma nação. Displicências à parte, cada vez me convenço mais de que o que vivemos fica-nos escrito na cara. E isso parece-me tão extraordinário quanto humano. Um dom maravilhoso. Um tesouro a manter. Em gesto de dádiva, em aberto. Pelo tempo fora.

terça-feira, setembro 02, 2008

Um barquinho de papel





E eis que o Verão chega ao fim de facto. O metro começa a passar a horas, o comboio volta a encher-se, as caras conhecidas regressam aos lugares do costume. A normalidade do barulho e do riso e das discussões e dos afectos torna à minha casa.

E eis que o Verão chega ao fim de facto. A Faculdade reabriu, os encontros com o Orientador recomeçam, os cafés de fim de tarde no sítio do costume com os amigos abrandam, quase cessam, já não há tempo. A vida flui mais exigente e depressa, muito depressa, agora que é Setembro.

Não se sentou sem antes pedir licença. Sorri-lhe um sorriso muito pequenino, tinha dores e calor e frio, tudo ao mesmo tempo, e, aborrecida, tentava disfarçar tudo muito bem com o livro que tentava, muito em vão, ler. Se tivesse a minha idade, não levava sorriso nenhum porque simplesmente há dias assim, dias em que o sorriso nos rasga a cara em vez de a iluminar. Sorri-lhe um sorriso muito pequenino, o automático a qualquer pedido de licença. Gosto de pessoas que pedem licença. Só as pessoas mais velhas é que pedem licença, já reparei. E eu. Eu também. Porque gosto. É bonito. (De vez em quando ganha-se com isso um sorriso. E os sorrisos são importantes para os meus dias.)

No banco em que se sentou, na generalidade dos bancos, havia publicidade acerca da Red Bull Air Race do próximo fim-de-semana. A CP não terá nenhum comboio ao serviço, blá, blá, blá, blá... Levantou o papel, sentou-se, leu e começou a dobrá-lo. Voltei ao meu livro, às dores, aos calores e aos arrepios. Algures entre isso e uma história das Histórias (belíssimas!) para uma noite de calmaria, há um cheiro que me desperta, um cheiro familiar, um daqueles cheiros muito nossos, só nossos, da infância: o cheiro a tabaco do meu avô. O cheiro a tabaco do meu avô numas mãos, com unhas amarelas do fumo de décadas como as dele, numas mãos ágeis que faziam um barco com o papel da publicidade da Red Bull Air Race.

Um barquinho de papel. Só as pessoas mais velhas pedem licença. Só uma pessoa mais velha pensaria em fazer um barquinho com aquele papel em menos de um quarto de hora de viagem. O meu avô foi quem me ensinou a fazer barcos de papel. Lembro-me bem, estávamos sentados no canapé da rua e ele, pacientemente, dobrava, abria, fechava e depois dizia vá, agora tu, e eu saltava etapas, esquecia-me e ele, sempre paciente, ainda não é essa parte, primeiro dobras aqui para dentro, entendes, vezes sem conta, toda a paciência do mundo a migrar das suas palavras para as mãos. Optou por me ensinar a fazer um chapéu, primeiro. Um chapéu de papel equivalia a metade do processo de um barquinho. Saber fazer um chapéu é portanto meio caminho andado para alguém como eu fazer o barquinho. E eu, língua de fora, a dobrar, a dobrar, agora é que é, agora é que vou conseguir fazer tudo sozinha. Eventualmente consegui. Nunca sairia dali para lanchar ou para o que fosse sem o conseguir. Ele sabia, sabíamos os dois. Ele divertia-se com isso, eu entretinha-me com o desafio.

Ao cair da noite fazia ambos, chapéu e barquinho, com a mesma destreza que ele. E ele sorria orgulhoso e eu sorria satisfeita. E ele punha-me no colo para vermos juntos as cores do dia que acabava e eu apontava o rosa, o azul e o roxo do fim da tarde sem saber que mais de um quarto de século depois seriam estas recordações que me dariam colo e soprariam para longe as dores.