sexta-feira, outubro 30, 2009

Inevitabilidades

Eu já sabia que ia ser assim. A água do rio nunca é a mesma, os dias também não. Eu já sabia, mas como ontem deu tempo, e saí de casa mais ou menos à mesma hora, como ontem deu tempo, e nem fiz muito por isso, só corri, corri, corri, a rua toda a encolher, os minutos a alargarem, alargarem, aquele tempinho suficiente para eu carregar o título, descer as escadas, apanhar o metro, sentar e encostar as costas à certeza boa daquele anjo e de estar viva, achei que hoje também.

Mas hoje não. Hoje o anjo meteu férias que estes são dias de bruxices e, para mais, não foi o trânsito na casa-de-banho a atrasar-me; hoje foi a minha preguiça a vencer o sono que nem tinha, o calorzinho da cama a cortejar minhas prioridades, as minhas responsabilidades, eu a tentar equilibrar tudo, só mais um bocadinho, só mais um bocadinho, eu acrobata, eu malabarista, eu, aquele torpor, eu quase quase a cair para nenhuma rede, eu a levantar-me e a fazer tudo muito rápido.

Eu a chegar ao semáforo, a virar para a Costa Cabral, eu a começar a correr, a ver-me correr, correr, correr, como ontem, quando Lena, oh Lena, ouve, não tens um lenço? Primeiro que a Lena, um quilómetro à frente de tudo, ouvisse um lenço?, costas surdas para o marido, costas cegas para o filho, já eu lhes tinha dado o meu pacote - o miúdo estava aflito, o pai em cuidados - deixe estar, tenho outro, fique com ele, só tem três, bom dia! Eu a recomeçar a correr, a pensar calhou bem, a Lena não tinha; a contar os minutos no relógio da Farmácia, faltam quatro, consigo descer as escadas e carregar o título se não estiver ninguém, como ontem, consigo, consigo.

Eu moeda na mão, eu título na mão, eu pressa na mão, eu isso tudo e duas pessoas antes de mim na máquina, olhe, desculpe, sabe como é que se pode, sei - sei que o metro já era, o comboio igual, a Biblioteca longe, o meu trabalho pior, o meu trabalho a esvanecer-se, Braga por um canudo muito canudo -, então para onde quer ir? ok, e de quantos títulos precisa? e viagens?, ora bem, mas já tem um, não é?, então vamos comprar um título - eu professora, eu a pensar há quanto tempo não conjugo verbos na primeira pessoa do plural... - e carregá-lo com duas viagens, dois e quarenta, sim dá troco, tome lá o recibo que isto às vezes..., ok para a sua mulher, muito bem, e agora o seu, o seu é só carregar, é mais fácil e rápido - o meu metro, o das sete, lá em baixo, a chegar e a partir - assim, tome lá o seu recibo também, e agora, menina?, agora é por ali, é só descer as escadas, obrigada menina, de nada, então.

Pelo menos agradeceu. E chamou-me 'menina'. Às vezes as palavras, mesmo as quase vazias, saem dos gestos em boa hora. E acalmam um bocadinho as inevitabilidades que nos teimam em cumprimentar, minha senhora, como tem passado?, algumas manhãs. Lá fiz o meu carregamento nas calmas, e, devagarinho, entregue à sorte do dia, desci as escadas, sabendo que ninguém lá em baixo, sabendo que só eles, o meu sorriso polido, porventura o meu mais vazio, abandonado, e a réplica: não está ninguém, sabe se temos de esperar muito?, dez minutos, ah, tudo bem, sorri daqui a dez minutos passa outro e em menos disso põem-se lá, sorriram. Temos tido sorte com o tempo, não acha?, sim, por acaso, daqui a nada é Novembro e. E chegou o metro e entrei e eles entraram, e sentei e eles sentaram.

Não somos daqui, estivémos cá a visitar, somos de Leiria mas vivemos na Suíça, a minha mulher é colombiana - ela sorri, um sorriso lindo ilumina-nos aos três - casámos na Igreja de Fátima e prometemos que sempre, então vamos lá abaixo ao Santuário..., que bonito!, acho que fazem muito bem, aquilo agora está diferente, houve obras e, ah mas nós, não é coisa para muito tempo, uma avé-maria e um pai-nosso, só. Não resisto, dou-lhe o meu melhor sorriso, aquele que nasce, cresce, e vai para o mundo, antes que eu, o da covinha única do lado direito..., a mulher meneia com a cabeça, sorri igual, mas sem covinha - não há disso na Colômbia, falha resolvida com encolher de ombro pequenino -, entendemo-nos.

Saí em Campanhã, adeus menina, adeus, façam uma óptima viagem, aproveitem o dia!, e apanhei a vida de sempre, o comboio-cafézinho-Biblioteca-Braga - canudos hoje só no cabelo... Eu não percebo muitas vezes, mas o meu anjo. Nunca falha.

quarta-feira, outubro 28, 2009

De Agradecer



Coisas que se trazem de quinta-feiras de Novembro nos EUA e que ficam na bagagem.

Be thankful that you don't already have everything you desire.
If you did, what would there be to look forward to?

Be thankful when you don't know something,
for it gives you the opportunity to learn.

Be thankful for the difficult times.
During those times you grow.

Be thankful for your limitations,
because they give you opportunities for improvement.

Be thankful for each new challenge,
because it will build your strength and character.

Be thankful for your mistakes.
They will teach you valuable lessons.

Be thankful when you're tired and weary,
because it means you've made a difference.

It's easy to be thankful for the good things.
A life of rich fulfilment comes to those who
are also thankful for the setbacks.

Gratitude can turn a negative into a positive.
Find a way to be thankful for your troubles,
and they can become your blessings.

Não sei se agradecer será a melhor maneira de mostrar que se está agradecido. Não sei se diz da comoção, da surpresa da benção, do encantamento, da comunhão. Provavelmente não diz, disse-o eu, escrevi, agora mesmo, aqui, esmiuçadamente. Mas agradecer é uma maneira, a minha primeira, reflexo inusitado, gesto automático, de dizer o quanto as boas pessoas que conheço por cá fazem brotar dos seus gestos para os meus dias o que de melhor a vida tem.

terça-feira, outubro 27, 2009

O que levamos daqui afinal


Quando na minha cozinha daqui cheira a bolo de maçã com canela, é porque é Domingo à tarde e alguém fez chá e me apeteceu só por isso - algumas vezes pior, algumas vezes só porque sim... - o bolinho. Quando o despertador toca às sete, às sete e vinte, às oito menos vinte, às oito, e lhe bato para, shiu!, só mais um bocadinho, só mais um, só, é porque é segunda-feira e não vou à Braga, porque segunda-feira é o dia de resolver burocracias de CTTs, CGDs, Seguranças Sociais, Finanças e de cuidar da casa, da roupa, das plantas, e de mim. Quando se ouve passos de passarinho na coxia à minha esquerda, ou então Mamã! e toda uma conversa numa língua passarinho, ou então Papá! e nova conversa na mesma língua, é porque a tarde vai a mais de meio e as mães e os pais que foram buscar os filhos à escola, vêm buscar os livros de que precisam, filhos numa mão, a lista bibliográfica na outra. Se o soalho na Madeira faz deslizar o tapete sobre a cera, é porque é Natal, a minha mãe anda impaciente e desorientada e num corrupio alucinante do serviço que tem que se colocar na máquina, mas não todo, que há peças que não podem ir porque, da toalha que já não presta porque os guardanapos desapareceram-lhe das proximidades, da gaveta que não se abre, das caixas de enfeites que não encontra, do absurdo que é faltar tão pouco tempo e haver tanta coisa para fazer, que vocês, nós pois..., chegam sempre em cima da hora, é sempre a mesma coisa.

Há coisas pequeninas que fazem parte de coisas de tamanho variável que fazem parte do nosso mundo e que lhes dão sentido. Um sentido que vamos assimilando às partes, bocadinhos de sentir de que nos apropriamos, bocadinhos que se vão entranhando em nós até viverem connosco pela memória - até os levarmos dentro para todo o lado. Cheiros, rotinas, companhias, pequenos prazeres... Há quem lhes chame pormenores e diga que fazem toda a diferença.

Uma diferença que é toda - repeti. Pensava nisto porque já não me lembrava nem do toque, nem do quanto toca, de manhã, o telefone nesta sala de cima. Pensava nisto porque já me tinha quase esquecido do quanto é irritante o pigarrear e a antipatia apaixonada desta funcionária. Pensava nisto porque ainda assim é bom voltar à Biblioteca e voltarem connosco as pessoas do costume, os bons-dias do costume e até as coisas estranhas do costume. Pensava nisto esta manhã porque as pessoas de sempre que divisei dispersas ontem por entre uma multidão de miúdos pouco católicos que vinham de todos os lados para se concentrarem não sei porquê junto a uma única porta - a de maior movimento, voltaram a sentar-se hoje nos sítios em que sempre as vi no comboio. E quase sorriram, e quase sorrimos - o de sempre.

Uma diferença que se quer toda, como qualquer coisa que se queira toda, com sentido, uma diferença com sentido, a carecer de memória, uma diferença a carecer de memória, a requerê-la, a chamá-la para dentro - coisas de quando rodo a chave ao fim do dia, de quando vou dormir, de quando me levanto de manhã, de quando a meio da manhã. Coisas a comporem-se para a memória, coisas a crescerem em trança em volta de uma haste transparente, o que levamos daqui afinal.

segunda-feira, outubro 26, 2009

De bússolas e perspectivas

Há uma coisa no google maps que eu não sei como se chama, uma espécie de bússola com uma mãozinha a meio que se prime conforme a direcção, o ponto cardeal, por que se quer ir - ir não: ver - conforme o ponto cardeal por que se quer ver a rua, o prédio, as janelas, a porta. Às vezes, assim, alguns prédios, macambúzios, de portas e janelas modernas e feias, parecem quase bonitos. É a boa da perspectiva a suavizar-lhes os ângulos e o negrume; é o nascente, amigo, a espelhar-lhes as janelas e as portas, a envolver todo o edíficio nos reflexos e nos brilhos que a nova perspectiva, ao serviço de uma imaginação poderosa - daquelas que criam milagres e mistérios, coisas da nossa cabeça...

Pensava nisto enquanto olhava o quiosque no centro da praceta em frente à Biblioteca. O quiosque daria uma bússola de google map perfeita. Está no centro de um mundo pequeno, o Centro de Saúde, o D. Diogo De Sousa, o Campo da Vinha, o Largo de São Paulo, a Cividade, dentro do mundo que é o centro de Braga. Escusei-me a especificar os pontos cardeais a que correspondem estes lugares, sou desorientada por natureza.

Enfrentando uma lateral do quiosque está o Solar da Torre. Solar da Torre é um nome bonito. Uma pessoa pensa em torres e imagina uma Lady of Shallott, envolta em trevas e nevoeiro, uma Lady of Shallott que vê o mundo que lhe mostra um espelho, que tece o mundo assim segura, que urde uma rede a partir de reflexos de luz, sem ver o mundo, sem vê-lo realmente, até o dia em que perde o medo à maldição antiga e faz o gosto ao olhar. Já o Solar da Torre não não conhece nevoeiros nem trevas, é solar, antes e depois de ser Solar. E bonito. Um nome bonito para um sítio bonito. Uma vez, num Novembro de há muitos anos atrás, passei lá um fim-de-semana num retiro.

Quando estou à espera que a Biblioteca abra todos os dias, olho com muita força para o outro lado da rua, para a muralha do Solar, um outro lado do mundo, a pensar nesse fim-de-semana. A querer lembrar mais do que o frio a sair daquelas paredes de pedra, o frio a entranhar-se-nos nos ossos, eu a pensar se o não sentiriam também algumas delas, aquelas mais velhinhas pelo menos, eu a procurar-lhes o frio nos olhos, elas sempre calorosas, elas a multiplicarem-se em diligências e sorrisos, a chuva na vinha, uma candeia acesa ao fim do primeiro dia e as conversadeiras. As conversadeiras, eu a pensar na inutilidade daquilo ali, vocês sabiam que na Idade Média, eu a pensar tão pequenos, tão frios, namorava-se nestes assentos de pedra, eu a pensar tão pequenos, tão afastados, tão frios, tão individuais, tão descabidos e tão profundamente absurdos ali.

A semana passada em Lisboa, primeiro dia de conferência, encontro junto à Alameda da Universidade, uma pessoa de antes e depois desse fim-de-semana, desse tempo, um pequeno milagre de quem a vida depois do curso me afastou sem consultas nem avisos. Reconheci-a de trás, reconheceu-me apesar de ruiva, reconhecemo-nos como sempre, como dantes, abraçámo-nos nesse enlevo muito tempo, aquele que sem ter passado passou por nós, conversámos esquecidas disso, jantámos no dia seguinte, contámo-nos a vida que fizémos destes quase cinco anos. Quis, como quase todas as melhores minhas amigas agora, dar-me uma bússola, era tão bom! sim?, eu a dizer que não, que sou muito desorientada, mas não podia, com o tempo desenvolvi uma orientação própria, muito obrigada, sabe como sou, moradas todas mapeadas na agenda, vê?, eu e esta minha mania de, mesmo quando entro na linha errada, saio na paragem seguinte e, agora não volto atrás, acredita?, agora arrepio caminho, voltar atrás é uma perda de tempo, sabe? Sabe sempre, estaria certa disso, de o saber, muito antes de me ouvir dizê-lo, no momento exacto em que pensei, tenho a certeza, sabia-o, mas quis arriscar, imagino-te muitas vezes a seguires-me os passos, a sucederes-me, às vezes lutamos contra aquilo que nos é mais próprio, a felicidade é uma coisa simples, sabes?, sei, mas também sei que, e ela também, sabia-o e no entanto atirou para o ar, e o que essa esperança fininha é bonita, sabia-o, é sempre assim. É, somos, uma coisa impressionante.

As coisas más acontecem por uma razão, as boas, sem ter porquê, tenho para mim.

quarta-feira, outubro 21, 2009

O Dia Depois de Amanhã

Lançamento da REVISTA INÚTIL
23 de Outubro
22.00
Livraria Ler Devagar
LX Factory, Lisboa Mais aqui.

Em tempos de crise de muita coisa, além das finanças, é bom saber, ver, que há pessoas que persistem nos sonhos, que teimam na qualidade para realizar projectos, que esquadriam desafios com ar menino, que roubam tempo ao tempo, a si próprios também, para fazer coisas que hão-de ficar para além dos tempos, para além de nós.

Chove muito, está frio, mas isto parece-me dizer muito mais do que eu possa tentar esboçar sequer por cá.

Vou lá estar, muito embora de passagem - antes do bater das onze devo ter uma espécie de abóbora impermeável, bem-fadada e alcochoada, à espera.

Aqui fica o convite. Apareçam!

terça-feira, outubro 20, 2009

Chove chuva, constant is the rain


Acordei às cinco e meia da manhã, antes do despertador que tinha posto para daí a nada que hoje ia a Braga, acordei às cinco e meia da manhã com o dilúvio a bater-me na janela e o fim do mundo prestes, que quem acorda assim, de repente, não tem como pensar com lógica. Cinco e meia é muito boa hora para começar a trabalhar, mesmo não indo a Braga, mesmo ficando por casa, mesmo o escritório sendo mais frio e mais distante, tão longe!, do que o quarto. Cinco e meia é muito boa hora, sim, mas não quando chove. Quando chove o sono, o quentinho vá!, sempre vence toda e qualquer boa iniciativa.

E foi assim que preguicei duas horas e meia. Comecei portanto à hora do costume, e por cá - da maneira de sempre. No Facebook, proliferam músicas de chuva, todas bem bonitas por sinal, algumas, antigas, não ouvia há muito. Todas bonitas e leves, alegres, quase alegres, quase todas. Fico a pensar onde fomos então buscar o nexo entre o Outono, o Inverno, a chuva, e a melancolia. Mas deve ter qualquer coisa a ver com a ausência do sol, claro. Que o sol pode ser muita coisa, menos distante de nós, menos celestial - ou celestial um enquanto, e ter mãos e olhos e uma vida e momentos que foram nossos também, e a ausência, uma forma de perda, a maneira bonita, resolvida, de ver a perda no depois, de sobrevivê-la.

Não gosto de chuva. Encaracola-se-me o cabelo e a compreensão, a tolerância, para os embates de guarda-chuvas alheios, as poças de água imprevistas e os artistas abstraccionistas de carro. Chuva só debaixo de um guarda-chuva transparente que não tenho, que hei-de ter um dia destes, com mecanismo anti-embate, anti-poças, anti-condutores artistas.

Para resolver a ausência de sol:

Bolinhos de Chuva

Ingredientes:

3 chávenas de chá de farinha de trigo
3 ovos (inteiros)
4 ou 5 colheres de sopa de açúcar
1 pitada de sal
1 colher de fermento Royal
1/2 chávena de leite

Preparação:

Bater bem os ovos, por o açúcar, o leite, o sal, misturar muito bem a farinha de trigo e por último colocar o fermento.

Para fritar, faça pequenos bolinhos (o equivalente de 1/2 colher de sopa da respectiva massa, frite no fogo baixo.

Polvilhe com canela e açúcar.

De origem portuguesa, os bolinhos de chuva são feitos tradicionalmente de farinha de trigo, ovos, leite e fermento, fritos em óleo quente, e polvilhados com canela e açúcar. Acompanham no Brasil um cafezinho, por cá o que se quiser. É uma espécie de filhós - de malassada se se for madeirense. O bolinho nem sempre foi de chuva. Quem realmente acrescentou a chuva aos bolinhos foi Monteiro Lobato, quando descreveu as habilidades de Tia Anastácia - quem comia uma vez os seus bolinhos de polvilho não podia nem sequer sentir o cheiro de bolos feitos por outras cozinheiras - na confecção destes bolinhos, que transformou no seu passaporte de fuga do Labirinto.

Cause we're never gonna stop the rain by complaining... Enjoy!

segunda-feira, outubro 19, 2009

Prendre possession des lieux


Só me acontece quando chego a casa, àquela que é dos meus pais sempre e minha duas vezes no ano, às vezes três, houve, há muito tempo, um ano que dez. Só me acontece quando chego a casa e me instalo, tiro a roupa da mala, escondo a mala, e cheiro tudo, remexo tudo, abro todas as portas e as janelas e as gavetas, e afasto móveis, alguns móveis, e vasos de plantas, e cheiro o velho e fecho os olhos para tactear o novo e por fim me sento à varanda, porque terminei o reconhecimento e é bom finalmente estar de volta, e estar assim, em casa, depois de tudo o mais, em sossego, ao fim do dia, a cada fim de dia.

Os franceses dizem 'tomar posse dos lugares', depois das férias, para explicar o regresso à rotina; eu, eu tomo posse dos lugares no primeiro dia de férias, lá, só lá, em casa dos meus pais, para vestir uma rotina nova, a rotina deles... - a do cafézinho de todas as manhãs às 8.45 e no sítio, e mesa, do costume, a do cafézinho com o jornal à espera na mesa da frente, os dois à espera de nos passarem o jornal, os meus bons-dias, sorriso ensonado de sempre, de todos os dias, o jornal em troca de um sorriso em saldos. A minha mãe a ir para o trabalho às 8.55, eu a ficar com o meu pai, e o jornal, mais meia hora; nós à espera do pão quentinho, nós a comprarmos para levar, o meu pai a ir à sua vida, compras para o almoço e afins, eu a ir à minha, net e trabalho e net e afins, eu a acabar com tudo à hora do almoço - que é quando a minha mãe regressa do trabalho e estamos novamente os três, eu a voltar, a querer voltar a tarde toda, a acabar para jantar, a esquecer tudo ao serão para novamente ficarmos os três, assim muito assim, três, até o cansaço me mandar para a cama - a mim primeiro que a toda a gente, como sempre, e no caso ainda bem.

Quando chego cá, a esta casa que é minha, nossa, todos os dias do ano, quando chego ao Porto, meu a vida inteira, antes e depois de agora, não tomo posse de nada. Abandono-me. A rotina é a minha de sempre. Se é Domingo, sofá; se não é, cadeira laranja a rodar para cá e para lá, se há preguiça, se não há, cadeira quieta frente à secretária, soneca depois de almoço, às vezes - se é segunda-feira, vá!...

Anteontem, nas últimas compras antes de vir para cá, a minha mãe apontava-me qualquer coisa na Marina do Funchal, qualquer coisa que não ouvi, surpreendida com a reprodução duvidosa, e feia - muito feia, de uns bancos de pedra que ondulam, uma coisa pavorosa que lembra os do Parc Guell, que é para lembrar os do Parc Guell, mas, não, não assim, não aquilo, não na nossa frente-mar. Tomar posse de alguma coisa não é adquiri-la, não é roubá-la, reproduzi-la, copiá-la para nós, não; tomar posse de alguma coisa é deixá-la entrar, aceitá-la, deixá-la contaminar-nos devagarinho, misturarmo-nos ambos, abandonarmo-nos sem mais. Aceitar, a única forma pura de tomar posse de.

Não é nosso, nunca será, aquilo que nos esforçamos por marcar. Daqui para a frente só há dragões. Daqui para a frente. Só são nossas, de coração, verdadeiramente nossas, as coisas que nos permitem um abandono sem alardes, natural, total, de quando se chega a casa com dores nas costas e com sono, e está frio lá fora e um gelo na sala, e só apetece largar a mala à entrada e ter quem nos faça um chá, e buscar a mantinha e encontrá-la dobrada perto do sofá, e pedir um chá e tê-lo em menos de nada em cima da mesa, e ser tão difícil chegar lá, o braço chegar lá, de tão bem que entretanto se está, da música que se ouve, das coisas tão bonitas que entretanto passaram por nós em sonhos, do bom que é este sofá, do bom que é estar aqui.

terça-feira, outubro 13, 2009

I Garibaldi dopo Garibaldi

Quando há um terramoto, um tsunami ou uma catástrofe afim no Pacífico, a minha mãe diz sempre mas porque é que as pessoas vão para lá viver?, e eu digo as pessoas não vão para lá viver, as pessoas vivem lá, porque nasceram lá, porque os pais já lá viviam, porque é a terra delas, porque não querem, não concebem sequer, sair, conhecer, ver diferente. Digo eu, que sou a pessoa mais 'sem-terra' que conheço... Digo sempre as minhas casas, quando me perguntam, respondo naturalmente o meu país, a minha terra - até digo a minha terra, realmente! - mas não no sentido de lhe pertencer, nunca no sentido de lhe pertencer, mas mais no sentido em que as minhas raízes estão lá, quem importa está lá, no obscuro sentido de a ter inscrita em mim, de a possuir como predisposição de existência, como se possui um braço ou uma fome, uma condição de antes de tudo, uma natureza, uma coisa sem perguntas nem diligências, uma ontologia.

Nos EUA é mais fácil ser da Madeira do que de Portugal. Toda a gente sabe onde fica a Madeira, conhecem o vinho, coisas que vêm desde o Dia da Independência - pelo menos!..., sabem de quem já a visitou em cruzeiro, de quem lá passou a lua-de-mel, a conversa flui, Madeira, a marca, de boa saúde e recomendável para o fluir da comunicação. Estabelecer um nexo entre a Madeira e Portugal, falar de Portugal, é uma aventura - no sul da Europa o mundo conhecido é a Península Ibérica, um sinónimo, the pompous name for Spain, right? Pois... Nem por isso.

Mas o desconhecimento não me ofende, nunca me ofende, ofenderá a minha mãe, o meu pai, algumas pessoas que conheço, todas as pessoas que têm uma terra uma terra no coração; eu, que tenho tantas, relativizo, faço por relativizar. Sou a rapariga vitruviana, o senhor da Vinci não há maneira de passar de moda - o Homem sempre no centro parece-me garante de uma sociedade mais igual, mesmo na diferença, porventura sobretudo nas diferenças, e portanto mais justa. Sou a rapariga das sinergias, sê-lo-ei sempre, do cosmopolitismo, da meritocracia, da heretogeneidade na homogeneidade, coisas maiores, mais sãs, que o que conheço, de tanto passar os dias a olhar, da minha janela que dá para a rua. (Tenho uma vizinha assim, à janela, desde há trinta anos pelo menos.)

Janelas. Um dia abro uma porta antiga e escrevo um livro sobre janelas. Nada há de mais importante na vida do que a janela que se abre. A vida da janela, a vida pela janela. Sempre que chego é de avião e ao início da noite. Sempre que penso nisso sobressaltam-me imagens vivas, mas sempre iguais, dessas chegadas. Chego, muito colada ao assento, muito costas pregadas às costas da cadeira, muito solícita, muito solidária - solitária em ambas as bem-aventuranças -, que aos meus companheiros de viagem nunca calham janelas, e eles que são novos e curiosos, forasteiros, eles que esticam olhos e pescoços até à escoliose pela nesga de janela que lhes facilito. Eles, pasmos - todas as interjeições da língua a suarem a janela; eu, cansada, com sono, a ilha iluminada a entrar-me no olhar velho, eu a pensar se esta é uma das vezes em que tenho os pais à espera, ou se é o costume - espero pelos meus pais -, a ilha toda brilho, toda luz, muitas luzinhas fixas, certas, a desenharem-lhe o recorte, a preencherem-lhe a superfície, eu a levantar-me, a querer empurrar gente, a querer chegar a casa, eu a empurrar gente com os olhos, a pensar no computador que tenho de tirar de cima, e o que pesa na mala!, não esquecer o casaco e o sorriso à chefe de cabine antes de descer as escadas, eu a descer as escadas e a entregar-me toda, eu a desistir de toda pressa, toda a saudade, todo o cansaço.

Eu a render-me à ilha. À humidade, ao calor, à indolência, e a outra coisa qualquer, poderosa e subjugante, que não sei nomear, só sinto - cola-se ao corpo... -, que é ser aqui, estar aqui, viver aqui. E estranho as coisas, as pessoas - a maneira como funcionam as pessoas, o que intentam para para as coisas. Volto a andar de autocarro, os olhos do motorista em mim, na estrada, em mim, eu a pensar no metro do Porto e nos comboios para Lisboa, transportes públicos sem motoristas à vista, eu a tocar à campainha, plim-plim, o motorista a querer não ouvir, o motorista a conseguir não ouvir, a prosseguir, a deixar-me na paragem seguinte; vou às compras, sabendo bem o que quero, sabendo bem onde encontrar o que quero, facilitanto a procura, as referências todas, agilizando em condições normais a compra, a menina fica baralhada, a menina paralisada, a menina a ir lá dentro perguntar como procurar com referências, normalmente as pessoas não vão ao catálogo, a menina a perguntar à colega, a menina a demorar, eu a soprar para o lado; ando de teleférico, sento-me ao lado de um adolescente que, sem avisos, pretende um banco só para si, não me querendo encolher, olho-o nos olhos ao sentar-me, olho a perna quase cruzada a ocupar 50% do meu assento, tento ajeitar-me, repito o olhar várias vezes, simplesmente não quer saber. Volto a ver cada chegada - a ilha, perfeita, toda brilho no meio de um negro de mar sem fim, começo a ter medo ao pensar no quanto se vive por cá a perfeição única deste mundo de brilhos sobre um azul imenso - quanto mais pequena a janela, mais ilusória a óptica.

Aqui é assim. Acontecimentos naturais, se forem inesperados, se forem extraordinários, galvanizam-se - um maremoto de reacções, a crescer, a crescer, a crescer, em proporções absolutamente desajustadas da realidade, um tsunami a não querer desmaiar na areia do quotidiano pacífico da ilha. Eu a perguntar à minha mãe então porque vive aqui?, a minha mãe a dizer que esta é a sua terra, que já os seus pais, que os tsunamis daqui são os tsunamis daqui, nada a ver, que a falha do Pacífico sul fica no Pacífico sul. Eu a rir-me até não poder mais por me doer tudo. Gosto de terramotos e tsunamis tanto quanto gosto de tempestades e trovões. A redenção e aquela certeza confirmada, rara, de nos sobressaltarmos, de nos sabermos vivos num raio de luz.

E foi assim que andei na net à procura de heróis, de um herói que não jogasse futebol, nem tivesse uma estrela no passeio da fama, nem mergulhasse em discos de platina. A net atirou-me para o colo uma série deles, antigos, fiquei com o Aquiles e o Viriato, figuras arquetípicas,até eu perceber que o que queria era conhecer o rosto do Garibaldi. Um herói à séria, um de veias e coração e sangue, um de mar e de luta. As pessoas que conhecem poucas pessoas acham que cada um tem cara de ser da sua terra. Como se houvesse um fenótipo de Lisboa, um da Madeira, um do Minho, outro do Algarve... As pessoas que conhecem poucas pessoas, conhecem muito pouco da vida e do mundo. As pessoas, as sãs pelo menos, têm cara daquilo que são, dos lugares de alegria e dor por que vão passando mais, muito mais, do que do sítio que as viu nascer um dia.

A sorte, que hoje nos traiu, sorrirá para nós amanhã. Estou saindo de Roma. Aqueles que quiserem continuar a guerra contra o estrangeiro, venham comigo. Não ofereço pagamento, quartel ou comida. Ofereço somente fome, sede, marchas forçadas, batalhas e morte. Os que amam este país com seu coração, e não com seus lábios apenas, sigam-me. - Giuseppe Garibaldi.

E no entanto, volto, voltarei sempre, enquanto houver por que voltar, pelo menos.

sexta-feira, outubro 09, 2009

Lugares.tempos onde a vida se esvai

Ando a enterrar muita gente nestas últimas vezes em que tenho vindo a casa. As pessoas - os professores, as directoras, os tios, as tias, os tios-avós - que tinham quarenta, cinquenta, sessenta anos quando eu tinha dez, morrem-me agora.

Eu nos vinte e oito, quase trinta, eu aqui, tão pequenina como se é sempre quando chega a casa para ficar por uns tempos, não importa a idade - a idade, mede-a a vida -, quando se chega a casa para ficar por uns tempos - dizia - e se é filho, de e de, quase exclusivamente, e está na mesma, tão bonita!, como sempre, claro!, e se é verde, parece a mais novinha das três, acredita, Joaninha?, e se é Joaninha - o diminutivo que se colou ao corpo no seu ponto mais biologicamente activo, e à chegada -, antes de sermos nós próprios e as circunstâncias que criamos todos os dias do ano - e até ao fim.

Eu nos vinte e oito, quase trinta, eu pequenina a segurar a mão do meu pai, nós a olharmos janela fora, um céu quase de chuva sobre nós, o sol todo no Funchal lá ao fundo, eu a dizer ele parece-me bem, ainda não é desta, mais uns dias e tem alta, eu a falar como gente grande - não ouvindo, vendo pouco, percebendo ainda menos - eu a tentar consolar o meu pai pequenino. Eu a levá-lo a passear, nós a pararmos no miradouro, a bela vista bela lá em baixo, nós a continuarmos o passeio, nós a entrarmos no Verão fora de tempo do centro da cidade, nós a comermos gelados, eu a pensar no arraial do Monte de quando tinha quatro anos.

Eu a pensar no arraial do Monte em que me deixei ficar a olhar uma montra de relógios: eu a inclinar-me a querer ver melhor, eu a colar o nariz ao vidro, as duas mãos nas têmporas a apagar os reflexos da tarde, eu a querer ver mais, o meu pai a pegar-me numa mão para arrepiar caminho, eu pela mão do meu pai, o meu pai a puxar-me pela mão, eu a deixar ficar o nariz lá atrás, o nariz a passar pelo crespo da parede, a testa também, o nariz a ficar na parede, a testa também um pouco. Os gelados do depois - um para o nariz, outro para mim - a testa escapou quase ilesa. O passeio do depois pelo arraial, as distracções do passeio.

Conheço lugares, vivo tempos, mais crespos que todas as paredes de crespo onde a infância deixou a pele; lugares por onde a vida se esvai e a esperança cedeu o lugar à espera. Se calhar, crescer é isso. Se calhar, viver não é mais que sobreviver, um céu pesado de negro olhando uma cratera de luz ao fundo, o dia, janela fora.

quarta-feira, outubro 07, 2009

Uma memória viva e um coração

Umas férias à chuva com televisão por cabo numa sala quentinha de tarde são um perigo. Para a sanidade mental de uma rapariga que até prefere ler livros, mas aqui só de manhã, e, indecentemente esparramada, na cama - uma rapariga assim como eu.

Umas férias à chuva com televisão por cabo numa sala quentinha de tarde levam a que pape, Joana que é Joana, come papa que é uma alegria!, uma hora, às vezes mais, das séries mais absurdamente femininas, over the stars, top of the hill - over the top..., daquelas que repudio aos amigos, amigas - só as meninas é que se sentam a ver destas coisas...-, daquelas de quando depois do quê? tu vês isso?, meneio a cabeça e bato palmadinhas nas costas e digo mas..., não há mesmo nada de melhor para fazer? Pois. Às vezes não.

A porta da nossa sala que dá para a rua é extraordinária. Ontem pensava nisso. Ontem pensava nisso enquanto desistia de ver, ouvia, a tal série. Antes de ser a porta que é - antes de a sala ser a sala que é - aquela porta era duas, duas portas de madeira que o meu avó destrancava de manhãzinha, os primeiros raios da manhã a entrarem-nos casa adentro pelas frestas a centímetros do chão, de todo o lado poeiras a dançar no fiozinho de luz até as duas portas cor de vinho se abrirem para dentro, mais imponentes que todos os sésamos do mundo, as duas portas de par em par, depois daquele ruído único do trinco recolhido à lingueta, o meu avô a abri-las, o dia a vir para dentro, eu a olhá-lo, muitas vezes na minha cabeça.

Há raparigas, daquelas que nas férias lêem os livros na cama, voltam costas às séries de revirar os olhos, e se perdem em recordações de sésamos antigos, que têm muita sorte. A sorte de uma memória viva e um coração cheio de dias.

quinta-feira, outubro 01, 2009

O poder

Já me tinha esquecido do que chove nesta terra. Fui-me embora, em Janeiro, com chuvas torrenciais - a invernia típica, constante, imutável, dos Janeiros de cá -, e volto no fim de um Verão que o foi como sempre por cá, volto, para as chuvas torrenciais de um Outono típico, tão quente, tão húmido, tão de sempre por cá.

Às vezes acho que a chuva me persegue. Acho mesmo que tenho uma nuvem invisível sobre a cabeça, uma sensível às minhas partidas e chegadas de e a onde vivo e vou sendo feliz. Quando morava em Braga era assim, mesmo no meio do Agosto mais quente, chuva torrencial no dia de regressar ao Funchal. Depois de Braga fui para o Texas - nem uma palavra acerca das chuvas, do calor, da humidade, dos mosssssssssssquitossssssssss de Houston - e quando voltei, um ano de chuvas, do maior calor, daquela humidade, e dos mosquitos mais mosquitos de sempre, esse ano, mudou tudo. Até a chuva das partidas e chegadas. Agora tudo é fora de tempo, o tempo fora de tempo em todo o lado; agora chover só chove, a seu tempo, e bem, na Madeira.

A minha mãe está sempre a dizer que a poluição ainda não chegou à Madeira, que por cá temos todas as estações a seu tempo - e eu tenho de concordar com as evidências. As chuvas de ontem e hoje são exactamente as mesmas de quando ia para a escola com o guarda-chuva à frente dos olhos, cega para as buzinadelas dos carros; as mesmas de quando o pai do Manuel me dava boleia, porque, menina, não me custa nada e chove tanto e o nevoeiro e; as mesmas de quando corria para dentro e pedia à minha avó para me descalçar as galochas cor de rosa que a minha mãe me tinha oferecido e que eu não podia sequer conceber perder para a velhice ou para a sujidade, que a minha mãe sempre percebeu que as meninas que usam tranças, bóinas e kilts, gostam de cor de rosa - de preferência sem qualquer vestígio de lama.

Às vezes é bom não podermos fazer tudo. Coisas como mudar o tempo, mudar os acontecimentos, mudar as pessoas, mudar a vida - às vezes é bom não ter capacidades para além das nossas capacidades, dos nossos sentidos, e viver a vida dia a dia, com a chuva do dia, o nevoeiro do dia e o sol do dia, quente ou de Inverno, o que for. Aposto que se me fosse permitido nunca deixava chover na Madeira, ou no Porto, ou em Braga, ou em Houston, ou onde quer que morasse.

Mesmo quando é verbo, especialmente quando é verbo, poder é um dos esqueletos no armário: às vezes podemos e não fazemos. Às vezes queremos muito, podemos, e não fazemos. Não fazemos por causa da ética; não fazemos porque pensamos; não fazemos porque é difícil - mais difícil à partida do que não fazer; não fazemos por causa de fantasmas, do passado; não fazemos porque somos grandes e não conseguimos que o escuro tivesse ficado lá atrás, não fazemos por medo - é quando fazer chover é mais fácil do que fazer acontecer.