domingo, outubro 08, 2006

Dúvidas

1) É grave, Teté?
Há quase um mês que não durmo direito (leia-se mais que duas horas seguidas, mais quatro horas por noite). Há três semanas que tudo o que durmo é feito de pesadelos, cada um mais tenebroso que o outro, uma manta deles feita de retalhos do dia-a-dia.
Continuo a embirrar com esta comida horrosa que é so sal e gordura e por isso como muito mal (leia-se as coisas erradas em quantias absurdas, as coisas certas em quantias ridículas).
Passo o dia cansada, com imensas dores nas costas, sem paciência nem energia. Consequentemente, presumo.
Tenho uma dor de cabeça que não me larga e consegue como poucas coisas me tirar do sério. Como se tivesse um gong em cada têmpora, o que me rouba a razão e a serenidade, o equilíbrio.
Preciso de... um par de óculos?
2) Como é que Édipo espiou a culpa?
O que é que se faz a alguém que nos persegue com aquele olhar que nos deixa à boa maneira da Vénus do Boticelli, mão na mão, cabecinha no ombro da namorada, em plena missa?
Do início. Eu até conheco o rapazito, ou melhor, já tinha dado pela existência do dito o semestre passado. Sempre que ia aos GSA BBQs (i.e. barbecues de graduate students) ele estava lá. Sozinho. E eu fugia-lhe. E costumava (ele) ir à missa com outras duas raparigas. E eu fugia-lhe. Não consigo explicar porquê. Não costumo fazer isso por se ter demonstrado ao longo dos tempos contraproducente. Quanto mais lhes fugimos... Bem, não costumo fazer isso. A não ser, claro, que a tal me aconselhe o meu sexto sentido... o que acontece a maior parte das vezes precisamente quando não quero fugir, mas enfim... Voltei a encontrá-lo numa das últimas sextas-feiras no primeiro GSA BBQ deste ano lectivo. E novamente o olhar. E novamente lhe fugi. Só aí me apercebi de que não tinha (ele) ido à missa ate então, mas depois desse BBQ, no Domingo, já lá estava. Sozinho. Novamente o tal do olhar. Making a long story short, hoje com a namorada mostrou-me porque gosto tanto deste meu sexto sentido. (É certo que reclamo contra isso muitas vezes, possivelmente demasiadas.) Dá-me muito jeito. Hoje também retribui-lhe os olhares não certamente com o que ele queria mas com o que merecia e já estava a pedir há muito, tadinho... Agora só se for muito estúpido, o que também não me surpreenderia de todo, é que me obriga a mostrar-lhe como é que o Édipo espiou a culpa.
Estou piurça!!!
3) Run, Forrest, run!
Ontem vi na rubrica Saturday night Classics da TNT um dos meus filmes predilectos: Forrest Gump. Porque a cada passo me emociono com a sabedoria e a capacidade de tocar tantas vidas de uma maneira tão bonita que só aquela personagem tem. Porque de cada vez que alguem lhe diz "Are you stupid?" penso em mim. Nas pessoas que ja passaram pela minha vida, naquele miúdo que tinha uma família disfuncional e me fez das aulas um inferno, naquela que se apegou a mim de uma maneira pouco saudável, no NEE ao canto, no fundo da sala, no que não conseguia escrever uma letra que fosse sem que eu estivesse ao lado dele... Penso em mim. Quando era miúda e pouco falava, observava só, e os amigos da e a própria família foi consensual: "... algum atraso anda para ali". Porque é que a diferenca é antes de mais um atraso? Quando estava na escola primária e antes de puxarem por mim e me por forçarem a não ser gentil e deixar os meninos que não sabem tirarem dúvidas e aprenderem, antes de ser a melhor da turma, era a miúda com um problema, aquela quietinha, caladinha, a que nunca fala. Quando estava no quinto ano e antes dos primeiros testes, antes de ser a melhor da turma, e a participação nula em aula me tinha dado negativa a todas as disciplinas. Penso em mim. Nestas e noutras tantas situações...
"Stupid is who stupid does." - my mama always told me...
4) Sou filha de um “Português Exemplar”

Até há bem pouco tempo não fazia ideia que havia uma Medalha de Mérito para o Exército que se destina aos efectivos que durante a carreira militar não cometeram nenhum delito, não tendo sido nunca alvo de qualquer inquérito ou punição disciplinar, portanto.
Esta medalha foi atribuída ao meu pai a semana passada. Resultado: Festarola. Dentro dos limites impostos pelos cerca de 1800 kms2 de distância da maioria, claro. Por miúdos: Telefonemas da prole, tele-felicitações, tele-beijinhos e tele-abracinhos. (Quanto às felicitações por parte da minha mãe não me pronunciarei. Obviamente.) Minutos depois, já em animada conversa com a minha mãe, pergunta a minha irmã mais nova, do alto do seus dezanove anos, com a argúcia que desde sempre tão bem a caracteriza: “E aumento no ordenado, não? Quando um universitário é premiado pelo mérito, além do diploma recebe um cheque…”
Pois. Sintomático. Da crise dos símbolos na era moderna. Creio.
E vieram-me à memória imagens distantes do colégio, dos meus doze anos e das aulas de Formação Cristã (seria este o nome?) Bem, na catequese (para todos os efeitos era disso que se tratava) aprendemos, aprendi eu pelo menos, que um Sacramento é – e efectiva-se através de – um símbolo, e a Irmã (ou o Padre? Já não me lembro…) obrigava-nos a repetir vezes sem conta “Sacramentos são sinais exteriores que marcam uma realidade interior”. Como sou muito sensível à repetição, a noção e respectiva definição ficaram algures no meu subconsciente e emergiram agora a propósito da lucidez da minha irmã. Resumindo, se um Sacramento é um símbolo, da mesma forma, um símbolo também pode ser um sacramento, pensei. O problema está em que hoje em dia quem quer saber dos Sacramentos. Nem dos símbolos. Ninguém. Não são aliciantes. Não têm atractivos. Por que darão motivação? Não enchem barriga. Não dão aumentos salariais, nem baixam os impostos, nem permitem uma reforma antecipada. Na realidade não dão nada. Mas vêm com uma anilha de papagaio apensa. Seja a anilha a maledicência e a inveja dos não-agraciados, seja a inclusão num grupo ao qual nem todos os agraciados estão preparados para pertencer. Senão pensemos. Quem quer saber de alianças quando recebemo-las três dias depois do início do namoro? Quem quer saber do véu se tem que ir para a mochila à entrada da universidade (especialmente se for a Sorbonne!)? Ou do sari que só se usa nos casamentos de preferência na terra natal? Ou da aliança que vai para o bolso durante a hora do expediente? Ou do hábito religioso que vai na mala porque senão no avião todos olham de canto?...
Furtar-se a envergar um símbolo é quanto a mim ter problemas interiores, possivelmente vergonha de si próprio. Digo eu, que fui dar aulas na Universidade de cachecol do FCP ao pescoço quando ganhámos a Champions. E que fui consequentemente criticada por isso. (Somos uma sociedade com problemas. Está visto.)
Esperar que uma recompensa pecuniária acompanhe um símbolo é a frescura da adolescência a falar mais alto que o drama de um país falido. De tudo. Mas sobretudo de pessoas exemplares. Além do que as melhores coisas da vida são, sempre foram, gratuitas. Descanse o nosso PM (e o meu conterrâneo detentor da pasta da Administração Interna) que me enche de um orgulho imenso, muito maior do que o oceano que nos separa actualmente, saber que aquela pessoa que me ensinou a juntar vogais e consoantes e a ler, que me levou a apanhar amoras, pêras e figos, que me comprava gelados nas festas e que ainda hoje me leva àquela praia nova ou àquele novo café, àquela livraria ou àquele centro comercial que não existia da última vez, conseguiu ao longo dos anos granjear uma admiração que galgou naturalmente as fronteiras dos seus pares. Na verdade, saber que a bonomia que sempre o marcou carácter do meu pai foi reconhecida pelas altas patentes do Exército é, para além de admirável e confortante, um autêntico desafio! A mim que não vivo sem símbolos, sacramentos e rituais, dá-me motivação, esperança no futuro e vontade de seguir pelos mesmos trilhos e deixar florir a genética da exemplaridade. Ao mesmo tempo que me enche de orgulho faz-me feliz. Muito mais do que se lhe tivesse dado um aumento. Nenhum “Português Exemplar” é aumentado em Portugal. E a poucos, muito poucos, é atribuída esta condecoração. Indubitavelmente.

sábado, outubro 07, 2006

Para a menina Olga…


“Cabeça amarela” do Lar, “Bolachinha Maria” e “Britney” uma salva de todas as palmas do mundo. Corações ao alto, corações nas palmas. Para ti.

A Olga e eu tirámos o mesmo curso na mesma cidade, embora em universidades diferentes. Somos ambas professoras, agora estudantes. Por razões diferentes. Porque a vida leva-nos onde nunca pensámos sequer e a única âncora que temos são as amizades que se fazem ao longo desse percurso mais ou menos atribulado.
Durante os cinco anos do meu curso morei num Lar Universitário. Na Madeira ficava toda a gente mais descansada se assim fosse, eu não tinha nada contra e, no final, gostei tanto da experiência, que depois do curso anda morei lá mais dois anos. Muito choro, muita lágrima, à saída… Uma outra história. Para depois.
No Lar também há praxe. Numa versão naturalmente mais soft. Ou não. Dependendo da autoria moral das actividades praxísticas.
A Olga foi para o Lar quando eu estava no terceiro ano da Faculdade. Então, à semelhança do que se fazia todos os anos, na primeira semana de Outubro realizava-se a Festa de Recepção à Caloira no Lar. A festa subordinava-se a um tema, acordado entre o grupo das mais velhas, e o que se pretendia era que cada caloira se disfarçasse de acordo com o tema (a originalidade da fatiota era premiada, claro!), apresentasse uma rábula e dedicasse uns versos à Irmã que lhe tivesse saído em sorte. O objectivo não era tanto praxá-las (não foi pelo menos nesse ano em que eu fazia parte do grupo das mais velhas), mas fazer com que se nos dessem a conhecer, conhecessem melhor o Lar (leia-se as Irmãs, atribuições, ocupação e feitio…) e se divertissem, claro!
A semana anterior à tão anunciada festa era pródiga em partidas, algumas pouco agradáveis, confesso: tinham as caloirinhas, geração após geração, que pôr a mesa às mais velhas (que por sua vez escondiam os copos e os talheres, para que elas não conseguissem realizar a tarefa eficientemente), ir buscar a comida e servir (embora tal não fosse permitido segundo as regras da casa), e outras tarefas do género, mas nada mais para além disso, nada que lhes ponha em causa a dignidade humana…
Mas nesse ano quisemos, quis eu, mudar um pouco as coisas e agitar o Lar de uma maneira diferente. Então, com o consentimento de quem de direito (a Directora, obviamente!) fomos, fui eu, mais longe. Fizemos, fiz eu, inúmeros desenhos coloridos, a giz, nos espelhos dos quartos, espalhámos, espalhei eu, pasta de dentes nos lavatórios, mudámos, mudei eu, de sítio as escovas para as gavetas das secretárias, os lápis para o armário, os relógios e as fotografias dos familiares e dos namorados para já não me lembro onde, retirámos, retirei eu, os lençóis e os edredões das camas e pusemo-los, pu-los eu, nos cestos da roupa suja, e até um colchão desviámos para a salinha do telefone, desviei eu! Fomos más! Fui. Admito. Mas elas, à excepção de uma que decidiu ir dormir a casa dada a ausência dos lençóis, não levaram a mal. (Ainda bem. Eu teria levado!)
Chegada a noite da festa de recepção, indicativa do término da semana de partidas, todas nos impressionaram e marcaram de uma forma ou de outra, para o melhor e para o pior também. Não me recordo já do tema desse ano, nem da qualidade das rimas que dedicou, mas lembro-me dos dois totós loiríssimos da Britney Spears, a personagem que encarnou e que se tornou imagem de marca da Olga até na Universidade (em virtude de ter lá aparecido assim no primeiro dia – ingenuidades de caloira!); além disso recordo-me de muito pouco com pormenor. Apenas do desconforto e do pedido de desculpas no olhar – tão diferentes da alegria simples e gratuita com que nos tinha brindado semana fora – quando lhe pus a fita, de papel higiénico, com que a elegemos Miss Simpatia, tal como fizemos com a Mariana no ano anterior, tal como me fizeram a mim dois anos antes… Nunca percebi o porquê desse constante desconforto na expressão corporal e do pedido de desculpas por existir e ser assim, como é… Ainda hoje é muito assim. Porquê? Não sei bem. Por simplicidade, talvez. Aquela simplicidade que possuem e exalam todas as pessoas grandes…
Nesse ano a Olga partilhou o quarto com outra caloira por acaso do mesmo curso – uma rapariga muito revoltada, a tal que foi para casa por causa da falta de lençóis, e que no fim desse ano decidiu deixar o Lar – mea culpa, sinto muito, eu sei, exagerei, possivelmente hoje não o teria feito, mas quando se tem vinte anos (e já se aprendeu que ser crescido não compensa!) é-se naturalmente inconsequente. Ao decidir ir para um apartamento, essa menina deixou a Olga a braços com uma decisão dificílima: escolher com quem iria dividir o quarto no ano seguinte. Tinha duas hipóteses: ou elegia de entre as mais velhas o mal menor – que isto de dormir com o inimigo tem muito que se lhe diga… E sim, quase dez meses após essa fatídica semana de recepção as mais velhas são ainda olhadas de soslaio. Por algumas. Só. Felizmente. (É muito aborrecido ser-se considerado Inimigo Público Nº 1 e terem feito de nós a imagem diametralmente oposta do que somos por causa de uma brincadeira. De gosto duvidoso, é verdade, mas...) –, ou saltava para o desconhecido e ficaria à mercê de alguém novo no Lar (o que é sempre um risco de consequências absolutamente imprevisíveis!). Mandou a razão que optasse pelo mal menor. E o mal menor fui eu. Por acaso. Ou talvez não. (Que isto da simpatia é sempre muito mais que uma fita de papel higiénico num Outono de 98. É uma impressão digital. Ou se tem e faz parte de nós e exalamo-la por todos os poros a todo o momento – comigo é assim… Porque sou muito maternal e trato toda a gente como gostava que me tratassem a mim e faço a caminha, a papinha, o que for, para que se sinta bem e em casa e não mexa um dedinho sequer para o que quer que seja. O que também é mau. E não agrada a toda a gente. Nem a mim, agora, muitas vezes. Ou não se tem e conquistamos as pessoas de outras maneiras. Que também as há. Tantas e possivelmente tão mais admiráveis…)
Por acaso. Ou talvez não: a verdade é que esse ano lectivo, o meu terceiro e o primeiro da Olga, não me foi particularmente feliz em termos pessoais, perdi da pior maneira possível uma das minhas melhores amizades de sempre e tive que conviver com ela e com isso ano fora, nas mesmas actividades, nos mesmos lugares, enfim na mesma casa. Sem querer e quase sem me aperceber, não tivesse a Olga me alertado para esse facto, estávamos, estava eu, a criar cisões naquele grupo que era verdadeiramente fantástico. Estava eu porque era a mais forte, a representante das alunas, a líder, a que arrastava toda a gente atrás. A que tinha as maiores responsabilidades e o fardo do dever. De ser modelo. Ou a que tem a mania que manda, como também me disseram. Como queiram.
Então, achei por bem fugir. Abrir mão. Deixar ir. Em liberdade. Devagarinho. E decidi: no ano lectivo seguinte, no meu quarto ano e segundo da Olga, faria Erasmus. Fui. Fiz. Troquei experiências e vivências, aumentei os meus conhecimentos, cresci muitíssimo; simultaneamente, promovi melhor ambiente no Lar, levando na mala o ar pesadíssimo, de cortar à faca, com que terminámos o ano lectivo anterior, tornei mais fácil a vida à minha outrora amiga e respectivo séquito e, muito importante, facilitei a escolha à Olga, que teria o quarto só para ela no primeiro semestre, durante o tempo que eu estivesse em Paris – o que aconteceu de facto desde Setembro até Março. Depois voltei. Com a Primavera e com o problema por resolver. E o ar do Lar voltou a ficar pesado e cinzento. E voltei à liderança, à representatividade – mantidas curiosamente pela minha outrora amiga –, voltei ao que era mas não como era. Outrora. Voltei mais seca, mais amarga, mais fria. Mais outra, menos eu. E a Olga esteve lá. Sempre. Nesse e nos anos que se seguiram, até há bem pouco tempo. E aturou os meus ataques de fúria (que os tenho muitos e amiúde), os meus amuos, as minhas intolerâncias, os meus devaneios, as minhas reflexões existenciais e as minhas teorias psico-sociológicas, as fotografias do Príncipe pelo quarto todo (pela minha parte do quarto), a baba daí resultante pelo quarto todo, a minha obsessão pelas Tunas pelo quarto todo, as toneladas de roupa (de cama, de banho e em geral), sapatos, livros, cadernos, artigos e dossiers pelo quarto todo (é no que dá ser da Madeira), o tic-tac inqualificável do único despertador que me acorda pelo quarto todo e, last but totally not least, os meus famosos vipes TPM (que nem eu consigo tolerar de tão maus, muitíssimo piores que os meus ataques de fúria!). Não sei o que é que se pode dar em reconhecimento a uma pessoa assim. Maravilhosa. Beatificação? Canonização? Óscar? Nobel? Euro-milhões? Por mim ganhava uma mescla de tudo. Porque também tinha os seus problemas, pessoais, familiares e de saúde, muito mais graves do que os meus, e só sendo profundamente ágil, engenhosa, inteligente e santa (e malfadada!) para me aturar nesses tempos sem deixar escapar o “Basta!” que eu merecia. E boa, intrinsecamente boa pessoa, para conseguir ao mesmo tempo manter a serenidade e a calma, a sanidade mental num ambiente familiar profundamente adverso e a guerra-fria entre as duas facções, sem deixar de falar e ser alegre e conviver e ser amigo de quer quem que fosse nos dois lados da barricada, em casa, no Lar, na vida. Porque sei que ao longo dos anos este dia ficou na memória como uma lembrança vaga, às vezes forçada, profundamente marcada pela incompreensão, pela revolta e pelo gelo e pelo sal das lágrimas; porque sei que este dia só é celebrado com alegria se calhar à semana e portanto houver a possibilidade de reunir os amigos; porque sei que hoje é Sábado e isso significa casa e gelo e vazio e ausência. De bolo. De alegria. De celebração. Porque ela não tem culpa, não merece e não devia nunca ter que passar pelo que passa. Porque nada do que podia premiá-la eficazmente está nas minhas mãos. Ao meu alcance.

Olga,
Porque ponho nas minhas mãos agora o coração e este post e dou-tos com o pedido reiterado a Quem realmente pode, que Ele ou a vida ou o universo, te abençoe e te dê em dobro tudo aquilo que me deste e que sejas assim muito, muito, muito feliz e consigas descobrir e alcançar o caminho da tua realização pessoal e profissional. Mereces tudo! Como poucos. Por me aturares. Por te teres ido embora de todas as vezes que devias ter explodido. Por me teres respondido à ofensa com o silêncio e um sorriso. Por me teres ensinado tanta coisa. Por me teres mostrado outro tanto. Pela tua amizade. Por seres assim. Exactamente assim. Por tudo o que não me recordo agora. Obrigada por este dia, obrigada por existires! Aqui fica a mais que merecida homenagem e … Parabéns!

sexta-feira, outubro 06, 2006

Baía-refúgio


O Forte de São José foi o primeiro porto do Atlântico e o mais Ocidental da Europa, com papel relevante na expansão marítima Europeia.
Este ilhéu a sudoeste da Madeira, mas ainda no porto marítimo do Funchal, cuja baía terá servido de refúgio aos descobridores, chega a ser apontado por historiadores europeus renascentistas como o lugar mais sacrossanto da ilha...
Baía-refúgio, lugar sacrossanto... uma pérola geográfica a visitar (nem que seja o site).

quinta-feira, outubro 05, 2006

5 de Outubro - Dia Mundial do Professor

Feriado em Portugal pela celebração da proclamação em Lisboa da República Portuguesa, que pos termo a mais de sete séculos de regime monárquico. Também.
Mas, Dia MUNDIAL do Professor. Mundial.
Porque entraram na minha vida e foram o meu mundo. E aprenderam comigo, mas também me ensinaram. Muito. Muito mais do que eu alguma vez poderia ter sequer imaginado. Porque este dia mais que meu é vosso.
A todos vocês...
Alexandre, Ana Isabel, Ana Margarida, Ana Rita, André, Filipe Silva, Hélder, Joana, Bruno Costa, Bruno Silva, Carlos, Cláudia, Daniela, Eloi, Estefânia, Felix, Filipe Macedo, João Osório, João Pedro, Leonel, Liliana, Márcio, Marilene, Marina, Marta Silva, Marta Sofia, Paulo, Pedro Barbosa, Ricardo, Sílvia, Angela, Fernando, Francisco, Hélder, Jacinta, José Filipe, Letícia, Márcia, Nicolas, Patrícia, Remi, Sandrina, Victor, Vítor, Ana Marques, Ana Mónica, Carolina, Cristina, Edite, Leticia, Luís, Marta, Mário Simao, Orlando, Sandra, Carina, Cátia, Luís Lisboa, Vasco, Cláudia, Andreia, Catarina, Cristiana, Diana, Elisete, Eva, Hélder, Ilita, Jaime, Lisete, Maria Alexandra, Maria de Fátima, Milena, Nuno, Paulo, Pedro, Sandra, Sílvia, Vera, Ana Paula, Bernardete, José Ricardo, Nuno Manuel, Sandra Estrada, Alexandre, Alexandra, Ana Catarina, Ana Rita, Andreia, Adriana, Carla, Carlos, Cristina, Carolina, Kevin, João, João Pedro, João Miguel, Nuno, Pedro, Pedro Manuel, Ricardo, Rita, Rute, Sandra, Saul, Samuel, Sofia, Vítor, Vanda, Ana, Ana Rita, Artur, Bruno, Cátia, Carla, Catarina, Carolina, Cláudia, Cristina, Daniel, David, Diogo, Joana, Joana Margarida, Joana Rita, Joana Sofia, Joao Pedro, Jaime, Letícia, Márcia, Márcio, Marco, Marta, Mégane, Manuel, Pedro, Rúben, Rui, Sílvia, Sandra.
... e a cada um em especial...
OBRIGADA!!!

quarta-feira, outubro 04, 2006

A minha mãe...

... faz hoje duas vezes e meia a minha idade!

A minha mãe é assim. Passa a vida ao pé de uma árvore assim. A fazer isto.

Na realidade, esta árvore está dentro dela e portanto para dar amor, colhe-o de dentro de si, do coração que é dela, perdão, que já não é dela: é nosso.

Porque dá os melhores beijos, os abraços mais apertados, os melhores conselhos e as melhores e massagens de pés do universo;

Porque tempera a comida de um sabor único e a roupa passada de um cheiro especial (desconfio que são o cheiro e o sabor do amor... da árvore interior);

Porque sabe sempre quando dizer e como fazer, quando calar, quando intervir, quando se afastar;

Porque conta as melhores histórias, as piadas mais engraçadas e as maiores loucuras de outrora com a mesma paixão - e paciência- da primeira vez (mesmo que esta seja a enésima...);

Porque todos os Verões partilhamos o entardecer à varanda;

Porque é como ninguém.

Parabéns, Mamã!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

terça-feira, outubro 03, 2006

3 de Outubro - Dia Mundial da Arquitectura



As Capelas Imperfeitas (Batalha), Casa Laranja (Viana)*, Casino (Madeira)

Hoje queria falar de muita coisa. De uma pérola geográfica que temos na Madeira, da derrota de ontem em Braga (a culpa é do Scolari!), de uma medalha de mérito e de... outros tantos apontamentos que fazem parte do meu dia-a-dia e que gostava de partilhar mas que adiarei para uma próxima oportunidade. Porque hoje é celebrado o Dia Mundial da Arquitectura.
Porque hoje é celebrado o Dia Mundial da Arquitectura. E os arquitectos, todos os arquitectos ou O Arquitecto, é posto por mim, desde tempos imemoriais, no altar da genialidade, com a veneração e o carinho que me merecem TODOS os fazedores de coisas bonitas.
Podia falar do Convento de Cristo em Tomar, do Convento de Mafra, da Torre de Belém e do Mosteiro dos Jerónimos, da Casa de Chá da Boa Nova, da Igreja do Marco, da Casa Laranja de Carreço ou do Casino da Madeira, mas as coisas bonitas não carecem de explicações. Só de olhos.
Vitrúvio, não o primeiro arquitecto - como é comummente afirmado e ensinado(!) -, mas o primeiro arquitecto romano que escreveu sobre arquitectura (com referência a autores anteriores a ele), ganhou fama ao afirmar no De Architectura que qualquer estrutura deve apresentar três qualidades: firmitas, utilitas, venustas - ou seja, tem de ser forte, útil e bela.
FORTE. ÚTIL. BELA.
Etimologicamente a palavra "arquitecto" deriva de duas palavras gregas que significam "cabeça" e "construtor".
"Fazedor de coisas bonitas", para mim.
Sobre a programação deste dia (e deste mes) ir a:
Um dos meus predilectos:

segunda-feira, outubro 02, 2006

Faça-se bonito...

... o APELO para uma realidade infelizmente nada bonita: Darfur. Na ordem do dia.

Do Belo-Horrível

Ontem fui a um festival renascentista. Supostamente. The Texas Renaissance Festival (TRF) em Plantersville, a norte de Houston. Desenganem-se então aqueles que estavam à espera de ver o re-nascimento da civilização, da sociedade e da cultura, o retorno aos ideais clássicos e o avanço e o progresso da ciência e da técnica… Contavam-se pelos dedos as pessoas rigorosamente trajadas à época, as coroas de flores e as tranças, as apresentações dos ofícios populares nessa altura (ferreiro, vidreiro…), o dealbar da Imprensa de Guttenberg, Shakespeare – o homem e a obra (muito mal representado, infelizmente!), as paródias à obra shakespeareana (muito boas!), os coros e a música renascentista (satisfatórios)... Contavam-se pelos dedos de uma mão. E deixavam-me com um vazio e um aperto muito grandes.
Não obstante, abundavam os góticos (sim os góticos!!!), as dançarinas do ventre – directamente dos anos 80 (a ver pelos cabelos e pela maquilhagem) –, as pseudo-dançarinas do ventre (vulgo strippers), as pseudo-ciganas, os cowboys, os escoceses – masculamente ostentando kilt e boina, os Darth Vaders (sim, os Darth Vaders!!!), os Harry Potters (sim!!!), as fadas e as borboletas (seria por causa do Sonho de uma Noite de Verão?), o Centauro e até o Baco (seria por causa do retorno aos clássicos?), os restaurantes franceses, os restaurantes gregos, os restaurantes texmex (Porquê? Alguém me explica?) …
Sinais dos tempos. Consumismo, globalização, economia de mercado, suponho. Tudo isso ou ignorância. Tudo isso e ignorância. Talvez devesse desculpar aos americanos a ignorância, tal como se desculpa uma tropelia a uma criança pequena. Afinal são uma nação muito recente, ainda estariam algures a caminho de Paris ou do ninho da cegonha no início do Renascimento. Mas não posso. Acho de um profundo mau gosto. Ofende-me. Se calhar na minha cidadania europeia. Sei lá. Mas só o dinheiro que vi circular ontem com baboseiras me deu um nojo tal que só me apetecia duas coisas: ou gritar-lhes o quanto eram ridículos, ou arranjar um buraquinho para me esconder e chorar. Por isso e pelo facto de me ter apercebido (só ontem (!) ando mesmo no mundo da lua!) o quanto somos uma sociedade profundamente dark. Negra. Profundamente. Tristemente. Negra.
Foi possivelmente do impacto de esbarrar a cada passo com os Darth Vaders - tantos (!) à procura de atenção -, os ninjas e os góticos, alguns bem hard-core, pensei no início. Mas não. Á noite, antes de dormir, naquela meia hora em que passo o dia todo em revista, não consegui afastar do pensamento duas imagens: a das raparigas vestidas de duas peças minúsculas de correntes, apenas com um fio dental preto, horroso, por baixo, que faziam tudo menos a anunciada dança do ventre, para gáudio da multidão que uivava cá em baixo... e a do homezarrão, vestido à “Darth Vader-ninja” que tocava, muito bem por sinal, uma espécie de órgão, de três toneladas, composto de vários sinos de diferentes dimensões e subsequentemente de diferentes sonoridades. Porque senti pena das raparigas e vergonha de ser mulher e de estar ali a ver aquilo. Porque me esforço todos os dias para ser mais e melhor. Para não ser mais uma entre a gente. Ou um objecto. Ou descartável. Porque acho muito triste ter-se que se vestir de negro e compor toda uma personagem, mescla de "Fantasma da Ópera-dark com “V” de Vendetta, para que lhe seja dado algum tipo de reconhecimento e atenção. Porque tenho a certeza de que se não o fizesse, diminuiria drasticamente a audiência e possivelmente até os aplausos do público. Porque tenho a certeza de que a maioria das pessoas que vai a este festival vê na iniciativa a oportunidade de ser notado e daí toda a panóplia de estranhas personagens, cada uma mais estranha, mutante e horrorosa que a outra. Porque há muita gente triste, com histórias e vidas tristes que só precisam de algum colo, os mais novos, e companhia, os mais velhos. Porque... Porque...
Daí para o Almodôvar e para o José Luís Peixoto (que adoro, ambos!) foi um pulinho e de nenúfar em nenúfar cheguei a uma triste conclusão: Dark Ages. That’s where we are. That’s what we are: Dark. E não falamos sequer em obscurantismo ideológico. Trata-se de algo muito mais abrangente: o obscurantismo emocional. Modo de olhar, de sentir, de viver. Sempre me perguntei porque é que o Almodôvar e o José Luís Peixoto não põem o enorme, inigualável talento deles ao serviço de uma estética mais apolínea, mais clara. Não necessariamente mais racional. Porque é que eu tenho de chorar de tristeza, quando me podem fazer chorar de alegria? Porque é que se busca tanto actualmente a emoção pelo choque, pelo horror, pela violência? Pelo negro?
Porque é que se eu disser coisas bonitas sou lamechas (cheesy em inglês), comum, superficial e portanto tenho que o fazer baixinho, ao ouvido, entre quatro paredes; mas se gritar barbaridades posso fazê-lo num palco, em público, e ainda sou considerada um génio apaixonado e conhecedor do âmago da vida. Será a vida no seu núcleo fatal, negra, solitária e triste?
Já falei disto a imensa gente e todos me dizem ou que não percebo o trabalho dos dois senhores acima mencionados na sua pureza original ou que vivo num mundo paralelo e não conheço as pessoas, nem a vida, nem o mundo. E atiram-me com as minhas coisas (leia-se feitio, maneira de ser/estar na vida – com referência obrigatória às minhas famosas chuvadas para refrescar ideias e noitadas passadas sob céus estrelados para adormecer) e riem-se e rimos e fica tudo bem até a próxima vez em que acontecer alguma coisa que me faça pensar nas Dark Ages novamente.
Mas conheço. Sei o que é ser mau, intriguista, invejoso, egoísta, triste, solitário, deprimido, arrogante, insolente, ambicioso, obsessivo, preguiçoso. Sei o que é ter medo. Sei o que é mascará-lo de prepotência. Sei o que é ter medo e por isso fugir. Sei por experiência própria ou porque me forçaram os outros a saber (“saber” vem do Latim “sapere” – "saborear"). Sei. Mas acho que se cedesse ao negro mercê desses recontros seria uma pessoa menos feliz. Se calhar vivo com uma venda nos olhos ou então, como já me disseram, numa bolha. A bolha do optimismo que contém todas as cores, como num caleidoscópio. Mas sou feliz assim. Claro que não sou feliz todos os dias, a todas as horas, minutos e segundos, também tenho os meus momentos e levo algum tempo a me re-erguer. Naturalmente. Mas não será por isso que vou deixar de acreditar em coisas bonitas e de me esforçar por as encontrar todos os dias nos mais pequenos gestos do quotidiano. Não vou armar de ferro o meu coração e coibir-me de dizer o que sinto com medo de ser mal aceite pelos outros. Não tenho nada contra as tribos urbanas – a não ser o hermetismo subjacente à ideologia – (não esqueço que algumas das pessoas mais interessantes e admiráveis de que tenho a honra de ser amiga deles fazem parte integrante), porém preocupa-me bastante esta invasão das trevas enquanto modo de sentir e viver que não tendo directamente a ver com esses grupos (apesar de eles encontrarem eco e se reverem grandemente nisso), atravessa todos os sectores da sociedade, nomeadamente através da cultura, que no nosso tempo é inevitavelmente de massas. Não gosto, preferia pintar para os meus filhos um mundo diferente, com menos ruído, menos aço e mais cor. Não tão profundamente triste, humanamente seco.
Findas estas reflexões filosóficas, regresso dessa bolha que é o meu mundo (onde tudo tem luz, cor (todas as cores) e o sabor (e todos os sabores) do que mais se quer e se gosta) e olho o branco (soma de todas as cores) no meu outro mundo que é o quarto: observo o tecto, depois as paredes, em seguida o meu armário e logo a minha roupa de Verão. A minha roupa. Porque aqui o Verão é o ano todo. Depois reduzo o escopo para mais perto: o pijama, os lençóis, a colcha. Tudo branco.
Vivo mesmo num mundo à parte.

sexta-feira, setembro 29, 2006

Porque não resisto

o teu rosto à minha espera. o teu rosto
a sorrir para os meus olhos. existe um
trovão de céu sobre a montanha.

as tuas mãos finas e claras. vês-me
sorrir. brisas incendeiam o mundo.
respiro a luz sobre as folhas da olaia.

entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos.
este dia será sempre hoje na memória.

hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas.
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.


José Luís Peixoto, A Casa, A Escuridão

Bordado e Vinho Madeira na SIC Notícias


O Bordado e o Vinho Madeira vão estar em destaque no programa “Imagens de Marca” da SIC Notícias, que tem uma audiência qualificada de gestores e quadros de empresa. A estreia está prevista para amanhã, pelas 12h30, com repetição, no domingo, às 9h30 e às 17h30.

O sector tem registado ultimamente acções significativas, tais como a presença do Bordado no “New York Home Textile Show”.
Considerando a relevância do Bordado Madeira e todas as acções que recentemente estão a ser desenvolvidas pela Secretaria Regional do Ambiente e dos Recursos Naturais, através do Instituto do Vinho, do Bordado e do Artesanato da Madeira, o canal de televisão SIC Notícias, através do seu programa “Imagens de Marca”, produziu, durante as últimas duas semanas, um programa completamente dedicado à Região e aos seus produtos imagem de marca. Assim, amanhã, pelas 12h30, (com repetição no domingo, às 9h30 e às 17h30), irá para o ar este programa especificamente dedicados a produtos de prestígio assumidos por todos como imagem de marca da Região. Neste programa, o bordado Madeira terá um forte destaque, proporcionando uma visibilidade nacional ao projecto de modernização, bem como o Vinho Madeira, outro produto de prestígio que terá presença nesta emissão televisiva.
In Jornal da Madeira, 29.09.06

Outono

Hoje esteve um dia típico de Outono. Choveu de manhã, depois o Sol ainda piscou o olho a umas quantas nuvens, mas... nada, - nuvens ao poder! Esteve um dia cinzentão, um daqueles tão cinzentos, tão cinzentos, tão cinzentos em que é de todo impossível não ficar com a neura... A não ser que se lhe comece a achar piada, como que por milagre (!), e se tenha, claro, milhentas aulas para ir, outros tantos artigos para ler, um paper para escrever, uma conferência para assistir e uma recepção pós-conferência para co-organizar e consequentemente dinamizar (leia-se: socializar).
Principais vantagens de se ter um dia particularmente agitado: imunização a neura, perda drástica de apetite (com as consequencias óbvias para a linha!), muitos sorrisos (alguns de surpresa, outros de admiração - para não variar), comentários (muito, demasiado até!) positivos ao trabalho desenvolvido...
Principais desvantagens de se ter um dia particularmente agitado: dores de costas, dores de cabeça, dores nos olhos, olhos a arder, (auto)tolerância/paciência diminuta, e uma sensação de cansaço tão surreal que não me está a deixar adormecer...
Então vim para aqui e li isto
e revi-me em tantas situações, noutras não de todo, mas senti-me como a imagem que postei acima e pronto veio-me o sono. Foi isso. Não ando a fazer muito sentido. Ultimamente. Mas ando a achar piada ao cinzento dos dias... Continuo sem fazer sentido, acho. Há-de passar. Ou não. Acho que vou dormir. Finalmente.

quarta-feira, setembro 27, 2006

Ódios de estimação (II)

Thierry-Henry
planetfoot.tripod.com

"(...) em dez jogos com o Arsenal o FC Porto neste momento perde nove. A diferença é muito grande e isso viu-se ontem à noite no Emirates Stadium. Henry metia medo sozinho, marcou um golo e deu outro." CM, 2006-o9-27

Já não bastava ser franciú. Não. E bonito. Não. E excelente jogador. Não. Não chega. Não? Não! Há que levar sempre com ele e assistir ao mesmo espectáculo quase invariavelmente: ele a atravessar o nosso caminho e a levar geralmente a sua avante!

GGGGGGGGRRRRRRRRRRRRRHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

terça-feira, setembro 26, 2006

Romance ingénuo de duas linhas paralelas

Duas linhas paralelas
Muito paralelamente
Iam passando entre estrelas
Fazendo o que estava escrito:
Caminhando eternamente
de infinito a infinito

Seguiam-se passo a passo
Exactas e sempre a par
Pois só num ponto do espaço
Que ninguém sabe onde é
Se podiam encontrar
Falar e tomar café.

Mas farta de andar sozinha
Uma delas certo dia
Voltou-se para a outra linha
Sorriu-lhe e disse-lhe assim:
"Deixa lá a geometria
E anda aqui para o pé de mim...!"

Diz a outra: "Nem pensar!
Mas que falta de respeito!
Se quisermos lá chegar
Temos de ir devagarinho
Andando sempre a direito
Cada qual no seu caminho!"

Não se dando por achada
Fica na sua a primeira
E sorrindo amalandrada
Pela calada, sem um grito
Deita a mãozinha matreira
Puxa para si o infinito.

E com ele ali à frente
As duas a murmurar
Olharam-se docemente
E sem fazerem perguntas
Puseram-se a namorar
Seguiram as duas juntas.

Assim nestas poucas linhas
Fica uma estória banal
Com linhas e entrelinhas
E uma moral convergente:
O infinito afinal
Fica aqui ao pé da gente.

José Fanha

segunda-feira, setembro 25, 2006

Wouldn't It Be Nice

* Malásia.Net


by Brian Wilson - Tony Asher

Wouldn't it be nice if we were older
Then we wouldn't have to wait so long
And wouldn't it be nice to live together
In the kind of world where we belong

You know it's gonna make it that much better
When we can say goodnight and stay together

Wouldn't it be nice if we could wake up
In the morning when the day is new
And after having spent the day together
Hold each other close the whole night through

Happy times together we've been spending
I wish that every kiss was never ending
Wouldn't it be nice

Maybe if we think and wish and hope and pray
It might come true
Baby then there wouldn't be a single thing we couldn't do
We could be married
And then we'd be happy
Wouldn't it be nice

You know it seems the more we talk about it
It only makes it worse to live without it
But let's talk about it
Wouldn't it be nice


Beach Boys
* Malásia: "(...) o outro lado do mundo que é dentro de nós mesmos".

domingo, setembro 24, 2006

Em todos os jardins

Orquídeas_Web


Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.

Um dia serei eu o mar e a areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.

Então receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como um beijo.

Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.


Sophia de Mello Breyner Andresen,
(1919 - 2004)
"Poesia I", 1944

sexta-feira, setembro 22, 2006

As singularidades da caixinha mágica

Lcds_google
Lia há pouco um blog daqueles de passagem obrigatória diária*, que por acaso nunca comentei, mas ao post de hoje** não resisti...
A enormidade da semana. Para mim.
Laços que se mantêm à distância anos a fio, vida fora, mantêm-se a cuspo e à primeira adversidade/impossibilidade de escolha desfazem-se em cinza.

Na casa dos meus pais temos TV Cabo, mas só há uma televisão. E por muito que se passe, passemos os quatro, o dia a mudar de canal (é o mal de ter TV Cabo!), à noite, quando eles chegam e somos um, perdão, somos seis (!), vemos todos o programa da RTP1 que eles costumam ver (é o resultado de se viver na Madeira e de até há bem pouco tempo terem acesso a RTP1 apenas!)

Ser uma família é isso mesmo: ceder, respeitar, partilhar momentos e conviver...
Por outro lado, também tenho que admitir que não somos uma família "normal": família "numerosa": seis (apesar de nós os quatro estarmos fora e na Madeira permanecerem somente os pais), quatro universitários de áreas tão diversas como as Humanidades, a Medicina e a Música, com gostos e percursos tão diversos e diferentes do usual que... enfim: uma coisa é certa quando vamos para casa nas férias temos tempo para sair com os amigos, ver os nossos programas de TV, divertirmo-nos e isto sem deixar de estarmos todos juntos às refeições e discutirmos os problemas do dia-dia à mesa e, claro, vermos a "Herança de Verão"!
*
http://sapatospretos.blogspot.com/
**
http://www.negocios.pt/default.asp?SqlPage=Content_Opiniao&CpContentId=282520

quinta-feira, setembro 21, 2006

O Príncipe, o Bruno e o Blog

Bruno_Yahoo

Há dias estava a falar da filmografia do Manoel de Oliveira com as "cinéfilas" do Departamento. Isto porque às sextas feiras temos Cinema no Departamento, dois filmes, um regra geral europeu (de produção independente…) e o outro Americano (mas alternativo, o que neste caso significa bom, não de todo hollywoodesco!...)
Uma é da Hungria e a outra do Alasca e, por muito que goste a arte e admire o cineasta luso, tinha (e tenho ainda) algum pejo em sugerir um filme dele a alguém “verde” em Manoel de Olveira.
(Em Houston, leia-se Net flix e Blosckbusters e afins inclusive – e portanto, a ver pela World Wide Web, nos EUA em geral –, cinema português é Manoel de Oliveira e o resto é paisagem, a boa maneira queiroseana. Para desconsolo meu, apostada que estava em maravilhar a plateia com o “Coisa ruim” do Tiago Guedes!...
- Pois… mas se calhar é melhor não, porque… porque… bem, porque… porque a arte dele não é gratuita e a maior parte das pessoas não se rende, não fica presa à primeira, vai-se deixando prender… aprende a gostar!... – acabei por dizer. Mas fiquei com um vazio apertado no peito. E uma vontade de fugir dali o mais rápido possível para pensar.
A maior parte das pessoas aprende a gostar. Aprende-se a gostar? Ou gosta-se (ou não) e pronto!? Fiquei a matutar nisto quando, após termos deixado a discussao em banho-maria, decidimos ir cada uma à nossa vidinha. Fui para o gabinete. Petrifiquei. Ante o computador e a enormidade proferida. Será que aprender a gostar (em todas as acepções e a todos os níveis) é gostar de facto, em profundidade, com paixão e loucura do que quer que seja? Ou é aquela coexistência pacífica, fria e sensabor, que costumamos imputar a relacionamentos com dezenas de anos de existência?
Se fosse generativista dividia já esse 'Gostar' em Gostar nº1 e Gostar nº2. É muito fácil assim. Então, o Gostar nº1 é apolíneo, claro, simples, racional(izável) e portanto “aprendível”; o Gostar nº2 é aquele voluptuoso, físico, que nos vira do avesso e deixa a vida completamente ao contrário, gera o caos e por isso a maior parte das vezes é doloroso, certamente não “aprendível”! There you are! Simples, não é?
Não. Todos sabemos que não. Eu sei que não. E, além do mais, sou cognitivista. O cérebro é que tem a resposta. Esta e muitas outras. O cérebro é o futuro. E apesar de estar a ser estudado por cérebros idênticos – o que atrasa inevitavelmente o estudo!* – tem-se mostrado absolutamente revelador da maneira como encaramos o mundo, conceptualizamos a realidade, enfim: pensamos, agimos e vivemos. Então Gostar só há um, trata-se de um sentimento/uma emoção apenas. Uma. Só. Enorme, abstracta, congregadora de muitas conjunturas, contingências e detalhes, de grande e pequena monta, que determinam a intensidade dessa emoção e subsequentemente, a denominação da mesma: ‘amor’, ‘amizade’, ‘afeição’, ‘ódio’, ‘desprezo’, ‘nojo’… É tudo uma e a mesma coisa. Tudo um gostar. Acho.

Ontem descobri por acaso o blog do Bruno Nogueira.
O Bruno Nogueira é aquele miúdo altíssimo e magrinho que, quando apresentava o Curto Circuito, entupia as linhas telefónicas, tal era a legião de fãs, melosas, divertidas, histéricas aos berros (só falava ouvir-se arrancarem os cabelos, algumas). Aquele miúdo que faz stand-up e, invariavelmente, seja quando diz umas piadolas, seja quando ouve uma declaração de amor em directo ou um elogio profissional, está sempre muito sério, estranhamente, surpreendentemente, assustadoramente sério… Aquele miúdo… o Melman do Madagáscar, o Bin-Laden das Manobras… o… o… Aquele miúdo que apresentava O Pior Condutor de Sempre, aquele programa em que, dizem, se fartava de gozar com o interlocutor, fosse quem fosse, velho ou novo, rapaz ou rapariga… Aquele miúdo que, dizem, é um fedelho, arrogante e malcriado, com a mania do vedetismo.Aquele miúdo que, dizem, anda não sei com quem… Aquele miúdo que, dizem, … Aquele miúdo que, dizem, …
Aquele miúdo que me fazia lembrar o Príncipe. O cabelo, as sapatilhas, a t-shirt cor de laranja, o relógio. Era igualzinho. Então, foram as semelhanças ao Príncipe – um dia destes conto-vos a história do Príncipe – que me levaram, há uns anitos já, até ao Bruno, quais asinhas nos pés de Mercúrio. Daí até a suprema inteligência e a acutilância subjacente às piadas me conquistarem foi um ápice. Instantâneo. Natural. Como toda a Arte deve ser. Como toda a Arte é. Genial!
Nunca ninguém, à excepção do meu irmão – genuíno apreciador do BOM humor que se vai fazendo em Portugal, me deu crédito por gostar do Bruno Nogueira. Por causa do Príncipe. E eu a desdobrar-me em explicações e a fazê-los entender que o Príncipe estava guardado, engomadinho e bem dobrado, numa das gavetinhas do inconsciente do Contador Antropomórfico de Dali que todos temos, e que o Bruno não era de todo substituto emocional do Príncipe, nem sequer placebo para alguma réstia de maleita “cardíaca”. Mas nem assim.
Nunca ninguém, à excepção do meu irmão – genuíno apreciador do BOM humor que se vai fazendo em Portugal, me deu crédito por gostar do Bruno Nogueira. Por causa do Bruno. E eu a esgrimir argumentos que nunca mais acabavam, numa clara tentativa de converter toda a gente ao “culto”, porque as pessoas tímidas passam muitas vezes por convencidas, saber de uma vida de experiência feito, e o génio... o génio é universal e objectivamente verificável e comprovável. Mas não, não chegava. Não era o bastante. Tímido não seria. Génio talvez. Arrogante, sem dúvida.
Ontem descobri-lhe o blog. Por acaso. Sem querer. Num dos habituais périplos por todas as estações e apeadeiros cibernéticos de amigos, conhecidos, desconhecidos, amigos de amigos, amigos de conhecidos e de desconhecidos. Já era tarde. Já era muito tarde. O corpo pedia descanso e os olhos embaciavam-se de tanto arderem. Já era tarde e não consegui parar de o ler. Li-o todo. Um ano e tal de posts.
Podem atirar-me com a curiosidade insaciável do voyeur, com a gula incontrolável do obeso, com a sede do desidratado, com a ânsia desmesurada que o povinho pequenino do nosso país, ainda mais pequenino, tem em querer saber a vidinha dos famosos, as festas, os flirts, os podres, o que se lhes passa na cabeça, se têm alguma coisa na cabeça… Podem, se calhar até foi isso, ou a soma de tudo isso, no início… depois foi aquela sensação de calor lânguido que apazigua o espírito e dá descanso ao corpo. A sensação que as certezas dão à mente, à alma da gente. A certeza de gostar de uma grande pessoa. Uma pessoa com valor. E valores.
O Bruno Nogueira é aquele miúdo que..., do alto dos seus 194 cms, está a crescer. Pessoal e profissionalmente. De uma forma muito bonita.
(Reflexo imediatamente após a leitura: enviar a todos o link para o blog do Bruno. Vão passar a gostar? Vão aprender a gostar? Vão gostar? Não sei. Não me interessa. Afinal, ‘gostar’ e ‘não gostar’ é uma e a mesma coisa.)

quarta-feira, setembro 20, 2006

A Linguística no dia-a-dia

"Se durar o suficiente, qualquer discussão acaba na semântica."

Lei da retórica de Hartzin
A Lei de Murphy, vol. III

terça-feira, setembro 19, 2006

"Ahoy, me hearty!"

Cap'n Slappy (left) and Ol' Chumbucket (right)
International Talk Like a Pirate Day is a parodic holiday invented in 1995 by two Americans, John Baur ("Ol' Chum Bucket") and Mark Summers ("Cap'n Slappy"), who proclaimed September 19 each year as the day when everyone in the world should talk like pirates. For example, instead of "hello", an observer of this holiday would greet his mates with "Ahoy, me hearty!"
The date was selected because it is the birthday of Summers' ex-wife and would consequently be easy for him to remember.
Americanices!...
Mais na Wikipedia.

segunda-feira, setembro 18, 2006

As Vindimas


Este fim-de-semana fez-se a Vindima na minha casa. E isso trouxe-me à memória muitas e boas recordações da minha infância e da Madeira. Muitas e boas, as melhores talvez …
Começávamos na tarde de sexta-feira, quando os meus pais chegavam dos respectivos empregos e a animação, a azáfama e a alegria duravam até o início da tarde de Domingo, altura em que se provava o mosto e se deixava as uvas a prensar um pouco mais no Lagar… Um fim-de-semana inteirinho com o melhor que a vida rural tem (e isto a cinco minutos do Funchal, maravilhas de se viver numa ilha!…).
Vivi desde sempre com os meus avós e em vida destes, ou melhor, em vida do meu avô, colhíamos as uvas tanto do terreno onde fica a nossa casa, como do outro terreno, onde fica a casa do meu tio. A mim nunca me pareceu que tivéssemos muitas uvas, coisa pouca, meia dúzia de latadinhas - segundo o meu avô, mas o facto é que depois de enchermos a três pipas da nossa adega - para consumo interno como é típico de qualquer actividade económica de subsistência -, sempre vendíamos vinho e em proporções se não maiores, idênticas.
Na Madeira as uvas são cultivadas em latadas. Não faço ideia de onde poderá ter surgido o termo, nem tão pouco consigo estabelecer qualquer analogia com “lata”. O que acontece efectivamente é que a vinha é cultivada (e cresce) não a partir do solo mas estendendo-se ao longo de uns varões que se colocam normalmente abaixo do nível do telhado numa espécie de alpendre, pelo que além do cheiro doce com que brinda quem quer que saia à porta, a vinha a todos se oferece em sombra e frescura.
Na Madeira também, o tipo de uva cultivada diverge substancialmente da do continente. Assim sendo, nas quatro latadas da minha casa cultivamos três tipos: uva americana, canim e jaqué. (Tenho algumas dúvidas em termos ortográficos, no que se refere à última. Perdoem-me os entendidos.) A uva americana é bastante conhecida: de bago grado, miolo claro, é muito doce. Já se me perguntarem a diferença entre o canim e o jaqué, além do sabor, mais ácido num, mais doce noutro; e da configuração exterior, cacho de bagos que rareiam num, mas que abundam quase tornando uno o outro - pouco mais lhes sei dizer. Aliás, nem tenho bem a certeza quais os atributos que pertencem a qual. E isto porque, na minha casa, as Vindimas não eram para mulheres ou crianças.
Na verdade, nos tempos do meu avô, mulheres e crianças, se quisessem ajudar, juntavam bagos. Os bagos que os cavalheiros ao podarem (é esse o termo, lembrei-me!) a vinha, porventura, deixavam cair. Ou melhor, os cachos é que, de tão maduros, não conseguiam conter os respectivos bagos … Então as senhoras e a prole estavam sempre por ali, mas para essa tarefa menor e sensabor. Para isso, para se desdobrarem nas últimas ofertas de uns poucos cachinhos a alguma vizinha mais próxima e para a degustação do mosto no Domingo. (Outra coisa absolutamente prescindível para mim por ser demasiado doce para o meu paladar.) As crianças podiam ainda pisar as uvas. Acho que era o ponto alto do fim-de-semana para o meu irmão e para as minhas irmãs. Não para mim. Enfim… E lá andavam, felizes e contentes, a apanhar os bagos do chão. Mas eu, eu não. Apanhar bagos não era definitivamente comigo: além de me dar cabo dos joelhos e das costas, não tinha piada nenhuma! Então certa vez, às escondidas do meu avô (claro!), agarrei nuns três baldes (até aqui nenhum problema), “desviei” um podão (i.é. instrumento com que se cortam os cachos de uvas) e comecei a podar feito gente grande (do sexo masculino) numa latada mais afastada das restantes, no terreno do meu tio. Não me lembro que idade tinha, mas tenho a certeza de que já andaria na escola primária. Escusado será dizer que em três tempos fui descoberta, até porque estavam a faltar baldes aos senhores. Mas nessa altura também já tinha mais de metade da vinha podada e portanto… não havia muito a fazer. Mais, veio o meu avô ver em que estado tinha eu deixado a vinha e a manta** e o poio** (**“manta” e “poio” são regionalismos que designam os socalcos onde são cultivadas as bananeiras na Madeira, não confundir com alguma palavra homónima frequente no continente de significado pouco elevado nomeadamente para o segundo termo). E eu a ouvir aqueles passos pesados a aproximarem-se, eu a engolir em seco, podão na mão, eu a ver aquele homem enorme a avançar para mim com cara de poucos amigos - era assim o meu avô (mais só por fora, coração mais terno impossível!) … e eu a ganhar o respeito do meu avô! Assim. Pela transgressão que toda a ousadia contém.
“E não é que a rapariga fez um bom trabalho, muito melhor que alguns dos meus trabalhadores!” - disse a toda a gente, e toda a gente, admirada, concordou. Depois, claro, destacou-me para outra e outra latada, com os senhores. E todos os anos foi assim.
Note-se que a minha contribuição ficava-se mesmo por aí, já que, ao contrário dos meus irmãos, tudo o que tivesse a ver com pisar uvas e provar mosto não era para mim. Mas o meu avô achava que o que eu fazia, fazia-o bem e isso era o bastante. Além do que, muita gente num lagar só da confusão!
Lembro-me que no início altura não tínhamos um lagar, pelo que era necessário deslocarmo-nos a casa de um vizinho para a pisa e repisa. Mas a minha mãe, apologista da autosuficiência como eu (ou eu como ela), logo resolveu a questão ao mandar construir um lagar bem no fim do nosso quintal, antes da horta e da adega. Não é que o vizinho alguma vez se queixasse de algum transtorno, mas foi definitivamente melhor assim. A festa tornava-se completamente nossa! Nessas alturas, ficava da parte de fora a observá-los, divertidos, dentro do lagar, sujos de mosto, pegajosos do açúcar, mas incansáveis. Todos. Miúdos e graúdos.

Um dos meus grandes projectos de vida nasceu aquando deste episódio.
Um dia hei-de ter uma quinta no Douro!



domingo, setembro 17, 2006

Ódios de estimação (FRANCESES: GGRRHHH!)

Imagem.Net
Um dos meus principais ÓDIOS de estimação é aquela idiossincracia tão tipicamente francesa que faz com que de cada vez que um deles - "franciús de gema" bem entendido - fala em PORTUGAL (referindo-se a algo ou alguém) não lhes saia nada de jeito - saber de seis meses de experiencia feito ...
Desta feita, até trataram bem o português-escritor (Pudera: um Nobel, outro "étoile montante", não havia como destratar!... ), embora o mesmo não se possa dizer da portuguesa-cultura (tadinha: "indiferente e ignorante"!!!) ...
Ver melhor aqui:

sábado, setembro 16, 2006

Da interface Fonologia/Semântica*



Estava uma lula no meio da auto-estrada, quando de repente passa um pargo** a acelerar imenso. Este quando vê a lula abranda e pára.
Diz a lula assustada:
- Tás pargo ou quê?
Responde-lhe o pargo:
- Calula!


*Brincadeiras com sons
** peixe


Eheheheheh

sexta-feira, setembro 15, 2006

A anedota do dia

Dizem que, nos seus primeiros dias de vida, Adão chegou junto de Deus e perguntou:
- Senhor, o que é uma dor de cabeça?
E Ele respondeu:
- Dá-me uma costela tua e eu mostro-te!


Ehehehehehehehe....

Os meus sinceros agradecimentos ao Moisés por ter contado esta anedota à minha irmã e esta ma ter contado. It made my day!...

Desfazer a mala

Foto.net
Ir de férias é uma ideia muito feliz. Sejam férias grandes, pequenas ou assim-assim, o que importa é poder ir.
Embora a partida esteja sempre associada a alguns gestos que só repetimos nestas ocasiões, há um verdadeiramente simbólico: fazer as malas. O momento em que abrimos uma mala vazia e começamos a enchê-la de roupa, acessórios e objectos pessoais é fantástico.
Entre aquilo que sabemos que queremos levar e aquilo que apenas nos ocorre quando abrimos gavetas e armários, multiplicam-se as possibilidades de escolha. Levar mais do que precisamos é um clássico eterno. Pôr as malas no chão e sentarmo-nos vigorosamente em cima delas até conseguirmos fechá-las, apesar de estarem a abarrotar de roupa, é outro filme muito conhecido. A tentação de levar coisas a mais é universal, aliás. Não conheço ninguém imune a este vício. E, no entanto, todos reconhecemos as vantagens de um certo despojamento.
Neste sentido, a partida para férias e o gesto de fazer as malas, escolhendo o que vai e o que fica, também podem ser usados como boleia para outra viagem: a do despojamento interior. Aproveitar este tempo de descanso para olhar para nós e ver o que trazemos connosco parece oportuno e, até, razoavelmente evidente, mas a realidade prova muitas vezes o contrário. Ir ao fundo das gavetas mais fundas, escancarar todos os armários e desfazer esta espécie de mala interior, que carregamos todos os dias, pode revelar-se um exercício delicado e exaustivo, mas profundamente catártico. Isto, claro, se o conseguirmos fazer sem defesas nem poses.
O medo de desfazer e voltar a fazer a nossa mala interior tem a ver com a quantidade de coisas que temos cá dentro. São tantas, tão variadas e tão caóticas, que é difícil perceber por onde começar. Andamos quase sempre sobrecarregados de coisas (muitas delas muito contraditórias); e, por isso mesmo, é importante tomar consciência daquilo que trazemos connosco. Como? Olhando com olhos de ver, não nos julgando e assumindo que não há nenhum canto de armário ou fundo de gaveta que sejam intocáveis. Ou seja, resistindo à tentação de esconder isto ou aquilo com o argumento de que “isto não porque já é muito antigo e aquilo também não porque vem defamília”. E quem diz estes argumentos, diz outros parecidos com estes, que servem apenas para distorcer o olhar perante a nossa realidade mais íntima e profunda.
Alguém disse que toda a viagem começa em casa, no momento em que nos dispomos a partir. No momento em que fazemos as malas, talvez.
Também a viagem interior começa no momento em que abrimos a mala. Não para a fazer mas para a desfazer. Para ver o que temos guardado e o que precisamos de deitar fora.
Criar esta predisposição para o despojamento passa por querer muito arrumar a casa interior, por assim dizer, e por identificar aquilo que mais organiza ou desorganiza a nossa vida. Como só é possível ordenar a vida se ordenarmos primeiro os afectos, importa perceber que os problemas, os tesouros e as riquezas estão menos nas ideias e mais nos sentimentos. O coração é sempre mais importante que a razão, portanto.
O caos que temos cá dentro tem a ver com impulsos, desejos, inquietações, dúvidas, amores e desamores, que precisam de ser interpretados e organizados. Despojar a razão e o coração é, por tudo isto, uma atitude exigente, mas extraordinariamente regeneradora. Revela abertura de espírito e mostra que estamos sempre a tempo de renascer. De certa forma, põe-nos a “zeros” com a vida e isso é muito bom. Seja à partida ou à chegada de férias.

LAURINDA ALVES (in Correio do Vouga)

quinta-feira, setembro 14, 2006

Maus pensamentos...


Porque a insegurança ataca de mansinho e sem aviso prévio...
Será que alguém conhece boas pessoas no meio académico (em geral e muito especialmente em Portugal)?
Será que alguém conhece, boas pessoas, verdadeiramente humanas, no meio académico (em geral e muito especialmente em Portugal)?
Será que alguém conhece boas pessoas, verdadeiramente humanas, com vida própria no meio académico (em geral e muito especialmente em Portugal)?
Será que alguém conhece boas pessoas, verdadeiramente humanas, com vida própria, livres de espírito e pensamento no meio académico (em geral e muito especialmente em Portugal)?
Será que alguém conhece boas pessoas, verdadeiramente humanas, com vida própria, livres de espírito e pensamento, solidárias no meio académico (em geral e muito especialmente em Portugal)?
Será que alguém conhece boas pessoas, verdadeiramente humanas, com vida própria, livres de espírito e pensamento, solidárias e REALMENTE felizes no meio académico (em geral e muito especialmente em Portugal)?



Estamos a falar de Professores, bem entendido, que é aquilo que eu quero ser e em nome do que estou a sacrificar mais do que devia...

HELP ME!!!

quarta-feira, setembro 13, 2006

Cantar Maio é preciso ...


Canção com Lágrimas e Sol

Para Adriano Correia de Oliveira


Eu canto para ti um mês de giestas
Um mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti um mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem em dera em Lisboa
Quem me dera em Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol Lisboa com lágrimas
Lisboa a tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera...

Manuel Alegre"Praça da Canção", 1965

terça-feira, setembro 12, 2006

Confissões


O que restará de tudo isto? Rolados séculos e milénios sobre as coisas de aspecto imperecível, o que fica da vaga dos tempos e das fúrias dos ventos? Modos e modas, escolas, estilos, épocas, tudo roda e se muda. Muitas imagens e factos do passado, sabem a absurdo ou ridículo. O jovem sorri da sua imagem em criança. Todos os passados têm um sabor a afecto e repulsa, porque nenhum tempo regressa à realidade no seu tom certo. O sépia dos anos cria luzes e neblinas de tal forma que nada é repetível na sua realidade perfeita. A que vem tudo isto? A este tempo e a todos os tempos que rodam e deixam rastos, caminhos abertos de luz com o seu aspecto de evidência e obscuridade. A face real e simbólica de todas as coisas como que se revolve no nosso jogo quotidiano de referência ao todo, no espaço e temporalidade que nos cabe viver. Felizes as gerações que se revêem em espelhos e modelos, com protótipos que mereçam registo de memória e impulso para acreditar no passado e no futuro. Por isso as sendas luminosas que nos precedem de sábios, artistas, místicos e profetas, nos abrem caminhos para o que temos a criar e percorrer. Como poderia a humanidade sobreviver sem essas referências nos campo do pensamento, da ciência, do belo, e nessa arte indescritível de se relançar no imperecível, infinito e eterno que dá sentido a todo o transitório e efémero? S. Agostinho, ainda no início do cristianismo soube expressar quase todas as perguntas que há no coração do ser humano, dando consistência e sentido à edificação do tempo e do templo que constitui cada ser humano. É bom, numa época de aspecto fútil e imediatista, repousar o coração onde o convertido de Tagaste encontrou repouso: “Tarde Vos amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde Vos amei! Vós estáveis dentro de mim, mas eu estava fora, e fora de mim vos procurava… Estáveis comigo e eu não estava convosco. Retinha-me longe de Vós aquilo que não existiria se não existisse em Vós… Tocastes-me e agora desejo ardentemente a vossa paz”. (Das Confissões de S. Agostinho, Lib. 7)
ANTÓNIO REGO (in Ecclesia)

domingo, setembro 10, 2006

Da admirável capacidade de fazer falar uma pedra

Há pessoas assim. Tantas, e no entanto tão poucas, com o dom da comunicação instantânea, verdadeira, interessante.
Há pessoas assim. Como eu, que me considero uma rocha geralmente intransponível em termos de sociabilidade.
Ainda não percebi como, nem sequer porquê, mas o facto é que, socialmente, não há timidez que resista a determinadas pessoas. Normalmente não são bonitas, nem feias, gordas ou magras, pretas, brancas, azuis ou amarelas, são pessoas, apenas. Mas com elas algo de mágico acontece: os assuntos fluem, as barreiras anulam-se, as horas, os minutos e os segundos passam e tudo é agradável, faz bem, faz sentido.
Comigo, que me considero tímida e me furto vezes sem conta ao social – ao contrário do que apregoa (quase) toda a gente que me conhece, isto acontece muitas vezes. Muitas. Mesmo. E se em algumas situações isso já me trouxe alguns dissabores (Porque é que quando se fala três horas seguidas com uma pessoa do sexo oposto, manda a sociedade – o ou a mente do interlocutor, nomeadamente se for do sexo masculino, – que haja obrigatoriamente um interesse emocional por detrás da curiosidade que alimenta a conversa? Comigo pelo menos é o contrário: quanto mais interesse, menos assunto/conversa!). Na maior parte das vezes fazem-se amizades, ou pelo menos conhecimentos que, além de humanamente enriquecedores, costumam perdurar algum tempo, se não vida fora.
Considero que, actualmente (e sinto isso muitíssimo em Portugal!), conversar está fora de moda. Não há tempo. Nem vontade, nem interesse, nem paciência. Para acolhermos o outro no nosso cantinho, para lhe perguntarmos acerca do seu mundo, para fazermos pontes de conhecimentos no dia-a-dia. No dia-a-dia. No quotidiano. Durante o dia. Ao longo do dia. Sem deixarmos de fazer o nosso trabalho com eficiência e profissionalismo e cumprirmos as nossas obrigações com o brio que todos devemos cultivar. Obviamente. Tenho muito enraízada a ideia de que, nomeadamente em Portugal, alguém só fica na disposição para conversar com outra pessoa, devidamente seleccionada de acordo com padrões estéticos mais ou menos estandardizados, à sexta-feira à noite… E convenhamos, seja porque se passou a semana toda enclausurado a trabalhar, seja porque não se tem mesmo interesse em conhecer ninguém profundamente, essas conversas, na maior parte das vezes, deixam muito a desejar …
Parece que ninguém quer sair da bolha que criou, até porque isso além de incómodo, seria uma ousadia, olhada de soslaio por alguns, reprovada por muitos, e (claro!) para ousar temos de ser, nem que seja um bocadinho, loucos. (Ninguém quer ser tido como louco nos dias que correm, por isso é que ninguém anda descalço ou à chuva, ninguém sobe às árvores, dá uns quantos berros quando lhe apetece ou faz o pino!) Isso significaria revelar-se ao outro e deixar a nu todo um leque de falhas, defeitos e inseguranças que aparentemente não temos se não as mostrarmos.
Pergunto-me muitas vezes acerca do futuro de uma sociedade assim, um futuro que, para o bem e para o mal, é nosso. E os augúrios não são muito auspiciosos.
Nos EUA, há uma obsessão que domina as pessoas: toda a gente quer ser rica. E então, trabalha-se muitíssimo. (Quem me dera que se passasse o mesmo em Portugal!) Não obstante, as pessoas já se aperceberam que precisam do convívio e então, pelo menos no contexto da Academia, por da cá aquela palha temos pique-niques e churrascos e festas e … E as pessoas conversam. Mesmo. É possível que seja cultural também. Efectivamente, não há americano que resista a estar ao lado de quem quer que seja, onde quer que seja, sem fazer small-talk. Começa pelo tempo, depois passa para os estudos, depois para o local de origem, desporto, viagens, política, livros, filmes, religião… é uma torrente!
No início estranhei, confesso. Mas agora dou por mim a fazer small-talk onde quer que seja também e a desejar que chegue o churrasco deste mês (é sexta!) para falar com aquela pessoa que encontrei no outro dia, que era conterrânea do Gabriel García-Marquez e tinha imensa coisa para contar acerca do quotidiano dos rebeldes na Colômbia.
Também não me posso esquecer dos meus colegas de casa (qual é a designação correcta para uma pessoa que partilha a casa connosco?), um em especial, que espera por mim, às vezes até às onze, in his words “só para me dar as boas noites”, sabendo perfeitamente que havemos de ficar a conversar até muito para lá da meia-noite sobre a Universidade, o dia, estes dias, nós, os outros, opções, trabalhos e sonhos.
Se calhar, ainda há esperança…
Obrigada M.!


"Autopsicografia"

Ana.Marta

quinta-feira, setembro 07, 2006

Sentimentos do fundo da mala (II)

Da Escolha
“Não gosto de escolher, perde-se sempre alguma coisa com a escolha.” – ouvi há dias. Nunca tinha pensado assim. Mas agora, vendo a coisa por esse prisma, choca-me a profundidade do desabafo.
Fazemos tantas escolhas todos os dias, umas grandes outras mais pequenas, todas significativas… e perdemos sempre algo, muito, pouco, não sei, nunca pensei, mas privamo-nos voluntariamente, consciente ou inconscientemente, em nome de um mal, que cremos, menor. Não há volta a dar-lhe, o facto é mesmo esse: perdemos.
Dizem-me desde sempre que sou incrivelmente inflexível, e essa será porventura a razão por que nunca, até presente, me tinha apercebido da inevitabilidade da perda inerente à escolha. Essa será porventura também a razão por que não mudo. Cheguei há precisamente duas semanas e claro que ainda não tive a oportunidade de estar com todas as pessoas que queria, mas uma coisa é unânime entre os meus amigos, saindo-lhes mesmo antes do “Olá!”, como se a estupefacção atropelasse a polidez na ponta da língua: “Estás igualzinha, incrível, não mudaste nada!” E então replico, mutatis mutandis, os argumentos que já tinha esgrimido quando regressei de Paris: “Estavam à espera de quê? Até parece que não me conhecem? Não achavam que vinha de texanas, chapéu, estrelinha e colete?” E abraçamo-nos, rimos e passamos logo à fase seguinte, a actualização das últimas “do país e do mundo”, vulgo intensivas sessões de cusquice e porventura até de alguma maledicência. Essa será possivelmente também a razão por que tenho dois (melhores) Amigos e uma lista infindável de colegas e conhecidos que a convenção oral, as máximas conversacionais e a implicatura discursiva tornaram “amigos”. Essa será porventura a razão por que a generalidade das pessoas ou me adora, ou me detesta. Essa será porventura a razão por que sou de extremos em quase tudo.

Inflexibilidade? Inflexibilidade.
(O que os meus amigos não sabem é a quantidade de situações (leia-se "apuros") de que o cultivo da dita - Inflexibilidade -, felizmente, já me retirou e nem sequer calculam o quanto me custa ser inflexível, tantas vezes, em certas e determinadas situações, quando é muito mais cómodo e até porventura benéfico para mim no imediato não o ser.)
Há quem lhe chame Coerência, Princípios, Constância, Valores, Personalidade, até Medo!... Os meus amigos ficam-se pela Inflexibilidade. Dizem que me assenta bem. (!?)
No entanto, dadas as circunstâncias, e apesar da Inflexibilidade que, admito, me caracterizará, considero absolutamente impossível ter escapado a alguma mudança, o que quer dizer que, à excepção de um, até agora, os meus amigos são muito pouco observadores. As maiores e mais importantes mudanças não se vêem a olho nu, operam-se no interior de nós mesmos.
Eu própria não sei ainda bem o quê, mas alguma coisa mudou… e bastante.
O "amigo observador" acha que nos meus olhos há um brilho diferente...
Porto, 8 de Junho de 2006

quarta-feira, setembro 06, 2006

Drowsiness

Ofelia.Dali

Ele e Ela


- Então e há quanto tempo és vegetariana? – atira Ele.
Ela não sabe se o que Ele diz, diz sorrindo, se sorri dizendo... Mas diz muito e sorri ainda mais. Ela de saber o muito, já não sabe nada. E não sabendo nada, sabe que o muito é demasiado, tanto de não o ser.
- …
Ela tenta ganhar tempo.
As compatibilidades, os gostos e os interesses sucedem-se a uma velocidade vertiginosa, a cumplicidade cresce exactamente ao mesmo tempo e na mesma proporção que os sorrisos, os olhares e até a conversa… que definitivamente está a ficar por demais perigosa. Para Ele. Para Ela. Para todos.
Daí que, num gesto universalmente infantil, desajeitado e por isso quase terno, Ela indicou “Quatro!” Gestualmente. Não porque estivesse de boca cheia – apesar de o estar – mas porque era imperativo furtar-se à comunicação. Por Ele. Por Ela. Por todos.
Já lhe bastara o embaraço de ter passado o serão todo a arrumar livros com Ele, sob a supervisão da namorada, de lhe saber a vida toda, sob a supervisão da namorada, o serão todo a tentar responder ao que Ele perguntava da forma mais sobranceira possível, sob a supervisão da namorada, o serão todo a tentar conter-se perante as piadas, os risos e as gargalhadas que Ele soltava de cada vez que um deles dizia “Really, me too!”, sob a supervisão da namorada, o serão todo a tentar fugir-lhe do caminho e do toque, sob a supervisão da namorada, o serão todo a dizer de si para si que as coincidências entre os dois não são milagres, apenas partidas que o destino prega para testar os incautos.
Doi-lhe a cabeça, os olhos e os maxilares de tanto cerrar os dentes. Fervem-lhe as maçãs do rosto de tanto o tentar tornar sério… Há umas boas sete horas que se encontra nesse limbo e teme que o momento em que vai inevitavelmente soçobrar ao cansaço esteja próximo, até porque a luta consigo própria tinha sido árdua e não cessara nem por um momento. Ela reza para o tempo passar rápido e o regresso a casa estar por minutos… Até lá, para se enganar a si e ao tempo, e para evitar maiores embaraços, o melhor que consegue é ir ocasionalmente desviando o olhar sob um falso pretexto de um interesse absolutamente científico na observação do ambiente envolvente, até então invariavelmente irresistível para Ela, e, observando, dissecar a atmosfera do Ihop às duas da manhã.
Na verdade, estava perante um ambiente humano absolutamente inesperado, surpreendente até! A um canto, três casais árabes, jovens, faziam-se notar porque discutiam, em tom mais elevado que o normal, se uma das raparigas do grupo estaria ou não drogada; à direita, três pré-adolescentes afro-americanos jantavam calmamente; Ela percebeu de imediato que nessa mesa a média de idade não rondaria mais que os catorze anos e essa constatação sobressaltou-a um pouco; olhou mais em frente, na direcção do único casal americano que estava na sala, e novo baque, mas curiosamente pelas razões opostas, deveriam ter sessenta e muitos anos…
Ela volta-se para o seu prato, vegetariano como o d' Ele, para a comida que Ele está a acabar e que Ela não consegue engolir. Olha em frente, para a namorada, que lhe parece, lhe pareceu o serão todo, pela primeira vez desde que a conhece, insegura. A namorada que considera genial, encantadora, simples e única, a namorada que é uma das pessoas mais interessantes que Ela conhece, que tem habitualmente uma alegria contagiante e sempre um coração do tamanho do mundo, tão grande e tão bom que abrange tudo… A namorada que hoje está diferente.
- Mas comes peixe, certo? – perguntou-lhe o T.
Finalmente alguém que não o dito lhe fazia uma pergunta. Agradeceu a Deus e ao mundo aquela brecha em que pode finalmente desviar o olhar d’Ele sem ter que passar os olhos pela sala, pela enésima vez.
- Nop. No fish at all, for a long time now.
- Eu também não. – disse Ele franzindo o sobrolho num trejeito divertido.
- Ai não? – inquiriu, impondo-se, a namorada.
- Ok, às vezes… - anuiu embraçado, mas logo se volta para Ela e conclui:
- Portanto, és uma vegetariana inclinada para o vegan. – disse Ele com um olhar interessado e exigente, aquele olhar típico de quem está à espera da explicação detalhada das razões da opção.
- Sim. – disse Ela ao mesmo tempo que tenta, em vão, acompanhar a resposta lacónica com um sorriso que pretendia compensatoriamente sincero. (...)
Ela voltou à comida, pensando para consigo: Se não tivesses namorada e eu não tivesse escrúpulos…

segunda-feira, setembro 04, 2006

Anecdotic!


What Your Bathroom Habits Say About You


"You are a giving soul. Way too giving in fact. You often get stuck doing the dirty work that no one else will do.

You spend a lot on clothes, and you tend to be a very dresser. However, it's hard for you to throw away trendy clothes when they go out of style.

You are a little shy and easily embarrassed. You often wonder if you are normal.

In relationships, you tend to take care of your needs first. You can only be with someone who's as independent as you are."

domingo, setembro 03, 2006

O derby cá do sítio








Rice University vs. University of Houston.
Foi ontem. Francamente ainda não percebi a piada. Mas enfim... os americanos divertem-se. E eu também... a observar!

sexta-feira, setembro 01, 2006

De dar a volta à cabeça

ter.*
ter.* de [vr*]
ter.* que [vr*]
ter.* que [vk*]
ter.* [vk*]
haver.* que [vr*]

e muito, muito especialmente

haver.*
haver.* [vk*]
haver.* que [vk*]
haver.* de [vr*]

Alguém me ajuda?

Pérolas...

MAN= 'featherless biped'

Aristotle, Organon