quinta-feira, junho 28, 2007

Foi há oito dias.

Há oito dias, precisamente oito, percebi. Na última quinta. De aulas. De estadia. De Bélgica.
As pessoas são estranhas. A mais estranha de todas: eu. Obviamente.
As pessoas passam a vida a trabalhar, matam-se, literalmente, matam-se a fazê-lo. Não olham para trás, não olham para os lados, e até o olhar para a frente é um olhar cego. Demasiado cheio de nadas, grandes e pequenos, demasiado vazio do que é realmente importante.
As pessoas granjeiam reconhecimento, sobem na carreira, quase até ao topo, têm salários razoáveis, coleccionam relações, ganham uma família pelo meio, e um dia acordam. E acham que que a vida não pode ser apenas o que vivem e que os outros são prova disso.
As pessoas traçam então estratégias para, vivendo a sua vidinha, viverem em pleno. Desdobram-se. E os sorrisos chovem, e as fotografias multiplicam-se e as fãs, meu Deus, as fãs surgem de cada canto - as estratégias funcionam.
As pessoas querem tudo. Tudo de tudo. Todo o reconhecimento possível - trabalham para isso, todas as vidas possíveis, todas as fãs possíveis - e sobretudo a impossível.
As pessoas devem ver televisão e acham que o Impossible is nothing do anúncio é para valer. Se tudo fosse possível, não havia a palavra impossível. Os impossíveis existem. Fazem parte da vida, que é só uma: a que cada um escolhe, consciente ou inconscientemente, directa ou indirectamente, activa ou passivamente, para si.
As pessoas não vêem. Olhar cego, já disse. As pessoas não vêem, não ouvem, não entendem, não querem olhar o suficiente, ouvir o suficiente, falar o suficiente para perceberem o que lhes é dito. Confundem simpatia com interesse, cordialidade com disponibilidade, alegria com entusiasmo, genuinidade com exotismo...
As pessoas insistem no depois. No regresso a casa. Quando tudo já parece ter sido há milhentos anos-luz, num outro planeta, numa outra vida. A diferença é que agora a fala dá lugar à escrita - manda a distância que assim seja - e a escrita é clara, quase seca de tão impositiva: não é permitido olhar para o lado, repetir o pedido, servir-se da língua estrangeira para dizer que se não percebeu. E as pessoas percebem finalmente que o Impossível é real, concreto, e sobretudo definido. Existe. Mesmo.
Há oito dias envelheci bastante. E não foi por ter trocado a minha bela noite de descanso pelos copos que não bebi, as músicas que não dancei, as figuras - mais ou menos tristes, dependendo do sujeito em questão - que não fiz.
Foi só porque percebi que há pessoas que levam vidas muito vazias e não têm qualquer tipo de pudor em (tentar) arrastar os outros para esse remoinho.
Sei que não acontece só a mim, mas lá que há um padrão, há. Começa a haver. Very over the top.

7 comentários:

Anabela disse...

Jo,

ainda estou à procura de palavras para te comentar...

Concordo com as tuas ilações.
Todas.

Cada vez mais... o abandono colectivo.
Será isto a viscosidade miserável, a alienação, a completa a ausência de essência, à partida e à chegada, de viver, sentir, ser?

Não deixar que... os sentidos nos iludam?

Afinal, o que é o Impossível?
O que delimita a Possibilidade?

(já reparei nesse padrão que falas... costumo dizer-lhe: "get a life, pah...")

Como é possível que penses nisto, Jo? lolol

Anónimo disse...

viva. sempre que posso venho aqui refrescar-me na tua lucidez. da minha perspectiva, a vida ensinou-me que ninguém provoca sofrimento se não estiver a sofrer. não o faz conscientemente... e a vida parece vazia. falta-lhe amor-próprio. nenhuma vida é vazia. algumas estão cheias de amor. outras estão cheias de medos. luz :)

Joana disse...

Anabela,

Como é possível que me comentes tão bem?! :P

Também concordo com todas as tuas ilações. E penso (muito, porventura demasiado) nisto, especialmente quando estou cansada (de pensar noutras coisas, de carácter profissional). Eheheheheeh!


Jinhos.

Maria de Lourdes Beja disse...

Joana:é mesmo!Faz oito dias agora!Outros,não esses a que se refere.Como esta vida,esta que temos para viver,pode ter tantas metamorfoses! Estou aqui a recordar alegrias e noutro meridiano está a Joana ainda a olhar perplexa para a "lagarta" que lhe tarda a virar borboleta...Minha querida,a sua vida vai ter as mais lindas borboletas do planeta.Tem uns irmãos lindos,tem bons amigos,e o resto tarda,mas aparece sempre a quem luta com uma força como a sua.Deus sabe dos seus talentos e vai ajudá-la a fazê-los render.E eu aqui à espera para ver... Bjs.SAUDADES !

Anónimo disse...
Este comentário foi removido por um gestor do blogue.
Oásis disse...

Existem pessoas que tentam levar os outros para essa vida vazia, tentando convencê-los que a vida é assim mesmo... Às vezes fico confusa. Reflicto então, para que a lucidez e o despreendimento imperem. Mas às vezes fico confusa.
E este teu post aplica-se a todos os aspectos das nossas vidas...

Jinhos

Joana disse...

Orquídea,

Eu também, eu também (fico confusa). Nao muitas vezes, mas quando acontece... fico sumamente (confusa), bem... como o post ilustra.

Uma vez mais, as duas em sintonia. ;)

Jinhos.